DANÇA DOS GUIZOS E DAS ESPADAS I
Quando o Jornal de Garvão, em Agosto de 1996, noticiou o conhecimento que algumas pessoas da terra com idades aproximadas aos oitenta e cinco anos por essa altura, tinham de um tipo de dança, empregando guizos, cascavéis e espadas, que se realizava tanto em Garvão como nas aldeias e vilas do interior alentejano, não se imaginava que de facto esse tipo de dança estivesse tão enraizado e popularizado na tradição popular portuguesa com estava.
Chegando até nós unicamente o conhecimento da “Dança das voltas”, “Dança dos Arquinhos” e a “Dança das Fitas” ou “do Mastro”, realizada nesta parte do Alentejo e em várias populações até aos anos sessenta do século passado, tendo a Associação de Defesa do Património de Garvão as recuperado trinta anos depois.
O guizo, comummente designado por cascavel, na documentação dos séculos XVI e XVII, de utilidade pastorícia e pecuária em geral, aparece-nos, nestas manifestações lúdicas, associado à folia e ao divertimento, estando nessa época intrinsecamente associados à festa e à dança.
A bibliografia e a iconografia estudada, maioritariamente dos mencionados séculos, revelam frequentemente conjuntos de guizos rodeando as pernas e os pulsos de bailarinos, mas também a mostra apensos ao vestuário e aos chapéus de foliões, como atributo de bobos e chocarreiros de Corte, ou ainda na decoração de flâmulas que esvoaçam ao vento. A subtileza das expressões faciais e delicados gestos de mãos, aliados a rápidos movimentos de pernas e pés, ao som de guizos presos aos tornozelos, são alguns dos aspectos que caracterizam esta dança.
Esta pequena esfera metálica, de aparência modesta e rústica, aparece em inúmeras situações festivas de todos os géneros e níveis sociais, podendo em certos casos ascender à dignidade de ser fabricada em ouro ou prata. Os guizos são eles próprios instrumento musical ou parte dele, referidos nos tratados por conceituados autores.
A referência mais interessante que se encontra, prende-se com a menção, tanto à dança das espadas como aos chocalhos e “bozinas”, por Luís de Camões em pleno século XVI:
“Mas em breves palavras direi a Vossas Mercês a suma da obra: ela é toda de rir, do cabo até a ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzelas que vão fugidas de casa de seus pais, e vão com cabazes apanhar azeitona; e trás elas vêm logo oito mundanos, metidos em um covão, cantando: Quem os amores tem em Sintra; i despois de cantarem farão ua dança de espadas, cousa muito pera ver. Entra mais El-Rei D. Sancho, bailando os machatins, e entra logo Caterina Real com uns poucos de parvos nua joeira; e semeá-los-à pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o auto, com música de chocalho e bozinas, que Cupido vem dar a ua alfèoleira a quem quer bem; e ir-se-ão Vossas Mercês cada um pera suas pousadas, ou consoarão cá connosco disso que aí houver.”
Sobre a “dança de espadas”, Camões dá-nos pormenores interessantes, nomeadamente, indica-nos o número de dançarinos; oito homens.
Nada nos indica, contudo, sobre se era acompanhada por algum instrumento musical ou se era cantada pelos próprios dançarinos.
Deduz-se igualmente que embora tanto a “Dança das Espadas” como a “Dança dos Guizos” esteja associado às danças guerreiras em várias culturas da Europa, (já Tácito a menciona em “De Germania” no primeiro século desta era), não deixava contudo de ser exibida noutros cenários menos cerimoniosos, religiosos e ritualistas até, e mais como função de divertimento.
Já António Maria Mourinho no seu “Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas”, menciona a ancestralidade destas danças no contexto peninsular, acrescentando que, “As danças de Espadas e de paus (paulitos), são geralmente executadas por homens, tendo a própria igreja permitindo-as nas suas solenidades”.
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