quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O POETA GOMES LEAL e o ALFAIATE JOÃO DA GRAÇA

Desafio de poetas em Garvão

          No livro Sul e Sueste, de Joaquim da Costa, de 1940, consta a vinda de um poeta da cidade, António Gomes Leal, para um desafio de poetas na vila.
          Segundo o mencionado livro, o encontro, realizou-se na hospedaria do Manuel Rosa e acompanhado de um farto jantar, onde o digno convidado, não se fazia rogado em elogiar as qualidades das meninas Rosas.
          Entre os vários presentes, encontrava-se João da Graça, conhecido poeta da vila, alfaiate de profissão que defendeu as cores da terra, nesta contenda poética.
            Aqui o poeta de Lisboa, depois de bem comido e bebido, voltando-se para uma das amáveis meninas Rosas, que serviam à mesa, recitou o seu soneto:


Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
A lira, pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a nupcia sagrada,
Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.


Se a terra, às vezes, cria flor que não inspira,
A teatral camêlia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada,
Como a perdida côr de alguma flôr que expira.

 

Há plantas ideais, dum cântigo divino,

Irmãs de oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmezim...


A magnólea é uma harpa etérea e perfumada,
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensangüentada,
Tem notas marciais: soa como um clanim!


          Os aplausos coroaram o fecho do soneto. O vinho espumava nos copos e a alegria comunicou-se a todos os presentes.

         Chegou depois a vez do poeta João da Graça e dedicou os versos à filha por estar doente e vendo-a chorar, recitou :


Lágrimas vertidas
caídas
De uns olhos inocentes,
Não são lágrimas;
São estrelas cadentes,
Estrelas do céu desprendidas...


Cada uma delas
É mimosa flor
Que no meu peito se vem dispor


 Hei-de cuidâ-las,

Hei-de regâ-las
Com igual pranto
Se o meu sentimento me chegar a tanto!...


          Estes versos causaram sucesso, os aplausos foram muitos e calorosos e finalizaram o desafio com um abraço entre os dois poetas.

MARATECA em GARVÃO

          Surge no livro da Misericórdia e do Sagrado Espítito Santo de Garvão a denominação de um lugar denominado por Marateca, este lugar, segundo o mencionado livro, deveria situar-se junto à travessia da ribeira, senão fosse mesmo o lugar da própria travessia ou de alguma característica desse lugar, como se verá.
          Surge, assim, na folha 122 verso:
Traslado d'Escriptura de Confissaõ de Divida Com obrigaçaõ de paga de proprio, e juros da quantia de vinte quatro mil reis, (...) que fazem Diogo Mendes Lopes d'Azevedo, e sua Mulher Catharina Maria moradores nesta villa, (...) sendo no anno de mil outo centos vinte e seis, aos quinze de Settembro a quantia de vinte quatro mil reis metalicos a razaõ de juro de cinco por cento por tempo de hum anno (...) no dia trez d'Outubro de mil outo centos vinte e quatro, (...) em especial hum quintal com arvores manças sito junto ao Lagar do Azeite nesta villa, foreiro ao Conselho desta mesma em outenta reis, e parte do Norte com dito Lagar, do Nascente com Largo, do Sul com Marateca, e do Poente com terra do Conselho.
         O mencionado lagar de azeite, a qual parte do Norte, situava-se no actual Largo da Amoreira, nessa altura denominado por Largo do Lagar o qual parte do nascente, do Sul com Marateca, (seria a estrada que atravessa a ribeira) e no Poente com terras do concelho, (presume-se que seja, ou a própria ribeira ou algum talhão de terreno, como actualmente se observa a Norte da ponte).
          Sobre a palavra Marateca não se tem encontrado nos vários diccionários de português antigo, qualquer referência credível a esta palavra.
         Encontra-se uma designação de origem árabe: Marateca (Mar’a at-Taqia, mulher devota) e encontra-se igualmente uma lenda sobre uma moura raptada e que terá dito Mar-até-cá, quando chegou ao lugar actualmente conhecido por Marateca, no concelho de Palmela.
         Contudo a palavra Marateca, encontra-se amiúde na toponomia portuguesa, seja no Norte como no Sul do país.
          Todos eles têm em comum o facto de se situarem junto a cursos de água e mais concretamente com a actividade de recolha de materiais para construção, nomeadamente, areias e cascalhos.
          Julga-se assim que o leito da ribeira, antes do nivelamento e da cobertura das margens e do leito à base de cimento, como se observa actualmente, a chamada placa, permitia a recolha desses materiais, cujo acesso era facilitado pela falta de ponte cuja construção é do início do século XX, (existe memória de uma ponte em madeira para peões, mas o trânsito de cargas pesadas de tracção animal e carroças, fazia-se pelo leito da ribeira).
         Fazia-se assim a passagem entre as duas margens pela própria ribeira, cujo leito permitia a recolha das areias e cascalhos deixados pelas cheias invernais. Ainda nos anos sessenta do século passado, antes da construção, a Sul, da segunda parte do nivelamento da ribeira, junto à ponte do perú, no caminho para o furadouro, se observava a recolha de areão e burgau, pela população, para as mais variadas tarefas de construção.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

JOSÉ JÚLIO DA COSTA



José Júlio da Costa, O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio.

 

          Fez, em 14 de Dezembro de 2018, cem anos, sobre o acto cometido por José júlio da Costa, natural de Garvão, que vitimou o presidente da República Sidónio Pais.

          Falar do homem que matou um presidente da República não é fácil porque já foi quase tudo dito, ou pelo menos: onde nasceu e quando morreu, nome dos pais, nome da esposa, porque cometeu o atentado, (segundo as várias versões), com quem jantou, com quem falou, onde dormiu, que pistola tinha e pouco mais se adianta, como se um atentado desta natureza pouco mais tivesse de interesse.

            Contudo a questão é muito mais complexa do que isso.

            A história de José Júlio da Costa é uma história empolgante cheia de mistérios e enredos, de fugas, cabalas e maquinações que subverteram o estado de direito e o remeteram a uma prisão eterna sem julgamento.

          Não faltam as conspirações políticas na história de José Júlio da Costa, nem os enredos policiais, nem as conjuras e intrigas político-partidárias, não foram só os acontecimentos do Vale de Santiago, pela Greve Geral que o comprometeram politicamente, não foi só a traição à sua República por Sidónio Pais, não foram só os arruaceiros de rua dos Democráticos que o empurraram a cometer o atentado, foram também os investigadores policiais que não prosseguiram com as devidas investigações, foi também o médico prisional, António José Furtado de Mendonça Boavida, que forjou um boletim clinico, foi também um procurador da República, Pais Rovisco, que o internou num hospital de malucos e o subtraiu ao julgamento. 

          José júlio da Costa, não era louco nem morreu esquizofrénico.

          O estado de loucura interessava a muita gente e muita gente pactuou com esta cabala que o impedia de ter um julgamento justo e imparcial.

          Afinal o que sabia e o seu depoimento em tribunal iria comprometer muita gente. Uns, os cabecilhas do reboliço da primeira república, enchiam agora a Assembleia Nacional do Estado Novo, outros, os arruaceiros de rua ao serviço dos partidos, preenchiam agora as vagas na nova policia politica.

           Afinal a sua prisão logo no início da ditadura não foi por mero acaso. TAGS: O assassino de Sidónio Pais. A morte de Sidónio Pais, Quem matou Sidónio Pais. O homem que matou Sidónio Pais.

Ficha Técnica

Autor José Pereira Malveiro
Título José Júlio da Costa
Data da Publicação Dezembro de 2018
ISBN 978-989-601-789-0
Depósito Legal 447578/18
Idioma Português
Formato  A5
Tipo de encadernação      Capa mole - colado
N.º de páginas 248

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 12ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
FINAL e MORTE
de JOSÉ JÚLIO da COSTA
Parte 12 (de 12)


          O “famigerado heroi do crime grande da estação do Rocio” morreu em 16 de Março de 1946, com a idade de cinquenta e dois anos, internado no Hospital Miguel Bombarda ao fim de vinte e oito anos de prisão, sem nunca ter sido acusado nem julgado do acto que vitimou Sidónio Pais.
          O que eventualmente poderia depor sobre o seu percurso de militância politica na capital, no período anterior ao golpe de Sidónio Pais, junto de companheiros que anos depois estavam nas fileiras da nova policia politica; os incitamentos e influências que o motivaram para cometer o atentado; os complots que se sucederam e culminaram na sua libertação pela “noite sangrenta”; quem o protegeu e sustentou durante os anos seguintes; o seu conhecimento sobre os tramas que se conspiravam nos bastidores dos partidos políticos; sobre as convulsões porque passou a República, comprometia muita gente que agora fazia fileira no novo regime do “Estado Novo”.
          De facto o depoimento de José Júlio da Costa em julgamento não interessaria a muita gente saída dos meios revolucionários pré Sidonistas e pós 28 de Maio e que engrossavam agora as fileiras do “estado novo”. Se a nova Assembleia Nacional 1 se enchia agora dos cabecilhas e dirigentes partidários recentemente convertidos ao novo regime: a nova tropa de choque; a polícia politica, os informadores e demais denunciadores saíram dos arruaceiros de rua que caracterizaram a primeira republica e que já Sidónio Pais tinha ensaiado na sua nova polícia politica.
          O diagnóstico de esquizofrenia interessava a todos e todos pactuaram com essa desculpa que justificava o seu aprisionamento sem ser julgado em tribunal e o impediu de divulgar o que sabia.
          Segundo João Paes, neto de Sidónio Pais 2 , “Ele foi protegido, sem sombra de dúvidas, é inconcebível que um assassino de um presidente da república não seja julgado, não seja condenado e posto simplesmente em prisão preventiva como se estivesse em banho maria á espera que se fizesse qualquer coisa”
          Fruto dos tempos, espírito arrebatado, assanhado ou encarniçado, José Júlio da Costa irradiava poder, perturbava espíritos, sublevava emoções e alimentava esperanças. José Júlio da Costa nasceu com o republicanismo entranhado nas costas, com a obsessão dum revolucionário dividido entre a mera existência e a auto-afirmação, entre a liberdade que advoga e a tirania que repudia, imagina-se como sendo ele próprio o salvador, numa escalada mental que o leva à auto-alineação.
          Mas poder-se-á ignorar a sua capacidade intelectual? Não estaria de facto letrado nas obras de autores como Tolstoi, Darwin, Nordau, Teófilo Braga, Buchner, Kropotkine, Malatesta ou Sebastião Faure? Poder-se-á ignorar o seu percurso de combatente republicano e descarta-lo como louco? Afinal pela implantação da Republica não estava ao lado de Machado Santos, na Rotunda, com apenas dezasseis anos? Não foi afinal como voluntário combater a rebelião em Timor em 1911? E os Alemães em Angola em 1914? Não se ofereceu inclusivamente para combater na Grande Guerra? Poder-se-á igualmente ignorar os contributos que deu como militar e civil para a consolidação da Republica? Afinal o que será preciso para alguém ter o reconhecimento devido? Com um percurso destes, na sua mente, claro que se pode dizer que se sentia mandatado para eliminar os traidores à «sua» Republica.
          A morte grande da Estação do Rossio ficará para a história como um acto violento perpectuado contra o presidente da República da altura, mas poderia este caso ter acontecido sem a degradação moral, política e das instituições a que chegou a sociedade portuguesa? A primeira República será recordada como um período de governos instáveis e efémeros, de golpes violentos, de forte bulício político e extremação de emoções partidárias que permitiu o surgimento tanto de ditadores como de vingadores.
          José Júlio da Costa, preso, desesperava pela revolução que lhe quebraria as amarras da prisão e o colocaria no mais alto pódio dos heróis nacionais; por ter livrado o país de um ditador; por devolver o governo aos democráticos; por ter apressado o retorno dos militares que lutavam em França durante a Grande guerra, por tudo isso e muito mais, não viu o seu feito ser projectado para o patamar do reconhecimento nacional.
          José Júlio da Costa poderá não ter o devido reconhecimento que esperava, mas também não se poderá ignorar o cariz do ditador que abateu, se Sidónio Pais inaugurou a génese de um sistema politico que caracterizou o século XX, com as graves consequências por demais conhecidas, então também o gesto épico de José Júlio da Costa e o seu lugar na história terá de ser reconhecido.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

PEDRA à ESQUINA da LOJA do SR ZÉ CONDUTO

 



 

Em forma de mó
          A Coluna “Romana” que se encontra na travessa do Álamo, não constitui o único vestigio de interesse arqueológico que se encontra nas ruas da vila, tempos houve em que outra coluna se encontrava na rua das hortas, pedras de cabeceira de sepulturas nos quintais junto ao castelo, pedra mármore junto ao cemitério velho, outra pedra mármore num quintal da travessa do Álamo, entre outras como a que a seguir se relata.
          Junto à porta da loja do Sr Conduto, loja de roupas e chapelaria nos anos sessenta do século passado, na rua Direita, à esquina da ladeira que dá para a ribeira, estava uma pedra redonda em forma de mó, de grandes dimensões, branca, possivelmente de calcário ou de mármore.
          As suas dimensões não correspondem ao tamanho das pedras de mó conhecidas, demasiado larga, alta e pesada para tal função, terá de se procurar a sua utilização noutra actividade.
          Desconhece-se igualmente quanto tempo lá esteve ou quem para lá a levou. Terá sido descoberta no local onde se procedeu posteriormente à construção que lá se observa? Terá sido para lá levada para ser partida e utilizada na própria construção? Terá vindo de algum outro lugar, mesmo de algum lagar antigo, como o lagar de azeite que se encontrava no Largo do Lagar? (hoje Largo da Amoreira). São questões que obviamente se desconhece e sem ser devidamente examinada também se desconhece o seu valor patrimonial e histórico.
          A pedra foi eventualmente deslocada, ladeira abaixo e hoje encontra-se incorporada na parte lateral da ribeira, a nascente, entre a actual ponte pedonal e a última casa do lado esquerdo.

sábado, 8 de dezembro de 2018

JUDEUS em GARVÃO

Guedelhas e Levis
          A menção a uma comunidade judia em Garvão remonta ao princípio da nacionalidade e segundo Mayer Kayserling, esta presença era mesmo anterior à reconquista, pois na sua História dos judeus em Portugal, do século XIX, menciona que D. Afonso III e D. Diniz nos foros que concederam ás terras arrebatadas aos Mouros após a conquista do Algarve, não excluiram os Judeus e as terras onde viviam em grande número como em Garvão. Volta a mencionar, no mesmo livro, que a comunidade de judeus em Garvão se encontrava entre as mais importantes do reino.
         Pela sua afluência à feira de Garvão ou pelas suas andanças pela Estrada Real do Algarve,  mantiveram-se, como comunidade ciente da sua origem, até praticamenteo ao século XX, havendo conhecimento actualmente de descendentes destas famílias ainda a residir na vila de Garvão.
          A Carta de Foral de Garvão de 1267, menciona, em várias cláusulas, leis referentes aos judeus, nomeadamente os que se dedicavam ao empréstimos de dinheiro, Os Onzeneyros.
         A família Guedelha, era uma família muito antiga de Judeus em Portugal. Em 1304 D. Dinis concedeu a D. Guedelha, sucessor de seu pai no Arrabiado-Mor do reino e tesoureiro da rainha mãe D. Brites, 2 torres em Beja para que fizesse casas. Outros elementos da família Guedelha distinguiram-se, também, em várias áreas e em várias épocas ao serviço dos reis de Portugal.
          Surge igualmente, num livro da Santa casa da Misericórdia da vila de Garvão, um indivíduo de nome Gadelha, a partir do ano de 1769, de nome completo Manuel Guerreiro Gadelha morador no Monte Zuzarte. Ainda residem em Garvão, familiares de um indivíduo chamado João Gadelha falecido por volta de 1930.
          Sobre a presença de famílias de nome Levi em Garvão, chegou-nos a informação(1) de um Levi José Camacho, filho de José Camacho e de Luísa Maria Botelha, (casaram em 1814), casado com Isabel Maria que foram pais de João Levi Camacho, de São Martinho das Amoreiras, que casou com Leonor Malveiro, de Garvão. Tiveram dois filhos, uma filha de nome Maria cujo padrinho foi Manuel Levi Camacho, (possívelmente irmão de João Levi Camacho), e um filho de nome Beijamim. Descendentes da famíia Camacho ainda residem em Garvão
          Levi José Camacho foi ainda padrinho de Constança, nascida a 2/3/1895, filha de Margarida Malveiro e de outro individuo de nome Levi, filho de Mariana Candeias, nascido pela mesma altura.
          Tanto os nomes de família Guedelha, Levi e Benjamim são comprovadamente de origem hebraica.
         Gedalia, Gedaliah ou Gedaliahu significa "Deus é grande". Na Torá, Gedaliah foi o governador da Judéia, designado por Nabucodonosor.
         Levi, significa "reunido a", ou "atendente de" com a conotação de devoção, amizade. Levi na Torá era o terceiro dos doze filhos de Yaacov. A mãe era Leah. Os descendentes de Levi eram os sacerdotes e levitas que serviam no Templo de Jerusalém.
         Benjamim, significa "filho de minha mão direita", com a conotação de força. Benjamin era o mais jovem dos doze filhos de Yaacov na Torá.


1 - Cortesia de Beatriz Rodrigues

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 11ª Parte


CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SEGUNDA PRISÃO
Ou o Resgate em 1927
Parte 11 (de 12)

              José Júlio da Costa só em 14 de Janeiro de 1927, sexta-feira, volta a ser preso, em Matosinhos, no hotel Central, onde se encontrava protegido pelo proprietário Alberto Midões, em circunstâncias ainda não plenamente esclarecidas, por António Maria Fernandes, funcionário público, apoiante de Sidónio Pais e sidonista convicto. José Júlio da Costa volta à Penitenciária de Lisboa de onde só sairá para o hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, aonde viria a falecer em 28 de janeiro de 1948.

          António Maria Fernandes não seria um obscuro funcionário público, como os jornais da época fizeram crer, seria um dos muitos que Sidónio Pais aliciou para as suas fileiras, nomeadamente para a sua Policia Preventiva. O seu percurso coloca-o no meio dos círculos revolucionários que agitavam o país antes de Sidónio, de facto António Maria Fernandes era conhecido de José Júlio da Costa e andaram pelos mesmos círculos do desassossego politico.
          O jornal “O Século”, de 16 de Janeiro de 1927, relata “O senhor António Maria Fernandes, funcionário público, é aquele indivíduo que, na noite de 19 de Julho de 1925, fardado de capitão, subiu para bordo do “Vasco da Gama”, acompanhando o comandante Mendes Cabeçadas, a fim de revoltar a guarnição daquele barco”. Ora não será um reles funcionário publico que tem acesso directo ao ministro, nem muito menos veste a farda de capitão e subleva a tripulação dum navio com o futuro primeiro-ministro, (Presidente do Ministério).
          A sua actuação só se compreende dentro dum quadro politico em que alguns membros dos grupos de civis armados ao serviço dos partidos, inclusivamente da carbonária e da Formiga Branca, tenham feito a passagem, como muitos outros, para a nova policia politica.
          As circunstâncias da iniciativa de tal prisão, não estão cabalmente esclarecidas. Era certo que com a mudança política os apoios que o sustentaram esses anos todos, começaram a rarear. Era certo, igualmente, que as ajudas familiares se tornavam insustentáveis devido à falta de rendimentos provenientes das propriedades da esposa, vendidas anteriormente e cujas receitas José Júlio da Costa já há muito tinha desbaratado e, às dificuldades financeiras da restante família. Terá de se entender que tal inciativa terá sido o resultado de um aglomerar de circunstâncias a que o próprio José Júlio da Costa e respectiva família não eram alheios.
          Assim, por ordens superiores ou por iniciativa própria e combinado com os familiares de José Júlio da Costa e com o conhecimento deste, António Maria Fernandes munido de um salvo-conduto que o permitia requisitar as forças da ordem, parte primeiro para Garvão e Algarve e, seguidamente, acompanhado por um irmão de José Júlio da Costa, para o Norte onde viria a efectuar a prisão, segundo a versão da imprensa na altura, ou o resgate, segundo a opinião de alguns familiares que o aconselhavam a entregar-se.
         O jornal O Século de 16 de Janeiro de 1927 relata que: várias pessoas da família o aconselharam a que se entregasse à prisão, e que este se recusava com medo de represálias, tudo leva a crer que, com a mudança política e uma vez dissipadas essas dúvidas, esperaria pela libertação, como parece ser pelo facto de não se ter ausentado do lugar habitual e das características da sua captura.
          Esta acção, planeada dentro do círculo familiar, procurou tranquilizar o fugitivo de que não iria ser preso e alguém seu conhecido e da sua confiança o iria buscar e proteger, acompanhado pelo irmão. Esta nova oportunidade, catapultada pela nova dinâmica política, aliada à saturação dos anos em fuga, (e das dificuldades financeiras), terá sido a força fulcral, aproveitada pela família, para o convencer ou combinarem a sua captura e resolução da sua situação.
         José Júlio da Costa ao ver António Maria Fernandes, quando este o foi “prender” terá exclamado, “obrigado Fernandes por me vires buscar que eu estava farto disto”.
          De facto o seu regresso a Lisboa fez-se sem qualquer das características que caracterizam um preso, falta de algemas, falta de prisão por policiais, limitou-se a acompanhar o captor, convencido em como não estava a ser preso e seria solto ou levado para outro lugar seguro como acreditava.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.


GARVÃO nos PRIMEIROS MAPAS de PORTUGAL


A questão da antiguidade da chamada, “PONTE ROMANA” da Estação de Garvão, nos mapas de Fernando Alvaro Seco e de Pedro Teixeira Albernaz

          A primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental é a carta efectuada por Fernando Álvaro Seco e publicado em Roma em 1561.
          Em 1662, publicava-se em Madrid, a carta de Pedro Teixeira Albernaz, Description del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla...
          Tanto uma carta como outra serviriam de base, às diversas cartas e mapas de Portugal que se publicaram nos séculos seguintes. No inventário das localidades referidas pelo mapa de P. T. ALBERNAZ começaram por manter-se as mesmas áreas que tinham sido definidas no de A. SECO.1 
          As povoações do antigo concelho de Garvão, Garvão e Santa Luzia, aparecem, nos respectivos mapas, com as designações actuais, embora, no caso de Garvão, com alguns erros gráficos, nomeadamente no de A. Seco, em que a vila de Garvão aparece com a designação de GARNÃO.
          Segundo Maria Fernanda Alegria, O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação),2 esta observação de Maria Fernanda Alegria, leva-nos a tecer considerações sobre a antiguidade da chamada “Ponte Romana” da Estação de Garvão.
          Embora esta antiguidade seja discutida; pela falta de estudos que o confirmem; pela existência de um arruamento que atravessava a ribeira nesse local, (diante da Igreja de S. Sebastião); pela construção das edificações que respeitaram esse arruamento, aparece, contudo, no referido mapa, a poente da vila, a sinalização de uma ponte sobre a ribeira de Garvão.
          Nesta altura a vila limitava-se ao Serro do Castelo, não se tinha, ainda, estendido para nascente, para o outro lado da ribeira, assim a sinalização duma ponte, a poente, aponta para a referida ponte na Estação de Garvão, no trajecto da Estrada Real. De notar igualmente que a ponte, em alvenaria, que liga a parte antiga da vila à parte mais recente, (demolida no seguimento das cheias de 1997), é uma construção de meados do século XX. A ribeira que atravessa actualmente a vila, aparece igualmente no referido mapa, sem menção a qualquer ponte.

          Embora com algumas reticências, teremos de enquadrar a localização da ponte, mencionada nos referidos mapas, como a ponte da Estação de Garvão, precisamente onde, não só, a tradição oral, mas igualmente as publicações sobre a matéria, localizam a antiga Estrada Real no caminho de Lisboa para o Algarve.

          Assim a existência de uma ponte neste local, remonta pelo menos ao século XVI, se se trata de uma ponte muito mais antiga, datável ao periodo romano, só a devida intervenção arqueológica o poderá confirmar.


1 Maria Fernanda Alegria, O povoamento a sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206
2 Idem

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 10ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SOLTO na NOITE SANGRENTA
Em 19 de Outubro de 1921
Parte 10 (de 12)

                   José Júlio Costa seria libertado no seguimento dos acontecimentos da noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921.

             Libertado por um grupo de 300 civis armado, ter-se-ão dirigido ao hospital Miguel Bombarda e levado-o para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no norte do país, por um grupo de revolucionários, nomeadamente dois irmãos de nome Brás e outro individuo de nome Alberto Midões, proprietário do hotel Central em Matosinhos.
            Naquela noite fatídica, militares comandados pelo tristemente célebre cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, na chamada “camioneta fantasma”, circula pelas ruas de Lisboa prendendo aqueles que deverão ser mortos. São assassinados, nessa mesma noite, o próprio primeiro-ministro, (ou presidente do ministério como então se dizia), António Granjo e Machado Santos o herói da Rotunda, assim como José Carlos da Maia,1 o coronel Botelho de Vasconcelos e o comandante Freitas da Silva. Outros escaparam à turba assassina porque não foram encontrados.
            Se esta libertação era uma divida que se sarou para os seus antigos camaradas, o mesmo não se poderá dizer dos cabecilhas partidários, os mandantes, os que influenciaram e foram os responsáveis pelo reboliço político em que a Republica se transformou. Os seus acólitos libertaram-no mas foram os dirigentes políticos que proveram para a sua evasão, que proveram os transportes e os respectivos locais de fuga e para o seu sustento esses anos todos.
            Segundo o jornal A Capital,2 o próprio combustível do automóvel que o levou para o Norte foi fornecido pelo comando da polícia, No dia seguinte, conta A Capital, sai de Lisboa num automóvel de um «conhecido revolucionário», sendo a gazolina, queforam quatro latas, fornecida pelo comando da polícia, com a requisição assinada pelo conhecido comissário-geral major Carrão de Oliveira.3 
            Não se julgue contudo que depois desta libertação e nos meses seguintes José Júlio da Costa estava esquecido, pois Rocha Martins continuamente vinha a denunciar tal facto, nomeadamente nos Fantoches nº 48 de 1 de Dezembro de 1923, Neste panfleto tem-se pedido a todos os governos, a prisão do assassino de Sidónio Pais. Claro, que o medo nutrido pelo poder dos democráticos é tanto, que não se faz caso do que se escreve aqui e nos jornais decentes. Exigir a captura de um bandido, do matador de um chefe de Estado, é nobre missão de quem não uiva com os lobos daquele partido de traficâncias e de escandalo.Igualmente no número vinte e um na primeira página descreve os locais por onde tem andado, Os homens do 19 de outubro deliberaram, porém, pôr a salvo o criminoso, dar-lhe a fuga e a protecção. Como se fosse um benemérito, o José Júlio da Costa, exibicionista e excitado, é apageado agora em casa dum magnate republicano, umas vezes no Minho, logo noutra do Douro, amanhã em Traz-os-Montes, sempre de algibeireira cheia – porque mantem quotas para o seu sustento - e mostrando-se como um credor.4 
            A tese de que José Júlio da Costa não passava de um desequilibrado mental, vítima dos seus preconceitos políticos, e que procedera isoladamente, movido por uma doentia tendência de criminoso exibicionista, continua, todavia, a ser muito difícil de sustentar considerando-se a impunidade de que goza, depois do 19 de Outubro.5 


1 - Marta Maia, esposa de José Carlos da Maia, autora de “As minhas entrevistas com a Abel Olimpio “O Dente de Ouro”. Paginas para a historia da morte vil de Carlos da Maia, republicano - combatente de 5 de Outubro”. Publicado em Lisboa em 1928, revelou a identidade dos mandantes dos crimes, apesar dos nomes que avançou e das conclusões a que chegou, o processo judicial nunca foi reaberto ou os responsáveis castigados. Pelo que é referido por Berta Maia, Abel Olímpio teria sido aliciado pelo padre Lima, (ambos de Estevais da Vilariça), e a camioneta teria sido fornecida pelo tenente Mergulhão que juntamente com Fernando de Sousa, do jornal A Voz, mais Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereira e o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos crimes.

2 - Franco e Barriga, 2008. P. 108.

3 - Carrão de Oliveira viria a falecer em circunstâncias estranhas num acidente de automóvel. Em sessão da Câmara dos deputados de 10 de Agosto de 1922, o presidente desta, Domingos Leite Pereira, (dissidente democrático em 1920-21), Propôs à Câmara “Um voto de sentimento pela morte desastrosa do comissário geral de polícia de Lisboa, Sr. Carrão de Oliveira“, o qual foi aprovado, tendo igualmente o deputado Agatão Lança, (democrático), em nome dos Deputados independentes, declarado “Esta morte deu-se em circunstâncias que não estão ainda bem conhecidas. E eu pedia para que fosse bem averiguada a causa da morte, que podia muito bem ser devida a manejos criminosos”, tendo também o deputado João Camoesas, (democrático), declarado, Vindo directamente das camadas populares, e tendo chegado a uma classe muito diferente daquela donde emergira, jamais esquecera essa mesma classe. Ficara filho do povo, sob a sua farda de oficial do exército, e como filho do povo procedeu em todos os momentos de crise para a República, sabendo sempre cumprir o seu dever de republicano In: Diário da Câmara dos Deputados, Sessão 129, de 10 de Agosto de 1922.

4 - Fantoches nº 21 de 25 de Maio de 1923.

5 - Wheeler, 1978, p.50


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 9ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
A PRISÃO - O FALSO RELATÓRIO MÉDICO
Parte 9 (de 12)


          Preso nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, José Júlio da Costa foi brutalmente espancado e torturado durante dias e só o pedido para que o deixassem falar terá salvado a sua vida.
          Contudo se no processo de investigação ao acto de José Júlio da Costa havia forças que procuravam desenvolver o seu trabalho, outras havia que procuravam subverter a justiça e terão contribuído para aumentar a desconfiança no defensor oficial do preso e requerer formalmente um exame pericial sobre o seu estado mental.
          Assim, em Junho de 1920, José Júlio da Costa foi submetido a um exaustivo exame psicológico, por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos que posteriormente daria o seu nome ao Hospital Psiquiátrico de Lisboa, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid, igualmente com uma unidade hospitalar com o seu nome em Coimbra e do psiquiatra Caetano Beirão, um dos fundadores do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda.
          As conclusões desse exame eximem José Júlio da Costa de qualquer perturbação mental que o levasse a cometer o atentado e como tal imputável perante a justiça, segundo o Relatório sobre o estado mental de José Júlio da Costa apresentado pelos mencionados psiquiatras em 10 de Fevereiro de 1921.
          Contudo apesar deste parecer bastante categórico sobre o estado mental do preso e apesar de já ter o julgamento marcado para o dia 31 de Março de 1921, no dia 5 desse mesmo mês e ano, vinte e cinco dias depois da emissão desse relatório médico e vinte e seis dias antes do julgamento, o médico prisional António José Furtado de Mendonça Boavida redige um relatório, para o ministério da Justiça, sobre o estado mental de José Júlio da Costa, no qual, arredado de qualquer investigação médica independente e baseado em pressupostos que entravam em conflito com o relatório médico dos três psiquiatras, pura e simplesmente, recomenda o “internamento deste num manicómio para ser observado por um psiquiatra”, o que levou o Procurador da República, Pais Rovisco, no antigo convento da Boa-Hora, agora convertido em tribunal, a adiar o julgamento indefinitivamente.
          Com que bases Mendonça Boavida faz esta analise?
        Que pressões terão havido para vinte e cinco dias depois da emissão do relatório médico por três conceituados psiquiatras portugueses que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado, fazer um juízo destes? Do que é que o advogado defensor de José Júlio da Costa se apercebeu para requerer um exame mental ao preso? A quem é que interessava que vinte e seis dias antes do julgamento o dessem como inimputável perante a justiça?
         Que forças se movimentavam nos bastidores que não permitiram o seu julgamento e o devido depoimento em tribunal? Porque não foi feito então outro exame psiquiátrico ao preso, antes de o submeter novamente a julgamento, como o próprio Mendonça Boavida sugeria?
          De facto o relatório de Mendonça Boavida se por um lado é bastante perentório sobre o estado mental de José Júlio da Costa, na medida em que tem a palavra final e o surripiou ao julgamento público, por outro lado não deixa de ser ambíguo na decisão que tomou e do exame que faz do preso.
          Contudo acontecimentos posteriores à noite sangrenta e à sua libertação, muito dificilmente esta versão sobre o estado mental de José Júlio da Costa se mantêm. Torna-se de facto insustentável justificar, baseado numa alineação mental, como se manteve fugitivo todos esses anos até à definitiva mudança da situação politica com a instauração do Estado Novo, saído do golpe de 28 de Maio de 1926.
           Quem estaria envolvido? Muitos e muitos eram de facto os interessados ou cúmplices que pactuaram com a tramoia, capazes de subverter instituições que se queriam íntegras e independentes.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


domingo, 28 de outubro de 2018

FRIEDRICH NIETZSCHE




Filósofo

“O que não te mata fortalece-te”

174 anos depois do nascimento de Friedrich Wilhelm Nietzsche e, 118 anos depois da sua morte, continua atual o modelo filósofo que o tornou célebre.  

Nasceu em Rocken, aldeia alemã, agora parte do município de Lutzen, em 15 Outubro de 1844 e faleceu em 25 de agosto de 1900 em Weimer, também na Alemanha,

Distinguiu-se essencialmente como filósofo, mas igualmente como filologista, poeta, compositor, critico cultural e estudos latinos e Gregos, cujos trabalhos tem influenciado profundamente a filosofia ocidental e, por conseguinte, a história moderna.

Apesar do pensamento de Nietzsche ser demasiado complexo para se resumir em poucas linhas, podemos de uma forma concisa, muito básica, explanar as ideias principais do seu pensamento.


O CONCEITO DO SUPER-HOMEM.

Para Nietzsche o homem tem de ultrapassar o medo da morte, tem de deixar de acreditar nas falsas promessas do paraíso ou da vida eterna. O homem não precisa da moralidade religiosa cristã, nem de outros argumentos que negam a ideia da morte. O Super-Homem está em todos nós, não na força física, mas na elucidação intelectual e psicológica.


O ETERNO RETORNO

Quantas vezes nos interrogamos sobre o sentido da vida, especialmente quanto esta se transforma numa rotina diária, sem esperanças, frustrados e com a ideia de que se poderia estar a fazer coisas diferentes. A maneira como encaramos este dilema, a forma como reagimos perante as alternativas, faz-nos questionar a maneira sobre as decisões que tomamos e sobre o rumo que se dá à vida.


A MORTE DE DEUS

Na sua obra O Anticristo, Nietzsche declara que Deus está morto. Tentava assim atacar a falsa moral cristã. Para o filósofo a bondade que os cristãos apregoam, não é mais do que o medo do inferno. Não é uma bondade genuína porque assenta no medo da punição, propagada pela Igreja cristã. A ideia da moral e da ética deve de ser inerente a cada pessoa e não acreditar em castigos divinos, nem no medo do inferno ou na recompensa do paraíso.


O NIILISMO

Talvez o seu pensamento mais conhecido e debatido, o Niilismo é basicamente a descrença total dos valores impostos pela sociedade. Tudo está em questão e nada deve de ser regida em função de nenhum tipo de padrões ou regras. Tudo o que os pais ou a escola nos transmitiram ou ensinaram tem de ser questionado e desacreditado. Só assim, questionando o sentido das coisas, o homem se vê livre de dogmas e responsável em acreditar em si mesmo, criando as suas próprias regras, sem as ameaças de deuses vingativos ou regimes políticos totalitários.

PEDIR OS BOLINHOS

 


No dia de Todos-os-Santos

           Apesar desta tradição ter desaparecido, na grande maioria das terras portuguesas, ainda persiste em certos lugares, nomeadamente na freguesia de Garvão, graças aos esforços de algumas mães da vila e de louvar igualmente o empenho das Educadoras de Infância que procuram manter viva esta tradição, dinamizando as crianças a seu cargo de efetuarem o respetivo peditório, pelas ruas da vila.

             É costume no dia um de novembro, as crianças irem de porta em porta, pelas ruas da vila, com um talego de pano, geralmente feito pelas mães ou avós, a pedirem os bolinhos.

           Raro eram, as famílias, (se algumas), que não acediam a esse pedido, que consistia na maioria das vezes em ofertas em nozes, bolotas, castanhas, amêndoas, figos, rebuçados ou algum bolo que houvesse na altura ou fruta da época.             

             No dia de Todos-os-Santos, era vê-los, a pequenada, de talego, em grupos nas ruas da vila, geralmente de manhã, a baterem de porta em porta a pedirem o bolinho, para muitos era uma oportunidade de comerem alguns figos secos entremeados com amêndoas ou nozes. Era uma festa que a pequenada competia para ver quem recebia mais bolinhos e várias vezes, durante o dia, comparavam o conteúdo dos talegos, para ver o que uns e outros recebiam.

             É uma tradição muito antiga, havendo registos desta prática no século XV, cuja simbologia de partilha e de entreajuda, está bem viva ainda em certas comunidades do interior. Certamente uma reminiscência do culto pré-histórico de lembrar os mortos.

            O conceito de Património Cultural Imaterial, observa-se precisamente no reviver destes hábitos, sem dúvida uma das tradições mais antigas da vila de Garvão. Tradição essa acumulada ao longo de gerações, de facto a herança de uma comunidade, um bem coletivo que deve ser salvaguardado, protegido e divulgado para que continue a ser uma realidade na vila de Garvão e poder ser transmitido às gerações futuras.

domingo, 14 de outubro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 8ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

OU MATAVA OU MORRIA 

Parte 8 (de 12)


          José Júlio da Costa terá chegado a Lisboa, acompanhado da esposa e de Caetano Rosa, a nove de Dezembro. Nos dias anteriores ao atentado, a catorze de Dezembro, desenvolve enérgica actividade em vários locais da cidade de Lisboa e arredores, procurando e encetando conversas com conhecidos, comprometidos, ou não, com o que se propunha fazer, incluindo marinheiros e outros militares, mas essencialmente junto dos seus antigos colegas carbonários que por esta altura,  constituíam uma boa parte da guarda pretoriana dos democráticos de Afonso Costa, os chamados Formigas Brancas e que agora viam com apreensão a sua actividade politica na sua terra natal, nomeadamente junto dos círculos sidonistas e junto do administrador da Câmara Municipal de Ourique[1] e igualmente das suas acções junto das forças policiais, durante as perseguições aos trabalhadores agrícolas do Vale de Santiago, pela ocupação de terras, no seguimento da Greve Geral de 18 de Novembro de 1918.[2]

          De facto José Júlio da Costa muito dificilmente conseguiria apaziguar os seus antigos camaradas senão com uma acção dramática que o expurgava de todas as dúvidas o seu cometimento à revolução. Se por um lado na capital, alinhava ao lado dos democráticos de Afonso Costa, pugnando por uma via revolucionária, “Afonso Costa no Governo da República marcou o seu lugar junto dos maiores estadistas estrangeiros e para mim foi ele igual a Sebastião José de Carvalho e Melo, este expulsando os Jesuítas e aquele decepando a Igreja. Os monarquicos não podiam ouvir o nome desse homem, que foi e ainda é o maior de todos os republicanos”.[3] 3 Por outro lado, na sua terra natal, não só fazia parte da elite local ao lado dos ricos proprietários, como encetou uma tenaz perseguição aos trabalhadores revoltados do Vale de Santiago ao lado das forças sidonistas.

          Segundo a carta escrita, por José júlio da Costa, reproduzida por Rocha Martins[4] este relata os sítios onde esteve e com quem falou no próprio dia e antes de cometer o atentado, quando descreve que, “Cheguei assim à toa em frente do quartel de marinheiros”, ou de que se lembrou em, “fazer nesse quartel a revelação da morte do Presidente”, e que ali encontrou um marinheiro e lhe perguntou, “se já lá estava a Marinha”, que lhe revelou o plano e, “fiz que ele chamasse um soldado das colónias para o aliciar”, de que este, “teve também gostosamente notícia da morte do Presidente”, descreve igualmente que convidou o marinheiro a ir com ele afim de, “prevenir no Arsenal alguns fixes”, onde o, “marinheiro perguntou pelo sargento Almeida”, que não se encontrava e com o qual José Júlio da Costa queria falar para ver o grau moral da Marinha, pedindo então que lhe trouxessem, “um marinheiro bom republicano” os quais foram jantar no restaurante Silva do Chiado, onde, durante o jantar, foi dando instruções de combate e, “que fossem logo desmontando algumas peças que não fizessem falta a bordo dos navios”, e que igualmente, “os barcos se pusessem abrigados ou fora do alcance da artilharia da terra”, instruiu também, “Que tomassem o Parque Eduardo VII com as peças de grosso calibre e metralhadoras”.

          Ora, muito dificilmente José Júlio da Costa passa a ideia da ocasionalidade desses encontros, ou da falta de concertação, entre alguns sectores da vida politica nacional que planeavam a eliminação física de Sidónio Pais.

          De facto não seria agora um simples marujo encontrado ocasionalmente à porta do quartel dos marinheiros que iria desmontar as peças de guerra a bordo dos navios ou que pusesse os barcos abrigados e fora do alcance da artilharia e muito menos que tomasse o Parque Eduardo VII, (a Rotunda das revoluções), com peças de grosso calibre e metralhadoras.

          Ou havia de facto um planeamento insurrecional que o seu gesto despoletaria, ou de facto José Júlio da Costa foi ludibriado da iminência duma revolução e por quem interessava a morte de Sidónio. Estaria certamente convencido disso e as pessoas que procurou, mais do que meros acasos, seriam de facto, ou seus conhecidos, ou figuras lançadas para o confundir, (com ou sem conhecimento dos próprios), por quem nos bastidores urdia o drama e fariam parte dessa tramoia que o afastou da realidade e o levou a cometer o atentado.


[1] O Administrador da Câmara Municipal de Ourique, era, por esta altura, Ricardo Ayres D´Oliveira que em secção do executivo camarário propõe em 22 de Dezembro de 1918, que seja dado à Praça D. Dinis, na parte nobre da vila, o nome de Praça Sidónio Pais. Contudo em acta do mesmo executivo, datada de 5 de Fevereiro de 1919, Ricardo Ayres D´Oliveira é exonerado do cargo de administrador do concelho por decreto do Governador Civil de Beja, nessa mesma reunião é igualmente proposto ser dado à Praça D. Dinis o nome de Praça da República, em clara oposição ás aspirações de Ricardo Ayres D´Oliveira. Assistia-se assim à limpeza dos cargos públicos dos últimos sidonistas. Ricardo Aires de Oliveira, seria novamente, em 1937, Presidente da Comissão Administrativa do Concelho de Ourique empossado em plena ditadura do Estado Novo. Esta passagem de elementos Sidonistas para a ditadura Salazarista, como se observou, não se limitava somente à capital ou ao governo, observava-se igualmente nestes concelhos do interior do país.


[2] “José Júlio da Costa pertencia ao partido democrático, portanto adversário do Sidónio; mas na questão da greve agiu como lavrador, como defensor do capitalismo, sem noção dos interesses partidários e sem consulta aos superiores hierárquicos do partido. O certo é que, depois desta saída à frente da força da G.N.R. não mais voltou a Garvão. A greve teve início em 18 de Novembro; esta acção da guarda republicana sobre os rurais do Vale de Santiago, já foi depois do dia 20. Diz-se (dizia-se) que José Júlio seguira para Beja, capital do distrito e ali os chefes distritais do partido tê-lo-iam posto ao facto da situação, possivelmente admoestando-o do trabalho prestado ao ditador Sidónio Pais, pelo que tomou o rumo de Lisboa e em 5 de Dezembro cometeu o atentado. Há quem diga que essa acção foi ordenada pela maçonaria, mas eu, mais não sei do que estou a contar.” In: Sequeira. Lisboa. 1978. P. 24

3] Rocha Martins, 2008, p. 389.

[4] Rocha Martins, 2008, p. 388 e seguintes


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

CANTE A DESPIQUE




O musicólogo Michel Giacometti, em 1971 na Estação das Amoreiras,  para o programa Povo que Canta da RTP. 


IN: António Machado Guerreiro, “O cante a despique”, in Revista Lusitana – Nova Série, 2, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos / Instituto Nacional de Investigação Científica, 1981, p. 61.


          Quando se fala no cante a despique, – seja no Norte do país ou no Algarve – a noção que se tem é do canto à desgarrada ou ao desafio. Contudo ao se esmiuçar a pergunta e exemplificando o modo particular deste cantar, depressa se chega à conclusão que só neste canto do Sudoeste Alentejano, dobrando a serra para o Algarve, se encontra, de facto, esta peculiar forma de canto.

          Contudo, mesmo aqui, se confunde o cante a despique com o canto ao baldão, não fosse afinal esta forma de cante diferente daquela, sem as regras que de facto enformam e tipificam o cante a despique. O baldão será uma forma de canto – à balda – que não obedece às regras que regem o cante a despique, não será mais do que um cante ao desafio, em que o cantador seguinte, começa o seu cante pegando nas palavras do anterior, ao som da viola de arame, (conhecida actualmente por viola campaniça) e ao estilo de qualquer música popular.

          Todavia, segundo o programa da RTP, Povo que Canta, (cujo link se reproduz mais abaixo), o cante a despique não deixa de estar desvirtuado da sua forma original e sofrer influências estranhas à sua pureza tradicional, (introduzindo diferentes tonalidades e instrumentos musicais). O despique na sua forma original tem raros interpretes, homens de idade cuja voz já não segura o canto. Os mais novos, como vimos, quando integrados no despique fogem â melopeia ancestral e procuram efeitos fadistas a que os mais velhos nem sempre são insensíveis. O que sobrevive hoje do despique tradicional, portanto e salvo raras excepçoes é uma expressão hibrida que aliás não deixa de ter o seu interesse como produto de aculturação.

          Não se encontra igualmente nenhuma outra forma de cante que se assemelhe à estrutura de cante a despique, seja nos outros cantares populares como inclusivamente na poesia portuguesa. A estrutura estrófica, ABCA+BA do cante a despique é totalmente diferente da do cante ao baldão, ABCB+CB, ou por assim dizer de qualquer outra estrutura estrófica conhecida.

          Mas mais importante do que isso, - e esta é a grande singularidade e riqueza do cante a despique – é a obrigatoriedade de organizar a estrofe em volta de um ponto pré-combinado e as penalizações daí decorrentes, para quem as falhar, - para além de ter de pagar uma rodada de copos de vinho ou outra bebida, também a humilhação sofrida -. As regras estendem-se igualmente a outras facetas do cante em cada estrofe, como exemplarmente e em devido tempo, António Machado Guerreiro as descreveu em “O cante a despique”,[1] cujo PDF se anexa mais abaixo.

          Na combinação estipulam-se as regras, mas uma e inalterável, está fora de combinações, nem sequer se menciona: não vale «pisar o ponto». As outras regras derivam do acordo: não vale (ou vale) «fugir ao ponto»; vale (ou não vale) «fugir à rima» — falta de rima entre o primeiro verso e o quarto; não vale toantes (só consoantes) para ponto; não vale (ou vale) toantes para a rima (1.° e 4.° versos) ; não vale «roubar o ponto» (empregar a terminação ponto— no fim de qualquer verso que não seja exactamente o segundo, que depois se repete como quinto). Combina-se ainda se o que pratica qualquer das faltas bebe ou não bebe vinho na rodada que paga, ou na mais próxima. E parece-nos que são todas as condições. Ë claro que há tantas mais proibições quanto mais reconhecida é a categoria dos cantadores.[2]

          Assim desde a falta de rima, noção do que é rima toante e rima consoante, falta de ponto ou pisar o ponto, - repetir uma palavra já utilizada por outro cantador -, constituem regras que não só prestigiam o vencedor, como igualmente humilham quem se engana, vítimas das gargalhadas, troças e críticas mordazes e escarnecedores da assistência. O bom cantador a despique improvisa no momento que vai cantar, nunca utilizará as estrofes de outro cantador, mesmo utilizadas noutra ocasião.

          O cante a despique deverá ser, das maneiras de cantar alentejanas, a menos colectiva, nas modas canta o solo e o coro repete, e igualmente assim era (e é) nos «balhos» de roda, dentro de casa ou em redor dos mastros. Nestas modalidades ou no baldão as quadras podiam ser de toda a gente, sem serem de ninguém, e o improviso era o menos vulgar. No cante a despique a estrofe é pessoal, improvisa-se para o momento em que se vai cantar, não se escreve, não se aprende. E se é certo que os bons cantadores fixam estrofes para utilizarem noutras ocasiões, não é menos certo que elas são suas, e um bom cantador não utilizará as que outro tenha criado.[3]

          Veja-se igualmente os exemplos dados por António Machado Guerreiro, recolhidos em Colos, nos finais dos anos cinquenta, em torno do ponto ida:


(os dois primeiros versos repetem-se) 


Coitado de quem não tem     (A)                      

Nem caminho nem guarida.   (B)    

Vive aí abandonado,              (C)

Sem carinhos de ninguém.     (A)

Nem caminho nem guarida     (B)

Coitado de quem não tem.      (A)


 O parceiro seguinte tem de encontrar para o final do seu segundo verso uma palavra terminada em -ida, que é o ponto. Cantará, por exemplo, assim:

(os dois primeiros versos repetem-se)  


À falta de saber ler             (A)   

Há muita gente atrevida.    (B)   

Se não há conhecimento,   (C)

As vezes vão a sofrer.        (A)

Há muita gente atrevida     (B)

À falta de saber ler.            (A)


Cante a Despique.pdf


  [1] “O cante a despique”, in Revista Lusitana Nova Série, 2, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos / Instituto Nacional de Investigação Científica, 1981, p. 61.

[2] Idem. P.66

[3] Idem. P. 64

terça-feira, 25 de setembro de 2018

IGREJINHA DE SÃO PEDRO



  Junto à Estrada Real


          A Igrejinha de São Pedro, como é conhecida, fica situada a cerca de 1 km de Garvão, na antiga Estrada Real do Algarve, ex-Estrada Romana, no caminho para Panóias, Messejana e por aí fora até Lisboa.

          Actualmente, encontra-se em ruínas e sem telhado, fruto do abandono a que tem sido votada ao longo dos anos. O desinteresse por esta Igreja, já vem de longa data, havendo, contudo, ainda lembrança na população de Garvão do telhado e dos Santos no altar, e ao que parece só por volta de 1942 devido a umas cheias que chegaram á Igreja, é que levaram os Santos para local seguro, ao que se conta, a imagem de São Pedro já andava a boiar na água, o que foi salvo pelo “Meia Dola”, trabalhador no Monte da Morgada, que o entregou ao Sr Júlio de Matos, pai do Sr Zeca. A imagem de São Pedro encontra-se presentemente na Igreja Matriz.

          Nos anos 50 e 60 de 1900, os dançarinos da “Dança de Garvão” costumavam utilizar esta Igreja para ensaiarem os passos da dança.

          A tradição oral, diz-nos que pela guerra civil liberal, nas décadas de 1800, pela Estrada Real passou as forças militares liberais comandadas pelo duque de Terceira, vindas do Algarve para atacar Lisboa no ano de 1833.

          Também pelas lutas liberais, esta Igreja foi refúgio das guerrilhas do Algarve, adeptos da causa absolutista, comandados pelo célebre Remexido, ainda segundo a tradição oral, foi nesta igreja que procuravam guarida depois dos ataques perpetuados pelas terras vizinhas, possivelmente beneficiando do apoio de alguns populares partidários do pretendente absolutista, D. Miguel.

          Trata-se de uma ermida de peregrinação, com arquitectura religiosa, barroca, vernacular.do século XVIII, que enfileira numa tipologia de feição popular muito divulgada no Baixo Alentejo.

          Planta longitudinal regular, composta por nave e capela-mor escalonadas e por sacristia adossada a S.. Volumes articulados, massas dispostas na horizontal. Fachada principal a E., de pano único delimitado por cunhais de cantaria; remate em empena recortada de três lanços; portal de cantaria de verga recta. Fachadas laterais cegas, de pano único em remate recto. Corpo da sacristia rasgado a E. por porta recta e restantes alçados cegos. Fachada O. de pano único, cego, delimitado por cunhais de cantaria e remate em empena. INTERIOR: nave rectangular de alçados cegos. Arco triunfal de volta perfeita antecedido por degrau. Capela-mor com nicho central em arco de volta perfeita e pequeno nicho do lado da Epístola; do lado do Evangelho rasga-se a porta de acesso à sacristia em arco de volta perfeita.[1]


[1] SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

sábado, 22 de setembro de 2018

RITUAL DE LIBAÇÃO SACRALIZADORA

Sacrifício Humano no Depósito Votivo


          Em Garvão, a pesquisa arqueológica, desenvolvida na década de 80 do século XX, no «Cerro do Castelo», uma elevação no interior da própria vila, detectou-se, em 1982, na sua zona central, uma fossa, coberta por lajes de xisto, (que se passou a denominar por Depósito Votivo), dentro da qual se encontrava um crânio humano, separado do respectivo esqueleto e com indícios de trepanação.

          O crânio localizado na base do depósito pertenceu a uma mulher cuja idade oscilaria entre os 35 e os 40 anos (Fernandes 1986, 78). A morte foi-lhe provocada por três golpes desferidos na zona occipital e parietal por um instrumento contundente, pesado, dotado de um gume curvo pouco penetrante, que incidiu obliquamente sobre a cabeça da vítima.

          Foi assim reconstituído que a vítima se encontraria deitada em decúbito ventral, quando lhe foram desferidos sucessivamente três golpes. Qualquer um deles seria o suficiente para lhe provocar a morte, e certamente que com o primeiro deles ela entrou em lipotimia (perda de sentidos).

          A morfologia das lesões sugere que o instrumento utilizado terá sido um machado de pedra polida de que, aliás, se recolheu um exemplar no depósito (Antunes e Cunha 1986, 84-85). O crânio foi então separado do corpo; a forma como isso se deu e o espaço de tempo que mediou entre este facto e a deposição do crânio como elemento ritual na criação do depósito votivo são, no entanto, indetermináveis.

          O crânio, estava, aparentemente, associado a alguns ossos de animais o que sugere um fenómeno de libação sacralizadora associada a um sacrifício humano.1

          Deste modo, pode com efeito admitir-se a crença de que os crânios teriam propriedades maravilhosas, curativas e, consequentemente, benéficas e extensivas a todo o grupo a que pertenceriam esses indivíduos.


1) In: Virgílio Hipólito Correia, Algumas considerações sobre os Centros de Poder na Proto-História do Sul de Portugal, «Revista de Guimarães», volume especial, II, 1999, pp. 699-714.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 7ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

O ATENTADO

Parte 7 (de 12)


          Na noite de 14 de Dezembro de 1918, à frente da sua comitiva presidencial, Sidónio Pais, dirige-se para a gare na estação do Rossio. Quando a multidão o vê surgir, ovaciona-o como sempre, correm para o saudar, correm lágrimas de exaltação, soam vivas ao Sidónio, soam vivas à República Nova, soam fanfarras e toca-se o hino nacional.


          Sidónio Pais, eloquente, agradece à esquerda e agradece à direita, impecável no seu fato de major venialmente curva-se para agradecer à população que o quer agarrar, que lhe quer tocar, que o quer beijar e soa um tiro, soam mais e Sidónio Pais jaz ensanguentado nas frias lápides de pedra da estação do Rossio.


          “Morro bem… salvem a Pátria” terá escrito o jornalista Reinaldo Ferreira que chegou ao local mais de uma hora depois dos acontecimentos e já com Sidónio Pais dado como morto na morgue do Hospital de São José. O certo é que Sidónio Pais, depois de atingido, pouco mais poderia pronunciar do que um agoniante murmúrio de defunto.


          O seu funeral, tal como em vida, foi uma grande espalhafatação, uma encenação espetacular, impressionante, com meretrizes e carpideiras, convulsões e desfalecimentos, tiros, bombas, mortes e vivas desafiantes a Afonso Costa, milhares de pessoas, duzentas mil segundo a imprensa da altura, acompanharam o féretro num arrebatado percurso, pesaroso e tumultuoso, assiduamente interrompido por múltiplos e impetuosos incidentes.


          O homem providencial, o salvador da pátria, o homem espetáculo que de cima do seu cavalo envergando a farda militar cativava as massas, depois de morto, virou mártir. O povo presta-lhe culto e canta Fernando Pessoa.


          De facto eram 23 horas e 50 minutos, do dia catorze de dezembro de 1918, quando o Presidente da República, Sidónio Pais e a respectiva comitiva presidencial chegou ao hangar da Estação do Rossio para embarcar no comboio rápido para o Porto que deveria partir às 23 horas e 55 minutos, onde uma banda da GNR e a respectiva companhia faziam a guarda de Honra.


          Acompanhavam-no o filho António, seu Secretário particular, o irmão António da Silva Pais, o capitão Carneira, o alferes Bernardo de Albuquerque e Ferreira da Silva. A presença de agentes da policia preventiva e judiciária tanto no hangar e acessos como no salão da estação e nas ruas próximas era visível, suficientemente forte para dissuadir qualquer tentativa de atentado contra o presidente, formando um cordão de segurança à passagem de Sidónio Pais que se dirigia para a gare pelas portas centrais.


          Quando, no primeiro andar da estação, José Júlio da Costa, dissimulando uma pistola no capote alentejano que envergava, certificando-se, junto de um dos guardas, qual era o presidente de entre os que compunham a comitiva presidencial, furou o duplo e compacto cordão policial que o protegia, quando transpunha a quinta porta, ao mesmo tempo que disparava uma pistola.


          Sidónio Pais foi mortalmente baleado, por José Júlio da Costa, autor confesso do mortífero acto, posicionado no meio da multidão e perto das portas que dão acesso ao cais de embarque limitara-se a empurrar um dos polícias da dupla fila do cordão de segurança e a disparar a sua arma sobre Sidónio Pais que agradecia as aclamações que se ouviam dos populares que rodeavam o cordão policial, é tudo tão rápido que os policias perto de José Júlio da Costa, nem tiveram tempo de sacar das armas, agarrando imediatamente o autor dos disparos e só isso o salvou de ser logo ali morto, como o foram vários populares que se encontravam no local e foram atingidos pelas armas dos guardas, quando procuravam abrigo assim que ouviram os primeiros tiros.


          Nas palavras do próprio, “Quando na estação do Rossio o déspota marchava para a gare entre alas de polícias armados, afastei de repelão os guardas e tive Sidónio seguro na boca da minha pistola, tão certo de o abater que era convicção minha cair também ali”[1]


 In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.


 [1] Segundo a entrevista de Manuel Ribeiro que entrevistou José Júlio da Costa na prisão, inserido no livro Sidónio Na Lenda de D. António de Albuquerque, em 1922.



 

domingo, 9 de setembro de 2018

O SINO DOS CONCELHOS





O Sino da Casa da Câmara e o Sino do Açougue[1]

          Os sinos concelhios, seja na casa da câmara, no açougue ou na cadeia, constituem um dos equipamentos concelhios simultaneamente mais úteis, mais pitorescos e mais representativos do concelho, do seu poder e da sua jurisdição.

          Tratando-se de um equipamento e de um atributo concelhio tão vinculativo, o sino estava patente em praticamente todas as antigas casas da câmara, pois ele pontuava não só a vida concelhia e os seus rituais judiciais, administrativos e celebratórios como o próprio quotidiano da comunidade de vizinhos.

          O sino da câmara assegurava tanto os toques obrigatórios da alvorada e do crepúsculo, consagrados nas Ordenações como os rebates mais dramáticos, dos desastres naturais e dos grandes acidentes aos desacatos, levantamentos (as temíveis “uniões” da Idade Média e dos Tempos Modernos) e todo o género de “arruídos” públicos em que facilmente descaíam comunidades por vezes bem carenciadas e indefesas.

          O sino era a voz do povo, pelo que o barbante ou a corda do seu badalo estava ao alcance de todos, a começar pelas crianças. Muito facilmente qualquer um o poderia accionar para avisar de um incêndio, de um perigo de afogamento, de um crime, de uma briga, de uma pendência, de um desaparecimento estranho ou de uma aparição miraculosa.

          O sino da câmara, enquanto mensageiro de boas e más notícias, tanto era uma causa do abatimento colectivo como o efusivo agente das epifanias mais radiosas. Mas, enquanto voz, ou melhor, enquanto “clamor” dos povos, o sino da câmara era também um agente de revolta, materializado no “tocsin” da tradição urbana francesa, no rebate desesperado de incitamento à luta, à revolta e à defenestração descontrolada de pessoas e bens.

          “Toca-se por toda a parte a rebate nas sinetas dos Campanários” – lê-se em certo Memorial anónimo de 1867[2], relatando a revolta das populações de concelhos alentejanos da zona de Castro Verde ameaçados de extinção no âmbito do processo de “arredondamento dos concelhos”.

          Em pleno processo de implantação do Liberalismo, no momento em que se processa o arrolamento e a venda dos bens dos conventos extintos, por toda a parte as câmaras cobiçam os sinos das respectivas igrejas, pois os mesmos continuam a ser um equipamento concelhio indispensável. A sua presença apagou-se muito entre nós a partir do Liberalismo, enquanto símbolo do poder concelhio.


In: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna.


[1] O Sino do Açougue encontra-se presentemente nas instalações da Junta de freguesia à espera de ser colocado no seu devido lugar

[2] Memorial anónimo relativo dirigido à Junta Geral do Distrito de Beja sobre o arrendondamento dos Concelhos da região de Castro Verde, Ourique e Almodôvar, defendendo a “capitalidade” de Castro Verde; N. ass., não datado; mas datável de 1867, in IAN-TT – Ministério do Reino – Negócios diversos relativos à divisão territorial [ano de 1867] – Maço 3148 – Distrito de Beja; em itálico no original.


 


 







sexta-feira, 24 de agosto de 2018

GARVÃO nas CORTES do REINO





Concelho de Garvão no banco Décimo Quarto


         As cortes no Portugal monárquico, compõem-se dos três estados do reino, eclesiástico, nobreza, e povo, aos quaes costuma el rei convocar para as determinações públicas, e de grandes interesses.
        Juntam-se as pessoas dos três estados em uma sala ricamente adornada: na cabeceira d’ella se levanta um estrado de seis degraus com a elevação de sete palmos, que é para o trono d'el rei: na parte inferior arrimados à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem os chamados, que são os títulos, prelados, senhores de terras, e procuradores das cidades e vilas.
            Principia este acto com a assistência d'el rei, o qual costuma vir com opa rossagante de brocado, e ceptro de ouro na mão. Vem diante dele o condestável do reino com o estoque levantado, e mais adiante o alferes mór com a bandeira real enrolada, precedendo os reis de armas, arautos, e passavantes vestidos em cotas, onde se vê bordado o escudo do reino.
A estes antecedem os porteiros com maças de prata; e, se o acto é de juramento de algum príncipe, precedem a tudo os atabales, e clarins. Chegando el rei à cadeira, se acomodam todos nos seus assentos determinados.1
          As Cortes, apesar de se tratar de um processo lento e susceptível de diversas interpretações, terão evoluido a partir dos primeiros conselhos privativos do rei: as Cúrias, compostas por elementos do Clero e da Nobreza e tipificado pela ligação pessoal de vassalidade, fidelidade e serviço ao rei destes conselheiros.
            Segundo Maria Helena da Cruz Coelho: Em simultâneo, quando surgiam grandes problemas políticos, os monarcas convocavam uma reunião mais alargada, uma Cúria extraordinária, com os tradicionais vassalos da nobreza e clero, que sempre o aconselhavam, mas que também “representavam” a comunidade social do reino, o que abriu espaço à presença dos representantes dos concelhos, portanto do “Terceiro Estado”, para que toda a sociedade fosse consultada. Na realidade só estes últimos actuavam verdadeiramente em representação dos municípios a que pertenciam, e com a sua presença nessa reunião temos não já apenas uma Cúria mas umas Cortes. Outro importante passo nesta progressão foi a possibilidade de se admitir a apresentação, por parte das diversas forças sociais presentes, de reclamações contra os abusos da actuação dos oficiais régios ou dos privilegiados.2
           Teremos de entender que na evolução e até mesmo na sua génese, dos primeiros consilios dos rei para as Cortes Geraes, terão contribuido dversos factores, não só a necessidade do rei em auscultar o sentimento dos seus súbditos, mas igualmente a forte pressão dos concelhos, legitimados pelas Cartas de Foral, em se fazerem ouvir e expor os seus problemas e necessidades, principalmente nas questões que lhes diziam directamente respeito e nas mais importantes decisões económicas e financeiras da política régia que os afectavam.
           Assim se abriu caminho para a institucionalização da representatividade em Cortes e desde os tempos medievais se rasgaram os horizontes da sua transformação futura em assembleia deliberativa pela votação da maioria.3 Na constituição destas cortes estão representados as vilas mais importantes do reino, o concelho de Garvão passou a estar representado com assento no banco décimo quarto, juntamente com Panoias e Ourique no banco décimo quinto.


1 - João Bautista de Castro. Mapa de Portugal Antigo e Moderno, Lisboa, 1700-1774.

2 - Maria Helena da Cruz Coelho, As cortes no reino de Portugal: antecedentes e concretizações. 2018. 

3 - Idem

terça-feira, 21 de agosto de 2018

PROCURADORES do CONCELHO de GARVÃO nas CORTES REAIS

Paços do Concelho de Garvão

Cortes de 1439: Reinado de D. Afonso V ( Regente: Infante D. Pedro


       Segundo João José Alves Dias e Pedro Pinto em, CORTES PORTUGUESAS. Reinado de D. Afonso V. Cortes de 1439, nas Cortes Gerais de 1439, realizadas em Lisboa, no reinado de D. Afonso V, nos Capitollos de garuam e panoyas,1 surge a notícia da Reformulação de três dos capítulos a que as vilas de Garvão e de Panóias obtiveram deferimento, de entre aqueles que as vilas se agravaram em Cortes, com os respetivos desembargos.2

          O que nos ficou até hoje destas Cortes Geraes, são os chamados “capítulos” ou “artigos”, apresentados geralmente pelo Povo ao rei, acompanhados das respostas deste, não havendo conhecimento da redação de quaisquer actas das reuniões de Cortes, se de facto alguma vez existiram ou se foram redigidas.

          Sobre a intervenção do procurador de Garvão nestas Cortes, surge num dos capítulos referentes a Garvão e Panoias, sendo procurador Afonso Giraldez, (igualmente procurador de Ourique e Castro Verde), uma petição que foi concedida, no sentido de os viajantes que passam por Garvão, deixarem de pagar as portagens exigidas pelos comendadores, como era costume antigo.


[Cap.º 1.º]
Item Senhor sabera a uosa merçee que os comendadores
de poucos tenpos aca e seus rrendeiros costrangem quaaesquer
pesoas que passam per as ujllas e termos sseus e fazem lhe pagar
portageens posto que nom vaão senom de hida sem conprando
nem uendendo o que nunca foy de custume saluo os que
conprauam E uendjam estes pagauam E os que pasauam nenhuũa
cousa E aInda o pyor que he elles pooem de sua maão Iuizes E
almoxarifes que esto aIam de Iulgar o que nunca ffoy que senpre
os Iuizes da terra aujam de taaes fectos como estes conhocimento
Por que uos pidjmos Senhor por merçee que lhes defendaaes
que nom husem de tal custume pois que nunca foy
em esto Senhor nos farees merçee


Mandamos que se guarde em esto o custume antigo E se
lhes ora taaes portagees demandam nouamente nom lhes seIa
conssentjdo.


          O procurador alegou igualmente que o rei D. João I tinha lançado mão, naquele lugar, aos lavradores que os possuíam, certo trigo, cevada e gado, para Ceuta, bens esses que nunca lhes tinham chegado a ser pagos.

         O financiamento da campanha militar relacionada com a conquista portuguesa da praça norte-africana de Ceuta, no verão de 1415 por D. João I, implicou uma série de medidas extraordinárias, nomeadamente, entre outras, a requisição de gado e cereais aos agricultores da província, incluindo, como se observou, aos do concelho de Garvão.

            Gado e cereais esses que vinte e quatro anos depois ainda não tinham sido pagos, o que levou o procurador do concelho a intervir para o seu efectivo pagamento.

          Esta requisição forçada de bens, organizado e gerido pela própria Coroa, com vista a financiar as frotas e o exército para grandes operações militares, pode ser visto como um verdadeiro saque das populações, pois quase sempre esses bens ficavam por pagar, arrastando-se durante anos e anos, sem uma solução minimamente satisfatória para as populações, pois a coroa, apesar de concordar nesse pagamento, como se obsera no final da petição, nunca relevava disponibilidade financeira para o fazer.


[Cap.º 2.º]
Senhor sabera a uossa merçee que El Rey dom Ioham
uoso auoo cuIa alma deus aIa lançou certos gaados3 em estes
llugares suso dictos .s. aos llauradores e aaquelles que os tijnham
E esso medes certo trigo e ceuada pera cepta os quaaes gaados
nem pam nunca nos foy pagado o qual el Rey dom Edhuarte cuIa
alma deus aIa o mandou senpre uer em estes lugares suso dictos
pera os mandar pagar de que nunca dello ouuemos nenhuũa cousa
Por que uos pidjmos Senhor por merçee que desencarreguees
a alma de uosso padre e nos mandees pagar
em esto nos farees merçee


Fazee certo do que o dicto Senhor meu auoo que deus aIa
deue E nos o mandaremos pagar.


        Surge-nos igualmente no capítulo três, o pedido para os mancebos deixarem de pagar conhoçenças4 aos comendadores e rendeiros, pois tal uso nunca o foi e da dificuldade em ajustar os mancebos, pois estes exigiam que se lhes pagassem as conhoçenças. Tal pedido foi igualmente concedido.


[Cap.º 3.º]
Item Senhor ssabera a uosa merçee que a nos he fecto huũ
grande agrauo que todos somos llauradores e criadores E do
que nos deus da damos noso djzimo dereitamente E esso medes5
nossos mancebos do trigo das searas que am E dos gaados que
teem E depois nos pedem os comendadores e sseus rrendeiros
que lhe paguemos conhoçenças o que antigamente nunca foy E
por este aazo6 sse pagam mal os djzjmos E sse faz na terra muyto
mal , entanto que os mancebos nom querem Ia talhar7 soldada
connosco senom que paguemos por elles as dictas conhoçenças
por que uos pidjmos Senhor por merçee que lhe defendaaes
que nom leuem nem demandem taaes conhoçenças que asaz
abasta do que nos deus da lhe pagarmos seu djzjmo
em esto nos farees merçee


Mandamos que se guarde em esto o custume antigo·


1 - João José Alves Dias, Pedro Pinto. Cortes Portuguesas. Reinado de D. Afonso V: Cortes de 1439. Centro de Estudos Históricos. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa. 1.ª edição, 2016.

2 -  Lisboa, A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, Livro 2, fól. 11v.º (Traslado em A.N.T.T., Odiana, Livro 5, fól. 132v.º-133.)

3 - Riscado: “per”.

4 - Prestação que antigamente se pagava aos párocos, por certos rendimentos, em relação aos quais não havia regra para se pagarem dízimos. Podia tratar-se igualmente de uma certa quantia devida a um senhorio por qualquer bom ofício feito ou por reconhecimento de vassalagem.

5 - Mesmo

6 - Motivo

7 - Ajustar


 


 





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