sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A BATALHA DE OURIQUE Forjando um mito


O CRISTIANISMO NA PENÍNSULA IBÉRICA
          A mitificação das origens de um estado, mais do que enaltecer um acto genesíaco ou fundacional procura a legitimação da memória histórica baseado numa realidade fenoménica de virtudes, glorificação e de engrandecimento do passado, idealizando uma época que revela o irrealismo prodigioso duma imagem engendrada, mas que no fundo a população têm como garantido e de si mesmos.
          É recorrente na história das nações organizar o passado histórico em função das necessidades do presente, os mitos fundacionais são na maioria dos casos, senão em todos, uma espécie de mitologia em que o historiador adapta a verdade histórica de forma a inculcar uma determinada visão do passado, ficcionando-a e modelando-a ao serviço dos interesses ideológico-políticos tanto do passado como do presente.
          Ao mistificar esta fundação de Portugal em Dom Afonso Henriques, herdeiro duma terra, resgatada ao infiel, que tem a sua origem nos guerreiros lusitanos, procura-se suprimi-la, numa altura de lutas pelos territórios fronteiriços ou de indefinição dinástica, á ocupação ou mesmo ao aniquilamento por parte dos reinos vizinhos como se veio a observar com a ocupação Filipina de Portugal.
          A história de Portugal regista a batalha de Ourique em 25 de Julho de 1139, dia de Santiago, um dos apóstolos que teria difundido a fé cristã na Península Ibérica.
        Os relatos sobre a evangelização da Península por São Tiago são manifestamente tardios e impossíveis de confirmar. A ausência de informações concretas sobre as origens da penetração do cristianismo nesta zona, deu lugar a toda uma série de mitos e até mesmo de tradições.

         Segundo uma tradição lendária, no século IX, na Galiza, um eremita de nome Pelaio, anunciou uma revelação, sobre um túmulo, que tivera enquanto dormia, contendo umas relíquias que foram de imediato veneradas e associadas a Santiago e sobre o qual viria a ser erguida a Catedral de Santiago de Compostela.

          Os árabes invadiram a Espanha em 711 e deixaram, aos ibéricos, apenas o norte da península, conhecida por Astúrias, onde mantiveram uma resistência à dominação árabe. Nesse período, fazia falta aos hispânicos uma figura que unificasse a luta contra o inimigo comum. As dificuldades no acesso aos tradicionais destinos de peregrinação cristã, Roma e Jerusalém, acabam por conduzir muitos peregrinos a Compostela.

          Da mesma forma que os muçulmanos tinham a sua peregrinação a Meca, os cristãos também passariam a ter a sua peregrinação a Santiago de Compostela na Galiza e se nas batalhas os mouros invocavam Maomé, os cristãos passaram a chamar por Santiago, “o matamouros”.

          A lenda do “Santiago-matamouros”, surgiu relacionado com a lendária batalha de Clavijo em Espanha em 25 de Julho de 844, dia de Santiago, onde um rei cristão, em grande desvantagem numérica, desbaratou e derrotou vários reis mouros. A documentação histórica referente a Clavijo é contestada, e tudo leva a crer que foi forjada pelo Arcebispo de Toledo, Rodrigo Jiménez de Rada que terá forjado uma narrativa de traços míticos, na qual milagrosamente Santiago intervira numa batalha a favor dos cristãos na luta contra os mouros, considerada fantasiosa por falta de documentação ou de outras referências credíveis.

          A lenda conta que Ramiro I teve um sonho no qual o apóstolo Tiago teria garantido a sua presença no campo de batalha e assegurado a vitória. De acordo com essa lenda, no dia seguinte os exércitos de Ramiro I, encorajados pela presença do Apóstolo montado num cavalo branco, a lutar contra os seus adversários, decapitando os mouros e ajudando a vitória dos cristãos do rei Ramiro, onde em grande desvantagem numérica enfrentava as tropas muçulmanas.


A BATALHA DE OURIQUE
          Os relatos descrevem o acontecimento da batalha de Ourique em 25 de Julho de 1139, em que um rei cristão, D. Afonso Henriques, em inferioridade numérica derrota vários reis muçulmanos, precisamente no dia de Santiago e apesar de existir vários documentos, desde o século XII, que falam sobre a batalha, a menção ao aparecimento de cristo a D. Afonso Henriques só aparece no século XV, cerca de 300 anos depois da suposta batalha, possivelmente redigida por Fernão Lopes, cronista do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em 1419, numa altura de guerras com Castela.
           Se nos registos anteriores ao século XV, a vitória da batalha de Ourique era atribuída a São Tiago, posteriormente passou a ser atribuída a Cristo, se no campo de batalha, pela disputa dos territórios fronteiriços, os Castelhanos bradavam a Santiago, os Portugueses tinham de bradar mais alto, a Cristo directamente.
          Com a invenção do milagre, a este vai-se acrescentando, nos séculos seguintes, sempre com mais alguma narrativa, conforme os escritores que sobre o acontecimento relatam, até que chegando ao século XIX, Alexandre Herculano as denúncia como meramente fantasiosas e carentes de legitimidade histórica.
          No século XVII, com a ocupação do trono e do reino pelos Filipes Castelhanos, a lenda ganha mais prestígio e precisão pela mão do frade cisterciense Bernardo de Brito.
          De facto não se encontram referências sobre esse acontecimento antes dessas datas, nem na crónica geral de Espanha de 1344, nem nas outras fontes sejam elas portuguesas, castelhanas ou árabes, nem inclusivamente nos documentos mais antigos que se conhecem sobre a vila de Ourique, a carta de doação de feira de 1288 e a carta de  foral de 1290, ambas concedidas pelo rei D. Dinis.
          De referir também que nos primórdios da formação de Portugal o Campo de Ourique não se restringia somente á vila ou concelho de Ourique, era, de uma forma incipiente, geralmente considerado grande parte do território que se prolongava para sul do rio Tejo, portanto falar numa batalha de Ourique seria falar numa região a Sul do Tejo.
          As particularidades das lutas pelo controle do território entre cristãos e muçulmanos não favoreciam a concentração de grandes exércitos ou de batalhas campais, constituídos maioritariamente pela cavalaria pesada da nobreza terra tenente, com armaduras imponentes e exercito pedonal incluindo arqueiros e lanceiros.
          Quando a fronteira do reino de Portugal em 1139 se situava no rio Mondego, era inadmissível situar um exército desta natureza a cerca de quinhentos quilómetros da fronteira e em pleno território inimigo.
          As conquistas das cidades por D. Afonso Henriques e sucessores, faziam-se mais à custa das tropas ligeiras dos concelhos, dos cavaleiros-vilãos, peões e besteiros, ou de intrépidos aventureiros como Geraldo-Sem-Pavor que conquistou Évora, ou trepando os muros na calada da noite como sucedeu em Santarém ou com a ajuda dos cruzados como no caso de Lisboa, as próprias ordens religioso-militares resguardavam uma boa parte dos seus guerreiros na defesa dos seus próprios territórios.
          As vitórias de D. Afonso Henriques contra os sarracenos e as suas ambições politicas em formar um reino independente, carecia de fundamento e do respectivo reconhecimento, nesse sentido haveria de mistificar a fundação do reino na criação divina. As vitórias nos campos da batalha e as conquistas territoriais, tomaram assim uma dimensão fenoménica. Haveria de glorificar e engrandecer as escaramuças, contra o infiel, pela conquista territorial e a expansão da fé, para justificar a pretensão de D. Afonso Henriques a ser rei dum reino soberano e independente.
          Os cinco reis mouros derrotados poderiam equivaler a outras cinco batalhas, emboscadas ou acções de guerrilha, temporalmente apartadas, tomando o nome daquela que no contexto geo-político da época se apresentava mais distante, ou seja depois do Tejo, não deixando, contudo, de ter em atenção tanto as imprecisões localizáveis no terreno como os exageros dos feitos e fanfarronices de cavaleiros. No quadro da imaginária historiografia dos monges alcobacenses, seria «bem mais gloriosa para o rei seu protector» uma vitória obtida lá mais para Sul, bem dentro das terras infiéis.

          Assim, estas escaramuças pelo território, tomou no século XV um sentido mítico-sacralizante do rei e do reino, esta mitificação das origens aparece assim como a peça fulcral, como o milagre que faltava para atestar a protecção divina concedida a este reino desde a sua fundação.

          A concluir no que diz respeito á batalha de Ourique, sob o ponto de vista do espetáculo, da especulação, da teatricalidade, muito pouco há a dizer, sob o ponto de visto histórico podemos recorrer, como exemplo, ao que diz o historiador José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006:


“Por isso eu admiro-me muito por ver aqui à porta da Câmara Municipal, está ali uma placa com uma série de nomes, … e disseram-me “… esses morreram na Batalha de Ourique, no século XII”, “o quê?!” “é”, então comecei a ler. Lá em cima diz Fernão Mendes de Bragança e os seus dois irmãos, Egas Moniz e os seus dois filhos, Afonso vi, o Moço Viegas, o Soeiro Viegas, o Garcia Mendes, o Lourenço Mendes e até lá está o D. Fuas Roupinho. Como sabem o D. Fuas Roupinho era um almirante que parece, também segundo, tudo isso é lenda, … até o D. Fuas Roupinho mataram aqui para fazer aquela lápide. Eu sinceramente discordo dessas invenções históricas, Portugal tem tanta glória verdadeira, tem tantos factos de que nós nos podemos sinceramente orgulhar, que escusamos de recorrer a estas invencionices. Nós não precisamos, graças a Deus, nesse capítulo de episódios gloriosos de roubar nada a ninguém.”

sábado, 25 de novembro de 2017

ALHEIRAS ALENTEJANAS

Alheiras Alentejanas
          As Alheiras são enchidos, geralmente fumados, a que os judaizantes recorreram depois das imposições da Inquisição, que os proibia de exercerem a sua fé, em vez da carne e gordura de porco, proibida pela lei Judaica, as alheiras eram feitas com as carnes que houvesse á mão, nomeadamente de coelho, perdiz, pato, peru, galinha e vitela, acrescentava-se o miolo de pão e o caldo proveniente das carnes, temperava-se com alho, sal pimenta ou piri-piri.
          Assim com estes enchidos pendurados no fumeiro, enganavam os fiscais da inquisição e os vizinhos, que pensavam que eram enchidos de carne de porco, cuja carne a religião Judaica proibia-os de consumir, simulando assim fidelidade á religião cristã e obedecendo á proibição Judaica de consumo de carne de porco. Os judeus estão proibidos, pela sua religião, de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro, assim como os peixes sem escamas, não serviam para o consumo doméstico.
          Embora essa tradição tenha chegado até aos nossos dias na região de Trás-os-Montes, a sua divulgação teria sido muito mais vasta e com uma variedade de ingredientes muito diferentes dos hoje utilizados.
          Logo no início das restrições impostas ao Judeus pela inquisição, surge-nos um documento da Inquisição de Évora, de 1573, (ANTT, cadernos do promotor 146/3/9 folhas 304) no qual justifica a tradição que faz da Alheira uma criação dos Marranos, ou Cristãos Novos como eram conhecidos os Judeus convertidos á religião Cristã, nesse documento uma denunciante de Castelo de Vide, Alentejo, apresenta como praticas Judaicas “... para fugir ao chouriço de porco fazia um chouriço com fígado de bode ... “, (António Borges Coelho em a Inquisição de Évora, editorial Caminho, Lisboa 2002).
          Assim a criação de enchidos como elemento dissimulado de fidelidade á religião Cristã, era uma prática a que os Judeus tiveram de recorrer nos vários lugares do reino, e a qualquer ingrediente que tivessem á mão, para fugir ao controlo da Inquisição.
          Outra maneira de confecionar estes enchidos seria com: pão à base de farinha de trigo, carnes de capoeira ou caça miúda, bastante azeite, cebola e salsa miúda, alhos esmagados, pimenta, sal e colorau ou tempero picante. Na falta de aves de capoeira ou da caça esta poderia ser substituída pelas carnes que estivessem à mão, vitela, pato, peru, borrego ou cabra.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE GARVÃO

INTRODUÇÃO

          Este estudo baseia-se nos recenseamentos gerais da população portuguesa publicados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística.

          O primeiro Recenseamento Geral da População Portuguesa, a reger-se pelas orientações internacionais do Congresso Internacional de Estatística de Bruxelas de 1853, realizou-se em 1864.

          Ainda no século XIX tinham sido realizados os censos de 1801 conhecido pelo recenseamento do Conde Linhares no reinado de D. João VI e os recenseamentos gerais de 1835 e 1851.

          Os censos realizados anteriormente não contam para o presente estudo nomeadamente o Rol de Besteiros do Conto, de D. Afonso III (1260-1279); o Numeramento ou Cadastro Geral do Reino, de D. João III (1527); a Resenha de Gente de Guerra, de D. Filipe III (1639); a Lista dos Fogos e Almas que há nas Terras de Portugal, de D. João V (1732), também conhecida por Censo do Marquês de Abrantes e o Numeramento de Pina Manique, de D. Maria I (1798).


POPULAÇÃO

          Ao observar-mos a evolução populacional da povoação de Garvão desde 1801, não podemos deixar de notar, no gráfico apresentado, uma curva ascendente a partir desse ano, cujo pico se situa nas décadas de 30 e 40 do século passado, (censos de 1940 e 1950), e descendente que culmina com a mesma população que tinha há cento e dez anos.

          Recorrendo unicamente ao período dos censos disponibilizados pelo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), (deixando o efectivo populacional da povoação de Garvão nos períodos antecedentes para outra altura), facilmente se chegará às seguintes conclusões:
          - O ganho populacional que se observou até às décadas de 1940 esbateu-se nos sessenta anos seguintes.
          - Os anos em que se observa um aumento populacional significativo coincidem precisamente com o incremento da cultura cerealífera no Alentejo. Se grande parte da população permaneceu agarrada ao trabalho manual nos campos e se nas décadas anteriores ao milagre do trigo, estas eram as responsáveis pelo reduzido número de habitantes, já a partir do momento em que se observou uma maior produção cerealífera – mais trabalho e melhor alimentação – também se observou um aumento populacional, tendo Garvão pela primeira vez, desde que existem registos populacionais, registado um aumento superior aos dois mil habitantes, 2.282 habitantes respeitantes à década de 1940, segundo o censo de 1950 e 2.207 habitantes respeitantes à década de 1930, segundo o censo de 1940.
          A este aumento populacional não deixa de estar relacionado a implantação da pequena industria local como a alta e baixa moagem, a fábrica dos pirolitos, fábrica do tratamento primário da cortiça, e os lagares de vinho e azeite, incrementando igualmente o comércio local, altura em que Garvão presenciou de facto um crescimento significativo, recordado saudosamente pelas gerações que a presenciaram.
          - Contrapondo esta curva descendente da população de Garvão, que se vinha a observar desde 1950, registou-se de facto um ligeiro aumento na década de 1970, (censo de 1981), obviamente aqui não deixa de ter alguma influência o regresso dos imigrantes e dos retornados das ex-colónias portuguesas em África.
          - Igualmente, na década de 1910, (censo de 1920), o crescimento populacional que se vinha a observar, parece não ter sido afectado, nem pela implantação da república em 1910, nem pela grande guerra (1914/1918), nem pela pneumónica de 1918/1919.
          De facto o aumento registado durante a década de 1910, (censo de 1920) de 34,23% era perfeitamente suficiente para anular qualquer efeito que o total de cerca de 60.000 vítimas nacionais (cerca de 1,08% da população) causado pela pneumónica (ou gripe espanhola) pudesse causar no crescimento da população de Garvão.
          Não se pode deixar de notar que embora o mortífero vírus da gripe atingiu igualmente as populações rurais estas apresentavam uma mais forte resistência ao vírus da gripe, de facto as populações rurais coabitando mais frequentemente com os animais domesticados desenvolvem mais facilmente defesas imunitárias a estes agentes patogénicos. (A varíola, a varicela e o sarampo, levados pelos conquistadores espanhóis, causaram mais mortes aos ameríndios centro e sul americanos, cerca de 90% da população, do que propriamente as armas de Cortés e Pizarro, precisamente por falta de domesticação de animais e do respectivo contacto).
          - O acentuado decréscimo populacional que se observa a partir de 1950 (censo de 1960) até aos nossos dias, uma baixa taxa de natalidade e uma alta taxa de mortalidade devido ao envelhecimento da população, com a pequena ressalva ocorrida na década de 1970 com o regresso dos retornados, não deixa de estar relacionada com a crescente mecanização agrícola, com a emigração tanto de operários, primeiro para a CP e para a cintura industrial das grandes cidades e depois para o estrangeiro, o não regresso dos soldados que conhecedores de outras realidades desprezaram os campos, das criadas de servir, verdadeiros elos na propagação dos hábitos citadinos para o campo.
          Não se pode descurar igualmente as alterações sócio-culturais que se observaram na população portuguesa, nomeadamente a propagação dos meios de comunicação, nomeadamente a televisão, um maior número de mulheres no mercado de trabalho assim como fundamentalmente a utilização de meios contraceptivos.
          A fraca pluviosidade e a praticamente inexistente mobilização da terra contribuíram igualmente para o cenário actual, já Mário Nunes Vacas na sua tese de licenciatura em 1938 conclui que a diminuta densidade populacional no Alentejo se deve tanto à fraca pluviosidade como à irregularidade desta, comparando inclusivamente com outras regiões do país onde um maior recurso hídrico se associa a uma maior densidade populacional. Aponta igualmente que a concentração de grandes latifúndios nas mãos de poucos, obsta a que muitos milhares de braços procurem na emigração a fuga a uma mera subsistência.


CONCLUSÃO
          Prova-nos assim a história que em situações económicas desfavoráveis e em condições adversas, não seriam propícias a um aumento populacional elevado e sustentado: pois os recursos alimentícios disponíveis às populações seriam reduzidos e consequentemente as taxas de reprodução populacional seriam menores; as taxas de mortalidade seriam elevadas; e mesmo a própria mobilidade das populações (em busca de melhores condições alimentares) estaria condicionada.
          Também nos prova que em situações económicas favoráveis assiste-se a um aumento populacional. Obviamente que as condições propícias a esse aumento nos meados do século XX, com o chamado milagre do trigo, não são reproduzíveis na actualidade, portanto preconizar uma revitalização económica-populacional, baseada num exemplo positivo do passado, não só é inexequível como inviável, os tempos são outros, a dependência da mão-de-obra na agricultura, devido à maquinização, é reduzida quando comparada com as décadas anteriores.
          Os tempos actuais oferecem outras oportunidades, tanto de sobrevivência individual como colectiva, passa sem dúvida pelo conhecimento, pela educação, pela abertura ao mundo exterior, pelo exemplo do que se passa noutros lugares, sejam elas positivas como exemplo a seguir ou sejam elas negativas como praticas a evitar.


2011 - 730 Habitantes menos 121 quebra de 14,21%
2001 - 851 Habitantes menos 87 quebra de 9,27%
1991 - 938 Habitantes menos 275 quebra de 22,67%
1981 - 1213 Habitantes mais 36 aumento de 3,08%
1970 - 1167 Habitantes menos 764 quebra de 41,95%
1960 - 1821 Habitantes menos 461 quebra de 20,20%
1950 - 2282 Habitantes mais 75 aumento de 3,39%
1940 - 2207 Habitantes mais 419 aumento de 23,43%
1930 - 1788 Habitantes mais 502 aumento de 28,07%
1920 - 1286 Habitantes mais 328 aumento de 34,23%
1911 - 958 Habitantes mais 230 aumento de 31,59%
1900 - 728 Habitantes mais 49 aumento de 7,21%
1890 - 679 Habitantes mais 168 aumento de 30,49€
1878 -551 Habitantes mais 32 aumento de 6,16%
1864 - 519 Habitantes mais 32 aumento de
1849 - 415 Habitantes mais 65 aumento de
1801 -350 Habitantes



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ó LAURINDA LINDA LINDA

Ó Laurinda Linda Linda
          Tem desenvolvido o jornal de Garvão a temática do relacionamento inter-cultural entre várias sociedades, nomeadamente a similaridade entre a denominada “Dança de Garvão”, evidenciada na Dança do Mastro, Dança dos Arquinhos ou na Dança das Voltas, com outras danças que se observam em várias partes da Europa, nomeadamente aquelas de influência Celta e a Dança dos Morris na Inglaterra, cujos paralelismos se encontram igualmente nesta zona do Alentejo, evidenciada nas Danças das Espadas e dos Guizos.
          Não deixa, também, de se poder confrontar outras manifestações culturais, cujas similaridades, nos revertem para a mesma origem inter-europeia, sejam elas na área da dança, na área da música, ou inclusivamente, na área da poesia popular.
          Se esta semelhança se observa na área da música e da poesia, uma dessas canções é a denominada, "Ò Laurinda, Linda, Linda", originária da zona de Monchique e que consta da recolha nacional, para a RTP e amplamente difundida, efetuada por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça, em 1962, no monte da Casa Velha, Alferce. A partir desta divulgação
, o intérprete de música popular alentejana, Vitorino, também a divulgou, apesar de, inexplicavelmente, ter substituido “Feira de Garvão”, por “Feira de Marvão”, à revelia da história original desta música, da sua origem, do contexto social que a originou e da proximidade entre Monchique e Garvão
         
Sobre o paralelismo com outras regiões, não deixa de ser interessante o artigo, abaixo descrito, de José Joaquim Dias Marques da Universidade do Algarve, sobre a similaridade entre a cantiga popular, “Ó Laurinda, Linda, Linda”, a qual descreve as imaginativas respostas da esposa adúltera, que dá título á cantiga, quando o marido regressa da feira de Garvão e a cantiga escocesa “Our Goodman” e a irlandesa, “Seven Drunken Nights”, numa situação igual, em que o marido bêbado, confronta a esposa numa situação de infidelidade.
         
“A balada portuguesa Laurinda e a balada escocesa Our Goodman pertencem a um grupo de baladas existentes em muitos países europeus que estão sem dúvida geneticamente relacionadas.
         
A base de todas elas é o tema da mulher adúltera e esperta, surpreendida quase em flagrante pelo marido quando este volta de viagem. Este tema é desenvolvido através duma série de perguntas do marido sobre peças de roupa ou outros objectos que ele inesperadamente encontra ao regressar a casa e através duma série de respostas imaginativas da mulher, tentando escapar a ser desmascarada.
         
Embora contem a mesma história, estas baladas apresentam diferenças próprias dos textos da tradição oral. A balada escocesa aborda o tema do adultério de modo meio cómico, fazendo com que o marido regresse a casa bêbado e dando à história um final aberto, que poderá ser visto como um final feliz ou, pelo menos, sem conflito.
         
Por seu lado, a balada portuguesa leva o tema muito a sério, terminando a história com a decisão do marido de se separar da adúltera. Nalgumas versões da balada portuguesa, o marido diz mesmo que irá devolver a adúltera ao pai dela, “para que ele veja a mulher que me entregou”.
         
Repare-se, de qualquer modo, como estas baladas mostram um entendimento igual da questão do adultério: o problema está no adultério da mulher, pois é a mulher que a sociedade vê como devendo ser fiel. Pelo contrário, nos textos orais não costuma aparecer (ou aparece muito, muito raramente) a questão da fidelidade do marido, parecendo encarar-se o adultério masculino
como algo desculpável e, até, natural."


José Joaquim Dias Marques (Universidade do Algarve)
http://seeingstories.eu/index.php/bridges-lisbon-edinburgh
https://www.youtube.com/watch?v=FP7VsdIX5D0


https://www.youtube.com/watch?v=1it7BP5PckIhttps://

www.youtube.com/watch?v=3hmBxZzbkXI

 https://www.youtube.com/watch?v=72JMVvF-EYQ


OBSERVAÇÃO: Ao visualizar as músicas através dos links acima reproduzidos ter em atenção que o vídeo de "Laurinda, linda, linda" está trocado com o video de "A confissão da virgem".



Laurinda Linda Linda


-Ó Laurinda, linda, linda!
És mais linda do que o sol!
Deixa-me dormir uma noite
Nas dobras do teu lençol.


-Sim, sim, cavalheiro, sim!

Hoje sim, amanhã não.

Meu marido não está cá
Foi à feira de Garvão.


-Onze horas, meia-noite
Marido à porta bateu.
Bateu uma, bateu duas
Laurinda não respondeu.


-Ou ela está doentinha
Ou já tem um novo amor
Ou então procura a chave
No fundo do corredor.


-De quem é este chapéu
Debruado a galão?
-É para ti, meu marido!
Fi-lo eu por minha mão."


-De quem é este casaco
Que ali vejo pendurado?
-É para ti, meu marido!
Que o trazes bem ganhado.


-De quem é este cavalo
Que na minha esquadra entrou?
-É para ti, meu marido!
Foi teu pai quem to mandou.


-De quem é este suspiro
Que ao meu leito se atirou?
Laurinda, que aquilo ouviu,
Caiu no chão, desmaiou.


-Ó Laurinha, linda, linda
Não vale a pena desmaiar.
Todo o amor que te eu tinha
Vai-se agora acabar!


-Vai buscar as tuas irmãs!
Trá-las toda num andor!
A mais linda delas todas
Há-de ser o meu amor."


 

Seven Drunken Nights
Sete Noites de Bebedeira
Versão portuguesa: Ana Sofia Paiva


Segunda-feira cheguei a casa
E já mal podia andar
Avistei um belo cavalo
Onde o meu havia de estar
-Com mil diabos! -disse eu,
Ó minha rica mulher
De quem é aquele cavalo
Não me queres lá tu dizer?


-Ó meu grande borrachão!
O vinho já te cegou?
É uma bela porquinha
Que a mãezinha me mandou!
-Mais de mil léguas andei
O mundo inteiro corri
Mas uma porca com sela
Foi coisa que nunca vi


Terça-feira cheguei a casa
E já mal podia andar
Avistei um belo casaco
Onde o meu havia de estar
-Com mil diabos! -disse eu,
Ó minha rica mulher
De quem é aquele casaco
Não me queres lá tu dizer?


Ó meu grande borrachão!
O vinho já te cegou?
É um belo cobertor
Que a mãezinha me mandou!
-Mais de mil léguas andei
O mundo inteiro corri
Mas botões num cobertor
Foi coisa que nunca vi


Quarta-feira cheguei a casa
E já mal podia andar
Avistei um belo cachimbo
Onde o meu havia de estar
-Com mil diabos! -disse eu,
Ó minha rica mulher
De quem é aquele cachimbo
Não me queres lá tu dizer?


-Ó meu grande borrachão!
O vinho já te cegou?
É uma bela gaitinha
Que a mãezinha me mandou!
-Mais de mil léguas andei
O mundo inteiro corri
Mas tabaco num gaitinha
Foi coisa que nunca vi


Quinta-feira cheguei a casa
E já mal podia andar
Avistei duas belas botas
Onde as minhas haviam de estar
-Com mil diabos! -disse eu,
Ó minha rica mulher
De quem são aquelas botas
Não me queres lá tu dizer?


-Ó meu grande borrachão!
O vinho já te cegou?
São duas belas jarras
Que a mãezinha me mandou!
-Mais de mil léguas andei
O mundo inteiro corri
Mas atacadores em jarras
Foi coisa que nunca vi


Sexta-feira cheguei a casa
E já mal podia andar
Avistei uma bela cabeça
Onde a minha havia de estar
-Com mil diabos! -disse eu,
Ó minha rica mulher
De quem é essa cabeça
Não me queres lá tu dizer?


-Ó meu grande borrachão
O vinho já te cegou?
É um belo menino
Que a mãezinha me mandou!
-Mais de mil léguas andei
O mundo inteiro corri
Mas um menino com barba
Foi coisa que nunca vi


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

FORNO de CERÂMICA MEDIEVAL




 Forno de Cerâmica Medieval

Descoberto na Casa do Povo de Garvão


         Um forno de cerâmica, inédito em Garvão e dos poucos existentes em Portugal, foi posto a descoberto na Casa do Povo de Garvão, em 1995, quando se procedia à  terraplanagem, para a construção de uma cozinha no quintal, junto ao muro a nascente que divide com a propriedade do Sr José Fiel.

          A rectro-escavadora, ao fazer o corte lateral na barreira, para acomodar a referida cozinha, rebaixando o ní­vel do terreno em cerca de três metros em relação ao terreno do vizinho, pôs a descoberto uma estrutura em pedra e cerâmica, identificada pelos presentes como um forno de cozer cerâmica, danificando lateralmente a própria estrutura e algumas peças no interior desta.

          A estrutura, oca, prolongava-se, na horizontal, no sentido nascente, para dentro do quintal do referido vizinho, por mais dois ou três metros, e a parte superior a cerca de um metro da superfí­cie que nunca chegou a abater. Alertados os serviços de arqueologia oficiais responsáveis, sobre a necessidade de uma intervenço imediata, para salvaguardar tão importante achado, foi o devido subsidio aprovado e entregue a arqueólogos que nunca chegaram a efectuar as devidas investigações no terreno, apesar da autorização para o efeito, do proprietário do terreno, Sr José Fiel, onde se encontra a parte principal do forno.

          A proliferação de cerâmica nesta área estendia-se até à ribeira, encontradas, principalmente nas movimentações de terra que envolveu a construção dos dois edifícios diante da Casa do Povo.

          Os ex-votos em cerâmca encontrados no Depósito Votivo, manufacturados manualmente e ao torno, apesar de apresentarem diversas proveniências, encontra-se uma grande maioria, na ordem das centenas, de produço local. Só um estudo deste forno e de alguns materiais que eventualmente venham a ser descobertos no seu interior, poderá avaliar a relação, se alguma, com a produção de cerâmicas encontradas no Depósito Votivo.

          O forno apresentava duas paredes centrais, em pedra/barro, que deviam de dividir as três câmaras, geralmente encontrados neste tipo de fornos que devem de corresponder à  câmara da cozedura, câmara de aquecimento e corredor, apesar de só a câmara central ser mais visí­vel e muito parcialmente as outras duas.

          Presentemente o forno encontra-se tapado lateralmente, na parte do terreno pertencente à  Casa de Povo, onde foi construí­da uma parede, não só para suporte da referida cozinha, mas igualmente de retenção de terras, mantendo-se a estrutura do forno, que se prolongava para o terreno do vizinho, intacta.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os MOÇARABES

Santa Anica e São Barão


          Santa Anica e a Igreja de São Barão, são dois antigos locais de cultos situados na freguesia de São Martinho das Amoreiras e têm a particularidade de ambos os santos não fazerem parte do panteão católico.

          Encontramos igualmente dispersados, não só no interior alentejano mas de Norte a Sul do país, denominações relacionadas com lugares religiosos cuja função inicial se perdeu e caiu em desuso, mas cuja presença e a falta de reconhecimento pela igreja cristã coloca a questão das suas origens.

          De facto se já existe alguma literatura sobre certos lugares relacionados com o rito Moçarabe como São Cucufate em Beja, outros há que nos leva a tecer comparativismos, como a igreja de São Barão e locais como Santa Anica na freguesia de São Martinho das Amoreiras que nos leva a inquerir sobre as suas origens e a sua possível relação com o rito Moçarabe. 


I I


          A instabilidade político-social e o clima de guerra civil que marcou os últimos anos da governação visigótica na Península ibérica, levou algumas figuras proeminentes da sociedade goda a procurar apoio militar no outro lado do estreito, junto às forças Árabes e a encoraja-los a invadirem a Península

          Em 11 de Abril de 711, o general berbere Tariq ibn Ziyad, atravessou o estreito que separa a África da Europa e invadiu a Península Ibérica a partir do antigo promontório Calpe que passou a denominar-se Jebel Tarique, “Gibraltar: A montanha de Tarique”.

          Não terá havido propriamente uma “conquista” árabe, mas sim uma ocupação, conseguida na maior parte das vezes com a entrega voluntária das fortalezas e das povoações.

          Assim, na península, para além dos árabes e outras populações do Norte de África nomeadamente os berberes e os mouros, ficaram igualmente a viver no território conquistado as populações que já aqui existiam como os judeus e os hispano-godos ou hispano-romanos, alguns submetidos ao islamismo e designados por Muladis e outros denominados Moçárabes que mantinham a religião cristã e viviam em comunidades separadas com instituições e autoridades próprias e manter uma certa hierarquia eclesiástica, inclusivamente a conservarem os seus bispos em várias dioceses.

          Assim pode-se definir os moçárabes, como descendentes cristãos da população romano-goda que residiam na Península Ibérica antes da conquista Árabe e continuaram a professar o cristianismo e a venerar os seus santos, (Santa Maria, S. Vicente, S. Brás, S. Cucufate, S. Sisenando, S. Manços, Santa Iria, S. Paio e S. Mamede entre outros), sob domínio Muçulmano, adoptando alguns aspectos da cultura Árabe nomeadamente a língua e a vestimenta. O termo moçárabe deriva do árabe musta'rib, "arabizado”.

          Estes cristãos a viver em terras muçulmanas continuaram a realizar as cerimónias religiosas sem qualquer alteração ou influências externas, ao mesmo tempo que se foi observando no mundo cristão obediente a Roma, algumas alterações na forma como a missa era celebrada pelos sacerdotes que a foi diferenciando do rito primitivo.

          Encontra-se no rito moçárabe, acompanhada pelo cantochão moçárabe, orações antiquíssimas e um conjunto de fórmulas e celebrações litúrgicas desaparecidas da liturgia romana, nomeadamente na ordenação do calendário, na forma das cerimónias, na celebração da missa e do seu cânone e na narrativa da instituição eucarística segundo S. Paulo.

          O Concílio de Burgos de 1080 determina a substituição do rito hispânico ou moçárabe pelo rito romano, o que não foi seguido pelas populações moçárabes a viverem em território Muçulmano que continuaram a celebrar a missa segundo o rito primitivo.

          A toponímia e a antroponímia actual atestam a presença destas populações que continuaram a viver nos reinos cristãos pós-reconquista e se prolongou muito para além da conquista definitiva de Algarve em 1249, ou mesmo depois da expulsão das minorias religiosas de Portugal em 1496.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O ZEBRO

 O ZEBRO

Mencionado no Foral Velho de Garvão, 1267.

       


          Consta no Foral-Velho de Garvão de 1267, no fólio cinco rosto, a menção a um animal denominado por Zebro/Zebra ou Zevro/Zevra que habitaria a Pení­nsula Ibérica e teria desaparecido por volta do século XVI, cuja carne era consumida juntamente com outros animais selvagens e cuja venda, da pele curtida destes animais, pagava de portagem, ao concelho, dois denários em pé de igualdade com as peles curtidas das vacas.


(...) corio de vaca et de zevra duos dinarios. De corio de cer

vo et gamo três mealias. De carrega de cera quinque silidos.

De carrega de azeite quinque sólidos. Istud portagium de

hominibus foras ville tercia pars de suo hospi

te, et due parte de ordino.


Que corresponde ao português actual:

(...) coiro de vaca ou de zevra, dois dinheiros[1]; de coiro de veado e de vaca e gamo, três medalhas; de carga de cera, cinco soldos; de carga de azeite, cinco soldos. Esta portagem é dos homens de fora da vila; a terça parte desta portagem dê-se ao hospedeiro[2] e  duas partes à  ordem

           Segundo alguns textos medievais seria um animal com uma estrutura semelhante a uma égua, ou se tivermos em atenção a origem da palavra Zevro, do Arabe "Zarb" que corresponde a Burro selvagem, seria assim, de facto, um Burro selvagem que errava nos matagais que cobriam estes territórios no princí­pio da nacionalidade.

          A cor da sua pelagem seria acinzentada com o focinho escuro e teria como caracterí­stica principal várias listas escuras nos membros dianteiros e no dorso que se prolongaria desde o lombo até à  cauda. Se a origem da palavra Zevro ou Zebro se encontra numa li­ngua trazida por povos invasores pelo Norte de África que denomina um animal que se encontrava em Portugal, não deixa de ser curioso que os navegantes portugueses, quando chegaram a África, ao verem aqueles animais listrados os tivessem apelidado do mesmo nome e conhecidos até hoje como Zebras em detrimento das denominações nas linnguas locais.[3]

          O consumo da carne destes animais perpectou-se no tempo e ainda hoje, em várias aldeias do paí­s, manteve-se o costume de comer carne de burro, num quadro festivo religioso em que este animal seria sacrificado e a sua carne consumida num grande banquete ritual.[4]   

            Igualmente encontra-se, de norte a sul do pais, vários topónimos alusivos ao Zebro, nomeadamente, Vale Zebro, Zebreira ou Azebreira, Zebro de baixo e Zebro de cima, Horta do Zebro, Alto do Zebro, Monte Zebro, Zebras (Fundão), Zebreira (Idanha-a-Nova), ou denominados Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços) e Zebreiros (Gondomar), entre outros.

          Certos investigadores entendem que o Zebro seria descendente, senão o próprio, "Equus Hydruntinus", um equí­deo pré-histórico que teria vivido na Europa há cerca de 12.000 anos e teria sobrevivido até ao século XVI nas extensas matas e matagais que cobriam o território, há quem defenda igualmente que o actual cavalo de Sorraia descende do Zebro.


[1] Sobre o valor das moedas mencionadas, o Morabitino ou Maravedi valia 15 soldos, o soldo valia 12 dinheiros, o dinheiro ou denário valia 2 mealhas, ou medalhas que valiam assim meio dinheiro.

[2] Hospedeiro - Aquele que no concelho dava hospedagem ao mercador vindo de fora e que por isso tinha direito a um terço da portagem, por este pago. 

[3] A Zebra, ou sub-espécies, em Swahili denomina-se Pundamilia, em Sesotho, Qoaha, em Chichewa, Mbidzi e em Yoruba, Abila.

 [4] Nomeadamente nas aldeias de Manigoto e Lameiras, no concelho de Pinhel, onde se preservou o costume de comer carne de burro por ocasião das festividades populares onde o burro é sacrificado e consumido por todos os habitantes num grande banquete público. 

sábado, 13 de maio de 2017

Feira de Garvão 2017

Tivemos mais uma Feira de Garvão.
Mais espectáculo, mais diversão, mais animação e mais transmissão televisiva.
Muito se poderia dizer sobre estas transmissões televisivas, verdadeiras máquinas de fazer audiências, vazios de conteúdo algum a não ser o sucesso financeiro dos acionistas em vez de uma programação virada para a elevação cultural dos tele-espectadores e consequentemente da população em geral.
De facto a Feira de Garvão, autêntico circo mediático, de onde de cima do palco os artistas do momento e do ocasião mandam beijinhos, e o povo, alienado, completamente extasiado, assobia e piropiteia, “ai és tão bela”, “és linda”, "casa comigo" e o baile vai rodando.
Mas por mais ridícula e degradante que seja a subversão da ideia de conhecimento, da realidade cultural local, da especificidade da própria feira, a divulgação mediática, no seu corrupio sensacionalista de atração desmesurada das massas, ao transmitir estes conteúdos alienígenas, subverte a natureza, a riqueza e a especificidade especial do próprio evento.
Não se trata de ser feirante sem ser espectador, ou atrair espectadores sem serem feirantes, o que se trata será do aproveitamento mediático em que tanto uns como outros são apanhados. As fragilidades sociais sobrepõem-se a qualquer outro interesse, a não ser a euforia de um momento efémero que tudo justifica e a tudo se impõe, sejam culturais, sejam históricas, sejam patrimoniais ou até mesmo comerciais.
Como ferramenta para embevecer e afastar os feirantes e a população em geral daquilo que deveria ser o interesse principal: a Feira de Garvão, claro que estes subterfúgios cumprem o seu objectivo, a alineação da população de outros temas mais enriquecedores, mais esclarecedores, mais educativos. A receita é conhecida de séculos, por quem procura fama, riqueza, influência e poder: mais festas, mais espectáculo e mais petiscos.
E, até nesta democracia virtual, se poderia compreender tal, se inovadora e promovida por quem colhe tais proveitos e não aproveitar um evento secular e histórico, desvirtuando-o e moldando-o a necessidades narcísicas.

domingo, 22 de janeiro de 2017

COMEMORAR OS 750 ANOS DO FORAL VELHO DE GARVÃO




Jornal de Garvão 23 

          Em Fevereiro de 1267, no reinado de D. Afonso III, o Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, conjuntamente com João Raimundo, Comendador de Mértola, outorga a carta de Foral de Garvão. 

          O Foral de Garvão é um documento importante, não só para a história da própria vila, mas, porque consubstancia matérias de direito penal, militar, administrativo e fiscal, também, para o estudo da organização da sociedade do século XIII. Para além da sua importância política, como símbolo do poder local, este documento, também, nos permite tomar conhecimento dos laços de solidariedade e das relações económicas implementadas por estas comunidades isoladas e concentradas sobre si mesmas desde tempos remotos, que o tornam num documento de referência no quadro do património documental desta época.
           Tem sido referenciado por vários autores, em várias épocas, tanto no campo do direito penal, militar, administrativo, político e fiscal como no campo histórico e linguístico a partir do único original conhecido e conservado no Arquivo Nacional na Torre do Tombo. Os trabalhos de investigação e divulgação relativos às cartas foralengas, atribuídos aos diversos concelhos portugueses, têm merecido, desde há já alguns anos, uma vasta referência ao Foral de Garvão, como demonstra as diversas produções dedicadas a esta matéria.

          Comemora-se assim, esta data tão importante para a vila de Garvão, com a edição do Jornal de Garvão nº 23 inteiramente dedicado ao Foral Velho de Garvão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo



Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo

          Inês Fonseca apresentou na livraria Ler Devagar, a sua obra sobre memórias e identidade de uma aldeia do Alentejo, Aivados, no concelho de Castro Verde. Uma povoação que pela posse igualitária da terra se envolveu na luta pela reforma agrária logo após a Revolução de Abril.

          O livro, com a chancela da Dinossauro Edições tem por título Aivados. Posse da Terra, Resistência e Memória no Alentejo e teve por base a tese de dissertação que apresentou no seu mestrado em Antropologia, em 1997, sob orientação dos Profs. Jorge Crespo e Paula Godinho.

          A obra abre com a apresentação geográfica da localidade e o seu povoamento. Daí parte para a inserção regional de Aivados no território do Baixo Alentejo e para as estruturas sociais que ali existiam e se formaram ao longo do século XX. “Movimentos sociais no contexto alentejano” é o título deste capítulo que se desenvolve depois, no capítulo seguinte, na epopeia da posse colectiva da terra, “naquele dia [em que] éramos todos iguais”.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...