O ABAFADOR JUDEU

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Pois é.


Até onde nos leva a fé dos homens


Capaz de matar os entes queridos


Já Miguel Torga no conto “O Alma-Grande”, nos tinha alertado para a figura do “Abafador” nas comunidades judias.


Que não queriam que os doentes no leito da morte recebessem a extrema unção cristã.


Preferiam matá-los na graça do Tora.


Tempos de perseguições, de intolerância, de medos e segredos.


Tempos da inquisição.


Que forçou uma comunidade a esconder-se.


Com medo dos vizinhos.


Dos inquisidores.


Da fogueira.


Mas persistiram.


          Também o “Dicionário do Judaísmo Português”, (de vários autores), publicado pela Editorial Presença em 2009, no elucida sobre esta sinistra figura do “Abafador”.


ABAFADORES (ABAFADEIRAS). Alguns autores referem-se à sua existência em Trás-os-Montes e Beiras baseando-se numa tradição segundo a qual os judeus mandariam abafar os seus doentes que se encontrassem em estado terminal.


Tal procedimento seria utilizado entre os cristãos-novos, durante a vigência da Inquisição, para evitar que o sacerdote católico chegasse a tempo de ministrar o sacramento da extrema-unção e que o moribundo denunciasse qualquer prática judaica mantida no segredo da família.


Os abafadores seriam chamados ao leito do doente mal se adivinhasse a morte próxima.


O moribundo «era envolvido em cobertores e carregavam-lhe em cima até lhe darem morte por asfixia», diz José Leite de Vasconcelos na Etnografia Portuguesa. O autor afirma ter recebido a informação, em 1932, de uma pessoa de Bragança a quem fora garantido por uma cristã -nova que o abafamento ainda se praticava na região.


Leite de Vasconcelos acrescenta que, sempre que perguntava pela existência dos abafadores, lhe respondiam que os havia, mas ninguém presenciara o acto.


O abade de Baçal* também se refere ao assunto nas Memórias citando duas testemunhas presenciais.


Um outro autor, Samuel Schwarz*, considera tratar-se de uma lenda decorrente do facto de, à hora da morte, os vizinhos cristãos verem entrar para junto do moribundo os homens que celebram as cerimónias fúnebres a quem tomavam por abafadores.


O escritor Miguel Torga, em Novos Contos da Montanha («O Alma Grande»), conta a história de um abafador e descreve o seu procedimento.


          Sobre a função do “Abafador”, este afastava do quarto do doente as pessoas da família, encostava a porta e começava a operação. Punha um crucifixo nas mãos do doente, passava os braços pelas costas e aplicava o joelho contra o tórax. À medida que ia aumentando a compressão contra o peito do moribundo, asfixiando-o, em voz alta, para ser ouvido de fora, ia dizendo: —Vamos, meu filho! Nosso senhor está esperando! Quando o paciente exalava o último suspiro, o abafador compunha o corpo, chamava as pessoas da família e comunicava-lhes que o doente havia morrido "como um passarinho", isto é, suavemente".

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