quinta-feira, 26 de outubro de 2017

FORNO de CERÂMICA MEDIEVAL




 Forno de Cerâmica Medieval

Descoberto na Casa do Povo de Garvão


         Um forno de cerâmica, inédito em Garvão e dos poucos existentes em Portugal, foi posto a descoberto na Casa do Povo de Garvão, em 1995, quando se procedia à  terraplanagem, para a construção de uma cozinha no quintal, junto ao muro a nascente que divide com a propriedade do Sr José Fiel.

          A rectro-escavadora, ao fazer o corte lateral na barreira, para acomodar a referida cozinha, rebaixando o ní­vel do terreno em cerca de três metros em relação ao terreno do vizinho, pôs a descoberto uma estrutura em pedra e cerâmica, identificada pelos presentes como um forno de cozer cerâmica, danificando lateralmente a própria estrutura e algumas peças no interior desta.

          A estrutura, oca, prolongava-se, na horizontal, no sentido nascente, para dentro do quintal do referido vizinho, por mais dois ou três metros, e a parte superior a cerca de um metro da superfí­cie que nunca chegou a abater. Alertados os serviços de arqueologia oficiais responsáveis, sobre a necessidade de uma intervenço imediata, para salvaguardar tão importante achado, foi o devido subsidio aprovado e entregue a arqueólogos que nunca chegaram a efectuar as devidas investigações no terreno, apesar da autorização para o efeito, do proprietário do terreno, Sr José Fiel, onde se encontra a parte principal do forno.

          A proliferação de cerâmica nesta área estendia-se até à ribeira, encontradas, principalmente nas movimentações de terra que envolveu a construção dos dois edifícios diante da Casa do Povo.

          Os ex-votos em cerâmca encontrados no Depósito Votivo, manufacturados manualmente e ao torno, apesar de apresentarem diversas proveniências, encontra-se uma grande maioria, na ordem das centenas, de produço local. Só um estudo deste forno e de alguns materiais que eventualmente venham a ser descobertos no seu interior, poderá avaliar a relação, se alguma, com a produção de cerâmicas encontradas no Depósito Votivo.

          O forno apresentava duas paredes centrais, em pedra/barro, que deviam de dividir as três câmaras, geralmente encontrados neste tipo de fornos que devem de corresponder à  câmara da cozedura, câmara de aquecimento e corredor, apesar de só a câmara central ser mais visí­vel e muito parcialmente as outras duas.

          Presentemente o forno encontra-se tapado lateralmente, na parte do terreno pertencente à  Casa de Povo, onde foi construí­da uma parede, não só para suporte da referida cozinha, mas igualmente de retenção de terras, mantendo-se a estrutura do forno, que se prolongava para o terreno do vizinho, intacta.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Os MOÇARABES

Santa Anica e São Barão


          Santa Anica e a Igreja de São Barão, são dois antigos locais de cultos situados na freguesia de São Martinho das Amoreiras e têm a particularidade de ambos os santos não fazerem parte do panteão católico.

          Encontramos igualmente dispersados, não só no interior alentejano mas de Norte a Sul do país, denominações relacionadas com lugares religiosos cuja função inicial se perdeu e caiu em desuso, mas cuja presença e a falta de reconhecimento pela igreja cristã coloca a questão das suas origens.

          De facto se já existe alguma literatura sobre certos lugares relacionados com o rito Moçarabe como São Cucufate em Beja, outros há que nos leva a tecer comparativismos, como a igreja de São Barão e locais como Santa Anica na freguesia de São Martinho das Amoreiras que nos leva a inquerir sobre as suas origens e a sua possível relação com o rito Moçarabe. 


I I


          A instabilidade político-social e o clima de guerra civil que marcou os últimos anos da governação visigótica na Península ibérica, levou algumas figuras proeminentes da sociedade goda a procurar apoio militar no outro lado do estreito, junto às forças Árabes e a encoraja-los a invadirem a Península

          Em 11 de Abril de 711, o general berbere Tariq ibn Ziyad, atravessou o estreito que separa a África da Europa e invadiu a Península Ibérica a partir do antigo promontório Calpe que passou a denominar-se Jebel Tarique, “Gibraltar: A montanha de Tarique”.

          Não terá havido propriamente uma “conquista” árabe, mas sim uma ocupação, conseguida na maior parte das vezes com a entrega voluntária das fortalezas e das povoações.

          Assim, na península, para além dos árabes e outras populações do Norte de África nomeadamente os berberes e os mouros, ficaram igualmente a viver no território conquistado as populações que já aqui existiam como os judeus e os hispano-godos ou hispano-romanos, alguns submetidos ao islamismo e designados por Muladis e outros denominados Moçárabes que mantinham a religião cristã e viviam em comunidades separadas com instituições e autoridades próprias e manter uma certa hierarquia eclesiástica, inclusivamente a conservarem os seus bispos em várias dioceses.

          Assim pode-se definir os moçárabes, como descendentes cristãos da população romano-goda que residiam na Península Ibérica antes da conquista Árabe e continuaram a professar o cristianismo e a venerar os seus santos, (Santa Maria, S. Vicente, S. Brás, S. Cucufate, S. Sisenando, S. Manços, Santa Iria, S. Paio e S. Mamede entre outros), sob domínio Muçulmano, adoptando alguns aspectos da cultura Árabe nomeadamente a língua e a vestimenta. O termo moçárabe deriva do árabe musta'rib, "arabizado”.

          Estes cristãos a viver em terras muçulmanas continuaram a realizar as cerimónias religiosas sem qualquer alteração ou influências externas, ao mesmo tempo que se foi observando no mundo cristão obediente a Roma, algumas alterações na forma como a missa era celebrada pelos sacerdotes que a foi diferenciando do rito primitivo.

          Encontra-se no rito moçárabe, acompanhada pelo cantochão moçárabe, orações antiquíssimas e um conjunto de fórmulas e celebrações litúrgicas desaparecidas da liturgia romana, nomeadamente na ordenação do calendário, na forma das cerimónias, na celebração da missa e do seu cânone e na narrativa da instituição eucarística segundo S. Paulo.

          O Concílio de Burgos de 1080 determina a substituição do rito hispânico ou moçárabe pelo rito romano, o que não foi seguido pelas populações moçárabes a viverem em território Muçulmano que continuaram a celebrar a missa segundo o rito primitivo.

          A toponímia e a antroponímia actual atestam a presença destas populações que continuaram a viver nos reinos cristãos pós-reconquista e se prolongou muito para além da conquista definitiva de Algarve em 1249, ou mesmo depois da expulsão das minorias religiosas de Portugal em 1496.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O ZEBRO

 O ZEBRO

Mencionado no Foral Velho de Garvão, 1267.

       


          Consta no Foral-Velho de Garvão de 1267, no fólio cinco rosto, a menção a um animal denominado por Zebro/Zebra ou Zevro/Zevra que habitaria a Pení­nsula Ibérica e teria desaparecido por volta do século XVI, cuja carne era consumida juntamente com outros animais selvagens e cuja venda, da pele curtida destes animais, pagava de portagem, ao concelho, dois denários em pé de igualdade com as peles curtidas das vacas.


(...) corio de vaca et de zevra duos dinarios. De corio de cer

vo et gamo três mealias. De carrega de cera quinque silidos.

De carrega de azeite quinque sólidos. Istud portagium de

hominibus foras ville tercia pars de suo hospi

te, et due parte de ordino.


Que corresponde ao português actual:

(...) coiro de vaca ou de zevra, dois dinheiros[1]; de coiro de veado e de vaca e gamo, três medalhas; de carga de cera, cinco soldos; de carga de azeite, cinco soldos. Esta portagem é dos homens de fora da vila; a terça parte desta portagem dê-se ao hospedeiro[2] e  duas partes à  ordem

           Segundo alguns textos medievais seria um animal com uma estrutura semelhante a uma égua, ou se tivermos em atenção a origem da palavra Zevro, do Arabe "Zarb" que corresponde a Burro selvagem, seria assim, de facto, um Burro selvagem que errava nos matagais que cobriam estes territórios no princí­pio da nacionalidade.

          A cor da sua pelagem seria acinzentada com o focinho escuro e teria como caracterí­stica principal várias listas escuras nos membros dianteiros e no dorso que se prolongaria desde o lombo até à  cauda. Se a origem da palavra Zevro ou Zebro se encontra numa li­ngua trazida por povos invasores pelo Norte de África que denomina um animal que se encontrava em Portugal, não deixa de ser curioso que os navegantes portugueses, quando chegaram a África, ao verem aqueles animais listrados os tivessem apelidado do mesmo nome e conhecidos até hoje como Zebras em detrimento das denominações nas linnguas locais.[3]

          O consumo da carne destes animais perpectou-se no tempo e ainda hoje, em várias aldeias do paí­s, manteve-se o costume de comer carne de burro, num quadro festivo religioso em que este animal seria sacrificado e a sua carne consumida num grande banquete ritual.[4]   

            Igualmente encontra-se, de norte a sul do pais, vários topónimos alusivos ao Zebro, nomeadamente, Vale Zebro, Zebreira ou Azebreira, Zebro de baixo e Zebro de cima, Horta do Zebro, Alto do Zebro, Monte Zebro, Zebras (Fundão), Zebreira (Idanha-a-Nova), ou denominados Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços) e Zebreiros (Gondomar), entre outros.

          Certos investigadores entendem que o Zebro seria descendente, senão o próprio, "Equus Hydruntinus", um equí­deo pré-histórico que teria vivido na Europa há cerca de 12.000 anos e teria sobrevivido até ao século XVI nas extensas matas e matagais que cobriam o território, há quem defenda igualmente que o actual cavalo de Sorraia descende do Zebro.


[1] Sobre o valor das moedas mencionadas, o Morabitino ou Maravedi valia 15 soldos, o soldo valia 12 dinheiros, o dinheiro ou denário valia 2 mealhas, ou medalhas que valiam assim meio dinheiro.

[2] Hospedeiro - Aquele que no concelho dava hospedagem ao mercador vindo de fora e que por isso tinha direito a um terço da portagem, por este pago. 

[3] A Zebra, ou sub-espécies, em Swahili denomina-se Pundamilia, em Sesotho, Qoaha, em Chichewa, Mbidzi e em Yoruba, Abila.

 [4] Nomeadamente nas aldeias de Manigoto e Lameiras, no concelho de Pinhel, onde se preservou o costume de comer carne de burro por ocasião das festividades populares onde o burro é sacrificado e consumido por todos os habitantes num grande banquete público. 

sábado, 13 de maio de 2017

Feira de Garvão 2017

Tivemos mais uma Feira de Garvão.
Mais espectáculo, mais diversão, mais animação e mais transmissão televisiva.
Muito se poderia dizer sobre estas transmissões televisivas, verdadeiras máquinas de fazer audiências, vazios de conteúdo algum a não ser o sucesso financeiro dos acionistas em vez de uma programação virada para a elevação cultural dos tele-espectadores e consequentemente da população em geral.
De facto a Feira de Garvão, autêntico circo mediático, de onde de cima do palco os artistas do momento e do ocasião mandam beijinhos, e o povo, alienado, completamente extasiado, assobia e piropiteia, “ai és tão bela”, “és linda”, "casa comigo" e o baile vai rodando.
Mas por mais ridícula e degradante que seja a subversão da ideia de conhecimento, da realidade cultural local, da especificidade da própria feira, a divulgação mediática, no seu corrupio sensacionalista de atração desmesurada das massas, ao transmitir estes conteúdos alienígenas, subverte a natureza, a riqueza e a especificidade especial do próprio evento.
Não se trata de ser feirante sem ser espectador, ou atrair espectadores sem serem feirantes, o que se trata será do aproveitamento mediático em que tanto uns como outros são apanhados. As fragilidades sociais sobrepõem-se a qualquer outro interesse, a não ser a euforia de um momento efémero que tudo justifica e a tudo se impõe, sejam culturais, sejam históricas, sejam patrimoniais ou até mesmo comerciais.
Como ferramenta para embevecer e afastar os feirantes e a população em geral daquilo que deveria ser o interesse principal: a Feira de Garvão, claro que estes subterfúgios cumprem o seu objectivo, a alineação da população de outros temas mais enriquecedores, mais esclarecedores, mais educativos. A receita é conhecida de séculos, por quem procura fama, riqueza, influência e poder: mais festas, mais espectáculo e mais petiscos.
E, até nesta democracia virtual, se poderia compreender tal, se inovadora e promovida por quem colhe tais proveitos e não aproveitar um evento secular e histórico, desvirtuando-o e moldando-o a necessidades narcísicas.

domingo, 22 de janeiro de 2017

COMEMORAR OS 750 ANOS DO FORAL VELHO DE GARVÃO




Jornal de Garvão 23 

          Em Fevereiro de 1267, no reinado de D. Afonso III, o Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, conjuntamente com João Raimundo, Comendador de Mértola, outorga a carta de Foral de Garvão. 

          O Foral de Garvão é um documento importante, não só para a história da própria vila, mas, porque consubstancia matérias de direito penal, militar, administrativo e fiscal, também, para o estudo da organização da sociedade do século XIII. Para além da sua importância política, como símbolo do poder local, este documento, também, nos permite tomar conhecimento dos laços de solidariedade e das relações económicas implementadas por estas comunidades isoladas e concentradas sobre si mesmas desde tempos remotos, que o tornam num documento de referência no quadro do património documental desta época.
           Tem sido referenciado por vários autores, em várias épocas, tanto no campo do direito penal, militar, administrativo, político e fiscal como no campo histórico e linguístico a partir do único original conhecido e conservado no Arquivo Nacional na Torre do Tombo. Os trabalhos de investigação e divulgação relativos às cartas foralengas, atribuídos aos diversos concelhos portugueses, têm merecido, desde há já alguns anos, uma vasta referência ao Foral de Garvão, como demonstra as diversas produções dedicadas a esta matéria.

          Comemora-se assim, esta data tão importante para a vila de Garvão, com a edição do Jornal de Garvão nº 23 inteiramente dedicado ao Foral Velho de Garvão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo



Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo

          Inês Fonseca apresentou na livraria Ler Devagar, a sua obra sobre memórias e identidade de uma aldeia do Alentejo, Aivados, no concelho de Castro Verde. Uma povoação que pela posse igualitária da terra se envolveu na luta pela reforma agrária logo após a Revolução de Abril.

          O livro, com a chancela da Dinossauro Edições tem por título Aivados. Posse da Terra, Resistência e Memória no Alentejo e teve por base a tese de dissertação que apresentou no seu mestrado em Antropologia, em 1997, sob orientação dos Profs. Jorge Crespo e Paula Godinho.

          A obra abre com a apresentação geográfica da localidade e o seu povoamento. Daí parte para a inserção regional de Aivados no território do Baixo Alentejo e para as estruturas sociais que ali existiam e se formaram ao longo do século XX. “Movimentos sociais no contexto alentejano” é o título deste capítulo que se desenvolve depois, no capítulo seguinte, na epopeia da posse colectiva da terra, “naquele dia [em que] éramos todos iguais”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ZECA AFONSO


Zeca Afonso

          Faleceu em 23 de Fevereiro de 1987, trinta anos depois nunca é demais lembrar um dos mais influentes e interpretes da música popular portuguesa e de intervenção politica durante a ditadura Salazarista e Marcelista que veio a cair em 25 de Abril de 1974.
          A sua música "Grandola Vila Morena" está intimamente associada ao movimento que depôs o regime ditaturial ao ser escolhida pelos militares, como senha, para inicio da rebelião depois de passar na Rádio Renascença.
           Zeca Afonso recriou temas folclóricos e até infantis, reescrevendo formas tradicionais como a "Canção de Embalar", evocando mesmo, neste retomar das mais puras raízes culturais portuguesas, o ambiente lírico dos cancioneiros primitivos (cf. "Cantiga do Monte"), ao mesmo tempo que introduziu no texto temas resultantes de um compromisso histórico, denunciando situações de miséria social e moral (os meninos pobres, a fome no Alentejo, a ausência de liberdade) e cimentando a crença numa utopia concentrada no anseio de "Um novo dia" ("Menino do Bairro Negro").
          Reagindo contra a inutilidade de "cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music-hall de exportação", partiu da convicção de que "Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja atualização poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair." ("Notas" de José Afonso in Cantares, p. 82).
          Apesar de galardoado por três vezes consecutivas (1969, 1970 e 1971) com um prémio oficial, a sua produção viria a ser banida dos meios de comunicação, dado o seu conteúdo indesejável para o regime; por essa mesma ordem de razões - talvez mais do que pela inovação musical -, a sua popularidade viria a crescer após a reimplantação da democracia.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...