Alheiras Alentejanas
As Alheiras são enchidos, geralmente fumados, a que os judaizantes recorreram depois das imposições da Inquisição, que os proibia de exercerem a sua fé, em vez da carne e gordura de porco, proibida pela lei Judaica, as alheiras eram feitas com as carnes que houvesse á mão, nomeadamente de coelho, perdiz, pato, peru, galinha e vitela, acrescentava-se o miolo de pão e o caldo proveniente das carnes, temperava-se com alho, sal pimenta ou piri-piri.
Assim com estes enchidos pendurados no fumeiro, enganavam os fiscais da inquisição e os vizinhos, que pensavam que eram enchidos de carne de porco, cuja carne a religião Judaica proibia-os de consumir, simulando assim fidelidade á religião cristã e obedecendo á proibição Judaica de consumo de carne de porco. Os judeus estão proibidos, pela sua religião, de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro, assim como os peixes sem escamas, não serviam para o consumo doméstico.
Embora essa tradição tenha chegado até aos nossos dias na região de Trás-os-Montes, a sua divulgação teria sido muito mais vasta e com uma variedade de ingredientes muito diferentes dos hoje utilizados.
Logo no início das restrições impostas ao Judeus pela inquisição, surge-nos um documento da Inquisição de Évora, de 1573, (ANTT, cadernos do promotor 146/3/9 folhas 304) no qual justifica a tradição que faz da Alheira uma criação dos Marranos, ou Cristãos Novos como eram conhecidos os Judeus convertidos á religião Cristã, nesse documento uma denunciante de Castelo de Vide, Alentejo, apresenta como praticas Judaicas “... para fugir ao chouriço de porco fazia um chouriço com fígado de bode ... “, (António Borges Coelho em a Inquisição de Évora, editorial Caminho, Lisboa 2002).
Assim a criação de enchidos como elemento dissimulado de fidelidade á religião Cristã, era uma prática a que os Judeus tiveram de recorrer nos vários lugares do reino, e a qualquer ingrediente que tivessem á mão, para fugir ao controlo da Inquisição.
Outra maneira de confecionar estes enchidos seria com: pão à base de farinha de trigo, carnes de capoeira ou caça miúda, bastante azeite, cebola e salsa miúda, alhos esmagados, pimenta, sal e colorau ou tempero picante. Na falta de aves de capoeira ou da caça esta poderia ser substituída pelas carnes que estivessem à mão, vitela, pato, peru, borrego ou cabra.
sábado, 25 de novembro de 2017
ALHEIRAS ALENTEJANAS
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE GARVÃO
INTRODUÇÃO
Este estudo baseia-se nos recenseamentos gerais da população portuguesa publicados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística.
O primeiro Recenseamento Geral da População Portuguesa, a reger-se pelas orientações internacionais do Congresso Internacional de Estatística de Bruxelas de 1853, realizou-se em 1864.
Ainda no século XIX tinham sido realizados os censos de 1801 conhecido pelo recenseamento do Conde Linhares no reinado de D. João VI e os recenseamentos gerais de 1835 e 1851.
Os censos realizados anteriormente não contam para o presente estudo nomeadamente o Rol de Besteiros do Conto, de D. Afonso III (1260-1279); o Numeramento ou Cadastro Geral do Reino, de D. João III (1527); a Resenha de Gente de Guerra, de D. Filipe III (1639); a Lista dos Fogos e Almas que há nas Terras de Portugal, de D. João V (1732), também conhecida por Censo do Marquês de Abrantes e o Numeramento de Pina Manique, de D. Maria I (1798).
POPULAÇÃO
Ao observar-mos a evolução populacional da povoação de Garvão desde 1801, não podemos deixar de notar, no gráfico apresentado, uma curva ascendente a partir desse ano, cujo pico se situa nas décadas de 30 e 40 do século passado, (censos de 1940 e 1950), e descendente que culmina com a mesma população que tinha há cento e dez anos.
Recorrendo unicamente ao período dos censos disponibilizados pelo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), (deixando o efectivo populacional da povoação de Garvão nos períodos antecedentes para outra altura), facilmente se chegará às seguintes conclusões:
- O ganho populacional que se observou até às décadas de 1940 esbateu-se nos sessenta anos seguintes.
- Os anos em que se observa um aumento populacional significativo coincidem precisamente com o incremento da cultura cerealífera no Alentejo. Se grande parte da população permaneceu agarrada ao trabalho manual nos campos e se nas décadas anteriores ao milagre do trigo, estas eram as responsáveis pelo reduzido número de habitantes, já a partir do momento em que se observou uma maior produção cerealífera – mais trabalho e melhor alimentação – também se observou um aumento populacional, tendo Garvão pela primeira vez, desde que existem registos populacionais, registado um aumento superior aos dois mil habitantes, 2.282 habitantes respeitantes à década de 1940, segundo o censo de 1950 e 2.207 habitantes respeitantes à década de 1930, segundo o censo de 1940.
A este aumento populacional não deixa de estar relacionado a implantação da pequena industria local como a alta e baixa moagem, a fábrica dos pirolitos, fábrica do tratamento primário da cortiça, e os lagares de vinho e azeite, incrementando igualmente o comércio local, altura em que Garvão presenciou de facto um crescimento significativo, recordado saudosamente pelas gerações que a presenciaram.
- Contrapondo esta curva descendente da população de Garvão, que se vinha a observar desde 1950, registou-se de facto um ligeiro aumento na década de 1970, (censo de 1981), obviamente aqui não deixa de ter alguma influência o regresso dos imigrantes e dos retornados das ex-colónias portuguesas em África.
- Igualmente, na década de 1910, (censo de 1920), o crescimento populacional que se vinha a observar, parece não ter sido afectado, nem pela implantação da república em 1910, nem pela grande guerra (1914/1918), nem pela pneumónica de 1918/1919.
De facto o aumento registado durante a década de 1910, (censo de 1920) de 34,23% era perfeitamente suficiente para anular qualquer efeito que o total de cerca de 60.000 vítimas nacionais (cerca de 1,08% da população) causado pela pneumónica (ou gripe espanhola) pudesse causar no crescimento da população de Garvão.
Não se pode deixar de notar que embora o mortífero vírus da gripe atingiu igualmente as populações rurais estas apresentavam uma mais forte resistência ao vírus da gripe, de facto as populações rurais coabitando mais frequentemente com os animais domesticados desenvolvem mais facilmente defesas imunitárias a estes agentes patogénicos. (A varíola, a varicela e o sarampo, levados pelos conquistadores espanhóis, causaram mais mortes aos ameríndios centro e sul americanos, cerca de 90% da população, do que propriamente as armas de Cortés e Pizarro, precisamente por falta de domesticação de animais e do respectivo contacto).
- O acentuado decréscimo populacional que se observa a partir de 1950 (censo de 1960) até aos nossos dias, uma baixa taxa de natalidade e uma alta taxa de mortalidade devido ao envelhecimento da população, com a pequena ressalva ocorrida na década de 1970 com o regresso dos retornados, não deixa de estar relacionada com a crescente mecanização agrícola, com a emigração tanto de operários, primeiro para a CP e para a cintura industrial das grandes cidades e depois para o estrangeiro, o não regresso dos soldados que conhecedores de outras realidades desprezaram os campos, das criadas de servir, verdadeiros elos na propagação dos hábitos citadinos para o campo.
Não se pode descurar igualmente as alterações sócio-culturais que se observaram na população portuguesa, nomeadamente a propagação dos meios de comunicação, nomeadamente a televisão, um maior número de mulheres no mercado de trabalho assim como fundamentalmente a utilização de meios contraceptivos.
A fraca pluviosidade e a praticamente inexistente mobilização da terra contribuíram igualmente para o cenário actual, já Mário Nunes Vacas na sua tese de licenciatura em 1938 conclui que a diminuta densidade populacional no Alentejo se deve tanto à fraca pluviosidade como à irregularidade desta, comparando inclusivamente com outras regiões do país onde um maior recurso hídrico se associa a uma maior densidade populacional. Aponta igualmente que a concentração de grandes latifúndios nas mãos de poucos, obsta a que muitos milhares de braços procurem na emigração a fuga a uma mera subsistência.
CONCLUSÃO
Prova-nos assim a história que em situações económicas desfavoráveis e em condições adversas, não seriam propícias a um aumento populacional elevado e sustentado: pois os recursos alimentícios disponíveis às populações seriam reduzidos e consequentemente as taxas de reprodução populacional seriam menores; as taxas de mortalidade seriam elevadas; e mesmo a própria mobilidade das populações (em busca de melhores condições alimentares) estaria condicionada.
Também nos prova que em situações económicas favoráveis assiste-se a um aumento populacional. Obviamente que as condições propícias a esse aumento nos meados do século XX, com o chamado milagre do trigo, não são reproduzíveis na actualidade, portanto preconizar uma revitalização económica-populacional, baseada num exemplo positivo do passado, não só é inexequível como inviável, os tempos são outros, a dependência da mão-de-obra na agricultura, devido à maquinização, é reduzida quando comparada com as décadas anteriores.
Os tempos actuais oferecem outras oportunidades, tanto de sobrevivência individual como colectiva, passa sem dúvida pelo conhecimento, pela educação, pela abertura ao mundo exterior, pelo exemplo do que se passa noutros lugares, sejam elas positivas como exemplo a seguir ou sejam elas negativas como praticas a evitar.
2011 - 730 Habitantes menos 121 quebra de 14,21%
2001 - 851 Habitantes menos 87 quebra de 9,27%
1991 - 938 Habitantes menos 275 quebra de 22,67%
1981 - 1213 Habitantes mais 36 aumento de 3,08%
1970 - 1167 Habitantes menos 764 quebra de 41,95%
1960 - 1821 Habitantes menos 461 quebra de 20,20%
1950 - 2282 Habitantes mais 75 aumento de 3,39%
1940 - 2207 Habitantes mais 419 aumento de 23,43%
1930 - 1788 Habitantes mais 502 aumento de 28,07%
1920 - 1286 Habitantes mais 328 aumento de 34,23%
1911 - 958 Habitantes mais 230 aumento de 31,59%
1900 - 728 Habitantes mais 49 aumento de 7,21%
1890 - 679 Habitantes mais 168 aumento de 30,49€
1878 -551 Habitantes mais 32 aumento de 6,16%
1864 - 519 Habitantes mais 32 aumento de
1849 - 415 Habitantes mais 65 aumento de
1801 -350 Habitantes
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Ó LAURINDA LINDA LINDA
Ó Laurinda Linda Linda
Tem desenvolvido o jornal de Garvão a temática do relacionamento inter-cultural entre várias sociedades, nomeadamente a similaridade entre a denominada “Dança de Garvão”, evidenciada na Dança do Mastro, Dança dos Arquinhos ou na Dança das Voltas, com outras danças que se observam em várias partes da Europa, nomeadamente aquelas de influência Celta e a Dança dos Morris na Inglaterra, cujos paralelismos se encontram igualmente nesta zona do Alentejo, evidenciada nas Danças das Espadas e dos Guizos.
Não deixa, também, de se poder confrontar outras manifestações culturais, cujas similaridades, nos revertem para a mesma origem inter-europeia, sejam elas na área da dança, na área da música, ou inclusivamente, na área da poesia popular.
Se esta semelhança se observa na área da música e da poesia, uma dessas canções é a denominada, "Ò Laurinda, Linda, Linda", originária da zona de Monchique e que consta da recolha nacional, para a RTP e amplamente difundida, efetuada por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça, em 1962, no monte da Casa Velha, Alferce. A partir desta divulgação, o intérprete de música popular alentejana, Vitorino, também a divulgou, apesar de, inexplicavelmente, ter substituido “Feira de Garvão”, por “Feira de Marvão”, à revelia da história original desta música, da sua origem, do contexto social que a originou e da proximidade entre Monchique e Garvão
Sobre o paralelismo com outras regiões, não deixa de ser interessante o artigo, abaixo descrito, de José Joaquim Dias Marques da Universidade do Algarve, sobre a similaridade entre a cantiga popular, “Ó Laurinda, Linda, Linda”, a qual descreve as imaginativas respostas da esposa adúltera, que dá título á cantiga, quando o marido regressa da feira de Garvão e a cantiga escocesa “Our Goodman” e a irlandesa, “Seven Drunken Nights”, numa situação igual, em que o marido bêbado, confronta a esposa numa situação de infidelidade.
“A balada portuguesa Laurinda e a balada escocesa Our Goodman pertencem a um grupo de baladas existentes em muitos países europeus que estão sem dúvida geneticamente relacionadas.
A base de todas elas é o tema da mulher adúltera e esperta, surpreendida quase em flagrante pelo marido quando este volta de viagem. Este tema é desenvolvido através duma série de perguntas do marido sobre peças de roupa ou outros objectos que ele inesperadamente encontra ao regressar a casa e através duma série de respostas imaginativas da mulher, tentando escapar a ser desmascarada.
Embora contem a mesma história, estas baladas apresentam diferenças próprias dos textos da tradição oral. A balada escocesa aborda o tema do adultério de modo meio cómico, fazendo com que o marido regresse a casa bêbado e dando à história um final aberto, que poderá ser visto como um final feliz ou, pelo menos, sem conflito.
Por seu lado, a balada portuguesa leva o tema muito a sério, terminando a história com a decisão do marido de se separar da adúltera. Nalgumas versões da balada portuguesa, o marido diz mesmo que irá devolver a adúltera ao pai dela, “para que ele veja a mulher que me entregou”.
Repare-se, de qualquer modo, como estas baladas mostram um entendimento igual da questão do adultério: o problema está no adultério da mulher, pois é a mulher que a sociedade vê como devendo ser fiel. Pelo contrário, nos textos orais não costuma aparecer (ou aparece muito, muito raramente) a questão da fidelidade do marido, parecendo encarar-se o adultério masculino como algo desculpável e, até, natural."
José Joaquim Dias Marques (Universidade do Algarve)
http://seeingstories.eu/index.php/bridges-lisbon-edinburgh
https://www.youtube.com/watch?v=FP7VsdIX5D0
https://www.youtube.com/watch?v=1it7BP5PckIhttps://
www.youtube.com/watch?v=3hmBxZzbkXI
https://www.youtube.com/watch?v=72JMVvF-EYQ
OBSERVAÇÃO: Ao visualizar as músicas através dos links acima reproduzidos ter em atenção que o vídeo de "Laurinda, linda, linda" está trocado com o video de "A confissão da virgem".
Laurinda Linda Linda -Ó Laurinda, linda, linda! -Sim, sim, cavalheiro, sim! Hoje sim, amanhã não. Meu marido não está cá -Onze horas, meia-noite -Ou ela está doentinha -De quem é este chapéu -De quem é este casaco -De quem é este cavalo -De quem é este suspiro -Ó Laurinha, linda, linda -Vai buscar as tuas irmãs! |
Seven Drunken Nights Segunda-feira cheguei a casa -Ó meu grande borrachão! Terça-feira cheguei a casa Ó meu grande borrachão! Quarta-feira cheguei a casa -Ó meu grande borrachão! Quinta-feira cheguei a casa -Ó meu grande borrachão! Sexta-feira cheguei a casa -Ó meu grande borrachão |
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
FORNO de CERÂMICA MEDIEVAL
Forno de Cerâmica Medieval
Descoberto na Casa do Povo de Garvão
Um forno de cerâmica, inédito em Garvão e dos poucos existentes em Portugal, foi posto a descoberto na Casa do Povo de Garvão, em 1995, quando se procedia à terraplanagem, para a construção de uma cozinha no quintal, junto ao muro a nascente que divide com a propriedade do Sr José Fiel.
A rectro-escavadora, ao fazer o corte lateral na barreira, para acomodar a referida cozinha, rebaixando o nível do terreno em cerca de três metros em relação ao terreno do vizinho, pôs a descoberto uma estrutura em pedra e cerâmica, identificada pelos presentes como um forno de cozer cerâmica, danificando lateralmente a própria estrutura e algumas peças no interior desta.
A estrutura, oca, prolongava-se, na horizontal, no sentido nascente, para dentro do quintal do referido vizinho, por mais dois ou três metros, e a parte superior a cerca de um metro da superfície que nunca chegou a abater. Alertados os serviços de arqueologia oficiais responsáveis, sobre a necessidade de uma intervenço imediata, para salvaguardar tão importante achado, foi o devido subsidio aprovado e entregue a arqueólogos que nunca chegaram a efectuar as devidas investigações no terreno, apesar da autorização para o efeito, do proprietário do terreno, Sr José Fiel, onde se encontra a parte principal do forno.
A proliferação de cerâmica nesta área estendia-se até à ribeira, encontradas, principalmente nas movimentações de terra que envolveu a construção dos dois edifícios diante da Casa do Povo.
Os ex-votos em cerâmca encontrados no Depósito Votivo, manufacturados manualmente e ao torno, apesar de apresentarem diversas proveniências, encontra-se uma grande maioria, na ordem das centenas, de produço local. Só um estudo deste forno e de alguns materiais que eventualmente venham a ser descobertos no seu interior, poderá avaliar a relação, se alguma, com a produção de cerâmicas encontradas no Depósito Votivo.
O forno apresentava duas paredes centrais, em pedra/barro, que deviam de dividir as três câmaras, geralmente encontrados neste tipo de fornos que devem de corresponder à câmara da cozedura, câmara de aquecimento e corredor, apesar de só a câmara central ser mais visível e muito parcialmente as outras duas.
Presentemente o forno encontra-se tapado lateralmente, na parte do terreno pertencente à Casa de Povo, onde foi construída uma parede, não só para suporte da referida cozinha, mas igualmente de retenção de terras, mantendo-se a estrutura do forno, que se prolongava para o terreno do vizinho, intacta.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Os MOÇARABES
Santa Anica e São Barão
Santa Anica e a Igreja de São Barão, são dois antigos locais de cultos situados na freguesia de São Martinho das Amoreiras e têm a particularidade de ambos os santos não fazerem parte do panteão católico.
Encontramos igualmente dispersados, não só no interior alentejano mas de Norte a Sul do país, denominações relacionadas com lugares religiosos cuja função inicial se perdeu e caiu em desuso, mas cuja presença e a falta de reconhecimento pela igreja cristã coloca a questão das suas origens.
De facto se já existe alguma literatura sobre certos lugares relacionados com o rito Moçarabe como São Cucufate em Beja, outros há que nos leva a tecer comparativismos, como a igreja de São Barão e locais como Santa Anica na freguesia de São Martinho das Amoreiras que nos leva a inquerir sobre as suas origens e a sua possível relação com o rito Moçarabe.
I I
A instabilidade político-social e o clima de guerra civil que marcou os últimos anos da governação visigótica na Península ibérica, levou algumas figuras proeminentes da sociedade goda a procurar apoio militar no outro lado do estreito, junto às forças Árabes e a encoraja-los a invadirem a Península
Em 11 de Abril de 711, o general berbere Tariq ibn Ziyad, atravessou o estreito que separa a África da Europa e invadiu a Península Ibérica a partir do antigo promontório Calpe que passou a denominar-se Jebel Tarique, “Gibraltar: A montanha de Tarique”.
Não terá havido propriamente uma “conquista” árabe, mas sim uma ocupação, conseguida na maior parte das vezes com a entrega voluntária das fortalezas e das povoações.
Assim, na península, para além dos árabes e outras populações do Norte de África nomeadamente os berberes e os mouros, ficaram igualmente a viver no território conquistado as populações que já aqui existiam como os judeus e os hispano-godos ou hispano-romanos, alguns submetidos ao islamismo e designados por Muladis e outros denominados Moçárabes que mantinham a religião cristã e viviam em comunidades separadas com instituições e autoridades próprias e manter uma certa hierarquia eclesiástica, inclusivamente a conservarem os seus bispos em várias dioceses.
Assim pode-se definir os moçárabes, como descendentes cristãos da população romano-goda que residiam na Península Ibérica antes da conquista Árabe e continuaram a professar o cristianismo e a venerar os seus santos, (Santa Maria, S. Vicente, S. Brás, S. Cucufate, S. Sisenando, S. Manços, Santa Iria, S. Paio e S. Mamede entre outros), sob domínio Muçulmano, adoptando alguns aspectos da cultura Árabe nomeadamente a língua e a vestimenta. O termo moçárabe deriva do árabe musta'rib, "arabizado”.
Estes cristãos a viver em terras muçulmanas continuaram a realizar as cerimónias religiosas sem qualquer alteração ou influências externas, ao mesmo tempo que se foi observando no mundo cristão obediente a Roma, algumas alterações na forma como a missa era celebrada pelos sacerdotes que a foi diferenciando do rito primitivo.
Encontra-se no rito moçárabe, acompanhada pelo cantochão moçárabe, orações antiquíssimas e um conjunto de fórmulas e celebrações litúrgicas desaparecidas da liturgia romana, nomeadamente na ordenação do calendário, na forma das cerimónias, na celebração da missa e do seu cânone e na narrativa da instituição eucarística segundo S. Paulo.
O Concílio de Burgos de 1080 determina a substituição do rito hispânico ou moçárabe pelo rito romano, o que não foi seguido pelas populações moçárabes a viverem em território Muçulmano que continuaram a celebrar a missa segundo o rito primitivo.
A toponímia e a antroponímia actual atestam a presença destas populações que continuaram a viver nos reinos cristãos pós-reconquista e se prolongou muito para além da conquista definitiva de Algarve em 1249, ou mesmo depois da expulsão das minorias religiosas de Portugal em 1496.
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
O ZEBRO
O ZEBRO
Mencionado no Foral Velho de Garvão, 1267.
Consta no Foral-Velho de Garvão de 1267, no fólio cinco rosto, a menção a um animal denominado por Zebro/Zebra ou Zevro/Zevra que habitaria a Península Ibérica e teria desaparecido por volta do século XVI, cuja carne era consumida juntamente com outros animais selvagens e cuja venda, da pele curtida destes animais, pagava de portagem, ao concelho, dois denários em pé de igualdade com as peles curtidas das vacas.
(...) corio de vaca et de zevra duos dinarios. De corio de cer
vo et gamo três mealias. De carrega de cera quinque silidos.
De carrega de azeite quinque sólidos. Istud portagium de
hominibus foras ville tercia pars de suo hospi
te, et due parte de ordino.
Que corresponde ao português actual:
(...) coiro de vaca ou de zevra, dois dinheiros[1]; de coiro de veado e de vaca e gamo, três medalhas; de carga de cera, cinco soldos; de carga de azeite, cinco soldos. Esta portagem é dos homens de fora da vila; a terça parte desta portagem dê-se ao hospedeiro[2] e duas partes à ordem
Segundo alguns textos medievais seria um animal com uma estrutura semelhante a uma égua, ou se tivermos em atenção a origem da palavra Zevro, do Arabe "Zarb" que corresponde a Burro selvagem, seria assim, de facto, um Burro selvagem que errava nos matagais que cobriam estes territórios no princípio da nacionalidade.
A cor da sua pelagem seria acinzentada com o focinho escuro e teria como característica principal várias listas escuras nos membros dianteiros e no dorso que se prolongaria desde o lombo até à cauda. Se a origem da palavra Zevro ou Zebro se encontra numa lingua trazida por povos invasores pelo Norte de África que denomina um animal que se encontrava em Portugal, não deixa de ser curioso que os navegantes portugueses, quando chegaram a África, ao verem aqueles animais listrados os tivessem apelidado do mesmo nome e conhecidos até hoje como Zebras em detrimento das denominações nas linnguas locais.[3]
O consumo da carne destes animais perpectou-se no tempo e ainda hoje, em várias aldeias do país, manteve-se o costume de comer carne de burro, num quadro festivo religioso em que este animal seria sacrificado e a sua carne consumida num grande banquete ritual.[4]
Igualmente encontra-se, de norte a sul do pais, vários topónimos alusivos ao Zebro, nomeadamente, Vale Zebro, Zebreira ou Azebreira, Zebro de baixo e Zebro de cima, Horta do Zebro, Alto do Zebro, Monte Zebro, Zebras (Fundão), Zebreira (Idanha-a-Nova), ou denominados Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços) e Zebreiros (Gondomar), entre outros.
Certos investigadores entendem que o Zebro seria descendente, senão o próprio, "Equus Hydruntinus", um equídeo pré-histórico que teria vivido na Europa há cerca de 12.000 anos e teria sobrevivido até ao século XVI nas extensas matas e matagais que cobriam o território, há quem defenda igualmente que o actual cavalo de Sorraia descende do Zebro.
[1] Sobre o valor das moedas mencionadas, o Morabitino ou Maravedi valia 15 soldos, o soldo valia 12 dinheiros, o dinheiro ou denário valia 2 mealhas, ou medalhas que valiam assim meio dinheiro.
[2] Hospedeiro - Aquele que no concelho dava hospedagem ao mercador vindo de fora e que por isso tinha direito a um terço da portagem, por este pago.
[3] A Zebra, ou sub-espécies, em Swahili denomina-se Pundamilia, em Sesotho, Qoaha, em Chichewa, Mbidzi e em Yoruba, Abila.
[4] Nomeadamente nas aldeias de Manigoto e Lameiras, no concelho de Pinhel, onde se preservou o costume de comer carne de burro por ocasião das festividades populares onde o burro é sacrificado e consumido por todos os habitantes num grande banquete público.
sábado, 13 de maio de 2017
Feira de Garvão 2017
Tivemos mais uma Feira de Garvão.
Mais espectáculo, mais diversão, mais animação e mais transmissão televisiva.
Muito se poderia dizer sobre estas transmissões televisivas, verdadeiras máquinas de fazer audiências, vazios de conteúdo algum a não ser o sucesso financeiro dos acionistas em vez de uma programação virada para a elevação cultural dos tele-espectadores e consequentemente da população em geral.
De facto a Feira de Garvão, autêntico circo mediático, de onde de cima do palco os artistas do momento e do ocasião mandam beijinhos, e o povo, alienado, completamente extasiado, assobia e piropiteia, “ai és tão bela”, “és linda”, "casa comigo" e o baile vai rodando.
Mas por mais ridícula e degradante que seja a subversão da ideia de conhecimento, da realidade cultural local, da especificidade da própria feira, a divulgação mediática, no seu corrupio sensacionalista de atração desmesurada das massas, ao transmitir estes conteúdos alienígenas, subverte a natureza, a riqueza e a especificidade especial do próprio evento.
Não se trata de ser feirante sem ser espectador, ou atrair espectadores sem serem feirantes, o que se trata será do aproveitamento mediático em que tanto uns como outros são apanhados. As fragilidades sociais sobrepõem-se a qualquer outro interesse, a não ser a euforia de um momento efémero que tudo justifica e a tudo se impõe, sejam culturais, sejam históricas, sejam patrimoniais ou até mesmo comerciais.
Como ferramenta para embevecer e afastar os feirantes e a população em geral daquilo que deveria ser o interesse principal: a Feira de Garvão, claro que estes subterfúgios cumprem o seu objectivo, a alineação da população de outros temas mais enriquecedores, mais esclarecedores, mais educativos. A receita é conhecida de séculos, por quem procura fama, riqueza, influência e poder: mais festas, mais espectáculo e mais petiscos.
E, até nesta democracia virtual, se poderia compreender tal, se inovadora e promovida por quem colhe tais proveitos e não aproveitar um evento secular e histórico, desvirtuando-o e moldando-o a necessidades narcísicas.
Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...
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Desde as primeiras civilizações, até aos nossos dias, foram muitos os povos que passaram pelo nosso território e fizeram dos seus costumes p...
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Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...



