quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

JOSÉ JÚLIO DA COSTA

 

       


JOSÉ JÚLIO DA COSTA - O homem natural de Garvão que matou o Presidente da República, Sidónio Pais.
    
    
José Júlio da Costa nasceu em Garvão, no dia 14 de Outubro de 1893, no seio de uma família de proprietários, considerada abastada para a época. 
     
Os pais, também de Garvão, eram Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, e era casado com Maria do Rosário Pereira Costa de quem não houve filhos.
     Era o segundo filho de sete irmãos, um dos quais, “Senhor Celestino da Costa”, como era conhecido, era esposo da professora D. Ilda, e foi o primeiro presidente da Junta de Freguesia de Garvão depois do 25 de Abril. José Júlio da Costa, assentou praça ,no exército, como voluntário, aos 16 anos em 21 de Maio de 1910.
      Combateu na Rotunda, pela implantação da República, nos dias 4 e 5 de Outubro desse ano. Ofereceu-se como voluntário paraTimor, Moçambique e Angola, onde recebeu um louvor em 27 de Dezembrode 1914.
      Deixou o exército a 11 de Abril de1916 com o posto de Segundo Sargento. Pela Grande Guerra, (1914/18), ofereceu-se como voluntário para combater a Alemanha, o que não conseguiu.
      José Júlio da Costa, nas entrevistas que deu, antes da sua morte, mostra claramente o seu descontentamento generalizado com a política seguida por Sidónio Pais, a quem acusa de traição aos ideais da revolução Republicana de 1910, por ser adepto da Alemanha e de alinhar ao lado dos Monárquicos e Clero, inimigos da República.
      De facto, Sidónio Pais governou em ditadura, pela política que implementou. Pode-se afirmar que foi o percursor de regime fascista nascido a 28 de Maio de 1926, que levou Salazar ao poder.
      Sidónio Pais, sublevou as instituições democráticas nascidas com a revolução republicana e fez-se “coroar” presidente à revelia do Congresso e da Constituição Portuguesa.
      No seu breve ano de governação foi suficientemente demonstrativo do cariz fascisante da sua política ditatorial. Liquidou o sistema parlamentar democrático, impôs a censura à Imprensa, centralizou os poderes, criou a polícia preventiva, rearmou a polícia pública, empregou uma enorme demagogia nos seus discursos políticos, transferiu para Lisboa as unidades militares da sua confiança, atulhou as prisões com milhares de adversários republicanos; num ano de governação passaram pelas prisões de África e do país cerca de 20 mil pessoas.
      José Júlio da Costa acusa também Sidónio Pais de ter abandonado, à sua sorte, o Corpo Expedicionário Português que combatia nas Flandres em França, na Grande Guerra de 1914-18, provocando a morte a cerca de 3000 soldados, sargentos e oficiais.
     Tudo isto reforçou a convicção em abater Sidónio Pais, já ciente na sua mente, depois da traição perpetuada nos trabalhadores rurais do Vale de Santiago, facto que viria a consumar no dia 14 de Dezembro de 1918, na Estação do Rossio em Lisboa, com 25 anos de idade.
     Depois de ter morto Sidónio Pais, José Júlio da Costa, foi preso e brutalmente agredido, logo ali no local, e levado posteriormente para a Escola de Guerra onde sofreu novos suplícios no seu corpo já ensanguentado. Preso, José Júlio da Costa sofreu todo o tipo de agressões, incluindo disparos, a meio da noite, para dentro da cela. 
    
Os seus próprios familiares,sem terem nada a ver com o caso, foram molestados pelas autoridades, inclusivamente a sua mãe e a sua esposa, Rosária Pereira Neves Costa, foram presas nos calabouços do governo civil, onde ficaram incomunicáveis (Jornal “O SÉCULO”página 3 de 18 de Dezembro de 1918).
     Ainda hoje, algumas pessoas da vila falam de tal, e ainda se lembram do estado
que a D. Maria Gestrudes chegava à vila depois de ir ver o filho a Lisboa.
     A mãe, antes de morrer, só pediu uma coisa: que levasse consigo o retrato do filho quando fosse enterrada. José Júlio da Costa morreu a 16 de Março de 1946, no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, com 52 anos de idade, com a razão toldada por 28 anos de prisão sem nunca ter sido julgado, completamente esquecido nas prisões do regime.


A GREVE GERAL DE 1818 E AS OCUPAÇÕES DE TERRAS EM VALE DE SANTIAGO.
     A história de José Júlio da Costa não se resume só ao homem que matou um Presidente da República, porque Sidónio Pais era acima de tudo, pelas políticas que tomou, e implementou, um ditador.
     É também a história de toda uma luta de classes, pela posse da terra, que assola o Alentejo de tempos a tempos.
     É a luta dos que não têm terra, em oposição aos que a têm e não a desfrutam, ou não dão trabalho a quem precisa.
     É também a história de como toda uma população, de um dia para o outro, se viu despojada dos mínimos meios de subsistência, a que estava habituada porséculos de vivência com a usual posse de terra.
     Tal uso, foi alterado com as revoluções liberais, da primeira metade do século XVIII, e subsequentes alterações efectuadas no sistema fundiário e venda dos baldios, o que de um momento para o outro privou a população mais pobre de alimentar o gado, apanhar lenha ou ter a sua própria horta. Situação esta, de privação do mínimo uso da terra para as suas necessidades alimentares básicas, que ainda está muito fresca na memória dos sem terra Alentejanos, que eructa de tempos a tempos com uma total negação à posse de terra pelos seus actuais proprietários.
     É neste enquadramento social que surge José Júlio da Costa, como intermediário entre as autoridades e os revoltosos do Vale de Santiago, uma freguesia do Concelho de Odemira.
     A população do Vale de Santiago no seguimento de uma Greve Geral Nacional, convocada pela U.O.N. (Central Sindical Anarquista), e motivada pelos “ventos quentes” vindos da Europa do Leste, pela revolução dos Sovietes na Rússia em Outubro de 1917, pegaram nas suas rudimentares alfaias de trabalho e ocuparam celeiros e propriedades, a reivindicar, basicamente produtos alimentares e trabalho para sustento das suas famílias.
     José Júlio da Costa serviu como intermediário na contenda, a pedido das autoridades, e convenceu os trabalhadores a renderem-se, com a promessa de que não seriam presos.
     As autoridades políticas e policiais faltaram à palavra dada a José Júlio da Costa, de que, se os revoltosos se rendessem, não seriam castigados, prendendo-os logo a seguir e deportando-os para África.
    
José Júlio da Costa, sentindo-se traído, jurou vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, matando o ditador Sidónio Pais. Ainda o barco que levava os revoltosos para África, para onde tinham sido desterrados, pelos tribunais do regime, não tinha chegado ao destino e já Sidónio Pais jazia com dois tiros de pistola na estação do Rossio (Lisboa), disparados por José Júlio da Costa, que, assim, jurara vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago, que confiaram na sua palavra de que não seriam molestados caso se rendessem às autoridades


Carta de JOSÉ JÚLIO DA COSTA. Escrita dois dias antes do atentado, confessando o acto que se propunha fazer ao seu amigo Francisco Ernesto Goes, proprietário na Barquinha: 
(1ª folha)Lisboa, 12 de Dezembro de 1918 Meu caro amigo Ernesto Não avistei a pessoa que me preocupa, espero que o encontro será no dia 14, e oxalá possa eu prestar com o meu sacrifício o fim que tantas almas anceiam. Hoje falei com o Dr. Magalhães Lima, elle está muito doente receio muito pela sua vida que tão preciosa é a esta nossa tão amada terra. Não me foi possível falar-lhe no magno assunto, nem talvez tenha já tempo de o fazer. Deixá-lo depois que façam o que o seu sentimento patriótico lhes designar
(2ª folha) Não é tão fácil como me pareceu a minha Missão, mas com um pouco de arrojo posso consegui-lo. Levo do lado do meu coração o envolto na nossa bandeira a estrofe que te faço cópia. Mandei tirar fotografias grandes no Grandella, não tenho tempo
de te enviar uma por isso te recomendo que requisites depois alguma para ofereceres aos nossos camaradas de ideias. Não tenho ninguém compro- metido no meugesto, só eu! Abraça-te o teu amigo José Júlio da Costa


JOSÉ JÚLIO DA COSTA E A MAÇONARIA
     Na Vila de Garvão, diz-se que José Júlio da Costa matou Sidónio Pais a mando da Maçonaria e, que ao se escolher quem deveria realizar o acto, José Júlio da Costa fo iescolhido porque tirou a palha mais comprida, num sorteio através de palhas presas na mão de uma pessoa.
     Mas é improvável que, José Júlio da Costa, fizesse parte, ou tivesse morto Sidónio Pais a mando da Maçonaria.
    
Contudo, José Júlio da Costa, nutria uma grande simpatia pela Maçonaria e pelo seu Grão-Mestre, Sebastião de Magalhães Lima, tendo inclusivamente chegado à fala com ele e escrito-lhe uma carta sem mencionar o magno assunto a que se propusera fazer, carta esta encontrada nos bolsos do Grão-Mestre quando foi preso.
     De facto o Grão-Mestre da Maçonaria, depois da morte de Sidónio Pais, passou um mau bocado, tendo sido preso e agredido no Governo Civil nessa mesma noite da morte da Sidónio Pais, sob a suspeita de ele ou a sua organização, terem instigado o atentado.
     A suspeita da implicação da Maçonaria, na Morte de Sidónio Pais foi na altura, largamente alardeada pelos círculos Sidonistas da capital, como a explicação mais lógica para o atentado.
     Esta pista, seguida por certos jornalistas e investigadores, mostrou-se fútil e sem qualquer fundamento digna de crédito, tendo contudo a semente germinado no ideário popular.
     Um dos motivos apontados, pelos defensores desta tese, é o facto de Sidónio Pais ter sido Mação, e a Maçonaria não perdoar aos seus antigos membros que se mostrem renegados ou que abandonem a organização, criando assim o mito que Sidónio Pais teria sido morto por outro Mação que seria José Júlio da Costa.
     Outro motivo, apontado, que levaria a concluir a cumplicidade da Maçonaria na morte de Sidónio Pais, era o conhecido apoio dado pela Maçonaria à República e aos republicanos que Sidónio Pais vinha traindo e prendendo, tendo inclusivamente a sede do “Grande Oriente Lusitano Unido” (Loja Maçónica Portuguesa, vulgarmente conhecida por Maçonaria), sido invadida e saqueada oito dias antes do atentado, devido, precisamente, a outro atentado à vida de Sidónio Pais que saiu malogrado.


MAÇONARIA OU CARBONÁRIA?
     A Maçonaria era/é uma organização secreta, elitista e urbana, de que muito dificilmente José Júlio da Costa faria parte. Quando muito, e no caso de José Júlio da Costa fazer parte de alguma associação secreta, devido ao seu empenhamento político, teria sido a Carbonária, esta sim um movimento mais rural e com forte implantação nas províncias.


IN: Malveiro, Jose P. GARVÃO Herança Histórica. Beja, 2003, Gráfica amdbeja.


terça-feira, 3 de julho de 2012

FORAL NOVO de GARVÃO

 


Dia 1 de Julho de 2012 fez precisamente 500 anos a outorga do Foral Novo a Garvão.

Comemorou-se assim esta data com uma edição especial do Jornal de Garvão e a Edição, para breve, do Livro “Foral-Novo de Garvão”

EDITORIAL

I

È comum ler-mos nos dicionários tipo coreográficos que apareceram no século XIX, nomeadamente o de Pinho Leal e todos os outros que lhe seguiram na senda, que El-rei D. Manuel reformou o Foral-Velho de Garvão, com a outorga do Foral-Novo, dando-lhe novas e maiores privilégios.

Ora nada disto corresponde à realidade do século XVI, pois nem na letra nem no espírito o que animou D. Manuel na reforma dos Forais-Velhos não foi a continuação do modelo autonómico municipal, mas foi precisamente o contrário: o centralismo politico. O reforço do poder régio fez-se precisamente à custa da autonomia concelhia.

O apoio concelhio onde os primeiros reis se apoiaram para enfrentarem o poder da nobreza, embrionária da própria monarquia, foi sendo paulatinamente, nos séculos seguintes à reconquista cristã e anteriores à reforma Manuelina, depauperada das liberdades consagradas na carta foralenga de 1267.

A emissão dos forais novos foi assim o culminar de um processo iniciado quando se observou a consolidação do estado nacional, quando o espaço das reuniões concelhias se redimensionou nas cortes régias, (quando o povo começou a estar representado), quando à nomeação dos juízes locais se sobrepuseram os juízes de nomeação régia e quando estes novos forais se concentram quase unicamente nos impostos e portagens pela transição de bens.

II


            Porquê comemorar esta data tão importante para a história de Garvão?

            Porquê relembrar um acontecimento passado à 500 anos?

            Qual o beneficio ou a repercussão desse acontecimento na acualidade?

            Pois bem, “um povo sem memória é um povo sem futuro”, já alguém o disse.

            Numa terra com falta de oportunidades de trabalho para os mais jovens, quando o ritmo de despovoamento populacional é acentuado como se nota na diferença entre os nascimentos e falecimentos, quando a desertificação rural cresce com o abandono de montes e explorações agrícolas, quando há necessidade de estas pequenas freguesias do interior de fraca ou nula expressão populacional, (ou outra por assim dizer), capitalizarem nas potencialidades disponíveis é obvio que a divulgação do seu património e da sua historia poderão contribuir para colmatar essa necessidade.

Mas sejamos realistas, a cultura e a arqueologia não são a solução para todos os problemas da vila, mas poderão, embora modestamente, contribuir para o respectivo desenvolvimento.

É preciso é motivação, dinâmica e essencialmente força de vontade.   

 INTRODUÇÃO

Torna-se importante nesta data, em que se assinala os quinhentos anos da outorga do Foral-Novo a Garvão, realçar a importância do resgate da memória local através da valorização do seu património. Valorizar igualmente a identidade colectiva da população, e incutir nas gentes locais o sentimento de pertença e a importância histórica de que se revestiu a outorga deste diploma, por El rei D. Manuel I em 1 de Julho de 1512.

A antiguidade deste documento e, a sua predominância na regulamentação da vida quotidiana da comunidade, do então concelho de Garvão, durante séculos, enquanto “lei da terra”, conferem a este documento um estatuto único num contexto social, económico, político e jurídico completamente diferente da realidade actual.

A outorga dos Forais-Novos às populações, pela reforma dos Forais-Velhos, outorgados maioritariamente no período da reconquista e consolidação nacional, mostravam-se, séculos depois, desactualizados e insere-se num amplo processo de reformas do sistema administrativo e jurídico pelo rei D. Manuel que se destinavam tanto a modernizar o reino, como a uniformizar e a aplicar as leis gerais a todo o território. Visava essencialmente o reforço do poder real e fixar os impostos, encargos e foros a pagar pelos municípios ao rei ou aos senhorios quando era caso disso.

A consolidação da monarquia, da identidade nacional e a própria evolução da sociedade, animada, chegados ao século XVI, de uma nova dinâmica, desactualizara os antigos forais, (a maior parte deles documentos fundacionais dos próprios concelhos), e outros documentos com que se auto-regiam as populações, por não se adaptarem à nova realidade e desajuste das normas legais neles contidas, não só os pesos e as mediadas, a língua e a escrita em que a maior parte deles tinham sido escritos, mas inclusivamente a própria legislação que diferia de lugar para lugar.

CONCLUSÃO

            O crescimento do movimento concelhio, do século XI aos inícios do século XIX, confirmado juridicamente pelas cartas de foral, relevou-se numa primeira fase por um relacionamento entre a população, bastante coeso e participativo, predominando o papel das assembleias colectivas: o concilium, onde as decisões locais se sobrepunham à centralização política e administrativa. Para estes tempos áureos do desenvolvimento concelhio, encontramos na sua génese e consagradas na carta de foral, a defesa da liberdade individual, e o reforço do poder local, em oposição à sociedade senhorial e feudal.

Os séculos XIV e XV são os séculos da maturação concelhia, da organização das forças internas e da consolidação das elites locais, da presença dos procuradores dos concelhos nas cortes régias, quando estas se redimensionaram como palco privilegiado de diálogo e representação concelhia.

Mas é também o período de uma maior ofensiva e fragilidade da tradicional autonomia concelhia, quando as forças externas de pressão convergem sobre os municípios, nomeadamente a cobiça senhorial e a intervenção dos reis nos assuntos municipais.

A cada vez maior influência régia nos assuntos concelhios e consequente usurpação das suas prerrogativas, através dos funcionários reais, reduz a própria autonomia concelhia e a importância das magistraturas locais, assim como o papel dos concelhos junto das comunidades, com a progressiva redução da tradicional participação da população nos assuntos e nas assembleias concelhias.

A reforma manuelina dos forais, no século XVI, embutida do espírito reformador de D. Manuel I, mais do que reformar os Forais Antigos com a publicação dos Forais Novos e legislar no sentido de dotar a governação de uma lei geral para todo o reino e outros instrumentos unificadores, retirou, de facto, e contrariamente aos desejos dos concelhos, todo um conjunto de direitos autonómicos concelhios consagrados na antiga carta de Foral, e acaba com sancionamento régio, por reforçar o sistema senhorial de exploração fundiária e dotar os senhorios de um novo documento foralengo, livre de lacunas, rasuras ou mal interpretações, de que amiúde eram acusados.

Com o advento do liberalismo, foram promulgadas várias leis tendentes à supressão dos forais, até serem definitivamente abolidos em Agosto de 1832. O fim destes documentos fundadores da maioria dos concelhos portugueses, obedecia ás exigências de uma nova burguesia liberal, endinheirada, centralizadora, representada no governo e denunciadora da origem social dos respectivos membros que a compunham, e inseria-se numa mais ampla reforma da sociedade, que inevitavelmente, à revelia dos próprios concelhos, e dos apelos de Alexandre Herculano que via a centralização e qualquer modelo uniformizador como sinónimos de tirania, (propondo uma solução apoiada nos concelhos enquanto núcleos descentralizados), acabou por dissolver grande parte dos municípios medievais portugueses.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Moinho do Sr. Chico Félix

    


                Não deixa de ser ainda hoje uma imponente figura que se recorta no horizonte e desperta curiosidades e interesses. O Moinho do Sr Chico Félix, como presentemente ainda o denominamos, há já muito que os ventos da erosão deformam as suas paredes e a taipa cobre o chão do que outrora foi o adro de velas, das varas e cabrestos presos com nó de barqueiro ou nó de porco.    

                Também, já não se ouve os brados do moleiro, ou a vela direita desfraldada a anunciar a falta de vento, ou desfraldada à esquerda a anunciar a recolha da farinha, não terá havido, com certeza, as velas em cruz a anunciar a morte do último Moleiro.

                Entre a Torre e o Capelo, o Mastro, Entrosca e Carreto: Mós e Tegão; o canto dos búzios; as cordas de armar; as velas latinas, garganta, valuma e esteira, (e o nó de barqueiro), a lembrar terra de marinheiros, terá o último Moleiro carregado os últimos grãos de almocreves e seareiros, raçoeiros e quintaneiros, entre maquias e comedias, entre carroças e carros, carretas e cangalhas de um só dorso, terá esbranquiçado os últimos cabelos, senão da idade certamente de farelos e farinha.

                Muitos outros moinhos haveria em Garvão entre Moinhos de Vento, de Água ou Atafonas movidas a sangue, (bestas, cavalos, éguas e burros), de que um dia se fará história, destaca-se o moinho do Morgado ou do Madeira e o moinho de Lazaro Soares, conforme consta no “Livro “da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”, nos anos de 1769 e 1829 respectivamente.


Farrejal ao Pégo do Limaõ afl _  67

Foro de hum farrejal sito nos coutos desta villa ao pego do Limaõ (...) o qual se achava murado de Taipa e posto de vinha aforado a Miguel Lopes, filho do primeiro empossado Manoel Lopes, desta villa por dois alqueires de trigo, (...) no anno de mil sete centos vos digo sete centos sesenta e nove annos semdo aos sinco dias do mez de Julho (...) o qual parte com outro farrejal da Coroa que he da capela do Anal e com outro farrejal de Dom Miguel Maldonado e com a estrada que vem para a villa do muinho do Morgado que chamaõ do Madeira.


Escriptura de Renovaçaõ de juro fatuezim e reconhecimtº de direito Senhorio Luiz Dias Bravo, e sua mer da Horta de Val de Guilherme afl _ 131

Traslado d'Escriptura de Renovaçaõ de fôro fatuezim, e Reconhecimento de Direito Senhorio, que fazem Luiz Dias Bravo, e sua mulher (...) no anno de mil outo centos vinte nove, aos vinte quatro de Fevereiro (...) Luiz Dias Bravo morador na Villa d'Ourique por si, e como Procurador, que mostrou ser de sua mulher Dona Maria Francisca Aurellia Contreiras, elles se achaõ Senhores, e Possuidores da Posse, e Dominio Útil da Horta de Vale Guilherme, ou do Claro, (...) sita no Couto desta Villa, que houveraõ por titulo d'herança de seus Antepassados, parte o dito farrejal pela estrada ao pé do moinho de lazaro Soares da parte do Poente, tomando pela parte do Norte pela estrada que vai para a Crata virando para o Nascente parte com terras do Conselho até á altura digo para a Crata, virando para o Nascente parte com terras do Conselho té á altura, e virando aguas vertentes abaixo parte com terras de Dom Miguel Maldonado a dar á estrada aonde principia a primeira confrontaçaõ.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

José Augusto Baião

    

             José Augusto Baião, de sua graça, nasceu em 1934. Portanto 77 anos de idade como pedreiro, podador de sobreiros e agora reformado “vai já para 16 ou 17 anos”, como gosta de salientar dedica-se à arte de trabalhar madeira.

             A viver na Sardoa, “mesmo diante da Praça de toiros e da feira” como continua a realçar, começou na brincadeira a fazer uma coisa para um e outra coisa para outro, “e começaram a achar muita graça” e hoje vem um gosta de uma coisa amanhã vem outro e gosta doutra e atrás das colheres de pau, umas grandes, outras pequenas vieram os bonecos, carroças e animais, “e olhe hoje é o que se vê”.

             De faquinha, sempre amolada, numa mão, um pedaço de choupo ou chorão noutra, “sabe são madeiras macias, o azinho é mais trabalhoso e racha”, seja na taberna da Man’ela, no mocho de pau ao sol, ou à espera da S’nhorª Doutorª” em menos de nada, com aparas para a esquerda e raspas para a direita sai uma minúscula cadeira, tão minúscula que até a faquinha parece que se ajeita para realçar os contornos das pernas, só lhe falta o assento de bunho.

            Entre colheres de pau, bonecos e bonecas, carros e carroças, animais e outros não tanto animais de vários tamanhos e feitios, ao sol ou à sombra, sentado no mocho de pau ou no madeiro, José Augusto Baião, na Sardoa, continuará a trabalhar o choupo a que a faquinha, amolada, vai dando corpo.

DESENVOLVIMENTO LOCAL

Plano e Estratégia de Implementação

O processo de desenvolvimento local, é um esforço contínuo e organizado por parte da população, no sentido de não só reconhecer os vários problemas que os afectam e de identificar e aspirações viáveis, mas igualmente de criar e formular as respectivas estratégias para os abordar, implementá-los e avaliar os resultados, numa lógica de participação, onde a mudança e a renovação são o âmago e o êxito dessa comunidade.

                Exigem esforço constante para encontrar novas formas de atender às necessidades dos cidadãos. O processo de desenvolvimento local é um diálogo constante entre os residentes de um local — as autoridades, as organizações cívicas, os grupos comunitários, os dirigentes empresariais e outras pessoas — visando procurar sistematicamente uma melhor qualidade de vida para todos.

                A estratégia de implementação de um Plano de Desenvolvimento Local, resulta de uma intervenção e convergência de experiências e expectativas que um conjunto diversificado de parceiros envolvidos, transporta para o seio do debate e análise deste assunto.

                A informação e o conjunto de ideias e propostas no Plano de Desenvolvimento Local, não são produção exclusiva nem de uma entidade, nem de um indivíduo, antes sim de uma multiplicidade de contributos construídos e transmitidos ao longo de um percurso.

                - O abandono da população jovem.

                - O envelhecimento progressivo da população.

                - A baixa qualificação dos recursos humanos.

                - A fragilidade do tecido produtivo agro-florestal.

                - A reduzida capacidade de iniciativa empresarial.

                - Os problemas de natureza ambiental.

                - A desidentificação das pessoas com o território.

                - A importância de alguns recursos locais bastante subaproveitados.

                São alguns dos aspectos que constituem a base de ponderação e a partir da qual se deve construír o Plano de Desenvolvimento Local.

             

            A fixação da população jovem

                A fixação da população jovem, surge como um objectivo final, pela importância de que se reveste para o futuro do território e, deve ser assumido pelo conjunto dos parceiros envolvidos.

                - O decréscimo da população no território, a baixa taxa de natalidade.

                - O envelhecimento da população.

                - A migração da população jovem em idade activa.

                -A baixa qualificação dos recursos humanos.

                - A reduzida capacidade de investimento.

                Constituem, de facto, aspectos que preocupam bastante quem, localmente, se preocupa e realiza um esforço no sentido de alertar a população para este trauma e evitar o êxodo rural.

                 A articulação deste objectivo com o da dinamização da economia local constituem um pilar estruturante do Plano de Desenvolvimento Local.

             

   O reforço da identidade local

                Todo o conjunto de aspectos que caracterizavam o meio rural no nosso território tem sido consecutivamente colocado em causa:

                - A alteração dos ritmos de trabalho.

                - A alteração da paisagem.

                - A redução drástica das actividade agrícolas.

                - A deslocação da população em idade activa para outros sectores de actividade.

                -As inúmeras construções tanto de habitações como de outras infra-estruturas.

                - O abandono de algumas aldeias.

                - A pressão demográfica nos grandes centros urbanos.

                - O abandono de práticas ancestrais de produção dos produtos e bens essenciais (pão, enchidos, panos de linho e estopa, lavra da terra, moagem, etc.).

                - A introdução de rotinas e de hábitos de consumo urbanos, criaram uma cisão nos factores de identificação da população (sobretudo da mais jovem) com o território.

                No entanto esta é uma realidade demasiado presente e importante para se ignorar! Resumidamente, por este conjunto de razões considerámos fundamental trabalhar a questão da identidade do território pelo impacto que esta questão poderá ter na fixação da população jovem, pelo impacto positivo que poderá ter no reforço da atractividade do território e pelo efeito que poderá ter na qualidade de vida destas populações;


                A valorização dos recursos locais

                 Surge como uma questão também crucial para a prossecução do objectivo geral do Plano de Desenvolvimento Local. O território e as suas gentes olham pouco crentes para o valor que alguns dos seus recursos poderão representar para a melhoria da sua qualidade de vida. No entanto, a valorização dos recursos locais poderão representar oportunidades de investimento, de criação de emprego, de uma ocupação dos tempos livres com qualidade e significar em última análise um território competitivo. Os produtos agrícolas,  florestais, minerais e outros como a gastronomia, o mobiliário e o restauro, a paisagem, o património natural e histórico-cultural, as albufeiras, os  recursos hídricos, as águas termais, são alguns dos recursos nos quais se considera fundamental uma intervenção local.

          

                A dinamização da economia local

                Constitui-se como um aspecto crucial no sentido de promover, também economicamente o território, atribuindo-lhe a auto-sustentabilidade que lhe garanta alguma autonomia face ao exterior. A dinamização da economia local surge intimamente associada à fixação da população jovem e à formação e qualificação dos recursos humanos locais.

Os procedimentos operacionais referentes à implementação deste Plano de Desenvolvimento Local, assumem grande relevância na medida em que a estratégia definida, assenta largamente num objectivo central de animação local do território, significa isto que estamos a falar de actividades que requerem a presença permanente e eficaz de uma equipa cujas principais tarefas serão exactamente as de gestão, implementação e de animação local do conjunto de acções previstas.


FONTE:  ADICES – Associação de Desenvolvimento de Iniciativas Culturais, Sociais e Económicas.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Muro das Lamentações

Mais do que reacção

É preciso acção


Garvão é como um muro, (mais do que da vergonha será, sem dúvida, das lamentações), onde na busca efémera de protagonismo choramos a nossa agonia.

As reacções são, na maior parte dos casos, extrapolações instantâneas que nos acodem momentaneamente, como uma oportunidade que se não pode perder.

É a busca das emoções ocasionais, sem planeamento, sem lugar ao contraditório. Não se criam, não se prevêem, nem muito menos se acautelam, pura e simplesmente aproveitam-se.

Sem, de facto, muro visível para tal enfática expressão, tal vocação carpideira procurará encontrar na vontade da população a força catalisadora e mobilizadora da sua oposição.

Resquícios caciqueiros locais, (ou talvez não), em última analise será, de facto, o grande responsável pelo subdesenvolvimento: que é como quem diz, sem união, sem diálogo, sem participação não há progresso.

E em não havendo progresso haverá, obviamente estagnação, retrocesso.

A participação institucional, mais do que uma obrigação facciosa, imposta, a copiar em nome de uma plutocracia citadina, (senão em riqueza pelo menos em influência), em que as discrepâncias entre centros e periferias são cada vês mais díspares, acarretará a longo prazo, (ou não muito longo), consequências nefastas para o desenvolvimento local e a respectiva manutenção de um mínimo populacional que não sejam mais do que um mero reflexo de glórias idas. 

Participação activa! Voluntária! Claro, é o que se vê, vejam-se as festas, vejam-se os festejos carnavalescos ou pascoais, vejam-se as restantes associações e colectividades que proliferam na freguesia, e nunca são demais, porque a participação comunitária, (vilã, não europeia), nunca poderá ser encarada como uma ameaça, mas como uma prova da participação e vitalidade da sua população. 

A participação “legal”, a formação de uma comissão com um objectivo especifico, a promoção de um evento que dignifique a freguesia pelos eleitos institucionais, parece estar arredado dessas mesmas obrigações legais, …? E, obviamente e em última analise será sempre uma subtracção a um entendimento colectivo e ao desempenho local doutros melhores habilitados.

Prepotentemente e “orgulhosamente sós”, próprios de regimes autocráticos de funesta memória, em defesa da não divisão dos louros, também, não surtirá os efeitos populacionais desejados. Mais do que uma luta ímpia, votada ao fracasso, mais do que um agitar de emoções, mais do que necessidade efémera de protagonismo, mais do que tudo isto é, obviamente, a futilidade de tudo isso.

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