sábado, 5 de novembro de 2011

MUSEU ETNOGRÁFICO em GARVÃO

  

Uma oportunidade perdida.

        O número de Museus Etnográficos, ou chamemos-lhe da ruralidade, do trabalho ou das alfaias agrícolas que têm sido abertos neste últimos anos em todo o país, coloca a pretensão de fazer um museu etnográfico em Garvão fora de tempo, pela originalidade perdida.

        Aquilo que poderia ter sido uma mais valia para a terra à quinze, dez ou mesmo à cinco anos atrás encontra-se actualmente fora de originalidade, precisamente pelo imenso número de museus etnográficos abertos nestes últimos anos, alguns dos quais têm, infelizmente, encerrado, ou por falta de apoios, verbas, visitantes ou pela concorrência de outros museus mais dinâmicos, entre outras causas.

        Continua a haver espaço para este tipo de exposições seja em Garvão ou noutras terras, tem é de se procurar a tal “originalidade” perdida e inovar em termos de exposição e inclusivamente em termos museológicos.

        A ideia de expor uma série de artefactos, alfaias e outros instrumentos de trabalho num edifício para ser apreciado, poderá estar ultrapassada e não corresponder às exigências actuais, mais do que isso é preciso evoluir e levar o museu às pessoas em que o palco extrapola os muros da “Casa-Museu” e transforma a povoação na “Vila-Museu”.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Comemorações dos 500 anos do Foral Novo de Garvão

500 anos do Foral-Novo

            Em 1 de Julho de 1512 o rei D. Manuel outorgou o foral-Novo a Garvão pela reforma do Foral-Velho, outorgado em Fevereiro de 1267.

            Pela reforma dos forais-velhos o rei D. Manuel procurava acabar com os particularismos locais e uniformizar estes documentos fundacionais da maioria dos concelhos portugueses, não só em termos de lei geral para o reino como em termos de escrita, pesos e medidas, que se encontravam, 250 anos depois, desactualizados.

            Os Forais-velhos foram outorgados numa altura de reconquista territorial aos Muçulmanos e de consolidação do reino, eram cartas de garantia e deveres outorgadas entre as comunidades e o rei, ou com entidades autorizadas para tal. Contudo mais do que uma “...aliança do rei e dos concelhos contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia”[1], como defendeu Alexandre Herculano é de facto o reforço do poder régio, ou como afirmou Marcelo Caetano “Os reis viam no povo o aliado ideal para atingir os seus objectivos e o povo sentia no monarca a salvaguarda das suas liberdades”[2], a “liberdade” consagrada nas cartas foralengas é em relação à dependência destas comunidades autónomas face às pretensões dos senhorios e não do rei, de facto a intervenção do rei na defesa dos concelhos contra os nobres faz-se sempre à custa da autonomia concelhia.

            A chamada reforma manuelina dos Forais ou Forais de leitura nova atribuída a D. Manuel I, não deixa de ser um longo processo de reivindicação municipal iniciado durante o reinado dos seus antecessores e praticamente durante toda a segunda dinastia, não só contra os abusos e prepotência dos poderosos, como inclusivamente, de uma interpretação abusiva da carta do Foral.

            Com a redacção a escrito dos forais novos, procurou-se, também, uma actualização e uniformização da linguagem utilizada nas redacções dos diversos forais velhos, e inclusivamente uma unificação dos dinheiros, pesos e medidas até aí desigual e variável entre os vários lugares do reino, para uma melhor facilidade nas trocas comercias, ente as várias regiões, e um efectivo cumprimento das obrigações foraleiras.

            Celebra-se assim no próximo ano, a 1 de Junho, os 500 anos da outorga do Foral-Novo a Garvão.

            Espera-se com a notícia deste acontecimento praticamente a um ano deste data, não só despertar interesses, para a respectiva comemoração, como, também que o livro “O Foral-Novo de Garvão” se encontre publicado.


[1] Alexandre Herculano, História de Portugal III, Lisboa, Círculo de Leitores, 1987, p.98

[2] Marcelo Caetano. História do Direito Português (1140-1495), Lisboa, Verbo, 1981



sábado, 25 de setembro de 2010

TAÇA EPIGRAFADA DO DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO

 

A IMPORTÂNCIA DE UM GRAFITO, NA BASE DE UMA CERÂMICA, DESCOBERTO NO DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO 

Entendia-se que a primeira forma de escrita na Península Ibérica, introduzida pelos Fenícios e adaptada às línguas locais (ou nas próprias línguas destes navegadores do Levante Mediterrâneo), estaria em uso entre os séculos VII e V a.C., segundo as inúmeras estelas epigrafas encontradas e o contexto em que estavam inseridas, considerando-se extinta a partir dessa data.

Contudo a descoberta destas inscrições na base de uma taça no Depósito Votivo de Garvão do século II a.C., coloca Garvão e Alcácer do Sal, (pelas moedas encontradas), os locais onde mais tardiamente se manifesta a utilização e o conhecimento desta escrita, para muito além do que era vulgarmente entendido. 

"Em Garvão identificou-se um grafito (Alarcão e Santos 1996, 272 nº 32), de leitura discutida (Correa 1996a), sobre a base de um vaso do depósito votivo. Independentemente da sua leitura o seu achado é muito importante pela sua cronologia e a sua paleografia significativa pela sua proximidade à da amoedação de Alcácer do Sal (cf. Correia 2004b)." 

"O grafito de Garvão documenta a extensão do uso da escrita do Sudoeste, mesmo já fora do seu uso mais tradicional da epigrafia funerária, até meados do séc. II a.C. (Beirão et alii 1985, Correia 1996b); é essa data do fecho do depósito votivo e o grafito foi feito numa das peças de tipologia mais comum nesse depósito, sendo por isso natural pensar que não era uma peça muito antiga quando foi ocultada.

Esta datação permite afirmar que o grafito de Garvão é genericamente contemporâneo da legenda indígena da amoedação de Alcácer do Sal, sendo portanto necessário abandonar o mais forte argumento quanto à não pertença dessa amoedação ao signário do Sudoeste, que era precisamente a questão das datas conhecidas de utilização de um e de outro (Correia 2004c).

Retirado este Argumento (contra Faria 1991), não há razão para se não valorizarem alguns indícios paleográficos presentes numa e noutra inscrição, que abonariam a favor da pertença de ambos ao mesmo corpus epigráfico, o do Sudoeste."

In: A ESCRITA DO SUDOESTE: UMA VISÃO RETROSPECTIVA E PROSPECTIVA, Virgílio Hipólito Correia


 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Estela do Arzil Epigrafada em Caracteres do Sudoeste

  


 


A estela do Arzil, com inscrições da denominada escrita do Sudoeste, de influência Fenícia e de outros povos Semitas do Mediterrâneo Oriental, provém de uma necrópole situada a cerca de 200 m do Monte do mesmo nome, a pouca distância da ribeira de Garvão, relatando-se, possivelmente, com o habitat da Idade do Ferro localizado na proximidade.

 



Situa-se numa pequena elevação de vertentes suaves, onde predominam os terrenos xistosos, aflorando à superfície os denominados “chapéus de ferro” que foram, muito possivelmente, durante a Idade do Ferro, alvo de exploração mineira por povos do Mediterrâneo oriental, cujos vestígios foram detectados.

 



Leitura segundo Rodriguez Ramos (J.21.1):
uarpánté[/]arenaRkénii
uarpóiirsaruneeapárenaRkénii
[Mu] Vartoiir Saruneea mare nargenii

 



As referências à existência de uma mina nas proximidades, e alguns vestígios de exploração mineira no local, têm sido os argumentos usados para conectar o sítio com uma actividade extractiva de minério. Os solos do seu território envolvente incluem-se nas Classes C e D, o que, aliado à proximidade de cursos de água, faz pensar numa área de razoáveis capacidades agrícolas, permitindo uma agricultura de subsistência.

 



Sobre os mecanismos de relacionamento e coesão social, religiosa e económica destes habitats, ver o artigo sobre o Castelo de Garvão, como “Lugar central” e a sua supremacia nestes grupos mais ou menos dispersos.

 



In: ARRUDA, ANA MARGARIDA, A Idade do Ferro pós-orientalizante no Baixo Alentejo, REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 4.número 2.2001


 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

ESTELA EPIGRAFADA ROMANA

 

ESTELA EPIGRAFADA ROMANA DOS FRANCISCOS

"A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila. Administrativamente pertence ao concelho de Ourique e ao distrito de Beja. O monumento funerário agora dado a conhecer foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e de onde provêm outros materiais do período romano."

"Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam ali a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada, identificando-se na altura restos de estruturas habitacionais e materiais romanos que abrangem um período situado entre os séculos I e III d.C."

"A leitura desta epígrafe, com luz rasante, permitindo-nos executar o decalque cuja redução apresentamos na fig. 2 sempre preferível a um desenho, é a seguinte:"


LADRONV[S] / DOVAI • BRA[CA]RVS • CASTEL[LO] / DVRBEDE • [H]IC / SITUS • ES[T] • AN[N]ORV[M]  XXX (triginta?) / [S(it)] • [T(ibi)] • T(erra) • L(evis) •


"A sua tradução parece não oferecer grandes problemas propondo-se:"

Aqui jaz Ladronus (filho de) Dovaios, Bracarus do Castello Durbed, de trinta anos de idade. Que a terra seja leve.

"A estela dos Franciscos é, pois, um importante monumento, atribuível ao séc. II ou aos inícios do século III d.C., cuja forma e realização se integra, como vimos, no tipo de lápides encontradas no Sudoeste Alentejano (concelhos de Aljustrel, Ourique e Almodôvar) (Encarnação, 1978), embora o seu conteúdo mantenha estreitas ligações com a epigrafia do Noroeste, sobretudo no plano onomástico, para o qual encontrámos paralelos maioritariamente no Conventus Bracarensis (Fig.1)."

"Ainda recentemente também M. Manuela A. Dias (1979), num bem fundamentado trabalho, reconheceu a origem norte-peninsular de muitos antropónimos registados em estelas do Conventus Pacensis, encontrando uma possível explicação na emigração com vista aos trabalhos de mineração. Estes movimentos migratórios que fazem instalar populações do norte da península no Sul e Sudoeste Ibérico, ocupadas tanto na agricultura como na mineração, mostram, em última análise e de modo claro, as diferentes dinâmicas da ocupação territorial da Península, revelando-nos afinal a mesma fraca densidade populacional que ainda hoje conhecemos nas terras do sul, mais avessas à instalação das comunidades humanas."

in: GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984) Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, "Conimbriga", 23, p. 43-54. ...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

AINDA A QUESTÃO DA DEGRADAÇÃO DO NOSSO PATRIMÓNIO

    



Mapa Cadastral

designando local do

Cemitério Antigo

pelas letras "St"


Fotografía área do local

do Cemitério antigo,

notando-se a parede

virada a poente (ainda)


 O QUE NÃO SE CUIDA ESTRAGA-SE

Depois do Brasão dos Antigos Paços do Concelho ter sido caiado por cima, como se não existisse. 

Depois das pinturas da Igreja do Sagrado Espírito Santo, incrustadas na parede do Cemitério Velho terem sido, também, caidas por cima, como se, também, não existissem. 

Depois do desaparecimento dos livros do extinto concelho de Garvão, da Misericórdia e da Paroquia de Garvão das instalações da Junta de Freguesia. 

Depois dos últimos vestígios do Castelo estarem a ser destruídos por cabras. 

Depois da destruição dos últimos vestígios Romanos dos franciscos. 

Depois de tudo isto e muito mais. 

O que é que faltará mais? 


Falta naturalmente um plano de desenvolvimento da vila, uma ideia sobre a melhor maneira de melhorar a vila, para evitar que o pouco que ainda resta não caia no esquecimento e seja destruído como o Cemitério Antigo que se encontra entre o  furadouro e o moinho, e até o próprio moinho deveria merecer uma recuperação.

O conhecimento deste Cemitério chega-nos através da tradição oral da população mais idosa da Vila de Garvão, consubstanciado pelo registo cadastral nacional da área, alguns vestígios no terreno e pelo o acesso que se fazia pelo "Furadouro" por um caminho próprio ainda hoje visível no terreno.

Tendo em consideração que no Cemitério Velho, a cerca de cem metros, no outro lado do "Furadouro", encontram-se sepultados defuntos de familiares ainda vivos desta terra, tendo, também, em consideração as Estelas Funerárias encontradas no exterior do Cemitério velho, que provam a utilização, nos séculos anteriores, deste espaço como lugar de enterramento continuado, coloca-se a questão de saber qual a época em que este Cemitério Antigo teria servido a população de Garvão, tendo em consideração que ainda se nota no terreno o respectivo caminho de acesso e a memória da sua existência na população mais idosa. 


 

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SUL e SUESTE - 70 Anos Depois

  

SUL E SUESTE

 Já lá vão setenta anos.


Foi em 1940 que Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicou através das oficinas da Gazeta do sul no Montijo, o livro “SUL e SUESTE- Prosas de Além-Tejo”.

Joaquim da Costa era, como já se disse, natural de Garvão, cuja família tinha casas na Rua Direita e era proprietária de propriedades como a Monchica e os Cachorros, era familiar de José Júlio da Costa, que matou o presidente da republica, Sidónio Pais em 14 de Dezembro de 1918 e de Celestino da Costa, primeiro presidente da Junta de Freguesia de Garvão depois da revolução de 25 de Abril de 1974.

Este livro que apesar de tratar essencialmente de lugares e famílias de Garvão passa despercebido hoje em dia com um total desconhecimento sobre este nosso conterrâneo e a sua obra, contudo trata-se de uma série de crónicas, que nos brindou, relativas a esta parte do Alentejo em geral e a Garvão em particular, nos vários contos e novelas deste livro, fruto da sua infância e da sua memória.

Na novela a “Luíza” fala-nos sobre um amor impossível entre a filha de um rico lavrador e um dos criados que acabou com a morte do criado e o suicídio do lavrador. Fala-nos das Festas do São Barão, da Sr.ª da Cola, do Marguilha de Garvão e do seu cachimbo, da ponte do Carrascal, do lavrador José Francisco, sem contudo precisar a herdade, fala-nos do almocreve António Braga e do seu pai José Braga, Sebastiano de São Martinho entre outras referências a lugares e pessoas da região.

Na novela “João Teles”, menciona a moleja, menina de cinco olhos, jogo do botão e “molha a orelha”, menciona o ano da pneumónica, o pego do Azulão e a ponte do caminho de ferro.

Na crónica sobre o poeta “João da Graça” Joaquim da Costa fala-nos do avô, lavrador abastado da Monchica e dos Cachorros. João da Graça seria alfaiate e pai do Ti’Farrapinho, ultimo alfaiate de Garvão, cuja bisneta ainda reside em Garvão, menciona, também, a ponte velha de Garvão, da Igreja Nossa Sr.ª da Assumpção, da hospedaria do Manuel Rosa, do Caetano Rosa, da Rua Direita e das meninas Rosas.

A “ A Velha o Chibo e o Lobo” é uma crónica passada na Pézinha, e m enciona o Monte Major, o Cezar e o Serafim de Carvalho de Garvão e a Marianita.

Noutros contos fala-nos sobre a avó, Maria Tereza de Jesus lavradora da Monchica e dos Cachorros, fala-nos, também da Miquelina, do Francisco alhinho da Natividade, da Maria Barbara, do Serro dos Besteiros e da gruta do lobo.

Trata-se, sem dúvida, de uma obra escrita com grande sensibilidade e conhecimento cuja redacção a papel não só nos permitiu tomar contacto com outros tempos e realidades que nos precederam e nos deram vida como nos transmitiu conhecimentos e informações sobre famílias lugares e costumes de há setenta anos atrás.

Era livro obrigatório de leitura, nas casa dos lavradores da região, era guardado religiosamente. Ainda nos anos setenta do século XX havia lavradores, que embrulhado em pano, o conservavam na arca juntamente com outros pertences mais valiosos. Devia ter sido livro de leitura nas longas noites de Inverno, entre outras histórias, contadas de geração em geração para delicia de miúdos e graúdos nos serões em volta da fogueira debaixo do chupão.

Uma segunda edição desta publicação promovida pelos autarcas locais não só iria homenagear este nosso conterrâneo como iria dignificar a vila de Garvão e um contributo para a sua valorização, porque como diz o ditado "um povo sem memória é um povo sem futuro".


 


 

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...