domingo, 25 de agosto de 2019

O BRASÃO REAL NA IGREJA MATRIZ



           Em fotografias de 1956, do Sindicato Nacional dos Arquitectos,  no seguimento do projecto de recuperação, tratamento e organização do espólio do "Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa" (IARP), entre 1955 e 1960, nota-se o estado de degradação da Igreja Matriz de Garvão.

        Apesar de em 24 de Maio de 1939 a Igreja Paroquial de Garvão ter sido classificada como Monumento Nacional e haver correspondência, desde 25 de Maio de 1938, entre os vários departamentos da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, a alertarem para o estado precário da Igreja Matriz e a necessidade de se fazerem obras de reconstrução, ainda em 1962 essas obras não se tinham realizado.
         Em 2 de Abril de 1962, uma habitante de Garvão, de nome Maria Guerreira Gomes, moradora no Largo da Palmeira, escreve ao então Presidente do Conselho, Dr António de Oliveira Zalazar, a solicitar ajuda na reconstrução da Igreja.
          As obras foram eventualmente realizadas durante os anos sessenta do século vinte, não obedecendo contudo, à edificação original, com o derrube do galilé abobadado que protegia a entrada e como o arquitecto-chefe, na missiva de 25 de Maio de 1938, aconselhava que se mantivesse.
          Uma das particularidades dessa Igreja era precisamente o alpendre, (Galilé) que protegia a entrada de estilo Manuelino, “pelo agradável conjunto que forma com a Igreja”, conforme o mencionado arquitecto menciona.
          Outra particularidade era uma pintura que encimava o altar-mor e terá sido destruído durante as obras de recuperação. Apresentava, a toda a largura do arco que compõe o altar, a dita pintura de várias cores, tendo como peça central um brasão da monarquia portuguesa.
           Esta pintura tipifica as decorações do brasão real da quarta dinastia: a forma da coroa e dos ramos laterais, aponta para o reinado de D. Miguel ou de D. Maria II.
          Apesar de a partir de D. João VI se observar a inclusão do ramalhete envolvendo o escudo, este inclui também a esfera armilar, que aliás já se observava desde D. João I, embora sem os ramalhetes laterais, o rei que se lhe seguiu D. Pedro IV, deixou cair a esfera armilar, mas apresenta um escudo ovalado, é só a partir de D. Miguel ou D. Maria II que de facto o brasão pintado na igreja de Garvão se assemelha com os brasões usados por esses monarcas.
          Tudo aponta para o reinado de D. Maria II, devido à guerra civil que envolveu D. Miguel e com a vitoria liberal e a pacificação do território, observou-se uma renovação das artes no reino como se observa nestas pinturas. 

          Este brasão real, dos tempos da monarquia e apesar da instauração da República em cinco de Outubro de 1910, manteve-se por cima do altar até às referidas obras nos anos sessenta do século passado, em pleno desafio às autoridades republicanas.

domingo, 11 de agosto de 2019

LOCALIZAÇÃO do SANTUÁRIO

(Proposta)

A descoberta do Depósito Votivo em Garvão, em 1983, onde as oferendas eram guardadas, depois de previamente oferecidas no local de culto pelos crentes, leva-nos a ponderar sobre a localização do santuário propriamente em si.

A descoberta deste Depósito Votivo, leva-nos igualmente a tecer considerações sobre a possibilidade da existência de outros locais de deposição das oferendas.

Não é de todo plausível que as bases de uma estrutura desta natureza, passados mais de dois mil anos, situado no primitivo núcleo urbano da vila de Garvão, numa zona densamente povoada, onde os vários períodos de construção são visíveis, ainda aflorem à superfície e sejam capazes de serem identificados com o templo em questão.

O que passou com as muralhas do Castelo, cujas pedras que constituíam as suas paredes, foram carregadas ao longo dos anos, para as mais diversas formas de construções na vila, o mesmo seria de esperar de uma estrutura elevada do solo, sem qualquer utilidade actual que justifique a sua conservação todos estes anos, como aquela que aqui se dá a conhecer.

A título meramente informativo, mais que não seja, para divulgar esta singular estrutura que se destaca das restantes construções da vila ou conhecidas na região e que por si só justifica a devida investigação, antes que se proceda a alguma remodelação construtiva que lhe provoque danos irremediáveis.

O edifício que aqui se trata, em terreno privado, existe a cerca de 50 metros do Depósito Votivo e ao mesmo nível topográfico, é uma estrutura de construção pétrea, elevada a cerca de 2.50 metros do solo, sem portas ou janelas, com o topo aplanado, sem qualquer utilidade actual ou que se conheça quem a construiu ou a que propósito, com cerca de 5 metros de comprimento por 3 metros de largura, com acesso por escadaria frontal à mesma largura da edificação.

O que se observa actualmente e caso se venha a comprovar a sua função com o santuário, seria a base desse templo, onde assentaria o resto do edifício e as duas colunas marmóreas que se encontraram nas imediações do local, poderiam estar relacionadas com esta estrutura, cuja similaridade com a base de outros templos/santuários que se encontram no mundo mediterrâneo antigo, leva-nos a tecer paralelismos e considerar esta edificação como digna da devida investigação.

De acordo com os parcos indícios que esta edificação deixa vislumbrar, a estrutura sacra incluiria, para além do templo que protegia a divindade, uma cova, situada perto do santuário. Segundo Maria Teresa Moneo,(1) este tipo de estrutura, insere-se na classe de templos urbanos de tipo “semítico”, de que são exemplo os de Alcudia de Elche (séc. VI a.C.) e da Illeta dels Banyets de Campello (séc. I a.C), com os quais mostra parecenças com algumas construções sacras do Oriente e, mais concretamente, do mundo fenício, onde alguns templos são simples recintos, não muito grandes, ao ar livre, que contêm no seu centro o santuário ou capela da divindade, com um simples bétilo, o altar dos sacrifícios e duas colunas que eram símbolos da divindade.


Quanto à construção subterrânea, que na Lenda do Flos Sanctorum de 1513 é mencionada como «poço do peego de Santa Eyrea» 64 , tratar-se-ia certamente do que habitualmente se designa “depósito votivo”. Estas estruturas desempenhavam um papel fulcral no culto de Astarté, sendo expressamente mencionadas por Avieno (OM. 241-243, 314-315) como «covas». Estruturas deste tipo descobriram-se noutros santuários ibéricos de clara influência semita, como os do Cerro do Castelo (Garvão, Ourique), do séc. III a.C e os de El Amarejo (Bonete, Albacete), de La Alcudia e de Tossal de San Miguel de Liria. (2)


Esta estrutura destaca-se das restantes construções da zona, pela singularidade da sua construção, imponência, situada num lugar elevado e como se referiu, mesmo que se venha a verificar a sua não conformidade com o templo a que as oferendas no Deposito Votivo se referem, tem todo o interesse a ser devidamente investigado, como estrutura imponente que sobressai das restantes construções típicas da zona.

A coluna “Romana” que se encontra numa das ruas da vila, foi localizada no leito da ribeira relativamente perto deste local, assim como o fragmento de uma outra coluna, que se encontrava junto às hortas e recolhida pelo autor, também se localizava nas imediações do local desta estrutura, (sobre este fragmento de coluna subsiste a dúvida se faria parte do Pelourinho que se encontrava no largo junto aos Paços do Concelho).


(1) Maria Teresa Moneo, Santuarios urbanos en el mundo ibérico, em Complutum, 6, 1995, Madrid, p. 249. IN: Luís Mata. O «cais» de Santa Iria, uma reflexão sobre uma velha questão. Revista Lusófona De Ciência Das Religiões – Ano VI, 2007 / n. 11, Lisboa. P. 271.

(2) Luís Mata. O «cais» de Santa Iria, uma reflexão sobre uma velha questão. Revista Lusófona De Ciência Das Religiões – Ano VI, 2007 / n. 11, Lisboa. P. 284.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

ORIGEM do TOPÓNIMO GARVÃO

Garvam/Garvã ou Arandis/Aranni

          A origem do topónimo Garvão, sempre foi um enigma para os investigadores que se debruçam sobre este tema.

          Nem as fontes cristãs, portuguesas ou dos vários reinos que vieram a formar a Espanha actual, ou muçulmanas, deixam antever a origem da nomeação deste concelho medieval. Nem os autores Árabes sobre os quais António Borges Coelho assenta o seu estudo, Portugal na Espanha Árabe, (1) al-Râzî, (2) o de al-Idrîsî (3) e o de al-Himyarî, (4) mencionam alguma povoação que se possa identificar com a localidade em questão, nem quaisquer outros autores Árabes, de conhecimento mais recente, a mencionam.
          A carta de foral atribuída em 1267, vinte e oito anos depois da conquista total das terras alentejanas, em 1238, menciona o nome Garvã, o que leva a crer na continuidade deste topónimo desde o período anterior à nacionalidade. Já em 1260 aparece Garvam, na Carta de doação de uma herdade, no extinto concelho de Marachique, onde menciona o Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium.
          Em termos meramente especulativos, a partícula Garv, que se encontra na palavra Garvão, poderia advir do Árabe Garb, este vocábulo encontra-se amiúde no mundo Àrabe e sempre em relação a Oeste de outro lugar, é assim com o Algarve, o Al-Garb muçulmano, a Oeste do Al-Andaluz, de Meca e da expansão Árabe, em Malta, (5) na ilha de Gozo, onde a povoação Gharb, topónimo de raiz Árabe, se situa no Oeste da ilha, ou, entre outros exemplos, a região Oeste do emirato Abu Dhabi, denominada Al Gharbia.
          Seria assim uma povoação a Oeste de qualquer outra, ou a estrada do Oeste em direcção ao Norte, em relação à estrada Romana a Este que passa por Mértola, ou em relação à ribeira que passa por Garvão, a Oeste de outras, nomeadamente ao curso do Alto-Sado que passa mais a Oriente. Não sendo nenhum destes cursos, nesta zona, navegáveis, tal explicação faria sentido num contexto mineiro, do qual existe algumas referências, sobre o eixo mineiro pré-romano de Marachique-Garvão, que passava pelo coração da antiga zona da escrita do Sudoeste. Este corresponde, na opinião do autor, ao eixo mineiro ancestral de Ossonoba, sem dúvida utilizado desde os tempos fenícios, sendo o sítio de Fernão Vaz uma etapa natural do seu percurso. Liga também Ossonoba a importantes oppida célticos da II Idade do Ferro (Mesas do Castelinho, Garvão e outros. (6)
          Contudo o vocábulo Garvan, também se encontra noutras línguas, tanto no Gaélico Escocês e Irlandês, como inclusivamente no Inglês antigo, (existe também, na ilha de Skye, na Escócia, uma montanha denominada Garbh). Assim como na Bulgária, Macedónia do Norte, Roménia e noutros países do Leste europeu, existem topónimos denominados por Garvan.
          Garvan do Gaélico, denomina, pequeno, áspero, talvez em relação à ribeira que atravessa a vila que se torna violenta e escabrosa, por alturas das cheias invernais. Já João e Augusto Ferreira do Amaral, na sua obra Povos Antigos em Portugal, (7) mencionam que o nome Garvão, teria a sua origem na palavra Celta “Garv”, cuja tradução seria áspero, um hidrónimo de origem Celta, que designaria o rio que divida a vila em duas partes.
          Certos autores, no século XIX, nomeadamente Pinho Leal em Portugal Antigo e Moderno, denomina Garvão por Garabon que supostamente designaria Corvo em Árabe, de facto, encontra-se no leste europeu, várias povoações ou lugares denominados Garvan, cuja palavra significa precisamente Corvo. Contudo, este Garvan, (Гарван), do Leste Europeu, exprime-se numa língua Eslava, embora faça parte das línguas Indo-Europeias, como o Latim e o Celta, é muito diferente destas e Pinho Leal não justifica nem referência a origem dessa informação.
          Em França, mais precisamente na Bretanha, existe um rio denominado Le Garvan, numa região de tradições celtas.
          Todos estes lugares, no mundo Celta, têm em comum, o facto de se situarem junto a cursos de água, inclusivamente na Bretanha, onde, como se afirmou, o próprio rio que banha a povoação, Trégarvan, denomina-se Le Garvan, enquanto no Leste europeu, todos estes lugares se situam em sítios elevados, mais de acordo com o sentido de altura, espaço de voo e da identificação com Corvo. Na Macedónia do Norte, Garvan, é inclusivamente a denominação de uma montanha.


II


          A confirmar-se esta nomeação de Garvão, ao período da influência Celta na Península, a cuja família pertence o Gaélico Irlandês e sendo o topónimo Garvan, transversal ao período de ocupação Romana, visigoda e Árabe, ter-se-á de considerar a pretensão em identificar Aranni ou Arandis, com a povoação de Garvão.
          As investigações têm-se debruçado quase na totalidade, sobre a localização de Arandis/Aranni em Garvão, ou noutra povoação do Alentejo e muito pouco sobre o vocábulo Garvão.
          De facto, sobre a nomeação desta terra, no período anterior à ocupação Árabe, pelo império Romano e por tribos de origem germânica que se lhes seguiu, certos autores identificam Garvão com esses topónimos, com base nos escritores mais antigos que mencionam o Sul de Portugal: Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, (8) do século primeiro, menciona, nesta zona, os Aranditani. Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia (9) do ano 150, menciona Arandis. O Itinerário de Antonino Pio (10) do século III, menciona Aranni e o Anónimo de Ravena, (Ravennatis Anonymi Cosmographia), (11) elaborado por um cosmógrafo cristão no século VII, (relativamente perto da ocupação muçulmana de 711), menciona igualmente Arani.
          Como se afirmou, foi teorizada a localização Aranni/Arandis em Garvão, com base no Itinerário Antoniano, contudo se a historiografia não é consensual e a documentação existente, não revela respostas a esta questão, a verdade é que a arqueologia, também, ainda não trouxe respostas esclarecedoras sobre estas questões, seja em Garvão ou noutras localidades.
          A questão da identificação de Aranni/Arandis com Garvão, segundo o caminho XXI do Itinerário, tem produzido teorias interessantes e imaginativas, contudo a questão principal, revolve em torno da impossibilidade de Arandis/Aranni se situar simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salacia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano. Ou há de facto um erro no Itinerário, ou estaremos perante localidades diferentes, mas com a mesma denominação.
          Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni no Oriente alentejano, peca por a sua área territorial se sobrepor a Beja e Mértola e deixar vazio todo o território a Ocidente, desde Miróbriga, (Santiago do Cacém) e Salacia, (Alcácer do Sal), ao Algarve, incluindo a bacia do Alto Sado e a Bacia do Rio Mira, ambos ricos em minério, (ter em atenção, igualmente, os polígonos de Thiessen, sobre a técnica do vizinho mais próximo). (12)
          A observar-se a origem Celta do vocábulo Garvan e a sua manutenção até aos nossos dias, entra em contradição com a pretensão de localizar Arandis/Aranni em Garvão. Contudo não é inédito a mesma povoação ter duas denominações diferentes em simultâneo, uma indígena e outra Romana, ou inclusivamente ter duas assembleias, como parece ser o caso em Beja, não só mencionada por frei Amador Arrais, no século XVI, mas igualmente consubstanciada pelas recentes intervenções arqueológicas.
          As duas nomeações não são irreconciliáveis, nem é de excluir, embora em termos meramente teóricos que Garvan, corresponda ao primitivo núcleo urbano da vila de Garvão, em torno do castelo e do santuário e que Arandis/Aranni, corresponda aos vestígios arqueológicos encontrados no local denominado por Franciscos e à tal municipalidade falhada de que fala Jorge de Alarcão. (13)
       Segundo este autor, a falta de edifícios que tipificam as novas entidades políticas em formação e caracterizam o quotidiano Romano, leva-o a classificar, para o problema da localização de Arandis/Aranni, como uma experiência urbanística falhada. Contudo Virgílio Hipólito Correia, (14) acrescenta que: Neste sentido, talvez a experiência de Arandis não tenha falhado, mas não tenha nunca existido; o que terá falhado, na realidade, terá sido a experiência política necessariamente subjacente ao projecto urbano e administrativo. Não sendo um argumento que a justifica, também não a invalida.
          O sítio dos Franciscos, integrado na propriedade do Arzil, onde Caetano Mello Beirão e José Olívio Caeiro procederam a sondagens arqueológicas de emergência, na década de 80 do século XX, numa área que iria ser afectada pela construção da estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, puseram a descoberto enorme concentração de ruínas romanas, restos de paredes e cerâmicas, numa área bastante extensa, tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade Romana, forçando assim o desvio da dita estrada para salvaguardar estes vestígios arqueológicos.
          De notar que deste local, foi recolhido uma Estela Romana que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram. (15)
          A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila. Administrativamente pertence ao concelho de Ourique e ao distrito de Beja. O monumento funerário agora dado a conhecer foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e  de onde provêm outros materiais do período romano. (16)
          Já em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (17) menciona um busto em mármore, de Agripina Menor, retirado dos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.
          Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.
          Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.
          Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (18)
          Em jeito de conclusão, muitas dúvidas persistem, tanto sobre a origem do vocábulo Garvão, como da localização de Arandis/Aranni e a sua coincidência com Garvão. Mas, a observar-se a origem Celta no topónimo Garvão, o que levará, de facto, a mudar o nome indígena? Ou como Jorge de Alarcão se referiu a Beja, Enigmas da cidade de Beja, (19) Se Lisboa conservou o nome antigo: Olisipo e Évora manteve a designação indígena: Ebora. Se havia uma povoação pré-romana em Beja, porque não manteve esse nome indígena? O mesmo se poderá perguntar de Garvão, Garvã, Garvan. Garbonis, Gharb, غرب ou Гарван, se havia um nome indígena, porquê uma nova nomeação para o mesmo local ou próximo deste? 

Notas

1 António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 2ªed., 2 vols., Lisboa, Caminho, 1989 (1ªed. : 4 vols., Seara Nova, 1972-75).
2 Abû Bakr Ahmad ibn Muhammad al-Râzî, é considerado o Pai da Historiografia Árabe Andalusi. Nasceu em Córdova, no ano de 888 e compôs a obra Akhbâr Mulûk al-Andalus.
3 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn Idrîs al-Sharîf al-Idrîsî. Nasceu em Ceuta, em 1099. Estudou em Córdova, e viajou pela Pen´nsula Ibérica, Norte de África e Ásia menor. Acabou instalando-se na Sicília, sob a protecção do rei Rogério II, a pedido de quem compôs a famosa Nuzhat al-Mushtâq ou Kitâb Rujjâr..
4 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn ‘Abd al-Mun‘im al-Himyarî. Pouco se sabe da sua vida. Natural de Ceuta, foi jurista e assessor do juiz ou do notário da cidade. O seu Rawd al-Mi‘târ é um dicionário geográfico, que, para o espaço ibérico, recolheu informações de al-Idrîsî e de al-Bakrî.
5 A língua maltesa, é uma língua semita, de origem Árabe que usa o alfabeto latino.
6 Manuel Maia, Maria Maia e Artur Martins. 1987. In: Luís Fraga da Silva, A Região de São Brás de Alportel na Antiguidade, Tavira, 2002. P. 32.
7 AMARAL, João, AMARAL, Augusto (1997); Povos Antigos em Portugal; Quetzal Editores, Lisboa.
8 A Historia Naturalis é composto por 37 livros, iniciando-se a sua publicação em 77.
9 Trata-se de uma obra a partir dos conhecimentos greco-romanos da época sobre geografia, com localizações por coordenadas, longitude e latitude.
10 O Itinerário de Antonino Pio, (284-305), As estradas no Império Romano. Compõe-se de um roteiro da época romana, onde regista as distâncias, em milhas, entre as sucessivas estações das principais vias.
11 Embora baseia o seu estudo, sobre documentos dos séculos anteriores e com bastantes erros e enganos que vai influenciar os copistas medievais que se lhe seguiu.
12 Os polígonos de Thiessen são gerados a partir de um conjunto de pontos de amostra, de modo que cada polígono define uma área de influência em torno do seu ponto de amostragem, de modo que qualquer localização dentro do polígono seja mais próxima desse ponto do que qualquer outro ponto de amostra.
13 ALARCÃO, Jorge. (1985). Sobre a Romanização do Alentejo e Algarve. A propósito de uma obra de José d` Encarnação. Arqueologia, 11. GEAP, Porto, p. 99-111.
14 CORREIA, Virgílio Hipólito. Observações Sobre A Ocupação De Época Romana No Vale Do Mira. Conimbriga, 2015.
15 GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984) Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, "Conimbriga", 23, p. 43-54.
16 Idem
17 VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas 2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
18 Idem
19 In: O sudoeste peninsular entre Roma e o Islão, Campo Arqueológico de Mértola, 2014.

domingo, 7 de julho de 2019

PORTUGAL ANTIGO e MODERNO - Garvão






PINHO LEAL

Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias. Se estas são notaveis, por serem patria d’homens celebres, por batalhas ou noutros factos importantes que nellas tiveram logar, por serem solares de familias nobres, ou por monumentos de qualquer natureza, alli existentes. Noticia de muitas cidades e outras povoações da Lusitania de que apenas restam vestígios ou somente a tradição. Por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Lisboa, 1873-1890. 12 tomos.






 


 


 

terça-feira, 25 de junho de 2019

GARVÃO no QUADRO da RECONQUISTA CRISTÃ

O CASTELO de GARVÃO na LINHA de

DEFESA do ALTO-SADO MUÇULMANO


          A inexistência de documentação Medieval coeva que permita traçar uma cronologia dos acontecimentos relacionados com a reconquista do actual território português aos Muçulmanos, não permite apontar uma data precisa para a tomada territorial da área de Garvão.
          Desconhece-se igualmente se essa “tomada” foi pacífica ou bélica: se de conquista militar ou de fuga do exército muçulmano; se de pacto ou de rendição; se de abandono ou de ocupação pacífica.
          A fronteira, nestes tempos de reconquista, caracterizava-se por avanços e recuos. Se com D. Afonso Henriques se assistiu à conquista de territórios, Alcácer em 1160 e depois quase todo o Alentejo, posteriormente todo esse território seria recuperado pelos muçulmanos, pouco antes de D. Afonso morrer em 1185.
          Podemos assim aferir que a posse das terras alentejanas, desde as conquistas de D. Afonso Henriques, até à reconquista definitiva, oscilou várias vezes entre a posse muçulmana e cristã, nomeadamente Beja, inicialmente conquistada por D. Afonso Henriques em 1159, será abandonada quatro meses mais tarde, sendo novamente reconquistada em Dezembro de 1162. A ofensiva muçulmana dos Almóadas a partir de 1191, fez recuar novamente a fronteira até ao Tejo, ficando unicamente Évora nas mãos dos cristãos, Beja teria retornado definitivamente à posse cristã entre 1232 e 1234, no seguimento da derrota dos Almóadas em Navas de Tolosa no ano de 1212.
          A vitória cristã de Navas de Tolosa, marcou a fragilidade Almóada e permitiu aos reis cristãos da Península, relançarem a conquista territorial para Sul. A ofensiva cristã que se seguiu, permitiu a reconquista das terras perdidas além-Tejo e que marcava a fronteira até Évora.


Após uma conquista de al-Qaṣr em 1217, recuperação do sistema defensivo da cidade e atribuição de novo Foral em 1218, por D. Afonso II, parece-nos coerente que nos dois anos seguintes se terá processado a ocupação do espaço rural envolvente. De forma a manter coerente o termo Alcacerense, impedindo um provável avanço dos Cavaleiros de Évora num território que os Espatários consideravam como seu, terá sido efectuado um derradeiro esforço para conquistar o castelo do Torrão.
O natural défice em recursos humanos e económicos sentidos pela Ordem de Santiago na sua sede em Alcácer, terão forçado a Ordem a parar a ofensiva militar, de forma a canalizar os seus recursos para a ocupação da zona Norte da Bacia do Sado.
De 1220 a 1235 a fronteira estabiliza-se numa linha que passa a sul de Alcácer e do Torrão, frente a um Alto Sado Muçulmano defendido a partir dos castelos de Garvão, Messejana, Aljustrel e Beja. 1


         Depois da conquista de Alcácer e do período de consolidação territorial que se seguiu, em torno desta terra, a reconquista retoma com a tomada de Moura em 1232, Beja em 1232/1234, Aljustrel em 1234, Messejana em 1235 e Mértola em 1238 entre outras terras tomadas aos muçulmanos.
         A conquista total do Alentejo é tida em 1238, sendo de assumir que a conquista do termo de Garvão se situará antes de 1238 e posterior a 1235 depois das conquistas de Aljustrel e Messejana. O castelo de Garvão, na linha muçulmana de defesa do Alto-Sado, como António Rafael Carvalho aponta, terá feito desta praça, um dos objectivos da conquista dos cavaleiros espatários e como se afirmou anteriormente, a falta de documentação credível, não permite uma avaliação sobre a posse deste castelo, se pacífica ou bélica.


1 - António Rafael Carvalho, A Muṣalla do Ḥiṣn Ṭurruš/Torrão: Uma leitura arquitectónica. Alcácer do Sal/Torrão: Município de Alcácer do Sal, 2008, pág. 69.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

EXTINÇÃO do CONCELHO de GARVÃO



Decreto de 6 de Novembro de 1836

           A reforma administrativa de Passos Manuel, com a publicação do decreto de 6 de novembro de 1836, extinguiu o concelho de Garvão e 498 concelhos em Portugal continental.

          Ao contrário da criação dos distritos, (uma criação do Liberalismo, sem qualquer antecedente histórico)1 que pouca polémica levantou, o decreto de 6 de Novembro de 1836, gerou uma onda de protestos nos vários concelhos do país.
          Segundo Marino Miguel Franzini, presidente da Comissão da Estatística e Cadastro do Reino, em 1837, referindo-se a esse descontentamento e às queixas, muitas das quais considerava injustas, […] procedem das vistas particulares dos indivíduos interessados na conservação e governança de seus pequenos ou grandes concelhos, os quais excitam os povos à desobediência. Nem um só dos pequenos Concelhos quer descer da sua categoria e os grandes fazem toda a resistência para cederem alguma freguesia aos contíguos mais diminutos.
          A resistência das elites locais, que viam os seus interesses extintos, terá pesado fortemente na agitação popular à nova lei, mas a contestação geral mobilizava agora argumentos que são um testemunho da consciência destas pequenas comunidades.
          Esta vaga de protestos distingue-se por um nítido aumento da violência, […] por parte das populações reclamantes, chegando a atingir-se situações de insurreição de freguesias inteiras, que se recusam a reconhecer as autoridades dos novos concelhos a que são anexadas.2 
          O país foi assim dividido em distritos, concelhos e freguesias, sendo os distritos dirigidos por um administrador-geral, os concelhos por um administrador e as freguesias por um regedor. Os orgãos colegiais eram, respetivamente, a junta administrativa, a câmara municipal e a junta da paróquia.


1 - A sua origem remonta ao mapa das comarcas apresentado em 1827 à Câmara do Deputados pela comissão de divisão do território. A inspiração francesa do projecto é confessada pela própria comissão, mas os critérios em que se baseou, já estavam subjacentes na reforma das comarcas que a coroa portuguesa desencadeou em 1790.
2 - António Pedro Manique. Mouzinho da Silveira. Liberalismo e Administração Pública, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, p. 158.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

DEPÓSITO VOTIVO – Maio de 2019



Muro Desaba Para Dentro Do Depósito Votivo

          Uma secção do muro que protege as intervenções arqueológicas neste local, desabou para dentro do próprio recinto, cobrindo parte das valas e vestigios arqueológicos que lá se encontravam.
          Recorde-se que a descoberta do Depósito Votivo em Garvão, no seguimento da abertura de valas para o saneamento público da vila, em Maio de 1982, mereceu a intervenção de reputados arqueólogos, nomeadamente Caetano Mello Beirão, Mário e Rosa Varela Gomes, Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares e amplamente difundido pelos orgãos de comunicação social da altura, com a descoberta de milhares de peças em metal e cerâmica que se encontram no Centro de Arqueologia Caetano Mello Beirão em Ourique.
           Esta descoberta poderia ter catapultado a intervenção arqueológica e a investigação histórica de Garvão para outros patamares, com criação de empregos, núcleos museulógicos e toda uma dinâmica económica que se repercutaria na demografia da terra.
          Tal não veio a acontecer e a diminuição da população de Garvão que se tem vindo a sentir nas últimas décadas, não pode deixar de estar relacionada com o não aproveitamento destas oportunidades, ou de outros incentivos capazes de travar o despovoamento progressivo da vila que, infelizmente, a Fábrica de Enchidos e a Unidade de Cuidados Continuados, construídos nos últimos dez anos, criando dezenas de empregos, não travou.
          Contudo, não será a intervenção arqueológica e a investigação histórica na vila de Garvão que irá, por si só, inverter esta tendência populacional, mas poderá, à sua medida, contribuir, aliada com outras iniciativas, para travar a desertificação que actualmente se mantém.
Em 1950, Garvão tinha 2282 Habitantes.
Em 1960, 1821 Habitantes.
Em 1970, 1167 Habitantes.
Em 1981, 1213 Habitantes.
Em 1991, 938 Habitantes.
Em 2001, 851 Habitantes.
Em 2011, 730 Habitantes.
          Prevê-se iguamente uma diminuição da população, no próximo recenceamento nacional, a realizar em 2021.

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