quarta-feira, 6 de junho de 2018

O AÇOUGUE

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Imagens do Açougue de Garvão.

Com o Sino em 2013 e presentemente sem o Sino.

O Açougue

          Os Açougues eram espaços de comércio fechados, construídos pelos concelhos, mas normalmente concessionados a comerciantes particulares, certamente em condições vantajosas, mas com a contrapartida de grande controlo quer dos abastecimentos quer dos preços, pelos competentes oficiais concelhios.[1]

          Na Idade Média abrigavam a venda de comestíveis, pelo que “o açougue era, em princípio, um mercado permanente onde se vendiam a carne, o peixe, os legumes, Com o tempo, os açougues passam a abrigar apenas a venda de carne e de peixe, para se especializarem posteriormente apenas na venda da carne a retalho, por uma evolução semântica muito interessante, a palavra talho acabará por ganhar o significado do velho açougue da carne – palavra que sobrevive, tanto quanto se sabe, no Português do Brasil.[2]

          Caução e símbolo maior da abastança dos Povos, os açougues foram sempre motivo de grande preocupação tanto do poder central como do local, sempre preocupado com os abastecimentos. Assim, os Açougues, para lá da venda a retalho eram também posto de recolha e de controlo obrigatório pelo menos de certos produtos.[3]

          Eram construções muito modestas e arquitectónica e decorativamente muito despretenciosas, aproximando-se – como arquitectura emergente dos Povos ao serviço dos quais foi construída – de modelos arquitectónicos vernáculos, como o belíssimo e quase escultural Açougue de Garvão. Com efeito, tendo por abertura ao exterior apenas uma porta muito simples, o açougue de Garvão é de uma pureza quase abstracta, modelada sensualmente por gerações e gerações de caiadelas sobrepostas.[4]

          Os açougues tratando-se de edifícios tipicamente concelhios, alguns mantiveram até hoje um típico atributo da arquitectura dos velhos concelhos portugueses, a sineta da Câmara, instalada num pequeno campanário. Este está localizado no topo da empena, no extremo esquerdo da fachada principal do açougue de Garvão. Este tão rústico mas tão bonito campanário de alvenaria (felizmente ainda intacto) mantém, sob densíssimas camadas de cal, dois singelos e muito discretos frisos paralelos no seu topo, que acompanham e coroam o desenho global do mesmo e sublinham o arco que define a ventana do sino.[5]

          Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, tal como no cume de açougues como os de Garvão.[6]

          No Foral Velho de Garvão, de 1267, surgem varias disposições sobre a obrigatoriedade da venda dos produtos no Açougue e os respectivos impostos. Já no Foral Novo de Garvão, de 1510, apenas consta uma menção relacionada com o controle pela saída e entrada dos produtos.


[1] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem

[5] Idem

[6] Idem

domingo, 27 de maio de 2018

BRASÃO da CÂMARA de GARVÃO

Brasão2.jpg

 BRASÃO 

          No livro Garvão – Herança Histórica, de 1993, (p. 66), sobre o Brasão da Casa da Câmara de Garvão, consta: “ainda em 1992, aquando da caiação da Casa da Câmara, o brasão foi pura e simplesmente caiado por cima como se não existisse. Contudo, a sua maior mutilação ocorreu pela implantação da república, em 1910, quando um fervoroso republicano de nome Caetano Rosa, armado de escopro e martelo, começou por danificar o brasão e mais não destruiu porque alguém, adepto da monarquia, lhe tirou a escada onde se encontrava empoleirado.

          Acontecimento este relato pelo antigo regedor da Freguesia de Garvão, Francisco Zacarias, ao autor do mencionado livro.

          Contudo, agora pela mão do Professor António Martins Quaresma, no jornal do Sudoeste de 16/11/2017, relata outro acontecimento sobre a danificação do referido brasão.

          Segundo informação do saudoso Joaquim Maurício da Conceição Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago pós vinte e cinco de Abril, existe outra personagem que procedeu, igualmente, à sua mutilação, desta vez o próprio avô de Joaquim Maurício.


          Outra história que ele gostava de contar tinha como protagonista o seu avô, Jacinto Pereira Rosa, fervoroso republicano, que ajudado por um maquinista dos comboios, decidiu, após a implantação da República, picar a pedra de armas existente na frontaria do edifício da antiga Câmara de Garvão (então escola), por a considerar incompatível com a nova situação política. Criticado pelo governador civil de Beja, do Partido Unionista, que o admoestou por ele ter destruído uma obra tão antiga, o avô do Maurício respondeu que também a monarquia era antiga e tinha sido, muito felizmente, deitada abaixo. Face à lógica da resposta, o governador civil embatocou. Hoje, continuamos a ver a pedra de armas picada, na parede da Junta de Freguesia de Garvão, e lamentamos um pouco o seu arrebatamento, próprio dos tempos que então corriam.


           O Brasão da Câmara de Garvão, como se hoje pode observar na frontaria dos antigos Paços do Concelho, segundo Carlos Manuel Ferreira Caetano,[1] provavelmente será de origem seiscentista e teria sido realizado utilizando a velha técnica do esgrafito que consistia na aplicação sobre uma base de estuque, barro, cal ou cimento, de uma camada de tinta branca que seria posteriormente raspada com um estilete, ou mesmo com um garfo de ferro na forma que se desejava.

            A cor da base, constituindo o fundo do desenho, ficava assim exposta em contraste com o branco do resto do brasão. Realizados em materiais brandos e de fácil modelação, os brasões em estuque ou em esgrafito parece terem sido sempre rodeados de ornatos de gosto ora mais erudito, ora mais popular e podem ter sido usados em muitas zonas do país e não apenas nas regiões de cal abundante.[2]


[1] In: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna. P. 497.

[2] Idem, ibidem.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 3ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

Na Rotunda Pela Implantação da Republica

Parte 3 (de 12)


          Como se observou, pela Implantação da República, em cinco de Outubro de 1910, José Júlio da Costa está ao lado de Machado Santos na Rotunda. Ainda com dezasseis anos de idade, é um dos primeiros a lutar pela revolução republicana, mesmo quando esta já se dava como perdida, levando ao suicídio do Almirante Cândido dos Reis, chefe militar da rebelião, José Júlio da Costa permanece fiel à revolução, junto das forças Carbonárias que lutaram até ao triunfo da República sob o comando de Machado Santos.

          Ao jovem José Júlio da Costa esta participação na implantação da República ao lado de Machado Santos, com os dramas que daí ocorreram, nomeadamente o suicídio do carbonário almirante Cândido dos Reis, quando julgava a causa perdida, terá pesado fortemente na sua formação politica e moldado não só o seu percurso politico mas igualmente os seus heróis.

          O percurso militar de José Júlio da Costa levou-o a Timor em 1911, como voluntário para combater a rebelião das forças do reino de Manufahi que se sublevaram nos finais de 1911, voluntariou-se igualmente para Moçambique e Angola, em 1914, para combater os alemães, o que lhe valeu um louvor em 27 de Dezembro desse mesmo ano, mencionando, na sua folha de serviços, o seu “grande patriotismo e boa vontade de desempenho de todos os serviços que era encarregado”, pelo seu cumprimento na batalha de Naulila[1], em 18 de Dezembro de 1914 entre  portugueses  e  alemães  no Sul de Angola.

          Segundo Augusto Casimiro autor de Naulila, publicação de 1922,Ao romper da manhã estava o Barão Von Water a oito quilómetros deste posto esperando as 4,3º, e supondo-se em frente do flanco direito das nossas posições. Reconhece o erro. Está em Nangula e tem na sua frente apenas os landins do pelotão de Losa, a secção que o sargento José Júlio da Costa comanda, de guarda ao vau. Trocam-se tiros.”[2] José Júlio da Costa, com 21 anos, seria sargento do pelotão da 15ª Companhia de Moçambique, comandada pelo Alferes Gonçalves Losa, composta por tropas africanas denominadas Landins[3] e enviados para Angola.[4]

          Com o posto de Segundo-Sargento, passa à vida civil dois anos depois, em 11 de Abril de 1916, com vinte e três anos, tendo por esta altura regressado a Garvão, sem primeiro, contudo, deixar de passar pela embaixada francesa, onde se ofereceu como voluntario, para combater na Grande Guerra contra os alemães, muito antes da constituição do Corpo Expedicionário Português, e do envio dos militares portugueses para França em 30 de Janeiro de 1917, o que não conseguiu por não ter passaporte. Voluntariou-se igualmente para o CEP, durante a constituição deste, o que foi também recusado.


[1] Incidente militar no Sul de Angola onde uma pequena força alemã  entrou  em  território  angolano na perseguição de um desertor. Apesar dos alemães se apresentarem pacificamente e aceitarem serem conduzidos ao posto de Naulila por um pequeno destacamento militar português, gerou-se uma certa confusão quando os militares alemães se tentaram retirar, provocando uma reacção violenta por parte dos militares portugueses que levou à morte dos oficiais alemães. Considerada uma “emboscada” pelos alemães que precisava de ser vingada. Na retaliação que se seguiu as tropas Alemãs, em Dezembro de 1914, ocupam Naulila tendo as tropas portuguesas de recuar para Humbe, provocando a morte de dois oficiais, um sargento, cinco soldados e cabos portugueses e vários africanos.

[2] Augusto Casimiro, Naulila, 1922, Lisboa. P. 175.

[3] Os Landins ou Vátuas eram tropas africanas com ligações guerreiras ao célebre Gungunhana, derrotado pelas tropas portuguesas e emprisionado por Mouzinho de Albuquerque em 1895.

[4] Com a data de 5 de Julho de 1930, Armando Agatão Lança, envia a Bernardino Machado uma carta onde refere, “ - V. Ex.cia, em tempos perguntou-me em que companhia tinha servido na guerra do sul de Angola o José Júlio da Costa. Serviu na 15ª companhia indígena”. 


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


sábado, 14 de abril de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 2ª Parte

CENTENÁRIO

“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”

Em Garvão I

Parte 2 (de 12)


Sobre a vida de José Júlio da Costa na vila de Garvão, desde o seu nascimento, pouco há a dizer ou a diferenciar das outras crianças nascidas nestas terras do interior.

Sabe-se que nasceu em Garvão a 14 de Outubro de 1893, sendo o segundo filho de sete filhos de Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, ambos de Garvão, com ramificações familiares a ricos lavradores nas terras vizinhas. Eram lavradores considerados abastados para e época e donos de várias propriedades na freguesia de Garvão onde praticavam a agricultura, estavam igualmente estabelecidos com loja e venda.

Ao pai de José Júlio da Costa não seria estranho as ideias republicanas ou mesmo alguma ligação a sociedades secretas, sejam elas Maçónicas ou Carbonárias, estando esta bastante activa nestes meios rurais.

A propagação das ideias carbonárias e como tal republicanas nestas terras do interior, atravessadas pela via-férrea, teriam sido divulgadas precisamente pelos politizados ferroviários. Fregueses habituais da venda, estes verdadeiros apregoadores de histórias, acontecimentos, notícias e ideias revolucionárias, em muito teriam influenciado tanto o pai como o jovem José Júlio da Costa.

Assim teria nascido numa família de pai republicano e tido igualmente como carbonário, segundo a informação de algumas pessoas da vila, ainda nos anos sessenta do século passado, apesar do pai ter falecido com Tifo a 6 de Setembro de 1906, com trinta e quatro anos, a pouco mais de um mês de José Júlio da Costa fazer os treze anos, cedo despontou no jovem José Júlio da Costa, a consciência revolucionária, pró-república, anti-monárquica, anti-clerical e a vontade de lutar pelos seus ideais.

Aos 16 anos de idade, a 21 de Maio de 1910, alista-se como voluntário no Exército Português. Para a tomada desta decisão não terá contribuído somente a influência paterna, mas igualmente a influência partidária ou de associações secretas, nomeadamente a Maçonaria ou mais provavelmente a Carbonária, o certo é que foi colocado, a cerca de quatro meses da implantação da República, no regimento de Infantaria 16, precisamente aquele sublevado por Machado Santos, o chefe Carbonário, seguindo uma das estratégicas da Carbonária que seria infiltrar as unidades militares com militares da sua confiança para que no dia programado sublevassem o quartel e abrissem as portas aos outros revolucionários comprometidos com a revolução.

Apesar de só metade da guarnição do quartel ter aderido à revolta, José Júlio da Costa era um deles.

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


quarta-feira, 14 de março de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 1ª Parte

CENTENÁRIO

“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”

José Júlio da Costa

Parte 1 (de 12)


            Faz, este ano de 2018, em 14 de Dezembro, cem anos, sobre o acto cometido por José júlio da Costa, natural de Garvão, que vitimou o presidente da República Sidónio Pais.

            Falar do homem que matou um presidente da República não é fácil porque já foi quase tudo dito, ou pelo menos: onde nasceu e quando morreu, nome dos pais, nome da esposa, porque cometeu o atentado, (segundo as várias opiniões), com quem jantou, com quem falou, onde dormiu, que pistola tinha e pouco mais se adianta, como se um atentado desta natureza pouco mais tivesse de interesse.

            Contudo a questão é muito mais complexa do que isso.

            A sua complexidade reside no facto de o mais importante ainda não foi dito, não o foi na altura do atentado, não o foi na sua segunda prisão e nem o foi quando faleceu, assim como não possivelmente também não o será agora nesta altura que perfaz cem anos sobre o acontecimento, ou porque os autores principais já faleceram, ou porque não existe registo de uma investigação isenta e imparcial que, de facto, nunca aconteceu.

            O que nos resta então? Resta-nos a memória local, que sucessivamente, de geração em geração chegou aos nossos dias e os escritos da imprensa da altura.

          Tanto uns como outros, cheios de incongruências e incertezas, a memória local porque não está incólume à devassa do tempo e, lá diz o povo, “quem conta um conto acrescenta um ponto”, a imprensa da altura, tendenciosa, ao serviço da situação, pinta um quadro de exaltação do chefe morto e denigre o autor do atentado.

          Contudo, temporalmente afastados do acontecimento e descomprometidos, tanto politicamente como emocionalmente, ainda se poderá ler nas entrelinhas dos jornais aquilo que não se escreveu ou se escreveu tendencialmente? Ou ainda se poderá descortinar na memória popular o que não se disse ou se disse erradamente?

          De facto, numa leitura atenta, aos jornais e restante imprensa da altura, ainda se pode distinguir aquilo que tanto os jornalistas como os escritores, não tiveram a coragem de explanar nos jornais e noutras publicações, ou porque estavam aquentados com a situação ou porque foram travados por forças superiores, mas, na história de José Júlio da Costa, as contradições são tão evidentes que teremos de ler nas entrelinhas e distinguir o exagero do racional e o emocional do racionável.

          Igualmente se aplica, ao que diz o povo, a história passa de uma geração para a outra, sempre no segredo dos lares e longe dos ouvidos da crianças, não fossem estas, na sua inocência, numa altura de extrema crispação politica, comprometer os familiares, mas a história fica, contada nos serões de Inverno, temeroso para uns, embaraçoso para outros e ainda inconveniente para alguns, não deixando contudo de influenciar a versão do acontecimento, segundo a opinião tendenciosa, ou não, de quem a conta e transmite. 

          A história de José Júlio da Costa é uma história empolgante cheia de mistérios e enredos, de fugas, cabalas e maquinações que subverteram o estado de direito e o remeteram a uma prisão eterna sem julgamento.

          Não faltam as conspirações políticas na história de José Júlio da Costa, nem os enredos policiais, nem as conjuras e intrigas político-partidárias, não foram só os acontecimentos do Vale de Santiago, pela Greve Geral que o comprometeram politicamente, não foi só a traição à sua República por Sidónio Pais, não foram só os arruaceiros de rua dos Democráticos que o empurraram a cometer o atentado, foram também os investigadores policiais que não prosseguiram com as devidas investigações, foi também o médico prisional, António José Furtado de Mendonça Boavida, que forjou um boletim clinico, foi também um procurador da República, Pais Rovisco, que o internou num hospital de malucos e o subtraiu ao julgamento, vinte e seis dias antes e vinte e cinco dias depois da emissão dum relatório médico por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid e do psiquiatra Caetano Beirão que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado.

          José Júlio da Costa sabia ler e escrever e não lhe era estranha a literatura progressista da altura.

          José júlio da Costa, não era louco nem morreu esquizofrénico.

          O estado de loucura interessava a muita gente e muita gente pactuou com esta cabala que o impedia de ter um julgamento justo e imparcial.

          Afinal o que sabia e o seu depoimento em tribunal iria comprometer muita gente. Uns, os cabecilhas do reboliço da primeira república, enchiam agora a Assembleia Nacional do Estado Novo, outros, os arruaceiros de rua ao serviço dos partidos, preenchiam agora as vagas na nova policia politica.

           Afinal a sua prisão logo no início da ditadura não foi por mero acaso.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

FÁBRICA de PIROLITOS do Sr CHICO COSTA

  





 OS PIROLITOS DE GARVÃO 

A bebida pirolito da fábrica do Sr. Chico Costa na Travessa do Álamo, foi, talvez, a bebida que mais marcou a população de Garvão dos anos cinquenta e sessenta do século XX.

A bebida cujo sabor açucarado fazia as delícias da população, graúdos e miúdos, tinha a particularidade de o fecho consistir num arraiol ou raiol, (berlinde), que a pequenada usava no jogo denominado igualmente por arraiol, (jogo que consistia em três covas ou ao “morre ou mata” que se jogava sem covas).

O pirolito era uma bebida gasosa, continha água, ácido cítrico e gás carbónico e a garrafa não tinha rolha nem cápsula, pois possuía no interior uma esfera de vidro que servia de tampa, (empurrava-se a esfera de vidro para baixo, de modo ao gás sair e permitir a saída do liquido). Não possuía igualmente rótulo, apesar de na década de 1960 aparecer algumas garrafas com o rótulo “Flora”, precisamente o nome da esposa do Sr Chico Costa, Srª Florinda Martins.

Devido às exigências sanitárias e outros melhoramentos exigidos pelo governo da altura nos finais da década de 1950, levou ao encerramento da Fábrica de Pirolitos de Garvão nos inícios da década de 1960. O sistema de fecho destas garrafas, pela pequena esfera de vidro, foi considerado prejudicial para a saúde pública, pois era difícil a sua lavagem, entre outras medidas sanitárias que devido aos elevados custos de modernização, levou ao encerramento de muitas fábricas em todo o País.

Apesar destas fábricas terem desaparecido há já algumas décadas, a expressão ainda hoje em uso de, “beber um pirolito”, quando alguém se engasga a beber muita água, terá a sua origem nestas bebidas gasosas, que por vezes, precisamente pelo seu conteúdo gasoso, provocava engasgos.

O Sr Chico Costa foi, a meio do século passado, um dos maiores dinamizadores comerciais da vila de Garvão, começou como comerciante e negociante de bebidas alcoólicas e gasosas, as quais distribuía num carro de parelha pelas vilas em redor, incluindo os pequenos lugares da Serra de São Martinho, mais tarde adquiriu a primeira camioneta de transporte de mercadorias de que há conhecimento em Garvão.

Aliado a esta atividade de distribuição de bebidas, produzia igualmente vinho a partir de vinha própria e posteriormente abriu a fábrica de Pirolitos julga-se ainda na década de quarenta a qual produzia as mencionadas gasosas mas também licor de Ginja. Veio a fecha-la, como se afirmou nos princípios de sessenta, assim como a taberna anos mais tarde devido a doença.

O 25 de Abril de 1974 apanhou-o em Lisboa onde se encontrava em tratamentos na casa da filha adotiva, Leonor Costa, de regresso a Garvão foi, infelizmente, ultrajado precisamente por aqueles a quem, tanto ele como a esposa, auxiliaram nos piores momentos.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

CLOOTIE WELL

COSTUME CELTA de ATAR PEQUENAS TIRAS de PANO nas ÁRVORES De FRUTO.

          Existem algumas tradições que se continuam a praticar na actualidade, mas que, cujo significado, desapareceu por completo da memória das pessoas.

          Passaram à história, ou pelo menos assim se julga, contudo reminiscências de certas práticas mágico-religiosas, ainda se podem encontrar entre nós, embora já sem a sua simbologia inicial e um total desconhecimento, do seu sentido primitivo, por quem as pratica.

          Faz-se porque sempre se fez. Faz-se porque já os seus pais o faziam e assim se perpectuam práticas, gestos, preces, provérbios, adivinhas, contos, histórias e lendas trazidas do fundo dos tempos até aos nossos dias.

          Encontra-se em vários países de tradição celta o costume de atar pequenas tiras de pano, geralmente brancos nas pernadas das árvores situadas nas hortas e junto a poços ou fontes de água, nomeadamente na Escócia, Irlanda, Cornualha e no resto das ilhas britânicas, denominados Clootie Well.

          Seriam e ainda são nalguns locais, lugares de peregrinação que se acreditava possuírem poderes mágicos e curativos de certas doenças. As tiras, (actualmente, peças de pano), banhavam-se na fonte sagrada e eram posteriormente atadas nas pernadas das árvores, acompanhadas por uma prece ou oração a favor de quem a oferta era feita.

          Vestígios destas práticas mágico-religiosas, ainda se encontram, de uma certa maneira, em certas partes dos países denominados da franja céltica, não só situados nas Ilhas Britânicas mas igualmente em Portugal e Espanha.

          Ainda nos anos sessenta do século passado, em certas hortas em redor da vila, se assistia a tal prática, embora, como se afirmou, desprovidas de qualquer sentido religioso, por quem as praticava. Limitavam-se a dar continuidade ao que era costume, embora no fundo acreditassem nalgum poder mágico, cujo sentido desconheciam, mas que traziam sorte e seriam benéficos em termos de colheita dos produtos semeados e plantados, sejam eles hortícolas ou frutíferos.

          Uma destas hortas é a denominada Horta da Saúde, localizada na antiga Estrada Real, embora este costume se observasse praticamente em todas as hortas da vila, a Horta da Saúde apresenta certas características que a distinguem das outras, nomeadamente por lá se situar a Fonte Santa, tão agrado da população até há relativamente pouco tempo e onde se observava pequenas tiras de pano branco atadas nas pernadas das árvores de fruto. Perto desta Horta situa-se igualmente a Igrejinha de São Pedro, o que demonstra uma certa religiosidade, desde tempos imemoráveis, associada a estes locais campestres, cuja função religiosa veria ser usurpada pela nova religião cristã, como se observa noutros locais.

          Segundo o novelista Stuart Hill: Pano (de qualquer cor) amarrado às árvores é uma tradição antiga no Reino Unido e na Irlanda. O pano é uma espécie de representação física de uma prece ou desejo em que se pede a ajuda de Espíritos da Natureza e Divindades. Frequentemente a oração está relacionada a questões de saúde e também fertilidade, mas pode-se buscar ajuda para qualquer tipo de problema, ambição ou necessidade. Às vezes, ofertas de moedas também são feitas, e a árvore em questão pode estar perto de um poço ou nascente, embora nem sempre. As espécies da árvore às vezes podem ser importantes (particularmente espinheiro e carvalho) embora, novamente, muitas espécies tenham sido associadas à prática. Na verdade, acho que o West Country onde Terri mora, pode ser um dos lugares onde a tradição continua com bastante força. E eu acho que pode haver práticas semelhantes em todo o mundo; talvez alguns membros da comunidade de Mitos e Mouros possam nos dizer?


Stuart Hill, 1958, é um escritor britânico formado em História Antiga e Estudos Ingleses Clássicos, autor de The Icemark Chronicles: The City of the Icemarh, Blade of Fire, Last Battle of the Icemark and Prince of the Icemark

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...