sexta-feira, 24 de abril de 2015

Professor Manuel Joaquim Delgado




LEMBRANDO ...

O Professor Manuel Joaquim Delgado

Quadras recolhidas em Garvão


Autor de várias obras sobre o Baixo Alentejo nomeadamente, A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenho, editado em 1951 e Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo, editado em 1956, ambos reeditados pela Assembleia Distrital de Beja em 1983 e 1985 respectivamente.

A obra do Professor Manuel Joaquim Delgado é um imenso celeiro – uma almástica – inesgotável, que possibilita uma investigação interminável para muitas e imensas searas vocabulares.

Trata-se de uma obra riquíssima em pesquisa, estudo, com citações, ilustrações, pistas de recolhas e investigações comparadas e confrontadas pelas várias vilas do Alentejo. Um contributo precioso para a divulgação e o estudo dos vocábulos, fonemas e outras características fonéticas que distinguem o falar alentejano.

Quadras recolhidas pelo Professor Manuel Joaquim Delgado em Garvão incluídas no livro A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenho de 1951.


Folhas 103 e 222. Quadras CXCI e CDLXVIII.


Ó àsença avorrecida

Ò pàxã tâ rigorosa

Máj’ val’ uma àsença firme

Que uma presença enganosa.


Folha 127. Quadra CCXLIX.


Tenho três venténs no bolso,

Com déz reis som três e mêo,

Pra comprar as blancias

Cas moças trazem no sêo.


Folha 178 e 312. Quadras CCCXLVI e DCLXX


Ser pobre nã é defêto

Sendo logo de nasção;

Val ’maj’ do ca requeza

A boa comportação.


Folha 191. Quadra CCCLXXXVII.


S’ê pudesse abrir mê pêto,

Mostrar-te o mê coração,

Só então darias créto

S’ê te tenho amor ou não.


Folha 229. Quadra CDXLIV


A rosa, depois de seca,

Inda máj’espinhos tẽi;

Entes qu’ê quêra nã posso

Negar que te quero bẽi.


Folha 341. Quadra DCCXXXI


Afasta-te água clara,

Dêxa passar a barrenta.

Que um amor que não é firme.

Com pôca coisa s’àsenta.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CERCA do ADRO




Arqueólogo Caetano de Mello Beirão (sentado à esquerda)

Arqueóloga Susana Correia (de pé à esquerda) 


Cerca do Adro

Presentemente, poucas pessoas reconhecem o local onde em 1990, quando se procedia ao alargamento do adro da Igreja Matriz, se pôs a descoberto os vestigios arqueologicos, que presentemente se observam, como Cerca do Adro e, ainda menos, são as pessoas que realmente sabem o que são, de facto, aqueles vestigios arqueologicos postos a descoberto, denotando claramente uma falta de ligação entre os eleitos locais e as estruturas centrais que promovem e financiam estes trabalhos de investigação aqueológica e a população.


            Neste local detectaram-se, para além de uma necrópole medieval, algumas estruturas que foram objecto de uma intervenção de emergência realizada por arqueólogos do então Igespar, que veio comprovar a ocupação do Cerro da Vila desde, pelo menos,a Idade do Ferro. Trabalhos esses continuados aí posteriormente pela Associação cultural e Defesa do Património de Garvão em 1995 e 1996, permitiram apurar a existência de ocupação de época romana, do período islâmico almóada (um contexto de cozinha) e dos finais da Idade Média, princípios da Idade Moderna (estruturas desmontadas).


            Trata-se de um cabeço sobranceiro à Igreja de Garvão. Foram identificados vestígios de diferentes épocas, a que correspondem três momentos de ocupação. Um primeiro momento Baixo Medievo a que lhe correspondem estruturas nomeadamente de defesa, um periodo Islâmico onde foi detectado um nível Almoada, mais precisamente um contexto de cozinha (lareira), e um terceiro nível de ocupação de onde se exumaram materiais romanos e estruturas da idade do ferro (dois fornos e uma eventual muralha). Para este momento cronológico o sítio deve fazer parte integrante do povoado do Cerro Forte,perfazendo assim uma área de cercade 6 hectares.


            Do espólio encontrado contam-se cerâmicas de ornatos brunidos, verniz vermelho, cerâmca cinzenta, cerâmica estampilhada pntada, anforas, sigillatas, dollium, campaniense, jarrinhas, panelas, malgas islâmicas, vidradas, numismas, escória, espólio ósseo.

sábado, 13 de dezembro de 2014

CARNE DE PORCO À ALENTEJANA

             A origem da carne de Porco á alentejana, assim como outros pratos típicos, poderá ter diversas interpretações, lendas e histórias, mas convém analisarmos e interpretamos a origem destes cozinhados tipicamente portugueses numa base histórico/cultural, e o que a história e cultura nos diz, (arqueologia e estudo dos alimentos antigos), é que de facto o consumo de carne de porco no Alentejo chegou tardiamente e só se generalizou depois da conversão forçada das populações não-cristãs em 1495 pelo rei D. Manuel, (Judeus e Muçulmanos cuja religião os proibia de consumo de tal alimento).

           A carne de Porco á alentejana assim como as alheiras de Mirandela ficaram, devido a certas características, associados a estas duas regiões apesar de terem sido amplamente confecionadas praticamente de norte a sul do país.

          Ambas têm a mesma história e origem, ou seja o consumo e/ou simulação de carne de porco pelas populações Muçulmanas e Judias que resolveram ficar em Portugal, depois do édito de expulsão, e se converteram ou simulavam a sua conversão ao cristianismo.

          Assim, no caso das alheiras, (enchidos em que em vez da carne e gordura de porco, proibida pela lei Judaica e muçulmana, eram feitas com as carnes que houvesse à mão, nomeadamente de coelho, perdiz, pato, peru, galinha e vitela, acrescentava-se o miolo de pão e o caldo proveniente das carnes, temperava-se com alho, sal, pimenta ou piri-piri), estas populações não cristãs simulavam fidelidade à religião cristã com estes enchidos pendurados no chupão, enganavam os fiscais da Inquisição e os vizinhos, que pensavam que eram enchidos de carne de porco, obedecendo assim à proibição Judaica de consumo de carne de porco.

          Quanto á carne de porco alentejana, tratava-se de facto de um consumo não simulado por estas populações em que para se livrarem da suspeita e da respetiva denúncia á inquisição passaram a consumir tal carne de forma mais visível, criando o porco no curral á vista da restante população, matando o porco em locais públicos, na rua e no largo, convidando os vizinhos á matança, acompanhados sempre de um bom petisco, distribuindo, inclusivamente, nacos de carne fresca aos vizinhos e a provarem os primeiros enchidos depois de curados.

          Assim a tradição alentejana de criação anual do porco no curral, a matança do porco na rua, a distribuição de carne fresca de porco aos vizinhos, principalmente aqueles que não assistiram á matança teria tido as suas origens na necessidade de visibilidade entre estas comunidades e o consumo de carne de porco.

          Quanto à carne de porco com ameijoas, sendo a alimentação do porco alentejano á base de produtos naturas, (ervas, bolotas, milho, farelos dos moinhos etc.) o que lhe dá, ainda hoje, um gosto especial, permite-lhe uma certa diversificação na confeição dos vários pratos alentejanos, tanto acompanhado á mesa dos menos abastados com pão demolhado, (as famosas migas), como dos mais abastados com ameijoas.


domingo, 28 de setembro de 2014

TIO MANUEL DA VACA GORDA


 Tio Manuel da Vaca Gorda

          Andarilho, Caminhante, Viajante, Andante, Calcorreador, tudo isto Ti’Manel-da-Vaca-Gorda foi. Desde as aldeias piscatórias Algarvias às margens do Tejo no Pinhal-Novo e Barreiro, desde as verdes Serras do Sul às douradas planícies do interior alentejano, fazia do caminho-de-ferro a sua estrada, calcorreando sobre travessas e carris, palmilhando milhares de quilómetros sobre a via-férrea do Sul e Sueste, parando nas estações que no caminho encontrava.

          Conhecido por Ti’Manel-da-Vaca-Gorda, não por ter vaca ou qualquer outro animal, nem jumento para as suas caminhadas, personagem popular, lembrada ainda hoje pelos mais velhos, de certo o último viandante do Sul Algarvio e Alentejano, chapéu de aba larga, enfiado dentro do sempre posto casacão, de bordão numa mão e o violão na outra, a tiracolo pendia um pequeno talego, onde, como homem antigo, tinha sempre o seu bocado de pão, e um pedaço de toucinho quando não era banha, linguiça ou, quem sabe, um bom naco de presunto. Na pequena sacola escondia a bolsa das moedinhas de réis.

           Nascido entre a monarquia e a republica, sem local certo do seu nascimento, mas Algarvio com certeza. Não bebia por qualquer copo, já habituado às partidas dos outros, tinha de ser bom um bem translúcido não fossem “os danados”, como pronunciava, pregarem-lhe alguma marosca. 

           Se fez da “linha” o seu caminho, cujo pavor aos carros as travessas palmilhava, quis o destino que viesse a morrer atropelado por um automóvel numa estrada que durante tantos anos evitara.

           Se um copo de vinho lhe fazia puxar pelo violão, já as conversas sobre mulheres o agastavam, só gostava daquelas que lhe davam de comer e mesmo dessas passou a fugir depois dumas sopas estragadas ou que o deixaram mesmo mal, se alguém lhe dizia, “esta noite vais dormir com a fulana tal”, respondia “Ê cagu… para put… c’á amanhã chove mer…”, e “viva Salazar”, assim bradava em altos berros para quem o queria ouvir e vá lá uma pessoa agora saber porquê? O certo é que se nas estações da linha onde parava provocava espanto nos trabalhadores ferroviários, uma boa parte deles senão sindicalistas pelo menos politicamente conscientes, também nas tabernas os “vivas a Salazar” não passavam despercebidos aos trabalhadores agrícolas em luta pelas quarenta horas de trabalho. Valia-lhe o espanto e a admiração destas gentes e se franziam o sobrolho depressa o desfrensiam quando agarrado ao violão dedilhava mais umas desgarradas ou uma das suas modas.

            Não deixava, também, por mãos alheias a defesa da sua pessoa, quando provocado por alguns jovens mais atrevidos, ou por outros menos jovens, que gostavam de lhe fazer tilintar a bolsa cheia de “réis”, só para o fazerem barafustar e ouvir no seu falar algarvio, o Ti’Manel para lá levantava o seu bordão em jeito de ameaça e fazendo entoar bem alto o seu sotaque algarvio da serra em meros desabafos “filhos do débo”, ou “débo que vos pariu”.

            Pertences eram poucos, muda de roupa lavada, por ele, nalgum barranco ou ribeira, quando não era nalgum poço e secada ao sol, conforme pernoitava nessas serranias ou charnecas, talego aviado de algumas comedias e o sempre companheiro careto, talhado pelas suas próprias mãos, peça única de engenharia artesanal, cujo tampo cónico lhe conferia uma singular feição.

            Tunes, Messines, Amoreiras, Garvão, Ermidas até ao Barreiro ou Pinhal Novo, não havia estações nem travessas que os seus sapatos velhos de caminhante, sem meias, não levassem a sua figura, barba branca a que o fumo do seu artesanal careto tingia de negro, cabelo grisalho, mas era a sua personagem e presença que o singularizavam e marcavam. Transportava consigo coisas únicas, vivências de uma vida errante, conhecimentos que transportava de terra em terra e a todos era bem-vindo.

            O seu valor desregrado, tinha a genuinidade e a generosidade das gentes algarvias serranas, Ti’Manel-da-Vaca-Gorda não o era por ser andadeiro ou caminheiro, não era isso que o tornava puro ou bondoso, mas sim porque era livre como os pássaros, sem gaiolas ou correntes, de quem calcorreava o seu livre destino, voando a sete pés, abraçando tudo e todos, e a todos oferecia a sua presença e o seu convívio, distribuindo novas, músicas, versos e quadras nas tabernas das aldeias, do Sr Arnaldo, da venda do Sr Chico Cezilio, das tabernas do Tio António Rola, do Tio Lucas da Sardoa, (e há quantos anos tem o Manél o café aberto?), perante personagens que o achavam singular, velhos que diziam conhecê-lo, novos que lhe achavam graça, aceitando ou compartilhando sustento, como se fosse um velho eremita regressado.

domingo, 3 de agosto de 2014

Jornal de Garvão Nº 20

Jornal de Garvão número 20 

Vinte Jornais.

Vinte Anos.
O JORNAL DE GARVÃO faz este mês de Agosto vinte anos sobre a sua primeira edição.

Este Jornal número 20 fechará, sem dúvida, um ciclo, um ciclo que ficou marcado pelo voluntariarismo individual dos seus promotores, por vezes à custa de outras necessidades mais prementes.

Procurou-se nestes vinte anos, divulgar a vila de Garvão, divulgando o seu património, a sua cultura e a sua história.
Procurou-se igualmente privilegiar as pessoas, não em função da sua influência ou status, mas daqueles de que não reza a história, não daqueles que achavam que mereciam mas daqueles que de vida simples e humilde achavam que não mereciam. Afinal: O melhor património de Garvão, são as suas Pessoas, são elas que fizeram a História, e é para elas que é este Livro. Sem Elas, não tinha havido Herança, nem tinha havido História, nem este Livro tinha sentido. (in: Garvão-Herança Histórica). (Nunca neste Jornal foi publicado qualquer foto dos seus promotores ou qualquer referência para além da ficha técnica).
Torna-se difícil escrever sobre uma comunidade-vila-freguesia-concelho-jornal vinte anos depois porque ainda há tanta coisa para dizer, apesar do que já se escreveu e já foi dito.
Divulgou-se a sua história, tentou-se conciencialisar a população para a sua riqueza arquelogica e histórica e sensibilisar as pessoas para a necessidade de protecção do seu património como factor de desenvolvimento e á sua medida contribuir para a criação de empregos, travar o despovoamento da vila, mostrou-se alternativas e apontou-se os factores mestres de um projecto de desenvolvimento local.



 

Jornal de Garvão Nº 19

Jornal de Garvão número 19. 


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Jornal de Garvão Nº 18

Jornal de Garvão número 18. 


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 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...