segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ZECA AFONSO


Zeca Afonso

          Faleceu em 23 de Fevereiro de 1987, trinta anos depois nunca é demais lembrar um dos mais influentes e interpretes da música popular portuguesa e de intervenção politica durante a ditadura Salazarista e Marcelista que veio a cair em 25 de Abril de 1974.
          A sua música "Grandola Vila Morena" está intimamente associada ao movimento que depôs o regime ditaturial ao ser escolhida pelos militares, como senha, para inicio da rebelião depois de passar na Rádio Renascença.
           Zeca Afonso recriou temas folclóricos e até infantis, reescrevendo formas tradicionais como a "Canção de Embalar", evocando mesmo, neste retomar das mais puras raízes culturais portuguesas, o ambiente lírico dos cancioneiros primitivos (cf. "Cantiga do Monte"), ao mesmo tempo que introduziu no texto temas resultantes de um compromisso histórico, denunciando situações de miséria social e moral (os meninos pobres, a fome no Alentejo, a ausência de liberdade) e cimentando a crença numa utopia concentrada no anseio de "Um novo dia" ("Menino do Bairro Negro").
          Reagindo contra a inutilidade de "cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music-hall de exportação", partiu da convicção de que "Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja atualização poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair." ("Notas" de José Afonso in Cantares, p. 82).
          Apesar de galardoado por três vezes consecutivas (1969, 1970 e 1971) com um prémio oficial, a sua produção viria a ser banida dos meios de comunicação, dado o seu conteúdo indesejável para o regime; por essa mesma ordem de razões - talvez mais do que pela inovação musical -, a sua popularidade viria a crescer após a reimplantação da democracia.

domingo, 27 de novembro de 2016

RICOS E POBRES NO ALENTEJO



RICOS E POBRES NO ALENTEJO
De José Cutileiro


          Quarenta anos depois da primeira publicação em português do livro de José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo, este livro, produto de um exaustivo trabalho de campo, continua a ser uma obra de leitura obrigatória e uma referência nos meios académicos, particularmente nas áreas da antropologia e da etnografia.
          O livro descreve a vida de uma freguesia rural alentejana, em meados dos anos sessenta do século XX, e é leitura indispensável para quem queira conhecer o Portugal rural do Sul. Além disso, como em aspectos capitais da sua vida e da reflexão que faziam sobre ela os camponeses alentejanos não diferiam dos seus compatriotas do resto do país, o livro continua a ser uma excelente introdução à chamada 'identidade portuguesa’.
          Monografia antropológica, o livro estuda a distribuição da terra, as classes sociais que dela resultavam e as relações entre estas, a estrutura administrativa e política, família, parentesco, compadrios, amizades e vizinhança, as crenças e os valores morais que davam Norte às pessoas. Publicada pela Oxford University Press, em 1971, sob o título A Portuguese Rural Society, a obra veio a ser traduzida e editada seis anos mais tarde (1977) em Portugal, com um posfácio do autor.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ACUSA-SE

ACUSA-SE
Torna-se a alertar.
Torna-se a avisar.
Torna-se a lamentar.
Torna-se a acusar os nossos autarcas, tanto da Junta de Freguesia de Garvão, como da Camara Municipal de Ourique, de propositadamente estarem a destruir o património arqueológico, cultural e histórico da vila de Garvão.
Torna-se a apelar às instâncias superiores, àquelas que deviam garantir a protecção destes sítios arqueológicos.
E, nada é feito, nem se assiste ao mais leve movimento para parar a destruição deste património.
Mas que fique registado, em que houve tempos que alguém se preocupou, que denunciou, que batalhou para a protecção da nossa herança histórica, que tem alertado os nossos autarcas, que tem avisado as instâncias superiores, que tem alertado os meios de comunicação.
Que fique registado, também, que nessa cruzada pela protecção do nosso património, quem teve o atrevimento de levantar a voz na denúncia dessa situação se viu exposto à devassa, numa impressionante manifestação de ignorante histeria colectiva.
O que se pede hoje não é um exaustivo processo de exploração arqueológica, (apesar disso ser o objectivo), mas meramente a sua salvaguarda actual de qualquer destruição, até que haja melhores condições para a sua efectiva exploração, estudo, divulgação e factor de desenvolvimento local.
Destruição essa que se assiste presentemente, pelo desmazelo, pela incúria pela continuada prática de usos e preceitos que promovem de facto a destruição desse património pelos nossos autarcas.
Assim, mais uma vez, se denuncia e acusa os autarcas locais de serem os responsáveis pela destruição do património arqueológico e cultural da vila de Garvão.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Alentejo prometido"

"Alentejo prometido"



de: Henrique Raposo

          O autor de "Alentejo Prometido" gerou uma forte polémica, com epicentro nas redes sociais, ao dar uma imagem do Alentejo que muitos consideram ser desadequada.

          Diz quem o ataca no Facebook e nas caixas de comentários de blogues, jornais e revistas que Alentejo Prometido, de Henrique Raposo, faz um retrato completamente desajustado do Alentejo e de quem lá vive, um retrato que nada tem a ver com a realidade e que peca pela generalização, partindo daquilo que é, segundo o autor, a história da sua família.
          Porque têm os alentejanos medo da verdade?
          Onde está o Alentejo da tolerância?
          Terá sido José Cutileiro autor do livro "Ricos e Pobres no Alentejo" um escritor maldito?

          (…) Além de ter sofrido com a ausência do pai, Joaquina sofreu com o esmero alcoólatra do marido. Manel era alto, bonito, bêbado e imprestável. Dos Foros do Sobralinho até São Domingos eram duas horas a pé por três caminhos alternativos: Corgo Fundo, Aldraba, Vale Dioguinho. Fosse qual fosse o caminho, o cenário era sempre o mesmo: a minha avó levava um filho pela mão, outro ao colo e ainda equilibrava um cesto na cabeça; ele ia atrás leve como uma pena. Protótipo do pai biológico, Manel nem sequer tocava na prole. A minha mãe lembra-se do dia em que recebeu o primeiro e último carinho do pai: por mero caso afagou-lhe o rosto enquanto vestia uma saia nova. Manel tinha ainda o hábito de levar lá para casa os camaradas da taberna que comiam a comida reservada para a minha mãe e tios. Este hábito até atingiu um pico cinematográfico: certo dia, acolheu um maltês que havia fugido da prisão. A tardinha, o homem chegou ao monte e entrou de imediato na galhofa com Manel, que deu ordens à mulher, 'mata uma galinha para o jantar. Mordendo a boca de raiva, Joaquina lá fez o jantar com a preciosa galinha enquanto Manel aprendia a atirar com o revólver do bandido, sem nunca se aperceber do medo estampado no rosto dos filhos. O maltês manjou a galinha com o revólver pousado na mesa, dormiu no casão, acordou, comeu outro manjar raro ao pequeno-almoço (ovos e linguiça frita), saiu e foi roubar um rebanho de ovelhas numa herdade vizinha. Era assim a vida com o avô Manei. O meu outro avô, apesar de nunca ter propiciado estes momentos de thriller, também não era santo. Havia dias em que forçava a avó Diamantina a levar-lhe a comida à venda; passava dias fora de casa, de baile em baile, um hábito que se manteve já na velhice. Ia com o meu pai, mãe, tios e tias aos bailes nos Foros da Casa Nova, Bicos ou Fornalhas. A avó ficava em casa comigo e com os meus primos e nem considerava a situação como uma humilhação.
          Ao ouvir estas histórias de irresponsabilidade e violência dos meus avôs e demais homens alentejanos, lembrei-me das histórias das ONGs que trabalham hoje em dia em Africa. Melinda Gates, por exemplo, tem uma regra de ouro: o dinheiro da ajuda internacional deve ser dado às mães e não aos pais; dar dinheiro aos homens é o mesmo que dar dinheiro à taberna, à sala de jogo, ao bordel; dar dinheiro às mulheres significa apostar na alimentação, saúde e educação das crianças. O Alentejo dos meus avôs era assim. Não os censuro, mais uma vez. Naquele contexto, eu teria sido o maior pândego. No entanto, se não os censuro, também não posso evitar uma óbvia aritmética sentimental quer no lado materno quer do lado paterno, devo tudo às minhas avós. Posso respeitar os avôs, mas só posso acarinhar as avós. Devemos-lhes tudo. Basta olhar para os factos. Em meados do século XX, a taxa de mortalidade infantil de Portugal era a mais alta da Europa. Em 1960, ainda era de 83 bebés mortos em 1000. Nem a Roménia era pior. O que tem isto de relevante? As minhas duas avós tiveram dezasseis partos e nenhum bebé ficou para trás, todos sobreviveram. Não foi milagre ou sorte. Houve, isso sim, um esmero maternal que tinha o seu quê de revolucionário. No seu clássico antropológico do início do século XX, Através dos Campos, Silva Picão afirmou que, apesar do infanticídio directo já não ser frequente, ainda se praticava infanticídio indirecto no Alentejo. Os casais pobres com quatro ou mais filhos rezavam para que Deus levasse dois ou três; nem sequer se preocupavam em alimentá-los ou acudi-los na doença; os moços andavam semi-nus pelos campos com as próprias mães a apelidá-los de "filhos da curta"; eram criados como crias de uma ninhada e só ganhavam o respeito dos pais quando começavam a trabalhar aos sete anos. Esta educação darwinista, digamos assim, começou a ser contestada pela geração das minhas avós, que faziam trinta por uma linha para, por exemplo, comprarem cabras para que não faltasse leite aos bebés e crianças. A história um dia fará justiça a esta geração de mulheres que criou o conceito de criança entre o fim da roda dos expostos (final século XIX) e o advento da pílula. E o que é mais espantoso é que elas iniciaram esta revolução mental contra a miséria, contra os elementos e, sobretudo, contra a cultura marialva dos maridos. (…)

          (…)Talvez o Alentejo se tome respirável quando a geração do David, qual Ulisses, reconstruir a identidade sulista. Mas por enquanto sinto demasiadas arestas o ar desconfiado das pessoas, a distância gerada pela excessiva formalidade, os tabus sobre o passado, a falta de bairrismo, a ausência de liberdade e privacidade, o individualismo radical, a frieza emocional que nunca fala com as mãos e, acima de tudo, a cultura suicida. Quero as minhas filhas afastadas do sussurro melífluo que, à porta do velório do suicida, diz o seguinte 'foi a escolha dele, temos de respeitar". Não, não temos de respeitar. Até porque o que está em cima da mesa não é só a visão naturalista do suicídio da grande maioria da população. A par desse ângulo amoral, digamos assim, existe uma espécie de vanguarda que romantiza a figura do suicida. Em jantares de família é frequente ouvirmos os mais velhos a glorificar pessoas que se suicidaram; nem a presença de crianças à mesa bloqueia frases como 'atão não se havera de matar' ou "matou-se, foi homem corajoso'. Não quero as minhas filhas no perímetro deste discurso. (…)

          A batalha instalada, com muitos comentários insultuosos e artigos de opinião a defenderem, em nome da liberdade de expressão, o direito do autor a escrever o que escreveu, parece estar para durar. As críticas, que têm subido de tom na Internet e que levaram já a uma petição contra a venda do livro, que conta com mais de 2.200 assinaturas, condicionaram a sua apresentação pública, que viu dia e local alterados. No lançamento, reagendado para dia 8, terça-feira, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza, em Lisboa, estarão agentes da PSP. A presença policial, que segundo o Diário de Notícias será discreta, deve-se às ameaças anónimas que Henrique Raposo começou a receber depois de ter falado sobre o livro num programa da SIC Radical – Irritações, conduzido por Pedro Boucherie Mendes –, e de o capítulo dedicado ao suicídio ter sido pré-publicado pelo jornal online Observador.


domingo, 25 de setembro de 2016

INFELIZMENTE

INFELIZMENTE ...!


Já lá vão 22 anos que o Jornal de Garvão denunciava nesse seu primeiro número a degradação e a falta de protecção do Património de Garvão, mas principalmente a falta de sensibilidade dos eleitos locais para, de facto, a sua recuperação e rentabilização em termos de locais visitáveis e criação de postos de emprego.
Mas sejamos realistas, a história, a arqueologia e o património em geral não resolvem todos os problemas da vila, mas poderão, à sua maneira, contribuir para colmatar certas mazelas que afligem estas comunidades de fraca ou nenhuma visibilidade.
A criação de um, dois, ou três postos de trabalho irá, sem dúvida, contribuir para um crescimento sustentado da vila de Garvão.
É preciso é uma ideia, um sentido, um projecto de desenvolvimento local e, … não há.
O que se assiste é o aproveitamento mediático pelos responsáveis políticos locais dum património que devia de estar num museu local para o desenvolvimento da própria vila, como o caso das cerâmicas do Deposito Votivo de Garvão, e está na cave do Cineteatro em Ourique.
Não se assiste á dinamização desse espólio para a criação de postos de trabalho na vila de Garvão.
Não se assiste a uma continuação da pesquisa arqueológica nesse mesmo Depósito Votivo.
Pelo contrário assiste-se à degradação, á incúria e ao desmazelo.
E isto é sintomático com o resto do património em geral.
O Cerro do Castelo tem sido charruado, o acesso terraplanado e cabras têm derrubado o que resta dos muros protectores.
Agora temos cabras junto ao conjunto Cemitério Velho/Igreja do Espírito Santo/Ossário, não tarda muito que as próprias paredes do Cemitério Velho comecem a ficar degradadas e a desborralhar com o pisoteio e o peso das próprias cabras e o próprio cemitério convertido num curral como já em tempos o foi.


JORNAL DE GARVÃO Nº 0


GARVÃO, RIQUEZA ARQUEOLÓGICA POR DESVENDAR
Garvão, na sua área geográfica, tem, sem dúvida, uma enorme riqueza arqueológica a desvendar. Na área da sua actual freguesia ou na área do extinto Concelho de Garvão, a abundância de vestígios e ruínas é reconhecidamente notória, e só a falta de verbas, não tem permitido a continuação das pesquisas até agora efectuadas.
Nunca foi feito um apanhado geral dos vestígios existentes e visíveis à superfície, e posteriormente desenvolver esse trabalho no terreno por meio de um programa de pesquisa e exploração, desenvolvendo assim uma actividade de valorização da própria vila de que a população se orgulharia e apoiaria, permitindo assim um afluxo superior de visitantes e turistas que incrementaria, sem sombras de dúvidas, a economia da região.
O que tem sido feito até agora tem sido um trabalho de catalogação e salvaguarda daquilo que por um motivo ou por outro urge salvar de momento, postos a descoberto geralmente por máquinas efectuando trabalhos de terraplanagem ou abertura de valas, partindo e destruindo enormes quantidades de riquezas históricas e arquelógicas, que nunca mais serão aproveitadas, com enorme prejuízo, não só material mas também de investigação para o melhor entendimento daquilo que é a nossa herança histórica.


DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO “DESCOBERTO” POR MÁQUINA DA CÂMARA
É o caso nomeadamente do DEPÓSITO SEGUNDÁRIO DO SANTUÁRIO DE GARVÃO da II idade do ferro, ou mais correntemente chamado depósito votivo de Garvão, o qual teve de ser urgentemente “socorrido” pelos serviços de arqueologia oficiais, depois de uma máquina escavadora, quando procedia à abertura de uma vala para o saneamento básico na vila, ter posto a descoberto uma enorme quantidade de telharia e cacos fora do que é normal se encontrar naquela zona, apesar desta mesma zona ser fértil em ossadas e vestígios cerâmicos, telhas e outros cacos, inclusivé terra sigilata. Alertados os serviços oficiais de arqueologia, de imediato procederam ao seu estudo e exploração pondo a descoberto um importante depósito de oferendas a qualquer divindade, estando ainda por descobrir o santuário propriamente dito.


POTES, HABITAÇÕES E ESTELAS FUNERÁRIAS “TERRAPLANADAS”
É o caso também, daquilo que chamamos de conjunto do cemitério velho, árabe/medieval, o qual requereu a intervenção de Arqueólogos a título de urgência devido a uma máquina da Câmara ter posto a descoberto vestígios de habitações e enormes potes de cerâmica já parcialmente destruídos pela dita máquina, mais ou menos à frente da igreja matriz de Garvão.
Junto ao cemitério velho, na parte exterior, também a dita máquina pôs a descoberto algumas estelas funerárias que se presumem medievais, presentemente em exposição, entre outras peças, na Sede da Associação Cultural e Defesa do Património. Algumas dessas estelas foram recolhidas que procedia aos trabalhos em curso. Outras foram recolhidas por elementos da dita Associação numa visita ao local.


OS VESTÍGIOS ROMANOS DOS FRANCISCOS “MUDAM” ESTRADA
Também nos Franciscos, propriedade do Arzil, local de enorme concentração de ruínas romanas, que Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, pondo a descoberto restos de paredes numa área bastante extensa tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade dita romana, forçando assim a que a dita estrada viesse a ser construída noutro local.
Nas ditas escavações foi posto a descoberto também enorme quantidade de cerâmica o que não é de estranhar pois esta encontra-se em grandes quantidades na dita propriedade, assim como ainda vestígios de muros romanos que estão sujeitos ao seu desaparecimento motivado pelas modernas práticas cerealíferas. De notar ainda que desta propriedade e desta mesma zona foi trazida enorme quantidade de pedras para encher os caboucos do prédio situado entre o Largo da Palmeira e o Largo da Amoreira, que nessa altura estava em construção, nas quais se encontrava uma pedra que os pedreiros, achando diferente e com umas letras gravadas, a pouparam, tratando-se de uma ESTELA ROMANA de enorme importância que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram, encontrando-se a estela em exposição na dita sede da Associação Cultural e Defesa do Património.


TORNA-SE URGENTE...
Constata-se assim que todos os trabalhos arqueológicos desenvolvidos em Garvão são de carácter urgente e de emergência devido ou a obras projectadas em locais de reconhecido interesse, ou porque alguma máquina pôs a descoberto, partindo e perdendo-se uma boa parte do espólio que justifica, sendo Garvão local de reconhecido interesse arqueológico, um levantamento geral dos seus vestígios que se torna urgente salvaguardar e evitar futuras destruições, como as acima mencionadas.


 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

IRMANDADE do SAGRADO ESPÍRITO SANTO

IRMANDADE DO SAGRADO ESPÍRITO SANTO

E DA

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE GARVÃO


          Na vila de Garvão existe conhecimento da existência da Misericórdia, contudo a Santa Casa da Misericórdia da vila de Garvão edificou-se por cima de uma Confraria muito mais antiga, a Irmandade do Sagrado Espírito Santo, daquelas que surgiram no mundo Cristão a partir do século XII ou XIII.
          Durante um certo tempo existiram pacificamente ao lado uma da outra, até que a Misericórdia, investida de protecção régia, foi-se apropriando dos bens da Confraria. Quando da extinção, no século XIX, da Misericórdia de Garvão, só a lembrança desta chegou aos nossos dias, com um total desconhecimento da população sobre a existência da Irmandade do Sagrado Espirito Santo.
          Assim, a assistência aos necessitados e aos mais desfavorecidos tem uma tradição muito antiga em Garvão que remonta muito antes da instituição das Misericórdias pela Rainha D. Leonor em Lisboa a 15 de Agosto 1498.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo era uma Confraria muito antiga, de que não sabemos a data da fundação, tinha Igreja; a Igreja do Sagrado Espirito Santo, o hospital, e era a detentora de todas as terras e propriedades que passaram posteriormente para a Misericórdia.
          Apesar de não se saber a data precisa da fundação da Misericórdia de Garvão, existem referências à Santa Casa da Misericórdia de Garvão já no século XVI, a sua extinção deu-se no século XIX, depois da Revolução liberal e o seu património foi disperso, chegando-nos contudo um livro com a data mais antiga de 1609 que servia para “copiar todas as Provisões, Alvarás, Documentos, Escrituras da Misericórdia e do Sagrado Espirito Santo”.
          Nesse livro, que apesar de não ser a história da Irmandade ou da Misericórdia da vila de Garvão, contribui de forma significativa para o seu conhecimento e para a sua história. Aqui relata os nomes de uma boa parte da população, dos Provedores, Secretários, Tesoureiros e mais Irmãos da Santa Casa da Misericórdia como Manoel Lopes Gamitto, André Malveiro, lança, Mestre, Guerreiro, Raposo, Martins, entre muitos outros.
          Tomamos conhecimento que várias propriedades em torno de Garvão eram da Irmandade do Sagrado Espirito Santo, e passou posteriormente para a Santa Casa da Misericórdia de Garvão, nomeadamente o Arzil, (propriedade de considerável dimensão, a maior e a mais rica da actual freguesia), assim como oMau Passo e outras já desaparecidas de que se perdeu a localização como a horta das Maçans ou o Pego do Limão, a Vinha Velha, Mesa das Oliveiras, Moinho do Morgado ou do Madeira, Farrejal da Coroa, terras da Xarneca, cerca do Fidalgo, cerca ao pego D’andorde, entre outras.
          Também à referência a proprietários, o nome de Dom Miguel Maldonado e Dom Sebastião Maldonado surgem como detentores de grande extensões de terras que chegavam inclusivamente aos arrabaldes da vila, á rua Nova. Outras terras, dentro da freguesia, eram da Capela da Coroa e da Capela do Anal, outras terras eram do Concelho desta vila, também a Comenda da vila de Garvão surge nesse livro como detentora de várias propriedades.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo e posteriormente a Santa Casa da Misericórdia de Garvão eram detentoras de outras herdades fora da actual freguesia como a Quinta do alto em Cazevél, Vinha dos Bacorinhos em Santa Luzia, um Farrejal no Vale de Santiago, e as Herdades de Domingos d‘Egua, do Monte Alto da Corte Pego, da Fauza, da Alcaria da Serra, do Verdelho e da Galharda todas na Freguesia de São Martinho das Amoreiras.
          Surge referências também a outras Herdades, como o “Pixouto”, “Val de Inxares”, “Carvalheira” etc., assim como Manoel Guerreiro Gadelha, morador no Monte Zuzarte, que tem a particularidade de “Gadelha” ser um nome judeu.
          A passagem dos bens da Irmandade para a Misericórdia, ao que parece e ainda segundo o mencionado livro, não foi pacífica, pois surgem em várias páginas petições do Provedor e mais Irmãos da Santa Casa da Misericórdia para que lhe sejam entregues os bens da Irmandade.
          Em 17 de Dezembro de 1733 surge uma provisão, baseada numa petição da Misericórdia, no qual em nome de EL Rei Dom João, mandam entregar á Misericórdia os bens da Irmandade, “Hei por bem fazer mercey aos suplicantes Provedor e mais Irmãos da Mizericórdia da Villa de Garvão, a ... pose de cobrarem os sobejos, e as rendas do Hospital da dita Vila de Garvão”, baseado em “... hum livro velho que servio ndita Caza numerado, e rubricado por Roque Cortês de Freites Juiz da Ordem que foi na mesma Comarca ...”, “...tudo se declara no Alvará de vinte e um de Fevereiro do ano de mil e seis Centos e nove, que se acha registado nos livros da mesma Caza da Mizericórdia ...” No qual: “... Pelo que mando ...aos ditos Provedores, e Irmaos cobrar e despender os sobejos das dittas rendas ... sem embargo de qualquer, Porvizão ou regimento ... pasado pela Xanselaria da ordem. // Luis Penedo a fez em Lisboa a vinte e hum de Fevereiro de mil e seis Centos, e nove anos, e Eu Jorge Coelho de Andrade a fiz escrever // REY . . . .. . . . // Garvão vinte e quatro de Janeiro de mil e sete Centos trinta e quatro, sobre dito o escrevi e asignei / / O Padre Duarte Barradas, ~ ~ ~ ~ //.
          Contudo ao que parece os Irmãos da Irmandade não entregaram á Misericórdia os bens, nem em 1609 nem em 1733, pois em 5 de Dezembro de 1765 surge outra provisão em nome de El-Rei Dom José na qual volta a dar posse à Misericórdia dos bens da Irmandade: “...fora eu servido ordenar ao Juiz da Ordem da Comarca os metece de pose de cobrar os dittos sobejos e rendimentos que ouve...” ”...El Rei nosso Senhor o mandou pelos Doutores Manoel Ferreyra Lima e Sebastião Mendes de Carvalho deputadoda menza da Consciencia e Ordens. AgostiNho Joze da Costta a fez em Lisboa a sinco de Dezembro de milsette Centtos e sesenta e sinco annos, Vicente Gomes de Araujo e Souza a fes escrever ... por despacho da Menza da Conciencia e ordens de Outto de Outubro de mil settecenttos e sesenta e sinco...”.
          Porém, continua a haver divergências pois surge uma recusa em entregar os livros conforme se constata no enxerto seguinte, assim como tomamos conhecimento que celebrava-se duas festas do Espirito Santo. “...socedia que o Juis da Ordem da ditta Comarca Diogo Couseiro de Abreu na vezita que fizera na mesma villa em Dezembro de mil e sette Centos e sessenta e tres aprezentandolhe o Mordomo do ditto Hospital os livros da Reseita e despeza que na ditta Caza haviaõ lhos naõ quizera restituir entregando as ao Prior para governar a referida confraria fazendo suspender as obras que a Irmandade da ditta Caza trazia em reparos da Igreja com o fundamento de axar por satisfazer a duas festas do Espirito Santo, e da obrigaçaõ do ditto Hospital...”
          Os bens da Irmandade acabaram por ser praticamente usurpados pela Misericórdia, que animada de protecção régia acabou por extinguir as Irmandades e Confrarias, movimentos laicos que está precisamente na origem das Misericórdias.
          Afirmar que foi a Rainha D. Leonor que fundou as Misericórdias em Lisboa em 1498 é desprezar todo o movimento misericordioso desenvolvido pelas comunidades e populações que muitas vezes sem conhecimento régio ou do clero, pegaram nas suas parcas possibilidades e desenvolveram esquemas de protecção dos mais desfavorecidos, enfermos, pobres, órfãos etc. O que parece, é que, com a instituição das Misericórdias, ouve um aproveitamento régio e do clero no sentido de usurpar ou controlar alguma riqueza que as Irmandades administravam e vinham acariando há já dois ou três séculos. O que eventualmente acabaram por conseguir, pois o seu dinamismo era animado pelo poder Real e contavam com a protecção e incentivo dos restantes poderes instituídos.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo, a partir do momento que perdeu os bens, deixou de ter receitas para fazer face ás despesas, inclusivamente para as obras na Igreja do Sagrado Espirito Santo. As bases sociais de apoio das Misericórdias divergem das Confrarias. As Confrarias admitiam “Irmãos” de base social diversa, incluindo mulheres, e tinham origem em movimentos associativos laicos e, os leigos formavam naturalmente os seus corpos de gestão, pouco ou nada supervisionados pelas entidades eclesiásticas. As Misericórdias, admitiam apenas homens e membros das elites existentes a nível local: nobreza, clero, comerciantes, mestres, lavradores proprietários, etc., em consequência desta filiação condicionada, o número de “Irmãos” era reduzido em comparação com as Confrarias.
          No século XIX, várias vicissitudes levaram ao fim das Misericórdias, por um lado, as fraudes eleitorais, o desprestígio dos irmãos, a má gestão e as dívidas acumuladas trouxeram o descrédito generalizado ás Misericórdias. Por um lado as leis Pombalinas quebraram a tradicional autonomia das Misericórdias, colocando-as sob ingerência estatal, e com o advento do liberalismo e a promulgação da lei de 4 de Abril de 1861, que ordena a venda dos bens das Misericórdias, acabaram por encerrar de vês a maioria das Misericórdias do reino.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Necrópole e Estela do Pardieiro - 35 Anos depois



Necrópole do Pardieiro

35 Anos depois
           Foi precisamente há 35 anos, em Agosto de 1981, que José Pereira Malveiro (JPM), Manuel Zacarias e José Pacheco acompanhados pelo proprietário do Monte do Pardieiro, (localmente conhecido por Galinha Preta), junto à Corte Malhão na freguesia de São Martinho das Amoreiras recolheram e levaram para o então Núcleo Arqueológico de Garvão uma Estela Epigrafada com caracteres da Escrita do Sudoeste.
           Esta Estela, com o encerramento do Núcleo Arqueológico de Garvão, foi guardada na residência de JPM, (junto a outras peças de interesse arqueológico, achadas e recolhidas ao longo dos anos pelo próprio), onde mereceu a visita de Jürgen Untermann e esposa, (ver artigo a seguir) e de Caetano de Mello Beirão, que foi inclusivamente levado ao local do Pardieiro por JPM,  tendo desenvolvido posteriormente a respectiva publicação com Mário Varela Gomes em 1988, na revista VELEIA - Revista de prehistoria, historia antigua, arqueologia Y filología clássicas (Veleia.pdf). Tendo esta necrópole, posteriormente sido escavada em 1989-1990 pelos arqueólogos Caetano de Mello Beirão e Virgílio Hipólito Correia.


           Em 1996, quando esta Estela estava em exposição nos antigos Paços do Concelho de Garvão, foi indevidamente levada e à revelia do depositário, JPM, e só depois de devidamente denunciado o caso às autoridades foi esta entregue ao Museu Rainha D. Leonor em Beja e posteriormente ao Museu Escrita do Sudoeste em Almodôvar onde se encontra actualmente em exposição.
          Quanto ao sítio do Pardieiro, tem sido valorizado e aberto ao publico, segundo a nota de imprensa do presidente da Câmara Municipal de Odemira de 28/04/2008, “(…) vai abrir ao público o sítio arqueológico da Necrópole do Pardieiro, um espaço funerário construído durante a 1ª Idade do Ferro, entre os séculos VII e V a.C., localizado a cerca de 3 km de Corte Malhão, (…). O sítio é composto por um conjunto de 12 sepulturas individuais cobertas por um monumento construído com pedras ligadas com barro. Nestas sepulturas foram encontradas oferendas funerárias votivas, desde colares de contas de vidro, algumas armas de ferro e peças de cerâmica, bem como três lápides epigrafadas e duas estelas decoradas.
          A Escrita do Sudoeste, encontrada apenas no Sudoeste Peninsular, terá cerca de 2.500 anos e terá entrado em desuso a partir do séc. V a.C. Transmite uma língua muito antiga, que já estava perdida no período romano, não sendo possível ainda hoje decifrar o seu significado. A descoberta de estelas com este tipo de escrita conferem à Necrópole do Pardieiro uma importância singular no âmbito da arqueologia peninsular”.

JÜRGEN UNTERMANN


JÜRGEN UNTERMANN

           Faleceu em 7 de Fevereiro de 2013, em Pulheim, na Alemanha, com 84 anos de idade, o Prof. Jürgen Untermann, eminente linguista que dedicou toda a sua vida ao estudo das línguas pré-romanas da Península Ibérica. Esteve, naturalmente, por diversas vezes em Portugal, inclusivamente na residência de José Pereira Malveiro em Garvão, onde tomou conhecimento da Estela do Pardieiro, tendo-se interessado muitíssimo quer pelos textos aqui encontrados em língua dita «lusitana» quer, de modo especial, pela chamada «escrita do Sudoeste», exarada em estelas identificadas no Sudoeste peninsular, designadamente no Alentejo e no Algarve.
          Um dos seus primeiros trabalhos, Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua (Madrid, 1965), é citado ainda hoje como obra de referência, pois que, embora se tenham multiplicado muito os testemunhos dos antropónimos aí tratados, o certo é que permanecem válidas as conclusões retiradas já nesse longínquo 1965 em relação, por exemplo, às influências detectadas com vista à determinação de áreas linguísticas.
          Foi um dos grandes motores dos colóquios sobre línguas e culturas paleo-hispânicas, a cuja comissão coordenadora, de cariz internacional, presidiu durante longos anos e só a pouca disponibilidade para fazer viagens é que o impossibilitou de estar fisicamente presente no XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valência, de 24 a 27 de Outubro, p. p.
          Importância marcante teve a sua obra monumental, os Monumenta Linguarum Hispanicarum, publicados em Wiesbaden, o I volume em 1975 e o IV, em 1997 (Band IV. Die tartessischen. keltiberischen und lusitanischen Inschriften). Logrou ainda terminar o último, dedicado à toponímia.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

HEMIDRACMA EM PRATA






Hemidracma descoberto em Garvão

Hemidracma (Exemplo)

                          

HEMIDRACMA EM PRATA
Descoberta em Garvão

          A data da constituição do depósito votivo de Garvão é apontada por uma hemidracma em prata, batida em Gades, de 238 ou 237 a.C., que pode ter circulado até aos finais do séc. III. A sua vida “útil” como ex-voto pode, no entanto, ter sido um pouco mais alongada mas, o fecho do depósito não terá ocorrido para além da primeira metade do séc. II a.C. (Beirão et al. 1985, 91 nº 81).
          Segundo a discrição dos mesmos autores trata-se de uma moeda (Vala), de prata, pertence à oficina de Gades, com 17 cm de diâmetro máximo, 2 mm de espessura e 2,5 (?) g de peso. No anverso, muito deteriorado, reconhece-se a representação da cabeça de Hércules-Melkart, toucado com a pele de um leão.
          O reverso mostra, centralmente, um atum, voltado para o lado direito, sobre o qual se vêem quatro signos, quase ilegíveis, de uma legenda púnica. O conjunto é rodeado por uma gráfia de pontos.
          Parece tratar-se de um hemidracma (2,5g) cunhada na segunda metade do século III a. C.
          O Dracma foi uma moeda de origem grega muito utilizada no mediterrâneo durante vários séculos, tomando várias formas e valores segunda a época e origem da cunhagem, esta, encontrada em Garvão, segundo os referidos autores tudo indica que tivesse sido cunhada nas oficinas de Gades, actual Cádis no sul da Espanha e o hemidracma refere-se ao valor de metade de um Dracma.
          O Dracma, em utilização desde meios do sexto século a. C. era de facto a moeda da Grécia clássica, foi uma das primeiras moedas em circulação e de uso geral, o nome derivaria da palavra grega “apanhar” ou “segurar” e o seu valor corresponderia à quantidade de setas que uma mão conseguia agarrar.
          O Dracma a principio tinha vários valores, conforme o lugar onde era cunhado, a partir do século quinto a cidade-estado de atenas sobrepôs-se comercialmente aos outros estados gregos e o Dracma ateniense ganhou preponderância em relação aos outros Dracmas cunhados em diferentes cidades-estados.
          Diz-se que o culto de Hércules foi introduzido na Hispânia pelos fenícios. Este Hércules era o nome romano do Deus Saturno ou BAAL-MELKART, regente do tempo e dos testemunhos.
          Deuses como Melkarte, o Hérakles fenício, ou Tanit, a Vénus guerreira, são pervivências de cultos que iriam prolongar-se até à época romana. Os cultos egípcios, espalhados por toda a Península, atingiram o seu grande auge na época romana, em particular o de Ísis. Encontramo-los, inclusivamente, na etapa ibero-fenícia, e talvez tenham sido até, porventura, muito anteriores. Deuses celtas como Cernunno, o Sol-Cervo, ou o culto das bifaces, ou deuses Acha, são comuns por toda a Celtibéria, mas não parecem iberos de origem.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

AS TRAVESSIAS DA RIBEIRA


 AS TRAVESSIAS DA RIBEIRA


          Antes do nivelamento da ribeira e da cimentação do leito e das margens, o cenário que se apresentava em termos de via, ruas e travessas era totalmente diferente do actual.
De facto antes da construção daquilo que ficou sendo conhecido como “A Placa”, ou pelo menos a primeira fase deste nivelamento da ribeira que atravessa a vila, as vias para a sua travessia eram outras.


PONTE DE MADEIRA
          Se por esta altura a ponte em alvernaria, no centro da vila, já existia, tempos houve em que a ponte era construída de madeira, e a história de que, “Garvão tem uma ponte rota”, não deixa de ter alguma verdade e remete-nos precisamente para o tempo em que a travessia da ribeira no centro da vila que ligava o Largo do Poço da Praça ao Largo do Lagar, (agora Largo da Amoreira), se fazia através de uma ponte de madeira, segundo a memória popular, que se julga ser tanto para peões como para carros de tracção animal.
          De facto a ponte de madeira deveria estar de tal maneira degradada que justificou a construção de uma nova ponte em alvenaria, contudo a história da “Ponte Rota” e ainda segundo a versão popular, se relacionar com um individuo que perdido de bêbado pura e simplesmente caiu da ponte, quando se preparava para se aliviar do que tinha bebido em excesso.
          Numa fotografia do início da edificação da nova ponte, onde se observa a configuração dos dois vãos ainda em construção, nota-se, no local onde actualmente estão plantadas as laranjeiras, uma passagem rebaixada de acesso à ribeira.
          Essa mesma fotografia mostra um candeeiro de iluminação publica cuja base se encontra numa posição muito mais baixa que o novo tabuleiro da ponte em construção, o que parece levar a crer que a ponte de madeira seria mais baixa que a nova, permitindo assim tanto o acesso, de um lado para o outro, pela ponte de madeira, para pessoas ou animais e pelo leito da ribeira para cargas mais pesadas.
          Esta nova ponte, de dois vãos, apesar de superficialmente danificada pelas intempéries de 1997, foi, subsequentemente, substituída por uma nova ponte de um só vão. Encontra-se ainda no local, pregada na parede do posto da GNR a primitiva placa com que a Junta de Freguesia de Garvão homenageou o dono da moagem António de Brito Ramos em 1943, o qual não se poderá aqui deixar de prestar igualmente o devido reconhecimento a um dos industriais de Garvão, a quem muito se deve uma grande parte do vigor económico que se viveu nesta vila por essa altura.


A passagem do POÇO NOVO e a Ponte do Perú
          A antiga passagem junto ao Poço Novo, combinava passagem pedonal para pessoas, bestas e nos seus últimos dias também bicicletas, era a chamada Ponte do Perú com aproximadamente um metro de largura e possivelmente com trinta ou quarenta metros de comprimento, para compensar o vão da ribeira que aqui se alargava, muito usada por pessoas que iam ao Poço Novo abastecer-se de água, com as tradicionais quartas de água de barro cozido á cabeça ou ao quadril, quando não era em carrinhos de mão ou no dorso dos animais.
          A passagem da ribeira, pelo leito, permitia igualmente a travessia de gados, bovinos, ovinos ou caprinos quando não era também por varas de porcos e por carros de parelhas de muares para cargas pesadas, que vinham ou iam pelo “Furadouro” e evitavam assim as ingremes ladeiras do castelo.
          A criação de perus, neste local, poderá ser igualmente uma realidade, mais do que um simples lugar de passagem, de um local para o outro, destes repastos natalícios, a sua criação, no próprio leito da ribeira, alimentando-se das tenras ervas e outros arbustos, quando a corrente de água o permitia, poderá muito bem ter dado o nome á referida ponte pedonal, já que a criação destas aves em grande número, era até há bem poucos anos uma realidade que se poderia encontrar nestes lugares.

 

TRAVESSIA JUNTO AO POÇO DA VARZEA
          Havia outra passagem que desapareceu completamente, sem qualquer alternativa viária, com a construção da primeira fase da placa, que era de facto o seguimento da Rua da Oliveira rumo às hortas e atravessava a ribeira diagonalmente imediatamente a seguir às últimas casas do lado direito e ia ter um pouco antes onde actualmente se situa o lavadouro, emborcando na rua que vinha do Largo do Lagar, (actual Largo da Amoreira), e seguindo rumo à Funcheira, com um ramal rumo à Sardoa logo a seguir ao poço da Várzea atravessando a avenida nova que ainda não tinha sido construída, (actual rua Gonçalo Nobre Valente).
          O seguimento do caminho da antiga estrada da Funcheira, (que não tem nada a ver com a moderna estrada de alcatrão), seria, assim que atravessava a ribeira, junto a esta e adjunto às últimas casas da vila. A posterior e moderna estrada para Santa Luzia acabou por atravessar esta antiga estrada e dividir as casas que aí se encontram, umas ficando a Sul do lado da vila, outras a Norte no lado da estrada que seguiria para a Funcheira e Panoias.
          Esta travessia, juntamente com a do Poço Novo, seriam as primitivas travessias da vila antes desta se ter prolongado para a outra margem da ribeira e justificado a construção da mencionada ponte de madeira.


OUTRAS TRAVESSIAS
          Outras travessias haveria, com certeza, umas mais próximas da vila, outras mais afastadas, das mais próximas há a destacar a do Curral dos Bois, a Sul, na saída da vila para o Cerro da Forca e a passagem da ribeira junto à estrada da Funcheira, a Norte, praticamente no local da nova Estada Nacional junto à parede em taipa da várzea que se estende para Norte, direito à Igrejinha de São Pedro e Estrada Real.
          De realçar igualmente a passagem da Ribeira do Arzil junto à Estação de Garvão e no sítio da localmente chamada “Ponte Romana”, (a romanidade dessa ponte, ou não, ficará para outra altura), fiquemo-nos, por agora, em realçar o caminho que ainda se nota por detrás da antiga padaria do Arreganhado, mesmo diante da Igreja de São Sebastião (para quem está de costas para a referida Igreja) e que viria, certamente, ter à Ladeira do Padre rumo à vila.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O CRÂNIO do DEPÓSITO VOTIVO

O CRÂNIO TRESPASSADO do Depósito Votivo de Garvão


          Uma das particularidades do Deposito Votivo de Garvão foi a descoberta de um crânio trespassado numa clara cerimónia de fundação do próprio Depósito Votivo.
          O crânio localizado na base do depósito pertenceu a uma mulher cuja idade oscilaria entre os 35 e os 40 anos (Fernandes 1986, 78).
          A morte foi-lhe provocada por três golpes desferidos na zona occipital e parietal por um instrumento contundente, pesado, dotado de um gume curvo pouco penetrante, que incidiu obliquamente sobre a cabeça da vítima.
          Foi assim reconstituído que a vítima se encontraria deitada em decúbito ventral, quando lhe foram desferidos sucessivamente três golpes. Qualquer um deles seria o suficiente para lhe provocar a morte, e certamente que com o primeiro deles ela entrou em lipotimia (perda de sentidos).
          A morfologia das lesões sugere que o instrumento utilizado terá sido um machado de pedra polida de que, aliás, se recolheu um exemplar no depósito (Antunes e Cunha 1986, 84-85).
          O crânio foi então separado do corpo; a forma como isso se deu e o espaço de tempo que mediou entre este facto e a deposição do crânio como elemento ritual na criação do depósito votivo são, no entanto, indetermináveis.
          O crânio, estava, aparentemente, associado a alguns ossos de animais o que sugere um fenómeno de libação sacralizadora associada a um sacrifício humano.
           Na sequência deste tema da trepanação, muitos outros achados provêm de depósitos de épocas subsequentes ao período mesolítico, mostrando assim a continuidade e a larga diacronia desta prática.
           Um crânio muito mais tardio encontrado em Tróia (Setúbal) «deixa a ideia de que a trepanação era um tratamento a que os habitantes da Península Ibérica tinham acesso no período romano».
           Mas entre estes tempos históricos, diversas jazidas portuguesas neolíticas e calcolíticas ou da Idade do Bronze revelaram crânios humanos com tais marcas.
Cerimónias fundacionais com recurso a despojos humanos como parece ser o caso de Garvão do século III a. C., será já epifenómenos consequentes de uma resistência de cultos e crenças profundamente enraizados que atravessam a I idade do ferro.
           Reminiscências de conceitos e esquemas de estruturação do território em que se conjugariam, num hábil sincretismo, os espaços tumulares monumentais que se construíram com os mais antigos, dando e renovando sentido à memoria de significados e significantes impregnados na paisagem.
           Todo o espólio parece implicar a existência de um eventual ritual relacionado com um sacrifício humano, próprio do culto das cabeças cortadas em contexto guerreiro, bem como do culto das cabeças inserido em rituais fundacionais e de soberania. A natureza dos objectos votivos encontrados, como a cerâmica ou as placas oculadas – na linha dos achados do Escoural, Estremoz, Vidigueira ou Évora, de épocas anteriores – e os múltiplos restos animais – a sugerir refeições e libações rituais cíclicas, como seriam as cerimónias solsticiais –, indica-nos, assim, não só a persistência de crenças, como também a presença da segunda fase deste culto céltico.
           Efectivamente, muitos achados parecem indiciar ter havido um tratamento especial dado a certos crânios, tratamento esse que pode remeter-nos para práticas rituais de cariz mítico-religioso próprio do mundo celta.
           Segundo alguns autores, para estas populações, a cabeça possuiria atributos divinos. Como tal, talvez considerada incorruptível e autónoma do corpo, teria poderes protectores – das pessoas ou colectividades, do gado ou da vegetação –, divinatórios ou proféticos, de cura e de regeneração, a cabeça seria, assim, o centro dos poderes sobrenaturais, para além de ser o local onde se acreditaria estar alojada a histeria, a loucura ou os defeitos físicos mais impressionantes – mal sagrado ou mal de santo, na máxima popular de que o que é raro é maravilhoso.


In: Gabriela Morais, Contributos Portugueses Para O Estudo Do Culto Das Cabeças

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Garvão o “Cerro do Castelo”




   O “Cerro do Castelo” em Garvão é uma elevação de topo aplanado com uma cota máxima de 124,5m, encaixada entre duas linhas de água, afluentes do Sado.
          Na parte média da encosta Leste do cerro, foi localizado em 1982 um grande depósito secundário de peças votivas. Para a instalação deste depósito, foi aberta na encosta uma fossa de planta irregular, grosseiramente ovalada, com 10 por 5m cuja abertura parece ter aproveitado um estreito patamar da encosta do cerro. A parte central desta fossa foi grosseiramente coberta por lajes de xisto entre as quais se produziu um dos achados mais interessantes da escavação: um crânio humano destacado do restante esqueleto, a que voltaremos.
          Sobre o nível de fundação do depósito foram colocados grandes contentores de cerâmica, produzidos manualmente, cheios de outras peças cerâmicas, cuidadosamente empilhadas. Os espaços entre estes contentores e entre eles e a margem da fossa foram também preenchidos por peças cerâmicas empilhadas. Por último algumas peças foram ainda depositadas sobre todo este conjunto, chegando, ou originalmente ou por força da acção da sedimentação das terras, a sair ligeiramente da fossa, e foram por sua vez cobertas por blocos de xisto (Beirão et al. 1985, 56-60 e 94-103).
          Parece certo que, no topo do Cerro do Castelo de Garvão, existiu o santuário a que o depósito secundário corresponde. Tal santuário faria parte de um povoado de origem antiga e de longa sobrevivência. As cronologias mais antigas para o povoado de Garvão são dadas pelas cerâmicas do Bronze Final recolhidas à superfície e na escavação dos níveis arqueológicos subjacentes ao depósito (camadas 7 e 9 da escavação de 1982/3: Beirão et al. 1985, 59-60), a este período se associando um molde de fundição de armas de bronze. A sobrevivência para além da Idade do Ferro e até ao período romano está documentada por achados numismáticos (Dias e Coelho 1977, nº 1) e por estruturas templares do período romano com as quais se relacionariam duas colunas de mármore recolhidas na vila (Beirão et al. 1985, 49, Correia 1996c).
          Recentemente, a extensão do povoado da Idade do Ferro pôde ser precisada, graças a escavações levadas a cabo na plataforma a Sul do Cerro do Castelo, que permitiram identificar uma muralha e fosso que parecem ter delimitado o povado, bem como uma pequena área industrial, onde se identificou um forno atribuível à Idade do Ferro. A extensão da área do povoado pode ser estimada em cerca de 6 hectares, tornando provável que tenha sido um núcleo populacional de carácter propriamente urbano (Correia 1995, 250 n. 3).
         Estamos assim perante uma eloquente demonstração da forma como um povoado nucleado, ainda que suficientemente modesto para nos fazer hesitar antes de o classificar como cidade, concentrava no seu perímetro, para além do efectivo demográfico, que poderia roçar os dois milhares de habitantes, e da competência artesanal e tecnológica que lhe estava associada, outras vertentes de nucleação do território e entre elas a religiosa, obviamente.


In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...