domingo, 22 de dezembro de 2024

QUADRA NATALÍCIA e ANO NOVO de 2025

          Neste quadra Natalícia e no Novo Ano que se aproxima, é fundamental, para qualquer pessoa, conhecer as suas próprias raízes, condição essencial para cimentar ligações à sua terra e dos seus antepassados.

     Numa época, em que o ritmo de vida nos leva a afastar-nos, cada vez mais, das origens, se não conhecermos o nosso passado, muito difícil será a procura dos caminhos de um futuro que respeite e, ao mesmo tempo, se orgulho da ação das gerações que nos precederam.

     Sem compreendermos a nossa história, muito dificilmente conseguiremos respeitar e conservar as marcas que essas gerações nos legaram desde tempos imemoráveis.

     Ora, Garvão é uma terra privilegiada, no capítulo da História, da Arqueologia e da Cultura em geral, dado que conserva ainda vestígios de praticamente, todas as épocas, desde o paleolítico até aos nossos dias.

    No entanto, este riquíssimo património, não tem merecido a atenção devida, frequentemente ameaçado, acaba por cair no desleixo e no esquecimento.

     Um património que poderia contribuir significativamente para a afirmação da nossa terra no quadro histórico e cultural europeu, (como se observa noutras terras, em que souberam catapultar a herança histórica e cultural, para patamares de progresso e dinamismo social), tem sido alvo, inconscientemente (ou talvez não), de saque e de vandalismo, num processo de degradação irremediável que dificilmente e só com muita boa vontade, poderá servir os interesses de uma população que nos último sessenta anos perdeu 80% dos seus residentes.

domingo, 24 de novembro de 2024

MISERICÓRDIA DE GARVÃO




   







Cópia de duas páginas dos Estatutos da Santa Casa da Misericórdia de Garvão. Gentilmente cedido por Assunção Vilhena.

      Sobre a Santa Casa da Misericórdia da vila de Garvão, surge um documento, gentilmente cedido por Assunção Vilhena, com a data de 3 de Junho de 1959, onde constam várias pessoas desta terra como elementos da Administração desta, nomeadamente como Provedor José Sabino Sequeira, como Tesoureiro, Júlio Beltrão de Matos e como Secretário Joaquim Fiel Mestre.

     O documento denominado “Cópia dos Estatutos da Santa Casa da Misericórdia de Garvão” em papel azul, tamanho A4, composto por vinte e uma página dactilografadas, no qual constam cinquenta e nove artigos e as respetivas alíneas que compõem os estatutos.

     Na primeira página dos estatutos, pode-se observar, embora de uma forma reduzida, alguns dos objectivos e obrigações a que se propõem os proponentes:

Capítulo I

Da natureza e fins

Art.º 1º - A Santa Casa da Misericórdia de Garvão é uma associação que se propõe prestar assistência aos pobres e indigentes da freguesia de Garvão de harmonia com espírito tradicional da instituição para a prática da caridade cristã.

Art.º 2º - A Misericórdia reger-se-á é pelo disposto neste Compromisso e pela legislação aplicável.

Art.º 3º - À Míseric6rdia de Garvão compete obrigatoriamente:

1° Criar e manter o hospital de Garvão;

2º Socorrer as gravidas e os recém nascidos;

3º Promover o enterramento dos pobres indigentes que não tenham família o meios para o funeral;

4º Prestar socorros domiciliários;


  • Único. A Misericórdia, mediante acordo com a Câmara Municipal poderá encarregar-se da assistência aos expostos e desemparados.

Art.º 4º. Além das atribuições referidas no artigo anterior, a Misericórdia poderá criar outras modalidades de assistência na medida dos seus recursos.

     Este documento do ano de 1959, confirma várias questões que a memória local e as pesquisas bibliográficas têm mantido ao longo dos anos, que a Misericórdia de Garvão, estava activa e continuava a ser uma aspiração da população.

     Ainda nos anos sessenta do século passado existiam as instalações da “Misericórdia”, do “Hospital” e do “Registo Civil”, assim denominadas ainda hoje pela população, também era do conhecimento geral que esta, como instituição composto por membros/irmãos, quais eram os elementos que a ela estavam ligados, ou que faziam parte dos corpos sociais e, inclusivamente, onde reuniam como se observa no artigo 58º do referido estatutos menciona: A Mesa da Irmandade poderá reunir na sala de sessões da Misericórdia, caso não dispor de instalações adequadas.

     O surgimento deste documento, confirma que a Misericórdia continuava presente no dia a dia da população e este documento deverá ser interpretado como uma prova da sua existência e de não deixar morrer esta instituição, mas igualmente de a dotar de alguma dinâmica que a fizesse continuar a servir/apoiar a população de Garvão.

     A referência” à Misericórdia” da vila de Garvão imediatamente anterior a esta de 1959, surge no Anuário de 1909 (os Anuários eram publicações que discriminam os nomes e profissões das pessoas de Portugal, Ilhas e ex-Colónias), onde consta os nomes das pessoas que faziam parte da Misericórdia e Hospital de Garvão em 1908/1909, nomeadamente: o Médico, Francisco António Togeiro, a Enfermeira Maria Inácia, o Tesoureiro José António Malveiro, o Escrivão António Anastácio Diniz Gago e o Pároco António Gonçalves Moreira.

     As instalações da “Misericórdia”, do “Hospital” e do “Registo Civil” estavam situadas, na precisamente denominada, Rua da Misericórdia, onde, ainda hoje se nota o espaço vago, onde estavam estas instalações, terraplanadas depois do 25 de Abril de 1974. Do outro lado da rua estava precisamente a Igreja da Misericórdia, (primeiramente da Irmandade do Espírito Santo), hoje igreja Matriz, para onde passou o culto, depois da primitiva Igreja Matriz, junto ao Cemitério Velho devido ao terramoto de 1755 ter ficado danificada e não oferecer condições de segurança[1] e em cujas paredes actuais se nota vestígios desta Igreja.


[1] Informação gentilmente cedida pelo Doutor António Martins Quaresma.

sábado, 26 de outubro de 2024

AÇOUGUE - A Desabar











Parte do Telhado Caiu

     Para quem passa pela Ladeira do Padre, muito dificilmente, não repara numa casinha humilde, sem grandes traços arquitetónicos, sem janela e com uma só porta, mas de uma graciosidade enorme, cuja singeleza dos seus traços medievais, nas suas paredes carregadas de cal, nas suas arestas arcaicas que os séculos teimam em moldar e se pronunciam no imponente campanário que se sobrepõe à singularidade do edifício, não deixa, não pode deixar de lamentar o abandono votado nas últimas décadas.

     Infelizmente, este edifício não tem merecido a devida atenção que merecia, para além do sino que foi retirado há cerca de quinze anos, desabou agora uma parte do telhado, estando o resto em risco de desabar.

     No quadro concelhio medieval, o Açougue com o seu sino, conjuntamente com a casa da Câmara, as igrejas e o Pelourinho, entre outros atributos concelhios, era um dos edifícios que reconheciam e simbolizavam o concelho.

     As Cartas de Foral, nomeadamente a de Garvão de 1267, são bastante proliferas em legislação sobre o Açougue: o que se vendia, as taxas a pagar e a proteção sobre a violência entre vizinhos e mercadores neste local.

     Ver este edifício desabar, (e sem sino), é vermos desabar a nossa história e a nossa cultura, mas acima de tudo é vermos fugir às novas gerações a nossa memória colectiva que sem os mais velhos e sem as referências ancestrais se enterram em cada cova.


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

JOSÉ JÚLIO DA COSTA











ESTUDO MÉDICO-PSIQUIÁTRICA

Excerto do artigo: JOSÉ JÚLIO DA COSTA: PSICOPATOLOGIA NO MAGNICÍDIO? Nuno Borja Santos, (Médico, chefe de internamento do Serviço de Psiquiatria), Luís Afonso Fernandes, (Médico, interno de Psiquiatria). IN: HISTÓRIA INTERDISCIPLINAR DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL - IX, Coimbra, 2019.

Resumo

Após uma breve nota histórica sobre a biografia de José Júlio da Costa, é feita, seguindo as referências históricas habituais, uma resenha dos acontecimentos relatados que, segundo a maioria das fontes, levaram ao assassinato de Sidónio Pais. Esta é depois comparada com as notas clínicas e forenses relativas ao internamento de José Júlio da Costa no Hospital Miguel Bombarda, durante as admissões aí registadas (março a outubro de 1921 e 1927 a 1946), apurando-se nesse plano, algumas discrepâncias, nomeadamente sobre a eventual importância de conflitos laborais na sua terra natal. De acordo com estes registos, será ainda discutido o diagnóstico psiquiátrico do homicida e a sua imputabilidade enquanto tal.

Introdução

José Júlio da Costa nasceu a 14 de outubro de 1893, em Garvão, Ourique e morreu a 16 de março de 1946, em Lisboa. A 14 de dezembro de 1918, assassinou Sidónio Pais, Presidente da República, um ano após este ter tomado o poder pela força e instituído um regime presidencialista musculado. Detido no Estabelecimento Prisional de Lisboa, foi avaliado pericialmente, em fevereiro de 1921, concluindo-se pela sua imputabilidade. Porém, em Março do mesmo ano, é admitido no Hospital Miguel Bombarda, donde escapou em Outubro de 1921, sendo reinternado em 1927, até à sua morte, em 1946.

Foi objecto desta investigação (apenas debruçada sobre a vertente médico-psiquiátrica), esclarecer se, à data do crime, estava José Júlio da Costa mentalmente doente, por que motivo foi internado em estabelecimento psiquiátrico quarenta dias depois de ser considerado imputável e porque nunca foi julgado.

Discussão

José Júlio da Costa era oriundo de uma família de proprietários razoavelmente abastados. Cumpriu serviço militar como voluntário, entre 1910 e 1914, participando no 5 de outubro e em várias ações militares nas colónias, recebendo um louvor. Ainda neste ano, tenta realistar-se, como voluntário, junto da embaixada francesa em Lisboa, para combater na Primeira Guerra Mundial, mas é recusado. Casa e não tem filhos. Em 1916 abandona o Exército.

(O texto integral encontra-se no mencionado livro).


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

ASSOCIAÇÃO DEFESA DO PATRIMÓNIO DE GARVÃO

30 ANOS DEPOIS

     A ADP de Garvão, fundada em 1994, por um grupo de jovens desta terra, desenvolveu várias atividades de índole cultural, histórico, arqueológico, musical/folclórico e jornalístico, como o artigo, abaixo reproduzido, inserido na publicação Camarária de 1995, exemplarmente ilustra.

     Esta Associação dentro daquilo que tem sido o âmbito da sua intervenção na comunidade onde está inserida, não se quedou, nunca pelo acessório.

     Progressivamente vem acrescentando sempre mais uma frente de trabalho às anteriores e hoje intervém num vasto leque de ações que vão desde a pesquisa à recolha de informações e testemunhos da matriz cultural e histórica de Garvão.

     Ainda recentemente, no último verão, pudemos constatar a realização de um campo de trabalho que teve a participação de jovens oriundos de vários países europeus que realizaram um valioso trabalho de escavação arqueológica em Garvão, escavações essas que estavam paradas há algum tempo.

     Este tipo de intervenção é apenas urna das frentes em que se empenha a Associação de Defesa do Património. Mas o esforço e a dedicação estendem-se à pesquisa etnográfica, à recuperação patrimonial das tradições de usos e costumes que hoje infelizmente já não fazem escola.

     Naturalmente surgiram grupos corais masculino, feminino e infantil, grupos de música e de danças tradicionais, algumas delas com origem secular. Por exemplo, a recolha de dados e informações sobre as danças dos guizos e das espadas realçaram um pormenor curioso - o rei D. Sebastião, nas suas andanças pelo Alentejo, (como relata João Gascão na sua Relação das Viagens de El-rei D. Sebastião)[1], terá sido presenteado com aquelas danças.

     Por outro lado, a Associação tem referências de que os traços  mais característicos das danças dos arquinhos e das fitas são oriundos de alguns países europeus.

     Se damos testemunho destas facetas que estão patenteadas no trabalho desenvolvido pela Associação de Defesa do Património de Garvão, é para que a opinião pública nomeadamente do nosso concelho, constate a importância do trabalho que está a ser desenvolvido numa freguesia que no século passado foi sede de concelho e que preserva ainda uma das feiras de gado mais importantes do sul do país.

     Não nos podemos esquecer também do peso e da importância do depósito votivo descoberto em Garvão, e que continua a aguardar um trabalho de pesquisa para dar sequência aos vestígios que já foram revelados, altura cm que na sequência das obras para a instalação de uma rede de saneamento básico se salientou um espólio da maior importância em termos arqueológicos.

     A instalação no local de um Museu do Sítio é uma das grandes aspirações da Associação, um projeto sistematicamente adiado, porque o IPPAR não concretizou este grande objetivo a par de outros que se estendem pelo concelho. Tudo indica que a verba destinada a esse fim foi canalizada para Foz Côa.

     Resta acrescentar que a Associação de Defesa do Património de Garvão tem a "ousadia" de publicar regularmente um jornal que muitas sedes de Concelho por esse pais fora não enjeitariam, pelo seu conteúdo e pelas preocupações culturais e de informação que expressa.

     A autarquia conhece o trabalho da Associação e sempre se disponibilizou para as iniciativas que tem promovido. Mas nunca será demais, até pelo exemplo de perseverança e dedicação dos seus responsáveis, realçar o mérito e as tarefas a que deitou mãos.

[1] Itinerários de El-Rei DSebastião : 1568-1578 / pref. Joaquim Veríssimo Serrão. - 2ª ed. - Lisboa : Academia Portuguesa da História, 1987

terça-feira, 30 de julho de 2024

CASA DO POVO DE GARVÃO

Centro Social Cultura e Recreio - CASA DO POVO DE GARVÃO

     No Jornal de Garvão nº 30, foi dado destaque á suposta “direção” da Casa do Povo.
     Tentou-se esclarecer os comentários negativos que se assistia tanto nas redes sociais como em conversas entre a população e dar uma oportunidade aos membros da “direção” para esclarecerem o assunto.

     Em conversa com a “pseudo-presidente” esta esclareceu que primeiro de tudo “não tem medo de ninguém” e que os regulamentos estatutários estavam a ser cumpridos e as devidas eleições têm sido realizadas segundo os estatutos e, este ano de 2024 se demitiria do cargo e convocaria eleições.

     Segundo outros elementos da “pseudo direção” e dos restantes elementos dos "pseudo corpos sociais", que afirmam só estão lá para darem o nome, afirmam que as eleições não têm sido realizadas e nem o livro de contas preenchido, guardando a “auto-intitulada presidente" as receitas e fazendo uso delas a seu belo prazer.

     Mais acrescentam que não tem havido reuniões da direção, nem assembleia de sócios e muito menos a coleta das quotas em atraso ou a inscrição de novos sócios.

     Sendo assim, as informações prestadas ao Jornal de Garvão foram falsas e a “pseudo presidente” mentiu descaradamente, dando assim razão ao que já há muito tempo se tem vindo a afirmar nas redes sociais.

     Como “não tem medo de ninguém”, como repetiu várias vezes, faz o que quer e o que muito bem entender num edifício público que a Junta de Freguesia, como proprietária do imóvel, já há muito devia ter posto fim a esta situação.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A GRANDE DIÁSPORA

Das famílias de Garvão

     Ao se observar as cartas genealógicas das famílias de, observamos o decréscimo populacional que se tem vindo a observar de há setenta anos para cá.

     De uma população residente de cerca 2500 pessoas em 1950, estamos agora meramente reduzidos a menos de 600 eleitores e a escassas duas centenas de residentes.
     Há famílias inteiras com cinco/seis filhos nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado que desapareceram completamente sem deixar descendentes a viver em Garvão e outras cujos membros a residir na vila são uma ínfima parte da sua família ausente e cujas memórias só restam na lembrança dos mais velhos e no visitante ocasional.

     O que é feito dos Cangalhas composta por seis filhos nos anos de 1930/40, Dos Ataídes? Dos Ildefonsos? Dos Borralheiras? Dos Dias? A lista é enorme e afecta todas a famílias.

     Costuma-se dizer “estudar o passado para melhor prepararmos o futuro”, mas prevenir, travar e inverter esta tendência populacional acarreta despesas, principalmente para a maior empregadora da região: a Câmara Municipal de Ourique, já sobrecarregado em manter as centenas de trabalhadores que emprega e que significam uma percentagem significativa da população residente no concelho e em condições de empregabilidade.

     Sem esses trabalhadores residentes no concelho e as respectivas famílias alargadas, pais reformados e filhos em idade escolar, o estado do nível populacional nas freguesias seria, certamente, muito pior.

     Embora se trate de um problema que afecta essencialmente as povoações do interior, existindo inclusivamente medidas de apoio governamentais ao nível da Comunidade Europeia que possam contrariar esta tendência, o certo é que os efeitos de tal legislação, não se fazem sentir nestas povoações. Trata-se, sem dúvida, de um problema estrutural que precisa de soluções reais e pragmáticas, sem rodeios e promessas.

terça-feira, 2 de julho de 2024

2ª CORRIDA "TRILHOS DO MONTADO E DOS ENCHIDOS"













(Jornal de Garvão, mencionado no Diário do Alentejo)

              No dia 15/6/2024, realizou-se em Garvão e Santa Luzia, a 2ª Corrida "Trilhos do Montado e dos Enchidos" que ligou as duas localidades. 

          O rosto principal da organização é o vice-presidente da união de freguesias, Leandro Oliveira, um confesso entusiasta de corridas, que disse ao “Diário do Alentejo”: “Sempre gostei disto, e surgiu-me a ideia de fazer esta prova. Na união de freguesias achámos que teríamos capacidade para fazermos esta travessia entre Santa Luzia e Garvão, algo que nunca tinha acontecido, mas que achámos que seria interessante, até por unirmos as duas populações e sentirmos que poderíamos fazer algo de diferente, de inovador. Tínhamos razão, porque a prova foi um verdadeiro sucesso”.

            Valeu a pena, garantiu, até pela participação das pessoas na preparação da prova, mas também na corrida e na caminhada.

sábado, 15 de junho de 2024

A TRISTE VIUVINHA

PASSADA em SANTA LUZIA pelo DRAMATURGO D. JOÃO da CÂMARA

     A peça de teatro “A Triste Viuvinha” do dramaturgo D. João da Câmara, desenrolasse em parte em Santa Luzia e rememora o período de 1820 a 1834, período do fim do Ancien Regime, de implantação do Liberalismo e de guerra civil, em que a população portuguesa vivenciou inúmeras repressões, violência e supressão das liberdades civis.

     O drama passasse entre 1890 e 1897, posterior ao Ultimatum Inglês, símbolo de vergonha nacional, em que o direito às possessões portuguesas em África, foi definido, não pela descoberta, mas pela efectiva ocupação e como tal em muito reduziu as possessões portuguesas em África, como consta no Mapa Cor de Rosa, imposto pela Inglaterra.

     Foi representada pela primeira vez no teatro Dona Maria II, no dia 11 de Dezembro de 1897, interpretado como o momento e a maneira adequados de repensar o destino de Portugal, sob uma perspetiva provincial e, neste caso, de retratar os costumes alentejanos. Fizeram parte do elenco os nomes mais notáveis do teatro português da altura.

     Se no século XV os portugueses descobriram novas terras e construíram um império; no século XIX, viram-se confrontados com  o expansionismo britânico e redução das suas possessões africanas. É neste panorama que D. João da Câmara insere este drama numa aldeia do interior, neste caso Santa Luzia, (uma das duas freguesias do então concelho de Garvão) e refletir sobre a dificuldade de absorção e divulgação das novas ideias políticas e novos costumes do quotidiano, em particular pelas pessoas simples daquela região e de uma forma geral pela própria nação lusitana, assim, o enredo é elaborado sob uma perspetiva histórica saudosista, e a melancolia é o sentimento que pesa sobre os personagens.

     São sete as personagens que movem a intriga, o velho Rebelo, tabelião retirado para a aldeia de Santa Luzia, muito religioso, é um miguelista saudosista do Absolutismo. Reside na sua casa com Nazaré, viúva do seu filho Manuel e a tia desta, a velha Maria do Ó, solteirona e beata que encontrou alguma comodidade junto da sobrinha depois de uma vida com dificuldades.

     Rebelo tem “saúde gastada e idade decrépita” e com a morte do filho, encontrou na nora a compensação para que o desgosto, não lhe fosse fatal. O seu desgosto e a dor da sua solidão são substituídos pela presença de Nazaré, ela é a triste viuvinha do seu único filho Manuel, passados dois anos de casamento.

     Nazaré é condenada à viuvez eterna pelo sogro, e pela comodidade de sua tia que tem medo de perder o bem-estar na casa de Rebelo e quando Nazaré lhe confidencia que quer casar outra vez, esta faz-lhe lembrar que: (…) há-de herdar do sogro, duas cerquinhas, um ferragial, belas herdades, montados, terras de pão, várzeas das melhores, casa de bom recheio, e para não deitar tudo a perder.

     O Alferes, viúvo, vive com seu filho, João da Alegria, por quem Nazaré se virá a apaixonar.

     João da CâMara tece um conceito de saudade, na personagem do velho Rebelo, quando ele impõe a presença da nora, retratada como viúva e assim, como símbolo do filho ausente. Ele sente alegria de ver a tristeza estampada no rosto dela, não se importa com a perda da sua juventude em prol dela se manter fiel ao falecido marido, faz questão que ela seja a triste viuvinha.

     Na peça, João da Alegria, declama o seguinte poema:  

Senhora de Santa Luzia.

Lavada do vento norte.

Quem nela tem seus amores?

Não pode ter melhor sorte,

segunda-feira, 10 de junho de 2024

MOEDA COMEMORATIVA DOS 500 ANOS DO NASCIMENTO DE LUÍS DE CAMÕES







COMO SE FOSSE SURDO, CEGO E MUDO.     

    Uma nova moeda de cinco euros foi lançada em comemoração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, o maior poeta de Portugal. A imagem de Camões na moeda tem gerado polêmica devido à sua estilização, que dificulta a identificação do autor de “Os Lusíadas”.
     De facto, estamos perante um Camões sem orelhas, nariz e boca, como se fosse surdo, cego e mudo.
     Para quem, na sabedoria popular é retratado como cego de um olho, mas via bem dos dois, aparece agora, quando não o conseguiram calar nem censurar em vida, calado e amordaçado.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

LUÍS VAZ DE CAMÕES











O homem por detrás do mito, a intrigante vida do maior

poeta português que nasceu há 500 anos.

     Em 2024, faz precisamente 500 anos do nascimento de Luís de Camões, o nosso maior poeta, data consagrada ao Dia de Portugal.

     Portugal deve ser um dos poucos países do mundo, nem sempre notada ou valorizada, que, ao contrário da maioria dos países, tem o seu Dia Nacional baseado num Poeta, num Homem da literatura, e não num feito bélico, numa batalha, numa conquista, em derramamento de sangue, como celebram outros povos.

     Isabel Rio Novo, nas sua Biografia de Camões, afirma: Camões é tão rico e inesgotável que tem conseguido ajustar-se a todas as épocas e prestar-se a formas diferentes e até opostas de instrumentalização. E depois, há nele aspetos que tocam muito na dita alma portuguesa, ou pelo menos nos temas que acalentamos na literatura e nas artes. O amor. A viagem. O desterro. A saudade. O oceano…

     Camões é tão genial que resiste a tudo, até às más citações, até às banalidades, até aos aproveitamentos que fazem dele, até às visões redutoras. Sai sempre por cima. E isso tem a ver com uma espécie de genuinidade a que é difícil alguém ficar indiferente. Há qualquer coisa de fatal e de fascinante no homem de letras e de armas honrado, que não se verga diante dos caprichos da fortuna nem das desfeitas dos seus contemporâneos. O homem que não descrê do seu talento mesmo quando quase toda a gente parece ignorá-lo e mesmo que isso lhe provoque uma amargura indisfarçada.

            Luís Vaz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo, terá nascido por volta de 1524/1525, não se sabe exatamente onde, e morreu a 10 de junho de 1580,esteve preso duas vezes, perdeu o olho direito no Norte de África, embarcou para a Índia por castigo, viveu pobre e morreu na miséria, este homem, de barba ruiva, que tinha os nervos à flor da pele e era viciado no jogo, escreveu a mais extraordinária obra da língua portuguesa: “Os Lusíadas”.

     Ainda, segundo, Isabel Rio Novo, o poeta viveu sempre de mão dadas com a má fortuna e que alguma vez tenha vivido em sossego, era instável, brigava com a maior facilidade, ardia sentimentalmente em várias chamas, muitas vezes por culpa própria, vivia em constante  tribulação e foi detido pelo menos duas vezes.

     As grandes mudanças na sua vida deveram-se a castigos, tal como em 1552, quando, após a procissão do Corpo de Deus se envolveu numa contenda, no qual terá puxado da espada e ferido um guarda do Palácio real. Foi detido na cadeia municipal do Tronco, em Lisboa, (onde hoje se situam as portas de Santo Antão).

     Ali permaneceu nove meses até ter merecido perdão real. Há quem defenda que a agressão ocorreu porque o poeta se apaixonou por uma dama de condição muito superior, ou seja, um amor proibido.

     Sabe-se também que a embarcou para a índia em 1553, que regressou à pátria em 1570, que editou “Os Lusíadas” a 12/03/1572, que morreu provavelmente vítima de peste, por volta de 1580 e que a mãe assistiu ao seu funeral e passou a usufruir da pensão anual de quinze mil reais que o Rei Dom Sebastião lhe tinha atribuído aquando da publicação do poema Épico.

À PARTE....

      Mais uma oportunidade perdida, em Garvão, de se fazer uma exposição comemorativa desta data, não só pela figura de Camões, mas igualmente para promover a coesão social, o espírito comunitário, a convivência e a intercomunicação entre a população.

domingo, 5 de maio de 2024

LIVRO: PARECER E SER DE JOSÉ ANTÓNIO FALCÃO.











Foi apresentado, dia 4 de Maio de 2024, pelas 16:00 horas, na Biblioteca Municipal de Ourique, a mais recente obra do historiador José António Falcão, intitulada Parecer e Ser: Excursus Vital de D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim, natural de Santa Luzia, (então uma das duas freguesias do Concelho de Garvão), onde foi baptizado a 16 de Abril de 1688, filho de Estevão Guizado, ou Estevão Guizado Godinho e de Isabel Velho.[1]

      Em nota de imprensa, o autor destacou o “profundo trabalho de investigação que traz para a ribalta uma das mais influentes personalidades do Portugal do tempo de D. João V”. Considerou também o bispo de Nanquim uma figura que o “intrigava” devido às circunstâncias da política internacional do tempo do imperador Kangxi impediram de chegar à China, mas que trouxe o Extremo-Oriente até ao Alentejo.

     Sublinhou que se trata “de uma personalidade quase mítica da história de terras como Santiago do Cacém, Viana do Alentejo ou Mafra, para não falar da aldeia onde nasceu, Santa Luzia, hoje no concelho de Ourique; no entanto, a sua existência foi bem palpável e deixou fortes marcas”.

     Grande parte dessa aura “deve-se ao facto de ter sido membro destacado de um movimento espiritual radical, profundamente reformador, a Jacobeia, que assumiu as rédeas do poder no tempo de D. João V e foi depois objeto de perseguição por parte do Marquês de Pombal”, acrescentando ainda que “D. António Paes Godinho manteve, afinal, mesmo nas mais altas instâncias, a sua maneira de ser como alentejano de lei”.

     José António Falcão é Historiador de arte, museólogo e professor universitário. É Especialista no âmbito da arte e da arquitetura religiosas, tem consagrado a sua atividade ao estudo e salvaguarda dos bens culturais do Alentejo, granjeando prémios portugueses e europeus. Dirigiu o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja desde a fundação (1984) à extinção (2017) deste serviço, distinguido pela UNESCO como “exemplo do resgate cultural de um território”. Foi responsável pela criação, em 2006, da Rede Museológica daquela diocese, formada por oito museus.

In: Livro sobre o Bispo de Nanquim que trouxe a laranja da China para o Alentejo lançado em Ourique (sapo.pt)

[1] Falcão, José António. Parecer e Ser, Excursus Vital de D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim. 2024. P. 26.


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Filme CIDADE RABAT










Da realizadora:

Susana Nobre (Natural de Garvão)

(Parte da obra foi filmada em Garvão)

A apresentar em Garvão e Ourique.

IN: Munícipio de ourique (cm-ourique.pt)

Sábado | 18 de Maio | 21h30 | M12 | 3€

Classificação: M12

Género: Drama

Título Original: Cidade Rabat

Realizador: Susana Nobre

Com: Raquel Castro, Paula Bárcia, Paula Só, Sara de Castro, Laura Afonso

Duração (minutos): 101        

Helena tem quarenta anos e tem uma filha com doze anos chamada Maria com quem vive, em semanas alternadas com o pai. Helena trabalha como produtora de cinema e sente-se reprimida pelo quotidiano burocrático das suas funções. Após a morte da sua mãe, Helena é atingida por um sentimento de orfandade enegrecido pelo ambiente de morbidade que a envolveu nos últimos tempos. Esse olhar tocado pelas misérias e tristezas do mundo, na equidistância em que se encontra entre o princípio e o fim da vida, provocam em Helena o despertar de uma segunda adolescência.

Prémios

- Grande Prémio Cidade de Coimbra, Caminhos do Cinema Português, Portugal'23
- Melhor Argumento, Caminhos do Cinema Português, Portugal'23
- Palmeira Dourada - Prémio Especial do Júri - Mostra de Valência IFF, Espanha'23

Festivais

- 73º Berlinale - Berlin International Film Festival - Forum Competition, Germany'23
- IndieLisboa - International Film Festival, Portugal'23
- Cine Europeu de Montevideo, Uruguay'23
- Festival do Rio, Brazil'23
- Lima Alterna - Festival Internacional De Lima, Peru'23
- Mostra de Valência IFF, Spain'23
- IBERTIGO, Canarias'23
- Caminhos do Cinema Português, Portugal'23
- Laceno D´oro IFF, Itália'23
- FIDBA, Argentina'24
- Festival de Cinema de Lafões, (FESCILA), Portugal'24

COM Raquel Castro, Paula Bárcia, Paula Só, Sara de Castro, Laura Afonso 

REALIZAÇÃO E ARGUMENTO Susana Nobre

FOTOGRAFIA Paulo Menezes aip 

ASSISTENTE DE REALIZAÇÃO André Silva Santos 

DIRECÇÃO DE ARTE Cláudia Lopes Costa

MAQUILHAGEM Iris Peleira 

FIGURINOS Tânia Franco 

MONTAGEM Martial Salomon 

SOM João Gazua 

MONTAGEM DE SOM E MISTURA Nuno Carvalho 

COLORISTA Paulo Menezes aip 

DIRECÇÃO DE PRODUÇÃO Mônica Noronha 

PRODUTORES João Matos, Janja Kralj

Trailer: https://youtu.be/woJ156uImrY


 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Menina dos olhos tristes

A menina dos olhos tristes que chorava porque «o soldadinho não volta do outro lado do mar» era a imagem perfeita da nossa própria angústia naquele universo de jovens que víamos partirem todos os dias para a guerra e não regressarem, num destino que sabíamos poder em breve vir também a ser o nosso.

Música: Zeca Afonso

Letra: Reinaldo Ferreira

Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar

O soldadinho não volta 

Do outro lado do mar


Senhora de olhos cansados

porque a fatiga o tear

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


Vamos senhor pensativo

olhe o cachimbo a apagar

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


Anda bem triste um amigo

uma carta o fez chorar

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


 A lua que é viajante

é que nos pode informar

o soldadinho já volta

Do outro lado do mar


O soldadinho já volta

está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho

desta vez o soldadinho

nunca mais se faz ao mar

quinta-feira, 25 de abril de 2024

COMEMORAÇÕES Dos 50 ANOS do 25 DE ABRIL de 1974

Na primeira pessoa

Há 50 anos no Largo do Carmo











Jornal Républica de 26 de Abril de 1974.
Assinalado, em circulo branco, o Editor do Jornal de Garvão.











Capacete de Ferro.
Do assalto à sede ou delegação da Legião Portuguesa, no Bairro Alto, em Lisboa, pelo Editor do Jornal de Garvão e outros populares.

       A manhã tinha acordado fresquinha. Na rádio ouvia-se o hino nacional e, o programa das forças armadas.

     17 aninhos. Paquete (moço de recados), em Lisboa, na empresa Nova Idade que publicava: O Volante e O Musicalíssimo.

     Mário Ventura Henriques, (preso em Caxias e solto pelo 25 de Abril), José Vaz Pereira, Bernardo Brito e Cunha (BBC), entre outros, eram os “colegas”.

     Também por lá passaram, Zeca Afonso, José Saramago e Lino de Carvalho, (igualmente preso no forte de Caxias e libertado pelo 25 de Abril), no projeto de um novo jornal.

     Dias antes, na sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, a entregar ou receber documentos.

     Dias depois, numa quinta-feira, a 25 de Abril, na rua da PIDE, as balas zumbiam no ar e assistia ao assassino de cidadãos.

     No quartel do Largo do Carmo, um militar manda afastar os populares e ouve-se as rajadas e as paredes metralhadas.

    Saiu um carro preto. Sai uma autometralhadora. Rende-se Marcelo Caetano aos militares revoltosos.

     Nos dias seguintes era a festa da liberdade, das manifestações espontâneas, o grito amordaçado, durante tantos anos, que se soltava. O país assistiu a uma exaltação popular, como nunca antes tinha vivido, só quem assistiu e viveu estes dias a poderá ter, como o dia mais marcante da sua vida, fora do seu círculo familiar.

     Desse dia ficou a lembrança, uma foto no jornal República (do dia 26) e um capacete de ferro do assalto à sede ou a alguma delegação da Legião Portuguesa no Bairro Alto.

      Hoje passados tantos anos, admiro a coragem e a maturidade destes jovens oficiais com pouco mais de trinta anos. De um jovem oficial - que agora sei que se chamava Salgueiro Maia - da sua maturidade em lidar com uma situação potencialmente explosiva e delicada.

     De um jovem oficial que agredido por um Brigadeiro, afecto ao regime, se manteve incólume e firme na sua dedicação á revolução.

     De um comandante de um navio e, de uma frota, que se recusou em abrir fogo sobre os camaradas revoltosos e sobre uma população indefesa, só porque saiu á rua em defesa da liberdade.

     De um soldado artilheiro de um carro de combate que preferiu fechar-se dentro do tanque e desobedecer a ordens superiores, do que disparar contra os colegas revoltosos e de um segundo-comandante, afecto ao regime, que compreendeu a situação e impediu uma carnificina.

     Situações potencialmente conflituantes que poderiam ter descambado num banho de sangue e pôr em risco uma revolução que hoje se identifica com revolta, esperança, liberdade e o entusiasmo de uma população amordaçada e frágil, como os cravos vermelhos que a simbolizam.

sábado, 20 de abril de 2024

Passado, Presente e Futuro.

        Considerando o conceito de património, enquanto classificação atribuída no presente a construções que na sua maioria foram criadas no passado e que se pretende transitem para o futuro, é de realçar a importância do conhecimento histórico, como forma de conferir valor a esses testemunhos, de os projetar para o futuro e de lhes atribuir a devida importância patrimonial.

     A indecisão pauta-se entre a opção em manter a ruína até ao seu esquecimento, ou pela recuperação desse património e nesta perspetiva salvaguardar um passado que embora corresponda a diferentes épocas e modos de viver, mas cuja salvaguarda e conhecimento é necessário para valorizar o presente que merecem ser guardados.

      Explicam igualmente o nosso presente, as memórias que definem a nossa identidade coletiva, (ou individual), e que asseguram o futuro e a continuidade herdados do passado, no qual uma comunidade reconhece sinais da sua identidade e que pretende transmitir às gerações futuras.

     Os patrimónios materiais ou mesmo memoriáveis, perdem o seu sentido para as gerações seguintes quando não são devidamente salvaguardadas e divulgadas, ou partem os conhecedores das memórias, aqueles que possuíam as lembranças e tradições que lhes estavam associadas, e não se levam a cabo as ações de identificação, estudo e divulgação com vista ao registo e à valorização desse património.

      Se não for dada a conhecer às novas gerações, a história ligada ao património legado pelos seus antepassados, através da investigação, intervenção e divulgação histórica, o seu significado perde-se e muito dificilmente lhes continuarão a ser atribuídos valores, ou a ver neles qualquer traço de identidade e valorização, assim como, inevitavelmente,  perdem o seu valor como património.

     A reconstrução daquilo que nos chegou do passado, ou apenas a consolidação do existente, como opções essenciais na preservação do património, (ainda que o estado de degradação seja elevado), para que não desapareçam por completo e deixem de fazer parte da nossa lembrança colectiva, permitirá, não só um maior conhecimento do património associado à memória, mas, também à revitalização da economia e à criação de emprego, já que o património histórico-cultural é uma atividade económica e a patrimonialização valoriza o bem conservado.

     Contudo, se o seu valor patrimonial se cingir ao estudo pelos especialistas, corre o risco de não ser devidamente valorizado pela comunidade, mas se essa importância for divulgada e dada a conhecer ao público em geral e á comunidade que lhe diz directamente respeito em particular,  o mesmo pode vir a ser entendido e consequentemente valorizado como património, como um símbolo identitário que se quer preservar e transmitir, impedindo-se que fique esquecido no passado e não se venha a transmitir para o futuro.

domingo, 17 de março de 2024

JORNAL DE GARVÃO Nº 30











EDIÇÃO COMEMORATIVA dos 50 ANOS do 25 de ABRIL de 1974

Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, registam informações, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz.

O Jornal de Garvão, que comemora este ano 30 anos da sua existência, tem procurado a participação direta dos habitantes desta terra e de uma forma geral procura estimular a escrita e a leitura e promover o diálogo e o debate.

Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberiam, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Ti´Farrapinho - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL






TI´FARRAPINHO

O Caso da Foice e do Martelo e… da Prisão.

     António Jacinto Maria, mais conhecido por Ti´Farrapinho, alfaiate de profissão, herdado do seu sogro, João da Graça, (descendente dos Borreiros de Villanueva de los Castillejos, Andaluzia, Espanha), morava numa casinha humilde da «Outra Banda», erguida ao lado da igreja da Nossa Senhora da Assunção[1], um larguinho para o qual abre a porta da casa onde viveu, uma rua estreita à esquerda, oliveiras centenárias num quintal e ali vivia o Ti´Farrapinho, entregue ao seu trabalho de alfaiate, tal como o seu sogro, cortando e cosendo a forte saragoça dos fatos encomendados.

     A destreza com a tesoura, fazendas, linhas e agulhas e dedais, não correspondia à sua habilidade de pedreiro, se nas fazendas era mestre, não se dava muito bem no trabalho de obras de alguma porta, janela ou poiais que precisasse de arranjo.

     A falta de jeito, deixava-o de mau feitio, ou por falta de habilidade, ou já quentinho de alguma pinga vinícola, deixava-o de mau humor e a obra no poial que tentava arranjar não saia muito bem, ou porque o cimento ou pedra partiam noutro lugar, ou como, talvez, o martelo pendia para o sítio errado.

     - O que é que falta aí, mestre António, gracejou um passante, perante tão desajeitado trabalho, na esperança de, senão em irritar o atormentado alfaiate, pelo menos de se armar em engraçado.

     Para o destemperado aprendiz de pedreiro era demais; não bastava já as dificuldades na obra e o poial ainda para arranjar, como agora, um a querer galhofa!

     A resposta não se fez esperar, falta a foice e o martelo, e se o martelo não seria a ferramenta apropriada para tal trabalho, uma foice também não seria com certeza e se o outro se estava armado em engraçado, talvez com umas marteladas na cabeça com o martelo, ou com a foice para lhe cortar a língua, se lhe acabasse com a graçola.

     O certo é que tanto repetiu a frase, foice e martelo, tantas vezes que foi denunciado.

     Nesse mesmo dia vieram buscá-lo para interrogações, passou vários dias na prisão a pão e água, a quererem à viva força que respondesse ao que não sabia, ou que denunciasse quem desconhecia.

     Passou mal, relatou depois à família, tirado do seu local de trabalho e da casa familiar, com roupa para talhar e família para sustentar, viu-se submetido a interrogatórios humilhantes à ordem da PIDE, só por ter mencionado uma foice e um martelo.

[1] parafraseando Joaquim da Costa em 1940

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

50 ANOS do 25 de ABRIL e 30 ANOS do JORNAL de GARVÃO

             O 25 de Abril, foi há 50 anos. Foi um dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade.

            A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.

            O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e injustas, e as permissões irrelevantes e insignificantes, dava lugar a uma nova realidade. No país onde era proibido pensar - e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença - passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem de Maio de 68.

            Já lá vão 50 anos. Assinalar o aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é, ainda, um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê.

            Para celebrar, mas, também, para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Jornal de Garvão, decidiu lançar, no ano em que celebra 30 anos, uma edição especial.

          A importância social de um jornal local, como fonte primária de informação, deve ser considerado como um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento e divulgação.            

          Assim, este Jornal tem vindo a despertar a produção, a criatividade, o senso crítico e a participação direta dos participantes, desenvolvendo variados tipos de aptidão, além de transmitir, informações vocacionadas para a divulgação de histórias do quotidiano das comunidades locais e a recolha, tratamento e divulgação de notícias, institucionais e educativas a toda a comunidade e desenvolver habilidades de leitura, estimular a escrita e a criatividade e promover o diálogo e o debate.

          Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, uma vez que registam informações de âmbito local e mesmo regional, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz e assumem um papel decisivo num mundo onde a globalização está cada vez mais instalada.

      Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

Calisto - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL











CALISTO JOAQUIM

O caso do Bandido, do Café Crocodilo e… da prisão!

     Viva o Bandido, exclamou Calisto Joaquim, de sua graça, quando entrou no Café Crocodilo e depara-se perante um discurso de Salazar na televisão que entoava em toda a sala.

     Viva o Bandido, tornou a exclamar e tudo ficou mudo e calado, conhecedores das consequências de qualquer manifestação antagónica ao regime.

     Uns calados, incrédulos perante tal inconsciência, outros espantados perante tal foiteza, e ainda  para outros, tal atrevimento iria trazer represálias.

     Era dia de pagamento da jorna e era certo que Calisto Joaquim “molharia o bico” senão em todas as tabernas, vendas e cafés da vila, pelo menos naquelas que apresentavam a agora novidade da televisão e, pelo menos enquanto os tostões tilintassem nas algibeiras.

     Bom bebedor, não deixava de beber o seu copinho em a parca economia caseira o permitir, e nem deixava por mãos alheias a sua contestação ao regime, não fosse ele afinal sobrinho de Francisco Parreira, da família dos Gusmão, preso pela PIDE, (ver página 11).

     Quentinho ou com um grão-na-asa, rumou a altas horas a casa, podia varrer a rua de lado a lado, esquivando-se a algum buraco ou barreira que lhe estorvasse o passo, a casa sabia ele onde era e no outro dia estaria pronto e fresco para mais uma jornada de trabalho.

     Conforme as lembranças de Augusto Charrua, 91 anos de idade, (já mencionado neste Jornal), (…) dias depois, estávamos nós muito bem a apanhar seixos, para o arranjo das estradas, quando vemos aproximar um carro preto vir direito a nós, hó diabo, pensamos nós, o que é que estes quererão? saem de lá uns tipos, vestidos também de preto, todos sisudos e  perguntam com voz alta, qual de vocês é que é o Calisto Joaquim?

     Sou eu, respondeu prontamente o voluntarioso e ingénuo aprendiz de opositor político e sem nada desconfiar, aproximou-se dos senhores do carro preto.

     Anda connosco, entra para dentro do carro, não se apresentaram, nem disseram os bons dias e muito menos se despediram, mas quem assistiu sentiu pelo tom autoritário da voz com que se lhes dirigiram que o Calisto estava em maus lençóis. De Beja levaram-no para o Aljube e do Aljube para Caxias e de Caxias sabe-se lá para aonde, o certo é que de cada vez que o mudavam, mais interrogatórios se sucediam e mais torturas sofria no seu já massacrado corpo. 

     Foi amassado, mas bem amassado, segundo relatou aos colegas, depois de vários dias preso, podiam-no ter judiado, berrado e humilhado, mas de nada valeu, pois Calisto Joaquim não sabia de nada, não sabia cá de células da oposição comunista, prospetos revolucionários ou reuniões secretas, (se calhar até sabia!), só sentia na pele a carestia da vida e as agruras de uma vida de trabalho de Sol a Sol, sem horas para entrar ou horas para sair, ainda o Sol não tinha nascido e já estava a trabalhar e a trabalhar continuava já o Sol se tinha posto, até ser dada ordem para pararem.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...