sábado, 13 de dezembro de 2014

CARNE DE PORCO À ALENTEJANA

             A origem da carne de Porco á alentejana, assim como outros pratos típicos, poderá ter diversas interpretações, lendas e histórias, mas convém analisarmos e interpretamos a origem destes cozinhados tipicamente portugueses numa base histórico/cultural, e o que a história e cultura nos diz, (arqueologia e estudo dos alimentos antigos), é que de facto o consumo de carne de porco no Alentejo chegou tardiamente e só se generalizou depois da conversão forçada das populações não-cristãs em 1495 pelo rei D. Manuel, (Judeus e Muçulmanos cuja religião os proibia de consumo de tal alimento).

           A carne de Porco á alentejana assim como as alheiras de Mirandela ficaram, devido a certas características, associados a estas duas regiões apesar de terem sido amplamente confecionadas praticamente de norte a sul do país.

          Ambas têm a mesma história e origem, ou seja o consumo e/ou simulação de carne de porco pelas populações Muçulmanas e Judias que resolveram ficar em Portugal, depois do édito de expulsão, e se converteram ou simulavam a sua conversão ao cristianismo.

          Assim, no caso das alheiras, (enchidos em que em vez da carne e gordura de porco, proibida pela lei Judaica e muçulmana, eram feitas com as carnes que houvesse à mão, nomeadamente de coelho, perdiz, pato, peru, galinha e vitela, acrescentava-se o miolo de pão e o caldo proveniente das carnes, temperava-se com alho, sal, pimenta ou piri-piri), estas populações não cristãs simulavam fidelidade à religião cristã com estes enchidos pendurados no chupão, enganavam os fiscais da Inquisição e os vizinhos, que pensavam que eram enchidos de carne de porco, obedecendo assim à proibição Judaica de consumo de carne de porco.

          Quanto á carne de porco alentejana, tratava-se de facto de um consumo não simulado por estas populações em que para se livrarem da suspeita e da respetiva denúncia á inquisição passaram a consumir tal carne de forma mais visível, criando o porco no curral á vista da restante população, matando o porco em locais públicos, na rua e no largo, convidando os vizinhos á matança, acompanhados sempre de um bom petisco, distribuindo, inclusivamente, nacos de carne fresca aos vizinhos e a provarem os primeiros enchidos depois de curados.

          Assim a tradição alentejana de criação anual do porco no curral, a matança do porco na rua, a distribuição de carne fresca de porco aos vizinhos, principalmente aqueles que não assistiram á matança teria tido as suas origens na necessidade de visibilidade entre estas comunidades e o consumo de carne de porco.

          Quanto à carne de porco com ameijoas, sendo a alimentação do porco alentejano á base de produtos naturas, (ervas, bolotas, milho, farelos dos moinhos etc.) o que lhe dá, ainda hoje, um gosto especial, permite-lhe uma certa diversificação na confeição dos vários pratos alentejanos, tanto acompanhado á mesa dos menos abastados com pão demolhado, (as famosas migas), como dos mais abastados com ameijoas.


domingo, 28 de setembro de 2014

TIO MANUEL DA VACA GORDA


 Tio Manuel da Vaca Gorda

          Andarilho, Caminhante, Viajante, Andante, Calcorreador, tudo isto Ti’Manel-da-Vaca-Gorda foi. Desde as aldeias piscatórias Algarvias às margens do Tejo no Pinhal-Novo e Barreiro, desde as verdes Serras do Sul às douradas planícies do interior alentejano, fazia do caminho-de-ferro a sua estrada, calcorreando sobre travessas e carris, palmilhando milhares de quilómetros sobre a via-férrea do Sul e Sueste, parando nas estações que no caminho encontrava.

          Conhecido por Ti’Manel-da-Vaca-Gorda, não por ter vaca ou qualquer outro animal, nem jumento para as suas caminhadas, personagem popular, lembrada ainda hoje pelos mais velhos, de certo o último viandante do Sul Algarvio e Alentejano, chapéu de aba larga, enfiado dentro do sempre posto casacão, de bordão numa mão e o violão na outra, a tiracolo pendia um pequeno talego, onde, como homem antigo, tinha sempre o seu bocado de pão, e um pedaço de toucinho quando não era banha, linguiça ou, quem sabe, um bom naco de presunto. Na pequena sacola escondia a bolsa das moedinhas de réis.

           Nascido entre a monarquia e a republica, sem local certo do seu nascimento, mas Algarvio com certeza. Não bebia por qualquer copo, já habituado às partidas dos outros, tinha de ser bom um bem translúcido não fossem “os danados”, como pronunciava, pregarem-lhe alguma marosca. 

           Se fez da “linha” o seu caminho, cujo pavor aos carros as travessas palmilhava, quis o destino que viesse a morrer atropelado por um automóvel numa estrada que durante tantos anos evitara.

           Se um copo de vinho lhe fazia puxar pelo violão, já as conversas sobre mulheres o agastavam, só gostava daquelas que lhe davam de comer e mesmo dessas passou a fugir depois dumas sopas estragadas ou que o deixaram mesmo mal, se alguém lhe dizia, “esta noite vais dormir com a fulana tal”, respondia “Ê cagu… para put… c’á amanhã chove mer…”, e “viva Salazar”, assim bradava em altos berros para quem o queria ouvir e vá lá uma pessoa agora saber porquê? O certo é que se nas estações da linha onde parava provocava espanto nos trabalhadores ferroviários, uma boa parte deles senão sindicalistas pelo menos politicamente conscientes, também nas tabernas os “vivas a Salazar” não passavam despercebidos aos trabalhadores agrícolas em luta pelas quarenta horas de trabalho. Valia-lhe o espanto e a admiração destas gentes e se franziam o sobrolho depressa o desfrensiam quando agarrado ao violão dedilhava mais umas desgarradas ou uma das suas modas.

            Não deixava, também, por mãos alheias a defesa da sua pessoa, quando provocado por alguns jovens mais atrevidos, ou por outros menos jovens, que gostavam de lhe fazer tilintar a bolsa cheia de “réis”, só para o fazerem barafustar e ouvir no seu falar algarvio, o Ti’Manel para lá levantava o seu bordão em jeito de ameaça e fazendo entoar bem alto o seu sotaque algarvio da serra em meros desabafos “filhos do débo”, ou “débo que vos pariu”.

            Pertences eram poucos, muda de roupa lavada, por ele, nalgum barranco ou ribeira, quando não era nalgum poço e secada ao sol, conforme pernoitava nessas serranias ou charnecas, talego aviado de algumas comedias e o sempre companheiro careto, talhado pelas suas próprias mãos, peça única de engenharia artesanal, cujo tampo cónico lhe conferia uma singular feição.

            Tunes, Messines, Amoreiras, Garvão, Ermidas até ao Barreiro ou Pinhal Novo, não havia estações nem travessas que os seus sapatos velhos de caminhante, sem meias, não levassem a sua figura, barba branca a que o fumo do seu artesanal careto tingia de negro, cabelo grisalho, mas era a sua personagem e presença que o singularizavam e marcavam. Transportava consigo coisas únicas, vivências de uma vida errante, conhecimentos que transportava de terra em terra e a todos era bem-vindo.

            O seu valor desregrado, tinha a genuinidade e a generosidade das gentes algarvias serranas, Ti’Manel-da-Vaca-Gorda não o era por ser andadeiro ou caminheiro, não era isso que o tornava puro ou bondoso, mas sim porque era livre como os pássaros, sem gaiolas ou correntes, de quem calcorreava o seu livre destino, voando a sete pés, abraçando tudo e todos, e a todos oferecia a sua presença e o seu convívio, distribuindo novas, músicas, versos e quadras nas tabernas das aldeias, do Sr Arnaldo, da venda do Sr Chico Cezilio, das tabernas do Tio António Rola, do Tio Lucas da Sardoa, (e há quantos anos tem o Manél o café aberto?), perante personagens que o achavam singular, velhos que diziam conhecê-lo, novos que lhe achavam graça, aceitando ou compartilhando sustento, como se fosse um velho eremita regressado.

domingo, 3 de agosto de 2014

Jornal de Garvão Nº 20

Jornal de Garvão número 20 

Vinte Jornais.

Vinte Anos.
O JORNAL DE GARVÃO faz este mês de Agosto vinte anos sobre a sua primeira edição.

Este Jornal número 20 fechará, sem dúvida, um ciclo, um ciclo que ficou marcado pelo voluntariarismo individual dos seus promotores, por vezes à custa de outras necessidades mais prementes.

Procurou-se nestes vinte anos, divulgar a vila de Garvão, divulgando o seu património, a sua cultura e a sua história.
Procurou-se igualmente privilegiar as pessoas, não em função da sua influência ou status, mas daqueles de que não reza a história, não daqueles que achavam que mereciam mas daqueles que de vida simples e humilde achavam que não mereciam. Afinal: O melhor património de Garvão, são as suas Pessoas, são elas que fizeram a História, e é para elas que é este Livro. Sem Elas, não tinha havido Herança, nem tinha havido História, nem este Livro tinha sentido. (in: Garvão-Herança Histórica). (Nunca neste Jornal foi publicado qualquer foto dos seus promotores ou qualquer referência para além da ficha técnica).
Torna-se difícil escrever sobre uma comunidade-vila-freguesia-concelho-jornal vinte anos depois porque ainda há tanta coisa para dizer, apesar do que já se escreveu e já foi dito.
Divulgou-se a sua história, tentou-se conciencialisar a população para a sua riqueza arquelogica e histórica e sensibilisar as pessoas para a necessidade de protecção do seu património como factor de desenvolvimento e á sua medida contribuir para a criação de empregos, travar o despovoamento da vila, mostrou-se alternativas e apontou-se os factores mestres de um projecto de desenvolvimento local.



 

Jornal de Garvão Nº 19

Jornal de Garvão número 19. 


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Jornal de Garvão Nº 18

Jornal de Garvão número 18. 


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sábado, 7 de junho de 2014

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ONDE FICA GARVÃO

Garvão fica siuado no Baixo Alentejo no Concelho de Ourique e tanto se pode chegar de carro, como de comboio ou de autocarro.


DE CARRO
Para quem vem do Norte ou do Sul, pode apanhar a A2 e sair na saída que indica Castro Verde/Ourique, seguindo depois pela N123, passando por Ourique, até Garvão.


DE COMBOIO
A partir de Lisboa, do Algarve ou das povoações servidas pelo comboio, para chegar a Garvão pode apanhar comboio até à estação da Funcheira, a qual dista cerca de 2 km, servido por transportes publicos até esta vila.


DE AUTOCARRO
De Lisboa ou do Algarve, até Ourique e depois novo autocarro até Garvão.


DE BEJA OU ÉVORA. Pode apanhar a IP2 até Ourique e depois a N123 até Garvão.


DE MÉRTOLA, a N123 leva directamente a Garvão.

domingo, 13 de abril de 2014

Jornal de Garvão Nº 17

Jornal de Garvão número 17. 


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Jornal de Garvão Nº 16

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Jornal de Garvão Nº 15

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Jornal de Garvão Nº 14

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Jornal de Garvão Nº 13

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Jornal de Garvão Nº 12

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Jornal de Garvão Nº 11

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Jornal de Garvão Nº 10

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Jornal de Garvão Nº 9

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Jornal de Garvão Nº 8

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Jornal de Garvão Nº 7

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Jornal de Garvão Nº 5-6

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Jornal de Garvão Nº 4

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Jornal de Garvão Nº3

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Jornal de Garvão Nº 2

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Jornal de Garvão Nº 1

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Jornal de Garvão Nº 0

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

GARVÂO

GARVÃO - RESUMO HISTÓRICO


Garvão é um misto de lendas, vila Alentejana humilde, povoação antiga, onde o tempo parece que parou.

Situada em pleno Baixo Alentejo, tem como Santa Padroeira, Nossa Senhora da Assumpção, capelas de S. Pedro, S. Sebastião e a recentemente descoberta Igreja do Sagrado Espírito Santo.

Possui uma paisagem rural deslumbrante, a antiquíssima Feira de Gado, a variedade de vacas autóctones denominadas “Garvanesas”, as vastas tradições folclóricas e a imensa riqueza Histórica e Arqueológica, fazem desta vila do interior Alentejano um caso ímpar, onde todos estes componentes se associam, conjugam e equilibram harmoniosamente, o que constitui motivo de orgulho e prazer de todos os Garvanenses, amigos e visitantes desta terra.

Aqui, não existe apenas a riqueza Arqueológica ou Histórica, a Feira ou as vastas tradições Folclóricas. Existe também uma grande actividade humana, uma cumplicidade, um compromisso dissimulado entre a população que se manifesta, por vezes, espontaneamente sob as mais variadas formas.

É Vila muito antiga, com ocupação contínua desde os tempos mais remotos, conforme atestam as Antas em torno da Vila, os machados de pedra encontrados na vila, o Depósito Votivo da I idade do Ferro situado no centro da Vila, entre outros vestígios históricos.

Teve o seu primeiro foral em Fevereiro de 1267, dado em Alcácer do Sal, por D. Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago. D. Manuel I deu-lhe novo foral em 1 de Julho de 1512.

O brasão de armas é um escudo em prata, com uma árvore verde e, na parte superior duas cruzes cor de púrpura, da ordem de Santiago, uma de cada lado da árvore. Foi sede de Concelho até 1836, conservando ainda a casa da Câmara e o respectivo Brasão. Do Pelourinho, presentemente, apenas se conserva parte.

Segundo Mário Saa, no livro “As Grandes Vias da Lusitânia”, no tempo dos Romanos Garvão era designada por Aranni. Aranni chefiava um vasto distrito Romano, abrangendo uma área que hoje conta com notáveis concentrações de Arqueologia Romana e pré-romana, Aranni sucedeu à cidade Céltica de Arandis. Ainda segundo Mário Saa, aquando da chegada dos Romanos à Península, Arandis seria já uma cidade, muito antiga, ocupada por povos de origem Céltica.


 IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.

domingo, 19 de janeiro de 2014

AS VACAS GARVANESAS

 



AS VACAS GARVANESAS


O Bovino Garvanês ou Chamusco
     Os bovinos Garvaneses, hoje considerados como uma estirpe ou variedade da raça Alentejana (1), são animais autóctones com o solar de origem na fronteira entre os concelhos de Ourique e Odemira.
     No passado constituíam núcleos importantes, tanto no interior Alentejano como no litoral, com uma área de distribuição que se estendia pelos concelhos de Sines, Grândola, Santiago do Cacém, Odemira, Ourique e Castro Verde, em afectivos integrados no tradicional sistema extensivo de produção pecuária.
     A designação destes animais, deve-se à sua grande afluência à feira de Garvão, encontrando-se referenciados em algumas publicações antigas. É o caso do Engenheiro Sommer de Andrade que, no seu livro “Raça Bovina Transtagana”, cita Bernardo Lima que em 1870 descrevia os animais Garvaneses como uma “população vacum bastante heterogénea que ocupa a bacia do rio Mira (...) com uma pelagem de cor entreo flavo e castanho, e em bastantes rezes um tanto torrado ou atiçoado sendo também para notar a cabeça fusca principalmente sobre o focinho...”.
     Fruto do abandono a que foram votados, a caracterização genética e morfológica destes animais é deficiente.
     Ainda de acordo com o Engenheiro Sommer de Andrade, a estirpe Garvanesa é uma transição entre uma variedade da sub-raça Alentejana e a variedade serrana da sub-raça algarvia.
     São animais bem adaptados às condições da região de onde são originários, mais pequenos que os bovinos Alentejanos, cuja característica mais distintiva é a pigmentação escura da cabeça, da cauda e das extremidades dos membros. Nos machos, esta coloração escura entende-se também pelo pescoço e pelas espáduas.
     No passado, estes bovinos não possuíam qualquer especialização produtiva, pelo que eram utilizados para a obtenção de crias, sendo preferidos na região pelas sua excelente capacidade de trabalho.
     A estirpe Garvanesa, encontra-se em vias de extinção. Com enfeito, esta variedade da raça Alentejana desapareceu dos registos oficiais há cerca de 10 anos e, o que é pior, deixou de ter lugar nos efectivos bovinos da região, resultado da sua substituição por outras raças ou de cruzamentos indiscriminados.
     No âmbito do “Projecto de recuperação e Manutenção da raça bovina Alentejana, estirpe Garvanesa”, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), realizou no 2º semestre de 1994 um levantamento dos efectivos Garvaneses existentes nos concelhos de Odemira, Ourique e parte do concelho de Santiago do Cacém.
     Como resultado, foram localizados cerca de 80 animais de linha pura, dos quais apenas um era macho. As fêmeas existentes, tinham, na sua maior parte, idades superiores a 8 anos e encontravam-se muito dispersas pelos afectivos bovinos da região, sendo utilizadas apenas para a obtenção d eanimais cruzados.
     Do levantamento efectuado ,verificaram-se, no entanto, duas excepções à situação descrita anteriormente: uma vacada com um núcleo de 36 fêmeas Garvanesas de linha pura, situada em Santana da Serra, concelho de Ourique; uma outra com 15 fêmeas também de linha pura, situada no Cercal do Alentejo, concelho de Santiago do Cacém.
     No primeiro caso, o núcleo de animais Garvaneses incluía o único macho adulto existente na altura. Todos os animais deste núcleo eram aparentados, com uma consanguinidade elevada entre si.
     As fêmeas, eram utilizadas em parte para a obtenção de animais cruzados e outra parte para obtenção de animais de linha pura para substituição dos efectivos.
     No segundo caso, o núcleo de animais Garvaneses era constituído exclusivamente por fêmeas utilizadas apenas para a obtenção de animais cruzados.


(1) Aditamento em 28/02/2021. Segundo estudos mais recentes os bovinos Garvoneses são hoje considerados uma raça distinta da Alentejana.


IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.

A FEIRA DE GARVÃO


 


A FEIRA DE GARVÃO (Clique para ler: A ANTIGUIDADE DA FEIRA DE GARVÃO)
A Feira de Garvão, realiza-se todos os anos, nos dias 9 e 10 de Maio, sendo uma das alturas do ano em que a vila mais fervilha de alegria e de intensa actividade, que se prolonga por vários dias.
É pela Feira, na entrada da primavera, que a população aproveita para as limpezas e caiações, para receber as visitas e familiares que vêm de visita para a Feira.
A ida à Feira, até à década de 60, meados dos anos 70 do século XX, era quase um ritual, era a preparação de um longo ano agrícola, vendia-se o que se tinha para vender, comprava-se o que se tinha para comprar, de modo a que desse para o ano inteiro; era lá que se matavam saudades, que se reencontravam com a família mais afastada, que confraternizavam, que se trocavam conversas, e actualizavam-se as novidades.
Havia na Feira utensílios para todos os gostos e feitios, desde os aguadeiros aos homens das quadras, o carrocel, figos e amêndoas algarvias, panos grossos e finos de toda a espécie, quartas, potes, alguidares e outros utensílios de barro, era toda ela uma variedade de produtos locais e regionais, manufacturados artesanalmente, onde não faltavam o albardeiro, o latoeiro, o abegão, o cadeireiro ou o ourives.
Vinham tendeiros de todo o lado, algumas famílias há já várias gerações, era ponto de honra entre eles respeitarem o espaço de uns anos para os outros, coisa que por vezes não acontecia, gerando-se um pandemónio dos diabos só acalmando depois de uma boa discussão, bem acalorada.
A Feira do gado era geralmente nos dias anteriores a 9 de Maio, onde chegavam toda a espécie de gado: rebanhos de ovelhas, manadas de vacas assim como caprinos, toda aespecie de muares; burros, mulas ou bestas, cavalos e éguas, trazidas pelos lavradores da região, que num acérrimo despique com os negociantes de gado e ciganos faziam da Feira de Garvão uma das mais importantes desta parte do Alentejo; não é sem justa causa, que a uma variedade de vacas se deu o nome de Garvanesas, (a desenvolver no capítulo seguinte).
Apesar de se desconhecer a antiguidade da Feira de Garvão, esta terá surgido da necessidade dos povos vizinhos ali se juntarem para trocarem os seus produtos.
As primeiras tentativas de regulamentar as Feiras, pelos primeiros reis, mais não foi, do que regularizar uma actividade comercial que já vinha de longe.
Dos tempos da Monarquia, há notícia de grandes rebanhos de gado que desciam dos Montes Hermínios, do Alto Alentejo e de Espanha e vinham pastar para o Campo Branco Alentejano.
O Campo Branco, era toda aquela região plana e esbranquiçada, a sul de Entradas, compreendendo numa linha imaginária, Aljustrel, Messejana, Panóias, Garvão, Ourique, Rosário, Santa Bárbara de Padrões, Alcaria Ruiva e outras.
Era na Vila de Entradas, situada na rota normal dos rebanhos que se fazia a entrada nas pastagens, daí o seu nome.

Era aqui o termo da longa caminhada, onde os pastores podiam exclamar: “Já cá estamos”! Depois de instalados, os rebanhose os criadores, pelo Campo Branco, era na Feira de Garvão que poderiam comercializar os rebanhos, socializarem e aviarem-se das necessidades, etc.
Para a resolução das contendas surgidas entre os criadores, ou o pagamento das rendas e impostos das pastagens, era em Messejana no tribunal especial “Dos Verdes Montados”, com ouvidor e ministros próprios.
Era em Garvão que se movimentavam os marchantes que abasteciam de carne a cidade de Lisboa. A este propósito, encontra-se uma informação que nos diz: “Há uma feira, cujo nome vem muitas vezes nas petições, é a de Garvão... trata-se de uma feira a sul da província; Garvão é verdadeiramente a capital regional do comércio de animais”.

Os marchantes que compravam carne para fornecer a cidade de Lisboa, tentavam fugir ao pagamento da sisa. Por isso, um inquérito preparado pelo corregedor em 1794, tem por origem a actividade de uma companhia criada em Lisboa e por três representantes desta sociedade, ao comprarem animais em Garvão, negarem-se a pagar a sisa, o que motivou um protesto do arrematador das sisas de Garvão, Miguel Vaz Coelho, morador na quinta do Valadão.

“VIRIATO”
Dizem os antigos que a feira de Garvão é tão antiga que até Viriato, o célebre chefe lusitano da nossa história, que lutou contra os Romanos, esteve em Garvão.
Viriato, era pastor nos montes Hermínios, e deslocava-se com os rebanhos para novas pastagens no sul. Os Montes Hermínios foram durante muito tempo associados à Serra da Estrela, contudo tem-se hoje a noção de que seriam mais a sul.
Viriato casou com a filha de Astolpas, um rico mercador de Èvora. No “ALBUM ALENTEJANO”, uma edição do principio do séculoXX, na página 183, consta o seguinte: “Anteriormente à batalha de Ourique e num sítio chamado «Cidade da Cola», a sudoeste de Ourique à distância de dez quilómetros, o grande cabecilha lusitano, Viriato, que tão denotadamente se bateu pela liberdade da sua terra, reuniu os guerreiros que comandava e, alta noite, desceu com eles a escadaria secreta que vai ter à ribeira do Mariscão (hoje Marchicão), e de subito caiu sobre o exército comandado por Claudio Unimano, causando-lhe incalculável mo-tandade.
Foi neste sítio que apareceu a «cerva branca» ao mesmo Viriato, quando este apascentava o rebanho com que descera dos Montes Hermínios.

TERRADO
O Terrado da Feira, era um imposto a pagar pelos marchantes e feirantes às autoridades da terra para poderem vender os seus produtos.
Em Garvão, esse Terrado era pago à Santa Casa da Misericórdia de Garvão que instituía os respectivos valores a serem pagos pelos mercadores e respectivas profissões, conforme consta na página 5, frente e verso, do Livro da Santa Casa da Misericórdia de Garvão referente ao ano de 1735.

VALORIZAR A FEIRA DE GARVÃO NUNO FAUSTINO, CARLOS ALVES E CLÁUDIO MACHADO
As alterações verificadas na sociedade nas últimas 3 décadas, afectou profundamente a vida das comunidades rurais em que a Feira de Garvão está inseridae lhe deu vida.
A “evolução” trazida pelos modernos meios de transporte a motor e comunicações, a introdução dos plásticos, e outras novidades, mudou em muito os hábitos e costumes das comunidades rurais.
Tem havido da parte da autarquia local, desde 1995 para cá, um esforço no sentido de valorizar a feira, introduzindo exposições e outras actividades lúdicas, procurando dar-lhe algum ânimo, e o sopro de vida necessário, para que esta feira secular progrida e seja uma realidade para as gerações vindouras.
Contudo a preocupação em manter viva esta tradição, não deve ser só introduzindo novos conceitos de Feira, alheios e até mesmo antagónicos à manutenção de um hábito e costume secular.
Quando em 1995, Nuno Faustino e Carlos Alves, dois jovens agricultores da nossa terra, propuseram à autarquia uma exposição agro-pecuária, não lhes passava pela cabeça, com certeza, o aniquilamento da tradicional feira de Garvão, como aconteceu em Beja com a feira da Primavera, totalmente absorvida pela Ovibeja, apesar do alerta para esse perigo, por Cláudio Machado, então assessor do presidente da Câmara, e coordenar da exposição Agro-pecuária da Feira de Carvão, proposto por uma comissão de agricultores, criada para o efeito, e pela Associação Defesa do Património de Garvão, convidados pela autarquia para integrarem a organização da exposição.
A valorização da feira pode e deve respeitar o conceito tradicional de Feira; é preciso respeitar a originalidade, dignificar as memórias locais, a especificidade da Feira de Garvão, e não transformá-la em mais uma exposição igual a tantas outras pelo país fora. Nada melhor para exemplificar esta situação do que um desabafo duma senho
ra da terra, “...ai minha bela feira de Garvão, quiseram-te igualar às outras e afinal acabaram contigo...”.
É preciso diligenciar com a mesma vontade, com que se apoia as novas introduções efectuadas na Feira depois de 1995, na manutenção dos feirantes e tendeiros tradicionais e que não se englobam nesta nova realidade de exposições.
Espectáculos? Touradas? Música Pimba? Talvez? Porque não? Mas também os albardeiros, os cadeireiros, os oleiros, saber porque é que o Carrossel não veio este ano, ou os artigos de barro ou vime, saber porque é que aquela senhora dos figos Algarvios deixou de vir à feira, etc, etc, etc.
Promover cantares à despique e à desgarrada ou ao Baldão acompanhados po rviola d’arame (Alentejana ou Campaniça), não ocupar lugares tradicionalmente reservados à Feira tradicional como a “Corredoura” que levou fim, são outras vertentes da Feira a ter em consideração, assim como respeitar o espaço tradicional de assentamento Cigano.

“CORREDOURA”
Último tendeiro no tradicional sítio da “Corredoura” que levou fim, depois da introdução da Exposição Agro- Pecuária em 1995 ter ocupado este espaço e acabado com uma tradição de séculos.
Aqui vários tendeiros vendiam de tudo; desde chocalhos, esquilas e guizos, correias, arreatas e cabrestos, selas e selins, albardas e molins, para bem ataviar uma Égua, Cavalo, Burro ou Burra, Mulas e Machos, Vacas, ovelhas e Cabras.
Era na“Corredoura” que os negociantes e Ciganos corriam as Bestas que tentavam vender.

A FEIRA DE GARVÃO OS CANTARES A DESPIQUE E À DESGARRADA, A VIOLA D´ARAME E O “TIO” MANÉL DA VACA GORDA
A Feira de Garvão, até aos anos 50, talvez ainda nos princípios de 60, era local de encontro de uma “raça” de músicos ambulantes que desapareceu com o tempo.
Era o tempo do Tio Manel da Vaca Gorda, da Zefinha de Portel, do Ti´Midio, do Norberto Gateira e outros. Corriam o Alentejo de terra em terra, por rotas diferentes, cruzando-se, com paragem obrigatória nos dias de feira onde se juntavam para disputar acérrimos “cantes à despique”, acompanhados à viola, para pasmo da assistência que os acompanhava e incentivava.
O Tio Manel da Vaca Gorda, ainda na década de 60 aparecia em Garvão, mesmo fora dos dias de feira, até que deixou de aparecer, presumindo-se que tenha morrido por esta altura, andava de burro e corria principalmente a Serra algarvia para os lados de Monchique e o extremo sul dos Concelhos de Ourique e Odemira, havendo contudo a noticia de ter sido visto também para os lados do Pinhal Novo.
O “TIO” MANUEL BENTO” Vive presentemente na Funcheira, freguesia de Garvão, para onde se mudou depois da Aldeia Nova, terra que o viu nascer, ter ficado debaixo de água da albufeira da barragem da Rocha.
Quando em 1994, a Associação Cultural e Defesa do Património de Garvão entrevistou o “Tio” Manuel Bento para o nº 0 do Jornal de Garvão, já era uma pessoa conhecida, solicitado para tocar em vários sítios, levando à recuperação e divulgação da viola Alentejana.
Era um dos últimos sobreviventes de uma arte que esteve à beira da extinção, não fosse o pronto apoio prestado por algumas entidades, nomeadamente o livro de José Alberto Sardinha sobre a Viola Campaniça e a vasta divulgação feita aos microfones da Rádio Castrense pelo Dr. José Colaço.

VIOLA ALENTEJANA DE ARAME OU CAMPANIÇA
Antigamente, até aos anos 60, o instrumento era designado por viola, e por vezes por viola d´arame, quando era preciso diferenciá-la de outro instrumento parecido, ap
esar de hoje ser, também, conhecido por viola Campaniça, devido à divulgação que este instrumento tem merecido nas últimas décadas.
O termo, viola Campaniça, era dado “pelos de Beja” de forma depreciativa a designar as violas rudemente afeiçoadas que se faziam e tocavam nesta zona do Baixo Alentejo.
Acredita-se, contudo, que em anos mais recuados a implantação da viola d´arame fosse mais ampla.

TIO” ÁLVARO PEDRO O ÚLTIMO SOBREVIVENTE DE UMA TRADIÇÃO SECULAR
Álvaro Pedro, nascido ecriado na Aldeia dos Fernandes, a 20 de Abril de 1926.
“Vim para Garvão guardar gado, coisa que faço desde os meus 7anos, ... há azar!?”, responde à pergunta, de onde reside e remata logo, à laia de cautela, ... “o meu padrinho era o Sr Manuel Cortes, dono da Cabreira, ... ouviu ?
”À pergunta, se conheceu mais alguém como ele,fica um ped aço a olha rpasmado mas depressa se recompõe e remata... Conheci-os todos, o meu pai era albardeiro e cantou com o António Aleixo em Loulé.
Se conhecia a Zefinha de Portel: “O Quê? A Zefinha de Portel, ai a Zéfinha de Portel, era magana, era pior “cá” Tia Mariana da Estação de Ourique”.
Há quantos anos faz quadras e vende? Responde: “Ohhh ... isso é coisa muito antiga, há ca tempos qu’eu não vejo mais ninguém, sou só eu agora, já morreram todos, mas olhe que aí hà una anos éramos muitos”.
O “Tio” Álvaro Pedro é o último sobrevivente de uma tradição de poetas e fazedores de quadras ambulantes, bastantes populares nas feiras da região até à década de 1960, talvez uma reminiscência da tradição Moura dos Contadores de Historias.
Corriam as vilas e as feiras de uma certa região, trazendo e levando as “novas”, de umas terras para as outras, com as suas quadras, por vezes de uma forma jocosa outras de forma séria e “grave”, conforme o sentimento que queriam transmitir à população, alegrando e animando as gentes por onde passavam, quebrando a monotomia e a rotina diária.

CIGANOS “UMA FEIRA SEM CIGANOS NÃO É FEIRA, NÃO É NADA"
Os Ciganos faziam as delícias da Feira, “diz o povo que uma Feira sem Ciganos não é nada, e é verdade”, era vê-los a dirigirem-se, por vezes meses antes da Feira, de burro ou carroça pelas estradas fora para Garvão, onde chegavam, sem primeiro, antes, se terem envolvido nalguma disputa ou contenda por um pedaço de palha ou por alguma erva ceifada, sem autorização do dono, para dar comer ao gado, características próprias destes “filhos do vento”, como alguém já lhes chamou, que por vezes criam e provocam a animosidade da população.
Arreavam tenda nos eucaliptos junto à Feira, e aí montavam arraial, onde cantavam e dançavam ao som de violas e música cigana pelas noites fora, por vezes transportavam, toda esta alegria, para o próprio recinto da Feira, principalmente pelos mais novos, que ao som da musica do Carrossel, ou outra, não se eximiam em mostrar os seus dotes de dançarinos, arrastando para esta dança alguns elementos da população.
Agora, mandaram-nos assentar arraial mais longe da Feira, parece que a sua presença incomóda muita gente. A “corredoura”, local onde se corria (experimentava) as bestas ou cavalos, era só deles, no meio de um enorme pó e do calor de Maio, corriam com as bestas para trás e diante tentando evidenciar alguma característica do bicho que queriam vender, sempre falando alto e com um alarido enorme trocavam e destrocavam o mesmo burro ou mula duas ou três vezes no mesmo dia.
As famílias de Ciganos, de várias gerações, que costumam vir à Feira de Garvão, há muito que são conhecidas da população, principalmente dos negociantes, arte em que se tornaram mestres na sua vida de nómadas, os últimos nómadas do continente, que apesar de todas as vicissitudes da vida, teimam em manter o seu estilo de vida próprio, longe de influências externas.

IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A DANÇA DE GARVÃO

A DANÇA DE GARVÃO“

     Na vila de Garvão, até há relativamente pouco tempo, meados dos anos de 1960, todos os anos, era costume aparecer a “Dança”.
     Era um costume muito antigo, que foi passando de geração em geração até aos nossos dias, que as pessoas da terra, espontaneamente, davam continuação, geralmente pelo Carnaval.
     Acredita-se que no passado a Dança tivesse surgido por outras finalidades, mas que agora, desenquadrada do modo de vida que lhe deu origem, tenha sobrevivido como mero entretimento das populações.
     Os dançarinos, ensaiavam meses antes da saída, por vezes aproveitavam o ensaio para pisar algum solo de terra batida dalguma casa que precisasse e que estivesse em construção.
     Os dançarinos, geralmente 6 ou 8 pares, trajavam-se a rigor, vestiam roupas alegres, que enfeitavam com fitas de pano e flores de papel às cores, usavam, também, xaile e chapéu que forravam com papel e flores coloridas.
     Nos últimos tempos da sua saída dançavam 3 danças, a dança das Voltas, a dança das Fitas ou do Mastro e a dança dos Arquinhos, que é a única dança cantada, mas, segundo informação dos mais idosos, sabe-se que há cerca de 80 anos dançavam-se mais duas danças: a dança das Espadas e a dança dos Guizos.
     Por vezes, na vila, aparecia mais do que uma “Dança”, havendo notícia de num ano terem surgido 5 “Danças”. Nos últimos tempos, eram acompanhadas, musicalmente, ao som da flauta, e por vezes por acordeão e rebeca (violino), eram também utilizadas pandeiretas, pratos e bombos. Contudo, há conhecimento do acompanhamento musical, em tempos mais recuados, ser ao som de viola alentejana ou d’arame.
     Os dançarinos corriam a vila, de rua em rua, e a freguesia e os lugares mais próximos, de monte em monte, em deambulações que por vezes chegavama durar meses, prolongando-se até Maio.
     Se por uma questão de oportunidade procuravam o Carnaval para saírem, porsua vez, depois de estarem na rua a “Dança”, e a progressão de terra em terra, prolongava-se por vários meses. Durante esta “peregrinação”, a dança era composta só por homens, mascarando-se, alguns de mulher para formar o par.
     Nos lugares onde actuavam, as pessoas costumavam oferecer-lhes, essencialmente pães, linguiças e algum dinheiro. Este tipo de dança, ao que parece, não se restringia só a Garvão, era também conhecido e dançado nas terras vizinhas do interior alentejano, assim como são amplamente conhecidas e dançadas, em vários países da Europa.
     Há quem as relacione com a antiguidade e os tempos pré-históricos, com as danças da fertilidade que se dançavam no início de cada ciclo agrícola, a celebração do renascer da vida, de um novo ciclo vegetal e animal, depois dos meses das trevas, do inverno e das chuvas.
     Os Romanos celebravam o novo ciclo de vida no 1º de Maio com as festas das “Maias”.Segundo Bob Pegg, in “Rites and Riots: folk customs of Britain and Europe” (Blandford Press, 1981), ainda hoje em Elstow, Bedford, em Inglaterra, realiza-se o festival de Maio, assim como em Northfleet, Kent, ou em Staford-on-Avon, Warwickshire, também em Inglaterra.
     A dança dos Mastros dança-se ainda em França, em Bayonne e, em Villafranca na Espanha, entre vários outros países Europeus.
     Talvez sejam raízes culturais comuns, antiquíssimas, talvez de influência Celta, que sobreviveram até aos nossos dias e se encontram espalhadas por uma boa parte da Europa.
    
Os Pauliteiros de Miranda e os Escoceses, ao usarem ambos saias e tocarem gaita de foles, talvez não sejam meras coincidências, e um bom exemplo, destas reminiscências comuns do passado.

LETRA DA DANÇA DOS ARQUINHOS (Única Dança cantada).

Ó moças façam arquinho
Ó moças façam arcada
Para passar o meu benzinho
Para passar a minha amada

Para passar a minha amada
Para passar o meu benzinho
Ó moças façam arcada
Ó moças façam arquinho 

DANÇA DOS GUIZOS E DAS ESPADAS: “MORRIS DANCE IN SOUTH PORTUGAL”
     Uma vez, a Dança, foi dançar ao Lar deOurique, onde se encontrava o Ti’ Chico Charrua, natural de Garvão, e nessa altura,em 1995, com cerca de 85 anos de idade, no fim da actuação, disse-nos assim, mais ou menos, com estas palavras: “Deviam ver quando eu era pequeno, isso é que era dançar, a malta ia às arramadas, e trazíamos os guizos das bestas, punham-se nas pernas ou nos peitos e aquilo é que era dançar”.
     Foi assim com esta introdução que o Ti’Charrua, já falecido, pela publicação deste livro, deu a conhecer a existência de outro tipo de dança em Garvão de que não havia ideia.
     Ora, este tipo de dança, é conhecido, na Inglaterra, como a dança dos “Morris”, e para grande alegria dos folcloristas ingleses que a julgavam perdida, foire descoberta nos anos de 1930, numa aldeia do interior Inglês, segundo Bob Pegg, Rites and Riots: folk customs of Britain and Europe; Blandford Press, 1981.
     Pois a dança que o Ti’ Charrua nos acabou de informar é tal e qual a dança dos “Morris” Ingleses, e era acompanhada por qualquer instrumento que houvesse na altura, de preferência uma viola d’arame ou uma rebeca (violino).
     De facto, em Garvão, e nas terras vizinhas, só os habitantes com 85 anos de idade, ou mais (em 1995), é que se lembram desta dança e da dança das espadas.


IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.


 

JOSÉ JÚLIO DA COSTA

 

       


JOSÉ JÚLIO DA COSTA - O homem natural de Garvão que matou o Presidente da República, Sidónio Pais.
    
    
José Júlio da Costa nasceu em Garvão, no dia 14 de Outubro de 1893, no seio de uma família de proprietários, considerada abastada para a época. 
     
Os pais, também de Garvão, eram Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, e era casado com Maria do Rosário Pereira Costa de quem não houve filhos.
     Era o segundo filho de sete irmãos, um dos quais, “Senhor Celestino da Costa”, como era conhecido, era esposo da professora D. Ilda, e foi o primeiro presidente da Junta de Freguesia de Garvão depois do 25 de Abril. José Júlio da Costa, assentou praça ,no exército, como voluntário, aos 16 anos em 21 de Maio de 1910.
      Combateu na Rotunda, pela implantação da República, nos dias 4 e 5 de Outubro desse ano. Ofereceu-se como voluntário paraTimor, Moçambique e Angola, onde recebeu um louvor em 27 de Dezembrode 1914.
      Deixou o exército a 11 de Abril de1916 com o posto de Segundo Sargento. Pela Grande Guerra, (1914/18), ofereceu-se como voluntário para combater a Alemanha, o que não conseguiu.
      José Júlio da Costa, nas entrevistas que deu, antes da sua morte, mostra claramente o seu descontentamento generalizado com a política seguida por Sidónio Pais, a quem acusa de traição aos ideais da revolução Republicana de 1910, por ser adepto da Alemanha e de alinhar ao lado dos Monárquicos e Clero, inimigos da República.
      De facto, Sidónio Pais governou em ditadura, pela política que implementou. Pode-se afirmar que foi o percursor de regime fascista nascido a 28 de Maio de 1926, que levou Salazar ao poder.
      Sidónio Pais, sublevou as instituições democráticas nascidas com a revolução republicana e fez-se “coroar” presidente à revelia do Congresso e da Constituição Portuguesa.
      No seu breve ano de governação foi suficientemente demonstrativo do cariz fascisante da sua política ditatorial. Liquidou o sistema parlamentar democrático, impôs a censura à Imprensa, centralizou os poderes, criou a polícia preventiva, rearmou a polícia pública, empregou uma enorme demagogia nos seus discursos políticos, transferiu para Lisboa as unidades militares da sua confiança, atulhou as prisões com milhares de adversários republicanos; num ano de governação passaram pelas prisões de África e do país cerca de 20 mil pessoas.
      José Júlio da Costa acusa também Sidónio Pais de ter abandonado, à sua sorte, o Corpo Expedicionário Português que combatia nas Flandres em França, na Grande Guerra de 1914-18, provocando a morte a cerca de 3000 soldados, sargentos e oficiais.
     Tudo isto reforçou a convicção em abater Sidónio Pais, já ciente na sua mente, depois da traição perpetuada nos trabalhadores rurais do Vale de Santiago, facto que viria a consumar no dia 14 de Dezembro de 1918, na Estação do Rossio em Lisboa, com 25 anos de idade.
     Depois de ter morto Sidónio Pais, José Júlio da Costa, foi preso e brutalmente agredido, logo ali no local, e levado posteriormente para a Escola de Guerra onde sofreu novos suplícios no seu corpo já ensanguentado. Preso, José Júlio da Costa sofreu todo o tipo de agressões, incluindo disparos, a meio da noite, para dentro da cela. 
    
Os seus próprios familiares,sem terem nada a ver com o caso, foram molestados pelas autoridades, inclusivamente a sua mãe e a sua esposa, Rosária Pereira Neves Costa, foram presas nos calabouços do governo civil, onde ficaram incomunicáveis (Jornal “O SÉCULO”página 3 de 18 de Dezembro de 1918).
     Ainda hoje, algumas pessoas da vila falam de tal, e ainda se lembram do estado
que a D. Maria Gestrudes chegava à vila depois de ir ver o filho a Lisboa.
     A mãe, antes de morrer, só pediu uma coisa: que levasse consigo o retrato do filho quando fosse enterrada. José Júlio da Costa morreu a 16 de Março de 1946, no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, com 52 anos de idade, com a razão toldada por 28 anos de prisão sem nunca ter sido julgado, completamente esquecido nas prisões do regime.


A GREVE GERAL DE 1818 E AS OCUPAÇÕES DE TERRAS EM VALE DE SANTIAGO.
     A história de José Júlio da Costa não se resume só ao homem que matou um Presidente da República, porque Sidónio Pais era acima de tudo, pelas políticas que tomou, e implementou, um ditador.
     É também a história de toda uma luta de classes, pela posse da terra, que assola o Alentejo de tempos a tempos.
     É a luta dos que não têm terra, em oposição aos que a têm e não a desfrutam, ou não dão trabalho a quem precisa.
     É também a história de como toda uma população, de um dia para o outro, se viu despojada dos mínimos meios de subsistência, a que estava habituada porséculos de vivência com a usual posse de terra.
     Tal uso, foi alterado com as revoluções liberais, da primeira metade do século XVIII, e subsequentes alterações efectuadas no sistema fundiário e venda dos baldios, o que de um momento para o outro privou a população mais pobre de alimentar o gado, apanhar lenha ou ter a sua própria horta. Situação esta, de privação do mínimo uso da terra para as suas necessidades alimentares básicas, que ainda está muito fresca na memória dos sem terra Alentejanos, que eructa de tempos a tempos com uma total negação à posse de terra pelos seus actuais proprietários.
     É neste enquadramento social que surge José Júlio da Costa, como intermediário entre as autoridades e os revoltosos do Vale de Santiago, uma freguesia do Concelho de Odemira.
     A população do Vale de Santiago no seguimento de uma Greve Geral Nacional, convocada pela U.O.N. (Central Sindical Anarquista), e motivada pelos “ventos quentes” vindos da Europa do Leste, pela revolução dos Sovietes na Rússia em Outubro de 1917, pegaram nas suas rudimentares alfaias de trabalho e ocuparam celeiros e propriedades, a reivindicar, basicamente produtos alimentares e trabalho para sustento das suas famílias.
     José Júlio da Costa serviu como intermediário na contenda, a pedido das autoridades, e convenceu os trabalhadores a renderem-se, com a promessa de que não seriam presos.
     As autoridades políticas e policiais faltaram à palavra dada a José Júlio da Costa, de que, se os revoltosos se rendessem, não seriam castigados, prendendo-os logo a seguir e deportando-os para África.
    
José Júlio da Costa, sentindo-se traído, jurou vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, matando o ditador Sidónio Pais. Ainda o barco que levava os revoltosos para África, para onde tinham sido desterrados, pelos tribunais do regime, não tinha chegado ao destino e já Sidónio Pais jazia com dois tiros de pistola na estação do Rossio (Lisboa), disparados por José Júlio da Costa, que, assim, jurara vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, que confiaram na sua palavra de que não seriam molestados caso se rendessem às autoridades


Carta de JOSÉ JÚLIO DA COSTA. Escrita dois dias antes do atentado, confessando o acto que se propunha fazer ao seu amigo Francisco Ernesto Goes, proprietário na Barquinha: 
(1ª folha)Lisboa, 12 de Dezembro de 1918 Meu caro amigo Ernesto Não avistei a pessoa que me preocupa, espero que o encontro será no dia 14, e oxalá possa eu prestar com o meu sacrifício o fim que tantas almas anceiam. Hoje falei com o Dr. Magalhães Lima, elle está muito doente receio muito pela sua vida que tão preciosa é a esta nossa tão amada terra. Não me foi possível falar-lhe no magno assunto, nem talvez tenha já tempo de o fazer. Deixá-lo depois que façam o que o seu sentimento patriótico lhes designar
(2ª folha) Não é tão fácil como me pareceu a minha Missão, mas com um pouco de arrojo posso consegui-lo. Levo do lado do meu coração o envolto na nossa bandeira a estrofe que te faço cópia. Mandei tirar fotografias grandes no Grandella, não tenho tempo
de te enviar uma por isso te recomendo que requisites depois alguma para ofereceres aos nossos camaradas de ideias. Não tenho ninguém compro- metido no meugesto, só eu! Abraça-te o teu amigo José Júlio da Costa


JOSÉ JÚLIO DA COSTA E A MAÇONARIA
     Na Vila de Garvão, diz-se que José Júlio da Costa matou Sidónio Pais a mando da Maçonaria e, que ao se escolher quem deveria realizar o acto, José Júlio da Costa fo iescolhido porque tirou a palha mais comprida, num sorteio através de palhas presas na mão de uma pessoa.
     Mas é improvável que, José Júlio da Costa, fizesse parte, ou tivesse morto Sidónio Pais a mando da Maçonaria.
    
Contudo, José Júlio da Costa, nutria uma grande simpatia pela Maçonaria e pelo seu Grão-Mestre, Sebastião de Magalhães Lima, tendo inclusivamente chegado à fala com ele e escrito-lhe uma carta sem mencionar o magno assunto a que se propusera fazer, carta esta encontrada nos bolsos do Grão-Mestre quando foi preso.
     De facto o Grão-Mestre da Maçonaria, depois da morte de Sidónio Pais, passou um mau bocado, tendo sido preso e agredido no Governo Civil nessa mesma noite da morte da Sidónio Pais, sob a suspeita de ele ou a sua organização, terem instigado o atentado.
     A suspeita da implicação da Maçonaria, na Morte de Sidónio Pais foi na altura, largamente alardeada pelos círculos Sidonistas da capital, como a explicação mais lógica para o atentado.
     Esta pista, seguida por certos jornalistas e investigadores, mostrou-se fútil e sem qualquer fundamento digna de crédito, tendo contudo a semente germinado no ideário popular.
     Um dos motivos apontados, pelos defensores desta tese, é o facto de Sidónio Pais ter sido Mação, e a Maçonaria não perdoar aos seus antigos membros que se mostrem renegados ou que abandonem a organização, criando assim o mito que Sidónio Pais teria sido morto por outro Mação que seria José Júlio da Costa.
     Outro motivo, apontado, que levaria a concluir a cumplicidade da Maçonaria na morte de Sidónio Pais, era o conhecido apoio dado pela Maçonaria à República e aos republicanos que Sidónio Pais vinha traindo e prendendo, tendo inclusivamente a sede do “Grande Oriente Lusitano Unido” (Loja Maçónica Portuguesa, vulgarmente conhecida por Maçonaria), sido invadida e saqueada oito dias antes do atentado, devido, precisamente, a outro atentado à vida de Sidónio Pais que saiu malogrado.


MAÇONARIA OU CARBONÁRIA?
     A Maçonaria era/é uma organização secreta, elitista e urbana, de que muito dificilmente José Júlio da Costa faria parte. Quando muito, e no caso de José Júlio da Costa fazer parte de alguma associação secreta, devido ao seu empenhamento político, teria sido a Carbonária, esta sim um movimento mais rural e com forte implantação nas províncias.


IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.


 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...