segunda-feira, 14 de maio de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 3ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

Na Rotunda Pela Implantação da Republica

Parte 3 (de 12)


          Como se observou, pela Implantação da República, em cinco de Outubro de 1910, José Júlio da Costa está ao lado de Machado Santos na Rotunda. Ainda com dezasseis anos de idade, é um dos primeiros a lutar pela revolução republicana, mesmo quando esta já se dava como perdida, levando ao suicídio do Almirante Cândido dos Reis, chefe militar da rebelião, José Júlio da Costa permanece fiel à revolução, junto das forças Carbonárias que lutaram até ao triunfo da República sob o comando de Machado Santos.

          Ao jovem José Júlio da Costa esta participação na implantação da República ao lado de Machado Santos, com os dramas que daí ocorreram, nomeadamente o suicídio do carbonário almirante Cândido dos Reis, quando julgava a causa perdida, terá pesado fortemente na sua formação politica e moldado não só o seu percurso politico mas igualmente os seus heróis.

          O percurso militar de José Júlio da Costa levou-o a Timor em 1911, como voluntário para combater a rebelião das forças do reino de Manufahi que se sublevaram nos finais de 1911, voluntariou-se igualmente para Moçambique e Angola, em 1914, para combater os alemães, o que lhe valeu um louvor em 27 de Dezembro desse mesmo ano, mencionando, na sua folha de serviços, o seu “grande patriotismo e boa vontade de desempenho de todos os serviços que era encarregado”, pelo seu cumprimento na batalha de Naulila[1], em 18 de Dezembro de 1914 entre  portugueses  e  alemães  no Sul de Angola.

          Segundo Augusto Casimiro autor de Naulila, publicação de 1922,Ao romper da manhã estava o Barão Von Water a oito quilómetros deste posto esperando as 4,3º, e supondo-se em frente do flanco direito das nossas posições. Reconhece o erro. Está em Nangula e tem na sua frente apenas os landins do pelotão de Losa, a secção que o sargento José Júlio da Costa comanda, de guarda ao vau. Trocam-se tiros.”[2] José Júlio da Costa, com 21 anos, seria sargento do pelotão da 15ª Companhia de Moçambique, comandada pelo Alferes Gonçalves Losa, composta por tropas africanas denominadas Landins[3] e enviados para Angola.[4]

          Com o posto de Segundo-Sargento, passa à vida civil dois anos depois, em 11 de Abril de 1916, com vinte e três anos, tendo por esta altura regressado a Garvão, sem primeiro, contudo, deixar de passar pela embaixada francesa, onde se ofereceu como voluntario, para combater na Grande Guerra contra os alemães, muito antes da constituição do Corpo Expedicionário Português, e do envio dos militares portugueses para França em 30 de Janeiro de 1917, o que não conseguiu por não ter passaporte. Voluntariou-se igualmente para o CEP, durante a constituição deste, o que foi também recusado.


[1] Incidente militar no Sul de Angola onde uma pequena força alemã  entrou  em  território  angolano na perseguição de um desertor. Apesar dos alemães se apresentarem pacificamente e aceitarem serem conduzidos ao posto de Naulila por um pequeno destacamento militar português, gerou-se uma certa confusão quando os militares alemães se tentaram retirar, provocando uma reacção violenta por parte dos militares portugueses que levou à morte dos oficiais alemães. Considerada uma “emboscada” pelos alemães que precisava de ser vingada. Na retaliação que se seguiu as tropas Alemãs, em Dezembro de 1914, ocupam Naulila tendo as tropas portuguesas de recuar para Humbe, provocando a morte de dois oficiais, um sargento, cinco soldados e cabos portugueses e vários africanos.

[2] Augusto Casimiro, Naulila, 1922, Lisboa. P. 175.

[3] Os Landins ou Vátuas eram tropas africanas com ligações guerreiras ao célebre Gungunhana, derrotado pelas tropas portuguesas e emprisionado por Mouzinho de Albuquerque em 1895.

[4] Com a data de 5 de Julho de 1930, Armando Agatão Lança, envia a Bernardino Machado uma carta onde refere, “ - V. Ex.cia, em tempos perguntou-me em que companhia tinha servido na guerra do sul de Angola o José Júlio da Costa. Serviu na 15ª companhia indígena”. 


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


sábado, 14 de abril de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 2ª Parte

CENTENÁRIO

“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”

Em Garvão I

Parte 2 (de 12)


Sobre a vida de José Júlio da Costa na vila de Garvão, desde o seu nascimento, pouco há a dizer ou a diferenciar das outras crianças nascidas nestas terras do interior.

Sabe-se que nasceu em Garvão a 14 de Outubro de 1893, sendo o segundo filho de sete filhos de Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, ambos de Garvão, com ramificações familiares a ricos lavradores nas terras vizinhas. Eram lavradores considerados abastados para e época e donos de várias propriedades na freguesia de Garvão onde praticavam a agricultura, estavam igualmente estabelecidos com loja e venda.

Ao pai de José Júlio da Costa não seria estranho as ideias republicanas ou mesmo alguma ligação a sociedades secretas, sejam elas Maçónicas ou Carbonárias, estando esta bastante activa nestes meios rurais.

A propagação das ideias carbonárias e como tal republicanas nestas terras do interior, atravessadas pela via-férrea, teriam sido divulgadas precisamente pelos politizados ferroviários. Fregueses habituais da venda, estes verdadeiros apregoadores de histórias, acontecimentos, notícias e ideias revolucionárias, em muito teriam influenciado tanto o pai como o jovem José Júlio da Costa.

Assim teria nascido numa família de pai republicano e tido igualmente como carbonário, segundo a informação de algumas pessoas da vila, ainda nos anos sessenta do século passado, apesar do pai ter falecido com Tifo a 6 de Setembro de 1906, com trinta e quatro anos, a pouco mais de um mês de José Júlio da Costa fazer os treze anos, cedo despontou no jovem José Júlio da Costa, a consciência revolucionária, pró-república, anti-monárquica, anti-clerical e a vontade de lutar pelos seus ideais.

Aos 16 anos de idade, a 21 de Maio de 1910, alista-se como voluntário no Exército Português. Para a tomada desta decisão não terá contribuído somente a influência paterna, mas igualmente a influência partidária ou de associações secretas, nomeadamente a Maçonaria ou mais provavelmente a Carbonária, o certo é que foi colocado, a cerca de quatro meses da implantação da República, no regimento de Infantaria 16, precisamente aquele sublevado por Machado Santos, o chefe Carbonário, seguindo uma das estratégicas da Carbonária que seria infiltrar as unidades militares com militares da sua confiança para que no dia programado sublevassem o quartel e abrissem as portas aos outros revolucionários comprometidos com a revolução.

Apesar de só metade da guarnição do quartel ter aderido à revolta, José Júlio da Costa era um deles.

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


quarta-feira, 14 de março de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 1ª Parte

CENTENÁRIO

“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”

José Júlio da Costa

Parte 1 (de 12)


            Faz, este ano de 2018, em 14 de Dezembro, cem anos, sobre o acto cometido por José júlio da Costa, natural de Garvão, que vitimou o presidente da República Sidónio Pais.

            Falar do homem que matou um presidente da República não é fácil porque já foi quase tudo dito, ou pelo menos: onde nasceu e quando morreu, nome dos pais, nome da esposa, porque cometeu o atentado, (segundo as várias opiniões), com quem jantou, com quem falou, onde dormiu, que pistola tinha e pouco mais se adianta, como se um atentado desta natureza pouco mais tivesse de interesse.

            Contudo a questão é muito mais complexa do que isso.

            A sua complexidade reside no facto de o mais importante ainda não foi dito, não o foi na altura do atentado, não o foi na sua segunda prisão e nem o foi quando faleceu, assim como não possivelmente também não o será agora nesta altura que perfaz cem anos sobre o acontecimento, ou porque os autores principais já faleceram, ou porque não existe registo de uma investigação isenta e imparcial que, de facto, nunca aconteceu.

            O que nos resta então? Resta-nos a memória local, que sucessivamente, de geração em geração chegou aos nossos dias e os escritos da imprensa da altura.

          Tanto uns como outros, cheios de incongruências e incertezas, a memória local porque não está incólume à devassa do tempo e, lá diz o povo, “quem conta um conto acrescenta um ponto”, a imprensa da altura, tendenciosa, ao serviço da situação, pinta um quadro de exaltação do chefe morto e denigre o autor do atentado.

          Contudo, temporalmente afastados do acontecimento e descomprometidos, tanto politicamente como emocionalmente, ainda se poderá ler nas entrelinhas dos jornais aquilo que não se escreveu ou se escreveu tendencialmente? Ou ainda se poderá descortinar na memória popular o que não se disse ou se disse erradamente?

          De facto, numa leitura atenta, aos jornais e restante imprensa da altura, ainda se pode distinguir aquilo que tanto os jornalistas como os escritores, não tiveram a coragem de explanar nos jornais e noutras publicações, ou porque estavam aquentados com a situação ou porque foram travados por forças superiores, mas, na história de José Júlio da Costa, as contradições são tão evidentes que teremos de ler nas entrelinhas e distinguir o exagero do racional e o emocional do racionável.

          Igualmente se aplica, ao que diz o povo, a história passa de uma geração para a outra, sempre no segredo dos lares e longe dos ouvidos da crianças, não fossem estas, na sua inocência, numa altura de extrema crispação politica, comprometer os familiares, mas a história fica, contada nos serões de Inverno, temeroso para uns, embaraçoso para outros e ainda inconveniente para alguns, não deixando contudo de influenciar a versão do acontecimento, segundo a opinião tendenciosa, ou não, de quem a conta e transmite. 

          A história de José Júlio da Costa é uma história empolgante cheia de mistérios e enredos, de fugas, cabalas e maquinações que subverteram o estado de direito e o remeteram a uma prisão eterna sem julgamento.

          Não faltam as conspirações políticas na história de José Júlio da Costa, nem os enredos policiais, nem as conjuras e intrigas político-partidárias, não foram só os acontecimentos do Vale de Santiago, pela Greve Geral que o comprometeram politicamente, não foi só a traição à sua República por Sidónio Pais, não foram só os arruaceiros de rua dos Democráticos que o empurraram a cometer o atentado, foram também os investigadores policiais que não prosseguiram com as devidas investigações, foi também o médico prisional, António José Furtado de Mendonça Boavida, que forjou um boletim clinico, foi também um procurador da República, Pais Rovisco, que o internou num hospital de malucos e o subtraiu ao julgamento, vinte e seis dias antes e vinte e cinco dias depois da emissão dum relatório médico por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid e do psiquiatra Caetano Beirão que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado.

          José Júlio da Costa sabia ler e escrever e não lhe era estranha a literatura progressista da altura.

          José júlio da Costa, não era louco nem morreu esquizofrénico.

          O estado de loucura interessava a muita gente e muita gente pactuou com esta cabala que o impedia de ter um julgamento justo e imparcial.

          Afinal o que sabia e o seu depoimento em tribunal iria comprometer muita gente. Uns, os cabecilhas do reboliço da primeira república, enchiam agora a Assembleia Nacional do Estado Novo, outros, os arruaceiros de rua ao serviço dos partidos, preenchiam agora as vagas na nova policia politica.

           Afinal a sua prisão logo no início da ditadura não foi por mero acaso.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

FÁBRICA de PIROLITOS do Sr CHICO COSTA

  





 OS PIROLITOS DE GARVÃO 

A bebida pirolito da fábrica do Sr. Chico Costa na Travessa do Álamo, foi, talvez, a bebida que mais marcou a população de Garvão dos anos cinquenta e sessenta do século XX.

A bebida cujo sabor açucarado fazia as delícias da população, graúdos e miúdos, tinha a particularidade de o fecho consistir num arraiol ou raiol, (berlinde), que a pequenada usava no jogo denominado igualmente por arraiol, (jogo que consistia em três covas ou ao “morre ou mata” que se jogava sem covas).

O pirolito era uma bebida gasosa, continha água, ácido cítrico e gás carbónico e a garrafa não tinha rolha nem cápsula, pois possuía no interior uma esfera de vidro que servia de tampa, (empurrava-se a esfera de vidro para baixo, de modo ao gás sair e permitir a saída do liquido). Não possuía igualmente rótulo, apesar de na década de 1960 aparecer algumas garrafas com o rótulo “Flora”, precisamente o nome da esposa do Sr Chico Costa, Srª Florinda Martins.

Devido às exigências sanitárias e outros melhoramentos exigidos pelo governo da altura nos finais da década de 1950, levou ao encerramento da Fábrica de Pirolitos de Garvão nos inícios da década de 1960. O sistema de fecho destas garrafas, pela pequena esfera de vidro, foi considerado prejudicial para a saúde pública, pois era difícil a sua lavagem, entre outras medidas sanitárias que devido aos elevados custos de modernização, levou ao encerramento de muitas fábricas em todo o País.

Apesar destas fábricas terem desaparecido há já algumas décadas, a expressão ainda hoje em uso de, “beber um pirolito”, quando alguém se engasga a beber muita água, terá a sua origem nestas bebidas gasosas, que por vezes, precisamente pelo seu conteúdo gasoso, provocava engasgos.

O Sr Chico Costa foi, a meio do século passado, um dos maiores dinamizadores comerciais da vila de Garvão, começou como comerciante e negociante de bebidas alcoólicas e gasosas, as quais distribuía num carro de parelha pelas vilas em redor, incluindo os pequenos lugares da Serra de São Martinho, mais tarde adquiriu a primeira camioneta de transporte de mercadorias de que há conhecimento em Garvão.

Aliado a esta atividade de distribuição de bebidas, produzia igualmente vinho a partir de vinha própria e posteriormente abriu a fábrica de Pirolitos julga-se ainda na década de quarenta a qual produzia as mencionadas gasosas mas também licor de Ginja. Veio a fecha-la, como se afirmou nos princípios de sessenta, assim como a taberna anos mais tarde devido a doença.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-o em Lisboa onde se encontrava em tratamentos na casa da filha adotiva, Leonor Costa, de regresso a Garvão foi, infelizmente, ultrajado precisamente por aqueles a quem, tanto ele como a esposa, auxiliaram nos piores momentos.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

CLOOTIE WELL

COSTUME CELTA de ATAR PEQUENAS TIRAS de PANO nas ÁRVORES De FRUTO.

          Existem algumas tradições que se continuam a praticar na actualidade, mas que, cujo significado, desapareceu por completo da memória das pessoas.

          Passaram à história, ou pelo menos assim se julga, contudo reminiscências de certas práticas mágico-religiosas, ainda se podem encontrar entre nós, embora já sem a sua simbologia inicial e um total desconhecimento, do seu sentido primitivo, por quem as pratica.

          Faz-se porque sempre se fez. Faz-se porque já os seus pais o faziam e assim se perpectuam práticas, gestos, preces, provérbios, adivinhas, contos, histórias e lendas trazidas do fundo dos tempos até aos nossos dias.

          Encontra-se em vários países de tradição celta o costume de atar pequenas tiras de pano, geralmente brancos nas pernadas das árvores situadas nas hortas e junto a poços ou fontes de água, nomeadamente na Escócia, Irlanda, Cornualha e no resto das ilhas britânicas, denominados Clootie Well.

          Seriam e ainda são nalguns locais, lugares de peregrinação que se acreditava possuírem poderes mágicos e curativos de certas doenças. As tiras, (actualmente, peças de pano), banhavam-se na fonte sagrada e eram posteriormente atadas nas pernadas das árvores, acompanhadas por uma prece ou oração a favor de quem a oferta era feita.

          Vestígios destas práticas mágico-religiosas, ainda se encontram, de uma certa maneira, em certas partes dos países denominados da franja céltica, não só situados nas Ilhas Britânicas mas igualmente em Portugal e Espanha.

          Ainda nos anos sessenta do século passado, em certas hortas em redor da vila, se assistia a tal prática, embora, como se afirmou, desprovidas de qualquer sentido religioso, por quem as praticava. Limitavam-se a dar continuidade ao que era costume, embora no fundo acreditassem nalgum poder mágico, cujo sentido desconheciam, mas que traziam sorte e seriam benéficos em termos de colheita dos produtos semeados e plantados, sejam eles hortícolas ou frutíferos.

          Uma destas hortas é a denominada Horta da Saúde, localizada na antiga Estrada Real, embora este costume se observasse praticamente em todas as hortas da vila, a Horta da Saúde apresenta certas características que a distinguem das outras, nomeadamente por lá se situar a Fonte Santa, tão agrado da população até há relativamente pouco tempo e onde se observava pequenas tiras de pano branco atadas nas pernadas das árvores de fruto. Perto desta Horta situa-se igualmente a Igrejinha de São Pedro, o que demonstra uma certa religiosidade, desde tempos imemoráveis, associada a estes locais campestres, cuja função religiosa veria ser usurpada pela nova religião cristã, como se observa noutros locais.

          Segundo o novelista Stuart Hill: Pano (de qualquer cor) amarrado às árvores é uma tradição antiga no Reino Unido e na Irlanda. O pano é uma espécie de representação física de uma prece ou desejo em que se pede a ajuda de Espíritos da Natureza e Divindades. Frequentemente a oração está relacionada a questões de saúde e também fertilidade, mas pode-se buscar ajuda para qualquer tipo de problema, ambição ou necessidade. Às vezes, ofertas de moedas também são feitas, e a árvore em questão pode estar perto de um poço ou nascente, embora nem sempre. As espécies da árvore às vezes podem ser importantes (particularmente espinheiro e carvalho) embora, novamente, muitas espécies tenham sido associadas à prática. Na verdade, acho que o West Country onde Terri mora, pode ser um dos lugares onde a tradição continua com bastante força. E eu acho que pode haver práticas semelhantes em todo o mundo; talvez alguns membros da comunidade de Mitos e Mouros possam nos dizer?


Stuart Hill, 1958, é um escritor britânico formado em História Antiga e Estudos Ingleses Clássicos, autor de The Icemark Chronicles: The City of the Icemarh, Blade of Fire, Last Battle of the Icemark and Prince of the Icemark

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Os Espanhóis de Garvão

Manuel Domingos (Espanhol)

Morador na Sardoa


            Na vila de Garvão temos famílias que apesar do nome próprio e familiar, são conhecidas pela alcunha de “Espanhol” ou “Espanhola” conforme o caso.

            Ainda há relativamente pouco tempo Manuel Domingos, morador na Sardoa, já falecido, era conhecido pela alcunha de “Espanhol”, alcunha essa que apesar de não estar já tão difundida nos seus descendentes, ainda os mesmos são conhecidos por tal, entre a população mais idosa.

            Esta vinda de espanhóis para o Alentejo aparece documentada nos vários assentos de baptizos, (como pais dos recém-nascidos), casamentos e óbitos das várias paróquias nesta zona do Alentejo em séculos anteriores, onde consta não só o nome dos pais e avós no caso dos recém-nascidos e pais dos nubentes nos casamentos e no caso dos falecidos, como igualmente a naturalidade dos mesmos.

            Assim nos vários assentos da paróquia de Garvão, consta indivíduos nascidos em Vilanueva de Castelejos, El Almendro e doutras terras Onubenses, em Espanha, nomeadamente os Domingues, os Barra, os Bandarra, os Pedro, os Jesus, os Ramos e os Boreira entre outros.*

            Encontram-se assim os Domingues, ou na aportuguesada forma de Domingos, a morar na Sardoa, como já se mencionou, igualmente os Barra, naturais de Castelejo, a morar na rua Direita desta vila, dos quais uma descendente veio a casar com um Malveiro, encontra-se igualmente o registo de uma Maria Isabel, natural do Castelejo igualmente casada com um Malveiro, entre outras famílias oriundos da mesma região.*

           No livro da Irmandade do Sagrado Espírito Santo e da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, encontra-se, em anotação lateral, no fólio 98 verso, a menção a Bartholomeu Dominguez Espanhol, em data anterior a 1842.
          Nesta data, mais precisamente em 20 de Julho de 1842, este Bartholomeu Dominguez Espanhol, entregou ao tesoureiro da Misericórdia, o total da dívida contraída por Manuel Fernandes da Horta e sua mulher, em 12 de Fevereiro de 1808, da quantia de quarenta e oito mil réis, dando estes como garantia as casas que possuíam na Rua Direita.
          Estamos assim perante uma venda, Bartholomeu Dominguez Espanhol, ao pagar esta dívida, contraída por outros, terá igualmente tomado posse das casas dadas de garantia, tratando-se de facto de uma compra e venda.

            O movimento inter-fronteiriço de pessoas, por motivos mercantis, nos dois sentidos, caracterizava as relações destas povoações da raia portuguesa-espanhola desde os tempos mais remotos e o que até à introdução e fiscalização das modernas fronteiras era entendido como uma actividade costumeira e secular, passou-se a classificar, (a normal troca de produtos), como contrabando e como tal punível por lei, com enormes consequências para estas populações, nomeadamente os mais recentes “contrabandistas” de café e açucar, vitimas de perseguição, prisão, violência e perda dos produtos e bens monetários, com enormes repercursões nas vivências diárias destas gentes.

            Sobre as actividades mercantis destas populações existe um livro de fianças do reino de 1789 respeitante à Alfândega de Alcoutim, (na Torre do Tombo), onde menciona o movimento destas gentes da raia de Espanha para o Sul alentejano, “Uma percentagem acima dos 95% indica-nos nomeadamente de Villanueva de los Castillejos, Almendro, S. Lucar, Alosno, Moguer, Villablanca, Alcaria Puebla, Torredonjimeno (Jaén), Granado, Almendralejo, Cádis...

            Este Livro da Alfandega de Alcoutim, divulgado pelo Professor Dr. Hugo Cavaco – “Alcoutim no Último Quartel do Sec.XVIII: Arrematações de Rendas e Fianças – Retrato do Concelho”, menciona igualmente de que estas gentes, “Dirigem-se em regra para o Baixo-Alentejo e Algarve, às vezes para Évora e Lisboa ou para Espanhas sem indicar localidade.

Fala-se no ofício de oleiro, barbeiro, caldeireiro e soldador (estes espanhóis), mas nada mais se adianta sobre qualquer outra actividade que fizesse lembrar a Indústria.

            Adianta igualmente o que o dito livro menciona sobre a mercadoria afiançada, “Para além do animal de transporte, declara-se, na maior das percentagens: “a girar”, isto é, à procura de qualquer negócio que se possa realizar, sem escolha prévia. Depois, outros tratos mercantis se nos deparam, tais como – comprar mel, “farrobas” em Tavira, venda de azeite e copos de vidro, levar fazendas, capachos, figo, esteiras e cera para Espanha, cobrar dinheiros, comprar peixe (atum) em Tavira, vender sal e “panos pretos da Serra”, negociar reses, “fazer feiras” em Garvão, Beja, Loulé, Tavira, Vila Real de Santo António e Faro, levar erva-doce e “cetim de seda” para a Corte de Lisboa. Outras vezes passam a fronteira “de vazio”, visitam familiares que residem fora do seu país, vão a banhos a Monchique.

           Com as invasões francesas em Espanha a partir de 1810 assistiu-se igualmente à fuga destas gentes para o Sul alentejano devido aos actos de represálias e violências cometidos contra as populações de certas localidades Onubenses, nomeadamente as povoações de Vilanueva de los Castellejos e da vizinha vila de El Almendro, (embora juntas a primeira pertencia ao condado de Niebla e a segunda ao marquesado de Gibraleón), situadas a cerca de vinte quilómetros da raia portuguesa na confluência do Alentejo com o Algarve.

            Existe igualmente documentação que atesta não só o regresso destes imgrantes às suas terras de origem, em Espanha, como igualmente a revinda destes, possivelmente porque já tinham criado raízes em Portugal e de novos imigrantes quando a situação politica se apresentava instável como nas lutas entre liberais e absolutistas entre os anos de 1814 e 1833.


* Informação prestada por Beatriz Rodrigues

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A BATALHA DE OURIQUE Forjando um mito


O CRISTIANISMO NA PENÍNSULA IBÉRICA
          A mitificação das origens de um estado, mais do que enaltecer um acto genesíaco ou fundacional procura a legitimação da memória histórica baseado numa realidade fenoménica de virtudes, glorificação e de engrandecimento do passado, idealizando uma época que revela o irrealismo prodigioso duma imagem engendrada, mas que no fundo a população têm como garantido e de si mesmos.
          É recorrente na história das nações organizar o passado histórico em função das necessidades do presente, os mitos fundacionais são na maioria dos casos, senão em todos, uma espécie de mitologia em que o historiador adapta a verdade histórica de forma a inculcar uma determinada visão do passado, ficcionando-a e modelando-a ao serviço dos interesses ideológico-políticos tanto do passado como do presente.
          Ao mistificar esta fundação de Portugal em Dom Afonso Henriques, herdeiro duma terra, resgatada ao infiel, que tem a sua origem nos guerreiros lusitanos, procura-se suprimi-la, numa altura de lutas pelos territórios fronteiriços ou de indefinição dinástica, á ocupação ou mesmo ao aniquilamento por parte dos reinos vizinhos como se veio a observar com a ocupação Filipina de Portugal.
          A história de Portugal regista a batalha de Ourique em 25 de Julho de 1139, dia de Santiago, um dos apóstolos que teria difundido a fé cristã na Península Ibérica.
        Os relatos sobre a evangelização da Península por São Tiago são manifestamente tardios e impossíveis de confirmar. A ausência de informações concretas sobre as origens da penetração do cristianismo nesta zona, deu lugar a toda uma série de mitos e até mesmo de tradições.

         Segundo uma tradição lendária, no século IX, na Galiza, um eremita de nome Pelaio, anunciou uma revelação, sobre um túmulo, que tivera enquanto dormia, contendo umas relíquias que foram de imediato veneradas e associadas a Santiago e sobre o qual viria a ser erguida a Catedral de Santiago de Compostela.

          Os árabes invadiram a Espanha em 711 e deixaram, aos ibéricos, apenas o norte da península, conhecida por Astúrias, onde mantiveram uma resistência à dominação árabe. Nesse período, fazia falta aos hispânicos uma figura que unificasse a luta contra o inimigo comum. As dificuldades no acesso aos tradicionais destinos de peregrinação cristã, Roma e Jerusalém, acabam por conduzir muitos peregrinos a Compostela.

          Da mesma forma que os muçulmanos tinham a sua peregrinação a Meca, os cristãos também passariam a ter a sua peregrinação a Santiago de Compostela na Galiza e se nas batalhas os mouros invocavam Maomé, os cristãos passaram a chamar por Santiago, “o matamouros”.

          A lenda do “Santiago-matamouros”, surgiu relacionado com a lendária batalha de Clavijo em Espanha em 25 de Julho de 844, dia de Santiago, onde um rei cristão, em grande desvantagem numérica, desbaratou e derrotou vários reis mouros. A documentação histórica referente a Clavijo é contestada, e tudo leva a crer que foi forjada pelo Arcebispo de Toledo, Rodrigo Jiménez de Rada que terá forjado uma narrativa de traços míticos, na qual milagrosamente Santiago intervira numa batalha a favor dos cristãos na luta contra os mouros, considerada fantasiosa por falta de documentação ou de outras referências credíveis.

          A lenda conta que Ramiro I teve um sonho no qual o apóstolo Tiago teria garantido a sua presença no campo de batalha e assegurado a vitória. De acordo com essa lenda, no dia seguinte os exércitos de Ramiro I, encorajados pela presença do Apóstolo montado num cavalo branco, a lutar contra os seus adversários, decapitando os mouros e ajudando a vitória dos cristãos do rei Ramiro, onde em grande desvantagem numérica enfrentava as tropas muçulmanas.


A BATALHA DE OURIQUE
          Os relatos descrevem o acontecimento da batalha de Ourique em 25 de Julho de 1139, em que um rei cristão, D. Afonso Henriques, em inferioridade numérica derrota vários reis muçulmanos, precisamente no dia de Santiago e apesar de existir vários documentos, desde o século XII, que falam sobre a batalha, a menção ao aparecimento de cristo a D. Afonso Henriques só aparece no século XV, cerca de 300 anos depois da suposta batalha, possivelmente redigida por Fernão Lopes, cronista do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em 1419, numa altura de guerras com Castela.
           Se nos registos anteriores ao século XV, a vitória da batalha de Ourique era atribuída a São Tiago, posteriormente passou a ser atribuída a Cristo, se no campo de batalha, pela disputa dos territórios fronteiriços, os Castelhanos bradavam a Santiago, os Portugueses tinham de bradar mais alto, a Cristo directamente.
          Com a invenção do milagre, a este vai-se acrescentando, nos séculos seguintes, sempre com mais alguma narrativa, conforme os escritores que sobre o acontecimento relatam, até que chegando ao século XIX, Alexandre Herculano as denúncia como meramente fantasiosas e carentes de legitimidade histórica.
          No século XVII, com a ocupação do trono e do reino pelos Filipes Castelhanos, a lenda ganha mais prestígio e precisão pela mão do frade cisterciense Bernardo de Brito.
          De facto não se encontram referências sobre esse acontecimento antes dessas datas, nem na crónica geral de Espanha de 1344, nem nas outras fontes sejam elas portuguesas, castelhanas ou árabes, nem inclusivamente nos documentos mais antigos que se conhecem sobre a vila de Ourique, a carta de doação de feira de 1288 e a carta de  foral de 1290, ambas concedidas pelo rei D. Dinis.
          De referir também que nos primórdios da formação de Portugal o Campo de Ourique não se restringia somente á vila ou concelho de Ourique, era, de uma forma incipiente, geralmente considerado grande parte do território que se prolongava para sul do rio Tejo, portanto falar numa batalha de Ourique seria falar numa região a Sul do Tejo.
          As particularidades das lutas pelo controle do território entre cristãos e muçulmanos não favoreciam a concentração de grandes exércitos ou de batalhas campais, constituídos maioritariamente pela cavalaria pesada da nobreza terra tenente, com armaduras imponentes e exercito pedonal incluindo arqueiros e lanceiros.
          Quando a fronteira do reino de Portugal em 1139 se situava no rio Mondego, era inadmissível situar um exército desta natureza a cerca de quinhentos quilómetros da fronteira e em pleno território inimigo.
          As conquistas das cidades por D. Afonso Henriques e sucessores, faziam-se mais à custa das tropas ligeiras dos concelhos, dos cavaleiros-vilãos, peões e besteiros, ou de intrépidos aventureiros como Geraldo-Sem-Pavor que conquistou Évora, ou trepando os muros na calada da noite como sucedeu em Santarém ou com a ajuda dos cruzados como no caso de Lisboa, as próprias ordens religioso-militares resguardavam uma boa parte dos seus guerreiros na defesa dos seus próprios territórios.
          As vitórias de D. Afonso Henriques contra os sarracenos e as suas ambições politicas em formar um reino independente, carecia de fundamento e do respectivo reconhecimento, nesse sentido haveria de mistificar a fundação do reino na criação divina. As vitórias nos campos da batalha e as conquistas territoriais, tomaram assim uma dimensão fenoménica. Haveria de glorificar e engrandecer as escaramuças, contra o infiel, pela conquista territorial e a expansão da fé, para justificar a pretensão de D. Afonso Henriques a ser rei dum reino soberano e independente.
          Os cinco reis mouros derrotados poderiam equivaler a outras cinco batalhas, emboscadas ou acções de guerrilha, temporalmente apartadas, tomando o nome daquela que no contexto geo-político da época se apresentava mais distante, ou seja depois do Tejo, não deixando, contudo, de ter em atenção tanto as imprecisões localizáveis no terreno como os exageros dos feitos e fanfarronices de cavaleiros. No quadro da imaginária historiografia dos monges alcobacenses, seria «bem mais gloriosa para o rei seu protector» uma vitória obtida lá mais para Sul, bem dentro das terras infiéis.

          Assim, estas escaramuças pelo território, tomou no século XV um sentido mítico-sacralizante do rei e do reino, esta mitificação das origens aparece assim como a peça fulcral, como o milagre que faltava para atestar a protecção divina concedida a este reino desde a sua fundação.

          A concluir no que diz respeito á batalha de Ourique, sob o ponto de vista do espetáculo, da especulação, da teatricalidade, muito pouco há a dizer, sob o ponto de visto histórico podemos recorrer, como exemplo, ao que diz o historiador José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006:


“Por isso eu admiro-me muito por ver aqui à porta da Câmara Municipal, está ali uma placa com uma série de nomes, … e disseram-me “… esses morreram na Batalha de Ourique, no século XII”, “o quê?!” “é”, então comecei a ler. Lá em cima diz Fernão Mendes de Bragança e os seus dois irmãos, Egas Moniz e os seus dois filhos, Afonso vi, o Moço Viegas, o Soeiro Viegas, o Garcia Mendes, o Lourenço Mendes e até lá está o D. Fuas Roupinho. Como sabem o D. Fuas Roupinho era um almirante que parece, também segundo, tudo isso é lenda, … até o D. Fuas Roupinho mataram aqui para fazer aquela lápide. Eu sinceramente discordo dessas invenções históricas, Portugal tem tanta glória verdadeira, tem tantos factos de que nós nos podemos sinceramente orgulhar, que escusamos de recorrer a estas invencionices. Nós não precisamos, graças a Deus, nesse capítulo de episódios gloriosos de roubar nada a ninguém.”

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