segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Povoamento Antigo no Baixo Alentejo




 




O caso de Arandis / Arannis

          Sobre a identificação das várias cidades romanas ou pré-romanas no Sul de Portugal, mencionadas por vários autores, nomeadamente por Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia do ano 150 e no Itinerário de Antonino Pio do século III, ou dos Aranditani mencionado por Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, do século primeiro, tem levado a várias sugestões, umas mais imaginativas do que outras, nomeadamente no que diz respeito ao caminho XXI mencionado no itinerário Antoniano e mais concretamente sobre a localização de Aranni.

          De facto, sobre a localização desta mansão mencionada no iter, Aranni, têm surgido várias propostas sobre a identificação destas cidades no Sudoeste alentejano, Colos, Santa Luzia ou Garvão como o caso de Abel Viana ou mais precisamente em Garvão como defende Jorge de Alarcão.

          Outros autores nomeadamente Maria e Manuel Maia e João Pedro Bernardes defenderem a localização destas cidades no oriente alentejano, mais precisamente em Santa Bárbara dos Padrões, com base no caminho XXI do Itinerário Antoniano, num suposto itinerário que atravessaria a Serra do Caldeirão, como relata Bernardes, sem, contudo, apresentar o trajecto desse caminho:

Transposta a serra do Caldeirão, percurso sempre árduo, penoso e cheio de perigos, Aranni oferecia-se como o local de repouso merecido, onde a água era uma constante e o culto aos deuses se impunha, tal como a imagem do destino pacense que se descortinava ao fundo da planície e cuja distância seria vencida na jornada seguinte.[1]

          Contudo, Claúdio Torres em Povoamento Antigo no Baixo Alentejo. Alguns Problemas de Topografia Histórica,[2] nega a existência da qualquer travessia dessa serra, capaz de suportar veículos de tração animal ou movimentação do exército:

(…) A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. (…)[3].

(…) apenas se entreteciam caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves para Garvão de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte, (…)[4]

(…) e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. (…)[5],

          Claúdio Torres defende o trajecto através do Guadiana, propondo que o percurso terreste entre o oriente alentejano e o oriente algarvio se efectuava por terras hoje pertencentes a Espanha, acrescentando inclusivamente de que este foi o (…) percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio (…)[6]:

          Também Francisco Bilou em Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar.[7] defende a inamissibilidade de um caminho através da serra a Este do caminho descrito por Claúdio Torres, mencionando o caminho XXII, também mencionado no iter Antoniano:

Pese embora a citação em Antonino do iter XXII em milhas terrestres entre (Ba)Esuri (Castro Marim) e Myrtilis[8], nenhuma evidência arqueológica permitiu, até à data, demonstrar inequivocamente a continuidade terrestre do caminho de Beja a Mértola para sul[9] [10]

          A questão de identificar Aranni/Arandis com alguma localidade no Alentejo, segundo o caminho XXI do Itinerário de Antonino Pio, prende-se com a dificuldade em justificar as distâncias apresentadas, pois nenhuma localidade fica a simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salácia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano.

         Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni numa área do Alentejo onde são conhecidas outras urbes importantes, caso de Mértola e Beja, seria deixar todo o ocidente alentejano, entre Miróbriga e Alcácer do Sal ao Algarve, sem uma urbe de referência, em contradição com a técnica do vizinho mais próximo, segundo a aplicação da teoria dos polígonos de Thiessen.

A grande estrada e coluna vertebral de toda esta região ligava Mértola a Beja por Corte Gafo, Amendoeira Mosteiro e Salvada, onde se bifurcava para Serpa atravessando o Guadiana na zona dos grandes vaus. Incompreensivelmente, em todos os mapas até hoje publicados sobre as vias romanas no actual território português, decalca-se o traçado rodoviário entre Mértola e Beja aberto apenas no séc. XIX e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. Mértola (tal como Sevilha) foi, nesta zona, o términus dos percursos terrestres. A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. Apenas a entreteciam aventurosos caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros usados pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves em direcção a Garvão, de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte (aliás foi este o percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio como constatou recentemente João Carlos Garcia (1986).[11]

A outra grande via mineira chegava ao porto do Guadiana depois de ter atravessado as povoações dos Namorados, João Serra, S. Marcos da Ataboeira, Entradas e, finalmente, Aljustrel. Da mesma direcção e de mais longe chegavam os carregamentos de Inverno das Minas da Caveira e do Lousal, quando o Atlântico bramia e interditava, pelo menos durante 8 meses, qualquer transporte de lingotes ao largo de Sagres com carregamento no porto de Sines. Convergiam em Mértola mais caminhos e vias secundárias vindas de Garvão e Almodôvar e mesmo de Martim Longo, em plena serra algarvia, atravessando a ribeira do Vascão junto às ruínas do povoado das Relíquias. Capital administrativa de toda esta vasta região, Pax Julia é o grande núcleo urbano, sede do poder imperial e destacado centro de mercado agrícola. É a cidade romana por excelência, símbolo da ordem militar, do poder fundiário e do comércio do trigo. A sua extensão monumental parece ter criado dificuldades de defesa durante os períodos mais conturbados, e não há dúvida que o máximo do seu esplendor foi atingido durante a «pax romana».[12]


[1] BERNARDES, J. Pedro, A Propósito da Localização de Aranni / Arandis, Conimbriga, 45 (2006), p. 160.

[2] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992.

[3] Idem, p. 190

[4] Idem, P. 191

[5] Idem, p.191

[6] Idem, ibidem.

[7] BILOU, Francisco. Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar. Revista Monumentos nº 36. Direção-Geral do Património Cultural, Lisboa.

[8] Da muita literatura disponível sobre o tema, veja-se, Gustav PARTHEY; Moritz PINDER — Iternerarium Antonini Avgvsti (…). F. Nicolai Berolini, 1848. Pode consultar-se a edição digital em https://archive.org/details/itinerariumanto-00pindgoog, In Bilou, nota 19.

[9] É este, de resto, o entendimento dos historiadores locais. Veja-se, por todos, Santiago MACIAS — Mértola — O Último Porto…, vol. 1, 2006. In Bilou, nota 20.

[10] Bilou, p. 9

[11] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992, p. 190/191


[12] Idem, p. 192

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

JOSÉ FRANCISCO CUNHA




 







José Francisco Cunha, natural de Garvão, nascido em 10 de Fevereiro de 1913 e falecido em 13 de Fevereiro de 2012, cuja residência se situava no Largo da Palmeira, (antigo Largo do Rossio), relata-nos com 82 anos, num texto de 1995, sobre a ponte no centro da vila, o Poço da Praça e a Ponte da Ribeira do Monte Zuzarte.

Ao Jornal de Garvão

Lembrando o passado:

Aquela ponte que hoje existe, que passa sobre a ribeira, que liga o Largo da Amoreira à sede da Junta de Freguesia, foi antigamente outra ponte feita em vigas de ferro e pranchas de madeira, servia só para peões. Nesse tempo não havia automóveis, o trânsito para animais e carros era feito do lado de baixo da ponte, passava por uma azinhaga que existia do lado de cá que é hoje propriedade do senhor António Revez, atravessava a ribeira e do lado de lá passava pelo terreno onde está situado o Posto da Guarda Nacional Republicana.

Como a ponte estava já velhinha foi retirada, aproveitaram o pilar do meio e ajeitaram-no, e fizeram a nova ponte que hoje lá se encontra. Foram seus construtores os senhores Francisco José de Oliveira e seu pai, já falecidos, já lá vão muitos anos.

Ainda hoje existe o poço da praça, que antigamente era circundado por uns pilares redondos em cantaria, com a altura de um metro, mais ou menos, aonde apoiava um grande varão de ferro redondo, com a espessura de uns três centímetros; existia também junto ao poço uma grande pia em cantaria, servia para os animais beberem; essa pia deve encontrar-se no quintal do senhor Joaquim Fiel Mestre, porque foi para lá que a levaram. No andar de cima aonde é hoje a Junta de Freguesia era uma escola primária, foi lá que eu aprendi a ler e escrever e fiz a quarta classe. Nas horas de recreio, os rapazes vinham para junto do poço agarravam-se aos varões, pois eles estavam muito firmes, aí é que era dar cambalhotas até mais não, coisas da própria mocidade.

Eu abordei este assunto a propósito do seguinte:

No caminho que liga Garvão à estrada do Monte Zuzarte existe a mesma ribeira, como no inverno a ribeira não dava passagem às pessoas convenientemente, os dirigentes da Junta de Freguesia, desse tempo, levaram as ditas vigas de ferro que estavam na dita ponte, que atrás falei e fizeram uma pinguela com um metro de largura e levaram também os tais varões que resguardavam o dito poço da praça, para fazerem os resguardos da dita pinguela, para as pessoas se apoiarem e não caírem à água. Essa dita pinguela com o andar do tempo caiu para o leito da ribeira e mais tarde ficou coberta com a areia e o cascalho que vinha nas cheias e lá apodreceu.

Isto vem a propósito da necessidade que há de se fazer lá no mesmo sítio aonde existia a pinguela, uma ponteca com a largura suficiente para que possam, de um lado para o outro da ribeira, passar pessoas a pé, automóveis e camiões, pois o trânsito hoje é muito diferente.

A estrada em dias de cheias, quem lá chega fica a olhar para a água e não pode passar. Até em tempo normal, no Inverno, é sempre difícil as pessoas passarem a pé.

Garvão, 1 de Agosto de 1995

José Francisco Cunha

domingo, 10 de outubro de 2021

PEDRAS ESCORREGADIAS

EM GARVÃO












HERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.











HERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.











Pedra Escorregadia, ao Barranco da Pontinha.

Existe uma prática antiga que nos chegou até hoje, através da presença física no terreno e de referências literárias, localmente conhecidas pelo nome de “Pedra Escorregadia”.

MONTE DA MORGADA

Existe um exemplo destas Pedras Escorregadias, em perfeito estado de conservação, no Monte da Morgada, cuja singularidade estética é de realçar, de facto no lado direito da estrada de acesso aos cómodos agrícolas e habitacionais, numa extensão plana, ergue-se uma pequena elevação, simétrica em ambos os lados e ao centro, no substrato rochoso, nota-se a saliência, num angulo aproximado de 45 graus que servia para a prática do escorrega, ainda praticado nos finais do século XX, tanto pelos residentes locais como pelos moços da vila em idade escolar.

BARRANCO DA FONTINHA

Segundo informação do Doutor António Martins Quaresma, num documento sobre as confrontações do Couto Pequeno deste Concelho, (Garvão extinto concelho em 1936), menciona:

Couto Pequeno tirado do Grande

19 de Maio de 1826

(…) tem o princípio no Barranco da Fontinha na estrada da Monxica de frente da Pedra Escorregadia que sobe pelo dito barranco pé ao sesmo de São Sebastião, digo pé ao sesmo do ferragial de São Sebastião, (…)

Ainda segundo informação de António Martins Quaresma, o relato da visitação de 1518, menciona, uma vinha que ficava nas vinhas da pedra escorregadia, que pertencia ao hospital do Espírito Santo, cujo fólio descreve as confrontações com outras vinhas.

O breve relato da visitação de 1518, por falta de mais elementos, não nos permite localizar no terreno o lugar desta pedra escorregadia, contudo já a descrição das confrontações do Couto Pequeno, permite-nos identificar o Barranco da Fontinha, com o actual Barranco das Cangalhas que passa pela Herdade do Pouco Tempo e vem desaguar na Ribeira da Monchica, em cujo lugar, na margem oposta, já nos terrenos do Cerro da Forca, se situa um afloramento rochoso, cuja extração de pedra, em anos anteriores, terá feito desaparecer algum vestígio desta pedra escorregadia 

Neste barranco da Fontinha, ainda existe na memória da população a existência de duas fontes de água e cujos vestígios ainda afloram no terreno.

PENEDO DA PEDRA ESCORREGADIA

Igualmente no livro da Misericórdia e do Espírito Santo da vila de Garvão que chegou até aos nossos dias, menciona nos fólios 37 rosto, 37 verso e 39 rosto, o Penedo Escorregadio, no Vale de Santiago.

(…) sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e sete centos secenta e nove annos, sendo aos onze dias do mez de Abril do dito anno nesta villa de Garvão em o Cartório (…) fólio 37 rosto.

(…) entre os mais bens de que eraõ administradores da Confraria do Espirito Santo por andar anexa á Santa Caza da Mizericordia desta villa era bem assim huma Courella de terras sitto aos redores da Aldeia do Vale de San Thiago o qual parte pela estrada do posso e com hum farrejal do penedo escorregadio (…) fólio 37 verso.

(…) hum farrejal que pessuia livre e izento e dezembaraçado que parte com as mesmas terras chamado o Penedo escorregadio (…) fólio 39.

RESUMO

A fecundidade, a fertilidade e a procriação tinham grande importância para as primitivas comunidades humanas, cujos exemplos e vestígios abundam em vários locais da Europa e do mundo.

Segundo Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano, página 72.

Em algumas religiões acredita se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos e partenogênese das deusas mediterrânicas. Segundo Hesíodo, Gea (a Terra) pariu Uranos, “um ser igual a ela, capaz de cobrila inteiramente” (Teogonia, 126 ss.).

Ainda segundo Mircea Eliade em Tratado De História Das Religiões, páginas 180 e seguintes.

77, A "escorregadela"

O costume denominado "escorregadela" é bem conhecido: para terem filhos, as mulheres deixam-se escorregar ao longo de uma pedra consagrada. Um outro costume ritual ainda mais espalhado e a "fricção"; a fricção é praticada por razões de saúde, mas são sobretudo as mulheres estéreis que fazem uso dela. Em Decimas (Ródano), há não muito tempo as mulheres se sentavam num monólito que se encontra nos campos num local chamado Pierre-FrIte. Em Saint Renan (Finisterra) a mulher que desejasse ter um filho deitava-se durante três noites consecutivas sobre um grande rochedo, La Jument de Pirre. Também as jovens recém-casadas vinham ali nas primeiras noites após o casamento e esfregavam o ventre naquela pedra. Esta prática é muito disseminada. Por exemplo na aldeia de Moêdan, do cantão de Pont-Aven, as mulheres que ruçavam o ventre na pedra ficavam com a certeza de que teriam filhos do sexo masculino. Ainda em 1923 as camponesas que iam a Londres abraçavam as colunas da catedral de São Paulo Para terem filhos.

É preciso integrar neste mesmo conjunto ritual o costume relatado por Sébillot: "Por volta de 1880, não muito longe de Carnac pessoas casadas havia vários anos sem que tivessem filhos iam, pela lua cheia, até um menir, despiam-se, e a mulher corria em volta da pedra, tentando escapar do marido; os familiares vigiavam a distância para afastar os intrusos”. É- provável que estes procedimentos tenham sido mais frequentes no passado. Citam-se numerosas interdições da parte do clero e dos reis era relação ao culto das pedras e sobretudo à emissão Seminal diante das pedras, na Idade Média. Mas este último rito é muito mais complexo e não pode ser reduzido - como os das "escorregadelas" ou das “fricções" - a uma crença na possibilidade de "fertilização" direta do dólmen ou do menir. Faz-se aí menção, em primeiro lugar, do tempo da cópula ("durante a lua cheia"), o que indica vestígios do culto lunar; depois, o coito dos casados ou a emissão seminal diante da pedra explicam-se pela concepção, mais evoluída, da sexualização do reino mineral, dos nascimentos que têm por origem a pedra e que correspondem a certos ritos de fecundação pela pedra.

A maioria desses costumes, dizíamos nós, conserva ainda a crença de que o simples contato com o rochedo ou com a pedra consagrada basta para fertilizar urna mulher estéril. Nesta mesma aldeia (Carnac) as mulheres sentavam-se no dólmen Creuz-Moqem, arregaçando os vestidos; sobre o rochedo, foi erigida uma cruz para evitar esta praticais. Existem muitas outras pedras chamadas de "amor" ou de "casamento" cujas virtudes são eróticas. Em Atenas, a mulheres grávidas dirigiam-se à colina das ninfas e deixavam-se deslizar sobre o rochedo ao mesmo tempo que invocavam Apolo para terem um parto feliz. Eis aqui um bom exemplo de mudança de significação de um rito, pois que a pedra da fecundação se transforma em pedra de parto. As mesmas crenças nas pedras que, só por se tocar nelas, determinam um parto bem-sucedido, são encontradas também em Portugal.

Muitos megálitos favorecem o andar das crianças ou proporcionam-lhes boa saúde. No cantão de Amence, existe uma pedra furada; as mulheres ajoelham diante dela e oram pela saúde dos filhos. jogando uma moeda no buraco. No momento do nascimento, os pais levam a criança à “pedra furada" de Fouvent-le-Haut e fazem-na passar pelo buraco. “Era, decerto modo o batismo da pedra destinado a preservar a criança de malefícios e a dar-lhe felicidade.







domingo, 19 de setembro de 2021

CASA DA CÂMARA DE GARVÃO

In: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira. As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna.










Quintal da casa da câmara de Garvão.









Brasão do reino, em esgrafito na fachada da casa da câmara de Garvão; coroa real removida.

As velhas casas da câmara constituíram a tradicional sede do poder local português, que se materializava essencialmente numa rede muito densa de concelhos. Formados no quadro das lutas da Reconquista Cristã e espalhados por todo o território, os concelhos proporcionaram um dos factores mais importantes da unidade e da própria identidade do Reino.

 A História ensina-nos que o órgão máximo do muito jovem poder concelhio, ainda em formação, era a assembleia de vizinhos ou homens-bons do concelho. Estas assembleias tinham lugar em sítios informais e improvisados, bem conhecidos de todos e consagrados e legitimados pelo uso e pela tradição. A pouco e pouco, porém, os homens-bons e sobretudo os oficiais ou agentes do concelho começam a reunir-se e a decidir em espaços fechados e cobertos e, a partir de meados do século XIV, em casas sobradadas – as casas ou paços do concelho. Dava-se então início ao amplo e longo processo de monumentalização do poder local, que consistiu na construção sistemática dessas casas – as casas da câmara – em todos os concelhos portugueses, processo que alcança o reinado de D. Manuel I (1495-1521).

 Enfim, também subsidiário da componente residencial das velhas casas da câmara é o quintal, que algumas detêm, ao serviço dos aposentados e sobretudo do Carcereiro e sua família. O quintal anexo à casa da câmara – que deve ter sido muito raro – ainda hoje sobrevive em Garvão. Por outro lado, também sabemos que a casa da câmara de Benavente tinha, em 1685, anexo às “duas [cazas] em que mora o carcereiro […] um bocado de quintal”.[1]

 Vimos atrás que, segundo o Tombo do Concelho de 1685, a antiga casa da câmara de Benavente detinha um “bocado de quintal” contíguo às duas “casas” “em que mora o carcereiro”. Com efeito, algumas antigas casas da câmara dispunham de quintal: era o caso das de Garvão ou de Vila Nova da Baronia (Alvito).[2]

 Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, quando instaladas em edifícios independentes, como em Mirandela, Aguiar da Beira, Vila de Rei, Punhete (hoje Constância, Alandroal ou Aljustrel, tal como no cume de açougues como os de Garvão, de Colos (Odemira) - ou mesmo o tão monumental açougue de Évora, adiante referido.[3]  

 Também muito raros, encontrámos brasões realizados na velha técnica do esgrafito, como na casa da câmara de Garvão, a que também foi removida a coroa real. Realizados em materiais brandos e de fácil modelação, os brasões em estuque ou em esgrafito parece terem sido sempre rodeados de ornatos de gosto ora mais erudito, ora mais popular e podem ter sido usados em muitas zonas do país e não apenas nas regiões de cal abundante. [4]

 No Alentejo, o acesso ao piso nobre das antigas casas da câmara de Vila Nova da Baronia (Alvito) e Garvão proporciona uma variante destas entradas duplas. Com efeito, nos dois casos as portas rasgadas no piso térreo de uma parede adjacente às fachadas dão acesso a escadas descobertas que conduzem aos patamares cimeiros por onde se acede verdadeiramente aos respectivos pisos nobres.[5]

[1] P. 376

[2] P. 827

[3] P. 392

[4] p.407 e 408

[5] P. 565

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

BALDIO DA SARDOA











Mapa do século XVIII (CA_196_50k_geo)

             Os Baldios eram terras comunais para usufruto das populações locais, a sua origem perde-se no tempo e remontará aos primeiros povos agrários. Não será assim de estranhar a existência de um Baldio situado no lugar da Sardoa, na freguesia de Garvão, antigo concelho medieval, extinto em 1836.

              O Baldio da Sardoa é uma reminiscência muito reduzida daquilo que eram as terras concelhias até há relativamente pouco tempo. Num mapa do século XVIII,[1] pode-se observar que as terras sob administração do concelho de Garvão abrangiam uma vasta área a Oeste, Norte e a Este da vila.

            A história recente do Baldio da Sardoa, (se de facto ainda assim lhe poderemos chamar), não deixa de ser interessante e ser mais um exemplo da enorme pressão, pelos detentores do poder, seja a nível nacional ou autárquico, para usurpação e controlo destes terrenos comuns e fuga ao controle das populações locais.

            De facto, no último quartel do século XX, a autarquia de Ourique, resolveu assenhorar-se destes terrenos, para tal instruiu junto das autoridades judiciais, (tribunal de Ourique), um processo de requerimento de posse de terra, ao abrigo da faculdade legal denominada por “Uso de Capião”, para quem está de facto na posse da terra, com o testemunho e beneplácito de três conterrâneos de Garvão.

            De notar que tanto os argumentos legais invocados pela Autarquia, (exploração do terreno há mais de quinze ou vinte anos), como os testemunhos das testemunhas convocadas, não correspondem ao que de facto se passava no terreno.

            Nunca a autarquia de Ourique, antes ou nas décadas seguintes, teve alguma posse sobre os terrenos públicos que fazem parte do “Baldio da Sardoa”. Quem apascentava o gado, recolhia lenha, fazia horta e utilizava água do poço e se servia para logradouro familiar, geralmente para depositar lenha para o inverno, sempre foram as pessoas da vila.

           Quem vendia e recebia as receitas pela venda dos eucaliptos era a Junta de Freguesia de Garvão, assim como recebia os rendimentos do “Terrado” da feira, pago pelos feirantes em dia de feira.

             A Junta de Freguesia de Garvão foi de facto quem ficou a perder com esta suposta “legalização” do baldio da Sardoa, e viu-se expropriada de um terreno com uma área considerável sem qualquer contrapartida financeira ou outra.

              Apesar das três testemunhas terem sido devidamente elucidadas pelo autor destas linhas, sobre as consequências da sua acção e do enorme prejuízo para a freguesia, a suposta posse de terra pela Câmara de Ourique, concretizou-se.

                A menção a esta situação, de três conterrâneos que com o seu falso testemunho privaram a vila de um enorme património e o aviso de outro conterrâneo para não o fazerem, não pretende diabolizar ninguém e muito menos colher louros, mas somente um alerta sobre a necessidade de se trabalhar em conjunto, tanto para evitar situações desta natureza como para concertar ideias, idealizar e concretizar acções para melhorias na vila.

[1] CA_196_50k_geo.pdf (dgadr.gov.pt)

sábado, 31 de julho de 2021

DIA DA ESPIGA

O Significado Pagão











Bilhete postal ilustrado do século XX. Aguarela de Alfredo Moraes (1872-1971).

               O Dia da Espiga é comemorado em Portugal, (tradição com maior relevância no Centro e Sul do país), quarenta dias após a Páscoa cristã e da Pessach judaica, trata-se de uma festividade pagã cristianizada pela Igreja de Roma.

             É uma celebração tipicamente portuguesa, com reminiscências nos cultos pagãos dedicados à renovação da vegetação, depois dos meses das trevas do Inverno e celebração das colheitas. Os rituais pagãos, com especial enfoque nas culturas célticas e romanas, de celebração das primeiras colheitas, e pedido pela qualidade e quantidade destas, remontam à antiguidade.

             Costumavam-se observar pelo meio da Primavera, mais ou menos no actual Maio, e sempre tiveram grande implementação Popular. Com a chegada do Cristianismo, e  tendo em conta as datas das celebrações da Páscoa, acabou por em Portugal acabar por se colar ao cristianismo, até porque era um Feriado oficial em Portugal.

              Neste dia as pessoas vão ao campo colher espigas e flores silvestres para formarem um ramo, acredita-se que os ramos de vegetação colhidas nesse dia trazem felicidade, protecção, prosperidade e abundância para a família.

            Este ramo fica pendurado, de cabeça para baixo, atrás da porta de entrada ou da cozinha ou noutro lugar da habitação, até ao Dia da Espiga do ano seguinte, quando é substituído por um novo.

               A sua origem estará relacionada com os rituais pagãos, muito antes da era cristã. Rituais como os que estavam ligados em homenagem à deusa da Flora e à celebração do fim do Inverno e do início da Primavera, quando a natureza era implorada para que trouxesse a esperança de novas e fartas colheitas.

             No Dia da Espiga realizava-se a bênção dos primeiros frutos colhidos, ritual este adoptado posteriormente pela igreja cristã à semelhança de outras festas pagãs ancestrais, a Igreja cristianizou esta celebração que continuou a atravessar séculos, principalmente nos meios rurais e agrícolas.

            O Dia da Espiga foi feriado nacional até à sua abolição em 1952. Mais tarde, a Igreja Católica passou a celebrá-lo no sétimo Domingo de Páscoa. A contestação e a persistência da população em celebrar este dia com a ida ao campo e colher o ramo de espigas, fez com que muitos Conselhos adotaram esse dia como feriado municipal.

                 Para estas comunidades rurais, o dia da espiga era considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar, acreditava-se que ao meio-dia tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.

               À simbologia das plantas que formam o ramo, associava-se a Espiga ao pão, o Malmequer à fortuna, a Papoila ao amor, a Oliveira â paz, o Alecrim à saúde e a Videira à alegria.

                Estas simbologias estariam associadas a várias crenças pré-cristãs com origens à antiguidade clássica e ao seu calendário festivo, nomeadamente a Ceres, Deusa romana da agricultura e do cereal, a quem era dedicado um festival, a Cereália, por esta altura do ano, Ceres é várias vezes representada com espigas na mão, assim como à Maia, em homenagem a Flora, Deusa das Flores, e a Maia, Deusa da Primavera, ainda hoje acarinhadas com pequenos gestos como as giestas que se põem à janela no primeiro dia do mês de Maio.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

FONTE SANTA E HORTA DA SAÚDE

 




 








Igrejinha de São Pedro, Fonte Santa e Horta da Saúde na Estrada Real do Algarve

            A nomeação de certos lugares, cuja designação aos olhos de hoje, nos parece estranha e de difícil interpretação, leva-nos a tecer várias considerações sobre as suas origens.

           O conjunto que se encontra junto á antiga Estrada Real, na vila de Garvão: as ruínas da Igrejinha de São Pedro; a Fonte Santa e a Horta da Saúde são um mero exemplo desses lugares, no qual a coincidência de nomes, deixa antever alguma forma de religiosidade pré-cristã deste lugar, associado ao poder curativo da água e ao tratamento de maleitas que afligiam as populações.

           Ainda nos anos sessenta do século passado, quando se semeava ou plantava vegetais nesta horta - assim como noutras hortas que circundavam a vila - era costume encontrar pequenas tiras de pano atadas geralmente ao tronco das árvores de fruto, tendo-se hoje a noção de que serviam para assustar as aves que eventualmente poderiam danificar a fruta das árvores ou os vegetais semeados, contudo tal prática continua a ser praticada em países de tradições celtas, associadas a poderes mágicos e curativos de certas doenças, cujas populações banhavam na fonte sagrada as tiras de pano e eram posteriormente atadas nas pernadas das árvores como se observa ainda hoje em certos lugares, nomeadamente na Grã-Bretanha, denominados “Clootie well”.

              Seriam lugares de peregrinação que se acreditava possuírem atributos medicinais e curativos de certas doenças. Têm-se observado uma continuidade na adoração destes lugares, venerados de uma forma continuada pelas populações, tanto passadas como presentes que acreditam nas propriedades terapêuticas dessas águas.

              Antes do cristianismo a religiosidade dos povos mostrava-se de diversas maneiras, nomeadamente num maior contacto com a natureza, adorando certos lugares considerados sagrados, sejam elas certas formações rochosas, elevações, árvores, rios, pegos ou fontes entre outros, onde acreditavam nos poderes sobrenaturais desses lugares.

            Assim o facto daquela fonte ser apelidada de Fonte Santa, demonstra que em tempos remotos houve populações que acreditavam nalgum poder terapêutico daquela água, esta fonte estaria assim relacionada com alguma forma de adoração pela população e este local considerado sagrado, o que veio a justificar a construção de um templo cristão neste lugar, ao que vinha a acontecer noutros lugares em que a nova religião cristã convertia os locais antigos de culto pagão em tempos cristãos como o caso, neste caso, da Igrejinha ou Ermida de São Pedro.

            A nomeação daquele lugar, onde se situa a fonte em “Horta da Saúde”, também indicia e fortalece o que se mencionou no paragrafo anterior, assim como o conhecimento, entre a população, da descoberta de túmulos “antigos” descobertos na propriedade da Monte da Piedade, sobranceiro à Horta da Saúde.[1]

            A edificação de igrejas cristãs em lugares sagrados pagãos, é uma prática que se observa amiúde no mundo cristão, na Península ibérica existem inúmeros casos de Norte a Sul. 

No mundo ocidental, e com a romanização, assistir-se-á não raras vezes à assimilação ou identificação desses antigos cultos a divindades romanas, num processo de interpretatio que os gregos já haviam aplicado e que os cristãos irão prosseguir e ampliar, reocupando e reconvertendo os velhos santuários pagãos, ou adaptando antiquíssimos ritos, para os atribuir à nova fé.[2]

              Caso curioso, como exemplo, é o da Fonte Santa da Amieira no Concelho e Freguesia de Ponte de Sôr, a qual ficou debaixo do altar da capela cristã dedicada á N. S. da Piedade.

Este local desde tempos pré-históricos manteve um culto às aguas pela existência de uma fonte sagrada e venerada desde os celtas até hoje.

Curioso e talvez pouco vulgar foi a implantação de uma capela cristã dedicada á N. S. da Piedade, não como é costume em local separado perto da Fonte, mas a própria Fonte ficou dentro da capela e ainda mais interessante ficou por debaixo do altar, talvez exemplo único em Portugal.

A água entra na capela por debaixo do altar, como para dizer ' Aqui está a Água do Senhor, bebei e purificai-vos' e cai para um escoamento que a leva para uma bica no exterior.[3]

           São Pedro está associado á fidelidade á igreja cristão, sendo considerado o seu primeiro papa. Assim um lugar de culto pagão usurpado pelo cristianismo em ascensão precisava de ser fortemente relacionado com o cristianismo e nada melhor que com o seu primeiro papa.

          As igrejas de invocação a São Pedro são conhecidas pelo menos desde D. Afonso Henriques pois há notícia deste ter doado uma igreja com esta denominação.

1134: S. Pedro da Cova, c. de Gondomar. D. Afonso Henriques doa a ermida de S. Pedro da Cova aos seus monges, com o beneplácito do bispo do Porto. Documento perdido, mas sumariado por D. Rodrigo da Cunha (DR I p. 522, ref. 39). Existe uma carta de couto falsa, datada de 1130 e fabricada provavelmente em meados do século XIII (DR I 109).[4]

[1] Pedro Miguel Correia da Silva. As Necrópoles da I Idade do Ferro do Baixo Alentejo – Contributo para o seu melhor conhecimento. Dissertação de Mestrado em Arqueologia. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciência Sociais e Humanas. Novembro, 2015. P. 131.

[2] PATO, Heitor Baptista. O Culto dos Promontórios em Portugal. Celtibebia.net, 2007.

[3] A Caminho de Casa: Lugares Sagrados de Portugal- Fonte Santa da Amieira (acaminhodacasa.blogspot.com)

[4] José Mattoso. Eremitas Portugueses No Século XII. Lusitânia Sacra, Centro de Estudos Históricos, Lisboa, 1971. P.12.

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