quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

50 ANOS do 25 de ABRIL e 30 ANOS do JORNAL de GARVÃO

             O 25 de Abril, foi há 50 anos. Foi um dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade.

            A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.

            O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e injustas, e as permissões irrelevantes e insignificantes, dava lugar a uma nova realidade. No país onde era proibido pensar - e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença - passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem de Maio de 68.

            Já lá vão 50 anos. Assinalar o aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é, ainda, um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê.

            Para celebrar, mas, também, para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Jornal de Garvão, decidiu lançar, no ano em que celebra 30 anos, uma edição especial.

          A importância social de um jornal local, como fonte primária de informação, deve ser considerado como um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento e divulgação.            

          Assim, este Jornal tem vindo a despertar a produção, a criatividade, o senso crítico e a participação direta dos participantes, desenvolvendo variados tipos de aptidão, além de transmitir, informações vocacionadas para a divulgação de histórias do quotidiano das comunidades locais e a recolha, tratamento e divulgação de notícias, institucionais e educativas a toda a comunidade e desenvolver habilidades de leitura, estimular a escrita e a criatividade e promover o diálogo e o debate.

          Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, uma vez que registam informações de âmbito local e mesmo regional, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz e assumem um papel decisivo num mundo onde a globalização está cada vez mais instalada.

      Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

Calisto - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL











CALISTO JOAQUIM

O caso do Bandido, do Café Crocodilo e… da prisão!

     Viva o Bandido, exclamou Calisto Joaquim, de sua graça, quando entrou no Café Crocodilo e depara-se perante um discurso de Salazar na televisão que entoava em toda a sala.

     Viva o Bandido, tornou a exclamar e tudo ficou mudo e calado, conhecedores das consequências de qualquer manifestação antagónica ao regime.

     Uns calados, incrédulos perante tal inconsciência, outros espantados perante tal foiteza, e ainda  para outros, tal atrevimento iria trazer represálias.

     Era dia de pagamento da jorna e era certo que Calisto Joaquim “molharia o bico” senão em todas as tabernas, vendas e cafés da vila, pelo menos naquelas que apresentavam a agora novidade da televisão e, pelo menos enquanto os tostões tilintassem nas algibeiras.

     Bom bebedor, não deixava de beber o seu copinho em a parca economia caseira o permitir, e nem deixava por mãos alheias a sua contestação ao regime, não fosse ele afinal sobrinho de Francisco Parreira, da família dos Gusmão, preso pela PIDE, (ver página 11).

     Quentinho ou com um grão-na-asa, rumou a altas horas a casa, podia varrer a rua de lado a lado, esquivando-se a algum buraco ou barreira que lhe estorvasse o passo, a casa sabia ele onde era e no outro dia estaria pronto e fresco para mais uma jornada de trabalho.

     Conforme as lembranças de Augusto Charrua, 91 anos de idade, (já mencionado neste Jornal), (…) dias depois, estávamos nós muito bem a apanhar seixos, para o arranjo das estradas, quando vemos aproximar um carro preto vir direito a nós, hó diabo, pensamos nós, o que é que estes quererão? saem de lá uns tipos, vestidos também de preto, todos sisudos e  perguntam com voz alta, qual de vocês é que é o Calisto Joaquim?

     Sou eu, respondeu prontamente o voluntarioso e ingénuo aprendiz de opositor político e sem nada desconfiar, aproximou-se dos senhores do carro preto.

     Anda connosco, entra para dentro do carro, não se apresentaram, nem disseram os bons dias e muito menos se despediram, mas quem assistiu sentiu pelo tom autoritário da voz com que se lhes dirigiram que o Calisto estava em maus lençóis. De Beja levaram-no para o Aljube e do Aljube para Caxias e de Caxias sabe-se lá para aonde, o certo é que de cada vez que o mudavam, mais interrogatórios se sucediam e mais torturas sofria no seu já massacrado corpo. 

     Foi amassado, mas bem amassado, segundo relatou aos colegas, depois de vários dias preso, podiam-no ter judiado, berrado e humilhado, mas de nada valeu, pois Calisto Joaquim não sabia de nada, não sabia cá de células da oposição comunista, prospetos revolucionários ou reuniões secretas, (se calhar até sabia!), só sentia na pele a carestia da vida e as agruras de uma vida de trabalho de Sol a Sol, sem horas para entrar ou horas para sair, ainda o Sol não tinha nascido e já estava a trabalhar e a trabalhar continuava já o Sol se tinha posto, até ser dada ordem para pararem.

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