domingo, 5 de agosto de 2018

HOSPITAL do ESPÍRITO SANTO

            As instalações do Hospital da Irmandade do Sagrado Espírito Santo de Garvão ainda, nos princípios dos anos setenta do século passado, se observavam na Rua da Misericórdia, até que a vaga reformista de obras camarárias, dos finais dos anos setenta e princípios de oitenta, deitou por terra o que restava destas instalações. 

            A Irmandade do Sagrado Espírito Santo, animada pelo espírito de solidariedade e religiosidade da época, que caracterizavam e estavam na génese da constituição destas Confrarias, criou na vila de Garvão o Hospital do Sagrado Espírito Santo, para tratamento e aconchego dos doentes e peregrinos. Hospital esse que passou posteriormente, em 1734, para a posse da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, como se pode observar na folha 11 verso e 12 do livro “da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”.


“Auto de Pose

(…) e ali eu Escrivão com o Provedor da Santa

Caza da Mizericórdia (…) e o Escrivão da mesma (…)

fomos a Igreja do Espirito Santo (…) e meti de pose da ade-

menistrasão da dita Igreja, e de tudo o mais

a ela pertençente, como tambem das ca-

zas que servem de Hospital (…)”


            A constituição deste Hospital, tomando como exemplo outros Hospitais do reino, teria seguido os mesmos padrões de edificação comum às outras Irmandades do género. O espírito de pertença a um grupo específico que actuava em caso de necessidade de um dos seus membros, deveria ter sido a força impulsionadora para que um grupo de “homes boons do Concelho que estavam presentes, cedessem logo algum do seu” [1] para a constituição destas casas de solidariedade.

           Embora o Hospital recebesse, da população, pequenas ofertas de produtos agrícolas, viveres, farinhas, pão e legumes, dentro das suas parcas possibilidades, era nos rendimentos provenientes das rendas das propriedades, olivais, vinhas, pastagens e terras de semeadura que consistia a principal fonte de receita das Irmandades e Hospitais do Sagrado Espírito Santo.

            Eram bens fundiários deixados em legado pela população, alguns ainda em vida, outros à beira da morte, leigos ou crentes, cujos rendimentos revertiam a favor de missas pela sua alma e salvação eterna. A salvação da alma, dos doadores, encontrava nesta humilde servilidade, na devoção religiosa e na doação a estas obras pias, um caminho para a sua própria salvação eterna e o acesso ao paraíso, era em seu benefício próprio, que se doavam bens para a fundação de hospitais e outras obras de cariz religioso e caritativo, criava-se, assim, uma necessidade, entre os vivos, na continuação destas obras pias para além da morte.

           A Irmandade encontrava nas receitas da venda da salvação eterna os meios necessários para o bem terreno dos pacientes. A própria arquitectura destas instituições confundem-se com a casa de Deus, um espaço, onde mais do que salvar os corpos, havia que procurar a salvação das almas.

           Seriam, inicialmente, instalações humildes, por vezes nas casas dos próprios irmãos, compondo-se de poucas camas ou de reduzidos cómodos de recolhimento dos necessitados. Posteriormente teriam dormitório com os seus repartimentos e camas para os enfermos e instalações para os enfermeiros, teriam igualmente celeiro para o recolhimento dos frutos, que recebe das rendas e cavalariça para as cavalgaduras dos peregrinos ou viajantes. Por vezes, em certas terras, inicialmente, ou eram denominados por Albergarias ou estas evoluíram para Hospitais ou mantiveram a denominação Hospital-Albergaria do Espírito Santo como se observou na cidade do Porto, a que, por vezes os nobres, nas suas andanças, disputavam com os peregrinos e vagabundos a utilização dessas instalações[2].

           Os oficiais envolvidos na administração do hospital, para além do Mordomo do hospital e o escrivão, incluía igualmente os Sangradores e os barbeiros, o físico e cirurgião, o boticário, o enfermeiro e um capelão.

           Eram remunerados segundo as suas atribuições que geralmente consistia num moio de trigo[3] para os cargos mais importantes e valores em dinheiro, (dez ou quinze mil reis em certos Hospitais), ou em géneros para os outros cargos que poderiam incluir, porcos, borregos e cabritos, galinhas e perus, favas, trigo e outros cereais e legumes, dependendo das receitas que entravam no Hospital. O boticário recebia igualmente pagamento pelas mezinhas que fazia.

          Os irmãos relacionados com a gestão do Hospital do Espírito Santo estavam isentos de certas obrigações ou usufruíam de certas regalias, muitas vezes com os mesmos privilégios, liberdades e poderes dos Almoxarifes Reais[4]. Tinham igualmente autorização para os seus Mamposteiros, (Pedidores autorizados, ao serviço das Confrarias). irem para outras terras pedir bens em géneros ou dinheiros.

            Como se observou, estas instituições hospitalares, de princípios tão rudimentares e de simples apoio à população, evolui, ao longo dos tempos, com o apoio régio, para estabelecimentos mais precisos até que chegados ao século XVIII, se assistia, com o fim das misericórdias, ao fim destes hospitais nas províncias.

            Em Garvão, como se afirmou, ainda nos anos sessenta e setenta do século passado, as casas do hospital da Irmandade do Sagrado Espírito Santo encontravam-se de pé, edifício térreo, de paredes de taipa e pedra, postas de cutelo à maneira Árabe, de um só piso, de telha vã e chão de ladrilhos de barro cosido toscamente, embora uma parte em ruínas ainda era possível vislumbrar restos das cadeiras, mesas, arcas e outro mobiliário que se encontravam nas casas do dito hospital, inclusivamente, também, restos de tecidos, rasgados, rotos, sujos, mas, onde ainda se notava resquícios dos bordados dourados que em tempos devem ter adornado as vestes dos capelães e outros oficiais do culto nas suas obrigações e cuidados litúrgicos.

            O Hospital, apesar do inegável valor histórico, por muito arruinado que estivesse, o local foi posteriormente, aos anos setenta do século XX, completamente terraplanado e limpo, ficando o espaço em aberto delimitado pelos modernos lancis de cimento. Situado no primitivo aglomerado urbano da vila de Garvão, na actual rua da Misericórdia, junto à Igreja Matriz, a tradição popular, pelo menos os mais velhos, ainda se referem ao local como “onde estava o Hospital”.


 [1] Maria Marta lobo de Araújo, Om. Cit.

[2] Torre do Tombo, Chanchelaria de D. João I, liv. 3, fl. 36 v. Extremadura, liv. 12, fl.31.

[3] Medida de capacidade do antigo sistema equivalente a 60 alqueires ou 828 litros

[4] Torre do Tombo, Odiana, liv.4, fls 187-187 v. Os Almoxarifes Reais surgem no reinado de D.Sancho II e referem-se ao funcionário régio que superintendia os assuntos da coroa numa certa província e as repartições fiscais regionais, encarregados de centralizar a arrecadação dos tributos e rendas da Coroa.

domingo, 22 de julho de 2018

A "SANTA" DE GARVÃO

No Cemitério Velho

          Passado um século depois do levantamento de um corpo no Cemitério Velho da vila de Garvão, ainda hoje é do conhecimento da existência de uma “Santa”, sepultada nesse mesmo Cemitério. Cem anos depois deste acontecimento, a sua morte, a sua memória e o lugar do seu túmulo continuam a fazer parte do imaginário colectivo da vila de Garvão.

          De facto ao se proceder à exumação do corpo por necessidade de sepultar um familiar, este tinha resistido à decomposição e apresentava-se praticamente intacto, notando-se unicamente na ponta do nariz alguma detioração. Segundo a população tal facto deve-se por ser forneira e ter de cheirar o pão e os bolos quentes saídos do forno.

          A existência de corpos incorruptos encontra-se relatado em vários cenários culturais. Apesar de actualmente a ciência nos fornecer várias explicações para este fenómeno, tal não o era assim em 1918, (precisamente na mesma altura das aparições de Fátima). Numa sociedade essencialmente analfabeta, religiosa e supersticiosa esses acontecimentos tomavam uma feição miraculosa e propiciadora de graças.

          Assim estes corpos tomavam a denominação de “Santos” e assistia-se a uma sacralização do espaço, transformando a sepultura em um novo local de culto, metamorfoseando o túmulo em um altar, tornando-se este em local de oferendas, coberto por placas de agradecimento, coroas, fitas e velas, que uma legião de novos crentes deposita em agradecimento por alguma graça alcançada e que muitos acreditam poder realizar milagres e atender pedidos e promessas.

          Tal foi o caso igualmente em Garvão.

          Com a trasladação do corpo para o interior da Igreja, a noticia espalhou-se, “da existência de uma Santa em Garvão”, onde a população, tanto da vila como das terras vizinhas, ocorreram com enorme fervor religioso e solenidade que caracteriza estes fenómenos, dando lugar à imaginação colectiva e inclusivamente a atribuir-lhe poderes milagrosos que se evidenciavam nalgumas pessoas que se diziam “curadas”.

          Perante esta situação e por pressão do Administrador do Concelho, o regedor, (ou o presidente da Junta, segundo outras versões), mandou enterrar novamente o corpo na mesma sepultura, contudo tal acção não desmotivou as pessoas de continuarem a prestar culto e obtenção de alguma graça no local da sepultura no Cemitério Velho. Esta deposição de oferendas continuou por mais algum tempo, tendo-se perpetuado na memória popular até aos nossos dias.

          Segundo informações das pessoas mais idosas da vila, a “Santa”, era esposa de Bento Guerra e mãe de Joaquim Guerra e Bento Guerra que casou com a Ana Charrua, tia de vários elementos da família Charrua a residirem na vila de Garvão.

sábado, 14 de julho de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 5ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

SIDÓNIO PAIS

Parte 5 (de 12)


          O período que vai desde a implantação da República até ao golpe de Sidónio, é caracterizado por uma grande instabilidade politica, só entre 1910 e 1916 Portugal teve quarenta e cinco governos, demonstrativo da profunda divisão politica que reinava entre as diversas forças partidárias portuguesas.

          As várias fracções republicanas lutando pela hegemonia politica: os monárquicos e a maioria do clero pela restauração da monarquia e os anarco-sindicalistas e outros movimentos libertários pujando pela revolução social, levou à saturação do povo português e marcou um sucessivo apelo à salvação nacional, propicio ao aparecimento de líderes carismáticos, particularmente mistificados, embutidos de uma providência divina que surgem, aos olhos de um povo analfabeto, supersticioso e refém da propaganda clerical, como salvadores da Pátria.

          De facto são constantes os apelos na imprensa portuguesa «a um salvador da Pátria». Machado Santos, o herói da República, protagoniza uma série de tentativas subversivas com o intuito de derrubar o governo dos democráticos de Afonso Costa e implantar um governo de salvação nacional.

          Pela madrugada de cinco de Dezembro de 1917, Sidónio Pais e Machado Santos, à frente de uma junta revolucionária, chefiam um movimento militar contra o esforço nacional na participação na Grande Guerra Mundial que estava a provocar a falta de alimentos no país e a um aumento generalizado dos custos nos alimentos disponíveis.

          Sidónio Pais congrega assim à sua volta, não só os apoiantes dum governo que se queria de salvação nacional, mas um vasto leque de descontentes com o governo que o precedeu, de facto com Afonso Costa preso, Bernardino Machado, o presidente da República, expulso do país, estava aberto o caminho para Sidónio Pais implementar as suas políticas no meio de uma enorme expectativa.

          José júlio da Costa ao matar Sidónio Pais, não eliminou somente o presidente da República, um major ou um lente da Universidade de Coimbra, eliminou igualmente a génese do regime ditatorial, característico dos governos autoritários que se seguiram não só em Portugal mas igualmente noutros países, legitimado pelo caos político da República, já ensaiado anteriormente em 1915 com a ditadura de Pimenta de Castro e posteriormente com a instauração do Estado Novo, na consequência do golpe de 28 de Maio de 1926 que eventualmente conduzirá Salazar ao governo.

          “O génio político de Sidónio, que o transforma num precursor e num pioneiro numa escala global, foi ter encontrado a fórmula que muitos outros aplicariam com infinitas variantes nas décadas vindouras – e essa foi a causa da sua grandeza e da sua tragédia.”[1]


[1] Jorge Almeida Fernandes, Sidónio Pais e os sete pilares do futuro. Jornal Público, 09/09/2010.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018

 





quinta-feira, 14 de junho de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 4ª Parte

 

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

GARVÃO II

Parte 4 (de 12)


          Tendo saído de Garvão com 16 anos para ingressar no exército em 1910, volta a Garvão seis anos depois em 1916, com 22 anos de idade, conciliando a actividade de lavrador com comerciante. Casa com Maria do Rosário Pereira Costa, de famílias de São Martinho das Amoreiras, de quem não houve filhos, herdeira de bens fundiários, doravante administradas pelo marido.

          Propriedades estas que foram sendo paulatinamente vendidos pelo marido, não só para as suas despesas familiares, mas inclusivamente para manter as suas aspirações tauromáquicas, assim como algumas obrigações sociais na sua terra natal e ajudas monetárias aos camaradas em dificuldades.

          José Júlio da Costa estaria de facto envolvido na vida social da vila. Inconstante a raiar a imprudência segundo uns, benemerente ao ponto de se endividar segundo outros, pouco se conhece sobre esta sua faceta social, a sua façanha obliterou quaisquer outros aspectos da sua vida privada que eventualmente nos poderiam auxiliar a ajuizar de uma forma mais consistente a sua mentalidade.

          Contudo, pelo que chegou até nós, as suas funções como politico e/ou presidente da Junta de freguesia[1] e o seu temperamento tempestivo e de alguma voluntariedade deveriam de acarretar algumas despesas, não só a actividade do teatro descrita por José dos Reis Sequeira, mas igualmente a solidariedade e a partilha com as pessoas, segundo a afirmação de um sobrinho[2], “A fortuna da mulher, ao nível das terras, estava em liquidação, porque eles tinham vendido, boa parte do património tinha sido vendido, tinha sido convertido exactamente nessa actividade dele, desde a tauromaquia à solidariedade, à partilha que ele tinha com as pessoas, e com o pagamento de despesas.”[3]

          Igualmente Rocha Martins, cuja antipatia por José Júlio da Costa ficou bem explanada nos seus Fantoches, menciona, em Sidónio Pais - Ídolo e Mártir da Republica, as esmolas dadas por este que o levava a arruinar-se, “(…) tem a vaidade excessiva que o leva a arruinar-se em esmolas para atrair a estima pública (…)”[4]

          Será neste período que José Júlio da Costa protagoniza a maior parte das peripécias porque ainda hoje é recordado na vila de Garvão e desenvolve uma actividade politica, com as exaltações e frustrações daí inerentes que afectavam o seu exaltado espirito.

          Irrequieto, não seria a vida de casado que o iria acomodar ou os negócios familiares que o sossegariam, tanto cavalgava até Ourique, sede administrativa do concelho, onde se intrometia na vida política concelhia, como apanhava o comboio para Lisboa onde se imiscuía e participava na vida política nacional[5].

          Não será difícil imaginar José Júlio da Costa, devido ao seu feitio arrebatado e encarniçado, em discussões empolgadas e impetuosas a incentivar os seus companheiros a tomarem acções decisivas. A sua militância política junto dos círculos políticos republicanos dos democráticos de Afonso Costa, com os quais se identifica e junto da sede do concelho, onde durante o consulado Sidonista teria sido nomeado pelo administrador do Concelho para presidente da Junta de Freguesia de Garvão[6], terá pesado decididamente na sua decisão em matar Sidónio pais.

          Cargo esse que estaria de acordo com o sentimento político da altura e segundo o exemplo do seu herói da Rotunda de 1910, Machado Santos e de outros republicanos e sindicalistas em dar cobertura, neste início de governação, a Sidónio Pais.


[1] José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando (memórias de um operário corticeiro) 1914/1938, edição da Regra do Jogo, 1978.

[2] Joaquim Pereira da Costa, sobrinho de José Júlio da Costa, in: O Homem Que Matou Sidónio Paes. Realização Bruno Niel. Produção Valentim de Carvalho SA. 2008. Exibido na RTP 1 em 13 de Dezembro de 2008.

[3] “O José Júlio da Costa casou há tempos com uma senhora viúva, que tem uma fortuna avaliada em trinta contos.” O Século de 16 de Dezembro de 1918.

[4] Rocha Martins, 2008, p. 384.

[5] “Vinha frequentes vezes a Lisboa, onde levava uma vida de boemia, conhecendo-se-lhe até algumas amantes. (…) É conhecido nas casas de jogo de Lisboa, tendo-se-lhe ouvido dizer há pouco tempo que «no dia em que lhe faltar o dinheiro, havia de dar que falar” O Século de 16 de Dezembro de 1918.

[6] José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando (memórias de um operário corticeiro) 1914/1938, edição da Regra do Jogo, 1978.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


quarta-feira, 6 de junho de 2018

O AÇOUGUE

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Imagens do Açougue de Garvão.

Com o Sino em 2013 e presentemente sem o Sino.

O Açougue

          Os Açougues eram espaços de comércio fechados, construídos pelos concelhos, mas normalmente concessionados a comerciantes particulares, certamente em condições vantajosas, mas com a contrapartida de grande controlo quer dos abastecimentos quer dos preços, pelos competentes oficiais concelhios.[1]

          Na Idade Média abrigavam a venda de comestíveis, pelo que “o açougue era, em princípio, um mercado permanente onde se vendiam a carne, o peixe, os legumes, Com o tempo, os açougues passam a abrigar apenas a venda de carne e de peixe, para se especializarem posteriormente apenas na venda da carne a retalho, por uma evolução semântica muito interessante, a palavra talho acabará por ganhar o significado do velho açougue da carne – palavra que sobrevive, tanto quanto se sabe, no Português do Brasil.[2]

          Caução e símbolo maior da abastança dos Povos, os açougues foram sempre motivo de grande preocupação tanto do poder central como do local, sempre preocupado com os abastecimentos. Assim, os Açougues, para lá da venda a retalho eram também posto de recolha e de controlo obrigatório pelo menos de certos produtos.[3]

          Eram construções muito modestas e arquitectónica e decorativamente muito despretenciosas, aproximando-se – como arquitectura emergente dos Povos ao serviço dos quais foi construída – de modelos arquitectónicos vernáculos, como o belíssimo e quase escultural Açougue de Garvão. Com efeito, tendo por abertura ao exterior apenas uma porta muito simples, o açougue de Garvão é de uma pureza quase abstracta, modelada sensualmente por gerações e gerações de caiadelas sobrepostas.[4]

          Os açougues tratando-se de edifícios tipicamente concelhios, alguns mantiveram até hoje um típico atributo da arquitectura dos velhos concelhos portugueses, a sineta da Câmara, instalada num pequeno campanário. Este está localizado no topo da empena, no extremo esquerdo da fachada principal do açougue de Garvão. Este tão rústico mas tão bonito campanário de alvenaria (felizmente ainda intacto) mantém, sob densíssimas camadas de cal, dois singelos e muito discretos frisos paralelos no seu topo, que acompanham e coroam o desenho global do mesmo e sublinham o arco que define a ventana do sino.[5]

          Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, tal como no cume de açougues como os de Garvão.[6]

          No Foral Velho de Garvão, de 1267, surgem varias disposições sobre a obrigatoriedade da venda dos produtos no Açougue e os respectivos impostos. Já no Foral Novo de Garvão, de 1510, apenas consta uma menção relacionada com o controle pela saída e entrada dos produtos.


[1] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem

[5] Idem

[6] Idem

domingo, 27 de maio de 2018

BRASÃO da CÂMARA de GARVÃO

Brasão2.jpg

 BRASÃO 

          No livro Garvão – Herança Histórica, de 1993, (p. 66), sobre o Brasão da Casa da Câmara de Garvão, consta: “ainda em 1992, aquando da caiação da Casa da Câmara, o brasão foi pura e simplesmente caiado por cima como se não existisse. Contudo, a sua maior mutilação ocorreu pela implantação da república, em 1910, quando um fervoroso republicano de nome Caetano Rosa, armado de escopro e martelo, começou por danificar o brasão e mais não destruiu porque alguém, adepto da monarquia, lhe tirou a escada onde se encontrava empoleirado.

          Acontecimento este relato pelo antigo regedor da Freguesia de Garvão, Francisco Zacarias, ao autor do mencionado livro.

          Contudo, agora pela mão do Professor António Martins Quaresma, no jornal do Sudoeste de 16/11/2017, relata outro acontecimento sobre a danificação do referido brasão.

          Segundo informação do saudoso Joaquim Maurício da Conceição Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago pós vinte e cinco de Abril, existe outra personagem que procedeu, igualmente, à sua mutilação, desta vez o próprio avô de Joaquim Maurício.


          Outra história que ele gostava de contar tinha como protagonista o seu avô, Jacinto Pereira Rosa, fervoroso republicano, que ajudado por um maquinista dos comboios, decidiu, após a implantação da República, picar a pedra de armas existente na frontaria do edifício da antiga Câmara de Garvão (então escola), por a considerar incompatível com a nova situação política. Criticado pelo governador civil de Beja, do Partido Unionista, que o admoestou por ele ter destruído uma obra tão antiga, o avô do Maurício respondeu que também a monarquia era antiga e tinha sido, muito felizmente, deitada abaixo. Face à lógica da resposta, o governador civil embatocou. Hoje, continuamos a ver a pedra de armas picada, na parede da Junta de Freguesia de Garvão, e lamentamos um pouco o seu arrebatamento, próprio dos tempos que então corriam.


           O Brasão da Câmara de Garvão, como se hoje pode observar na frontaria dos antigos Paços do Concelho, segundo Carlos Manuel Ferreira Caetano,[1] provavelmente será de origem seiscentista e teria sido realizado utilizando a velha técnica do esgrafito que consistia na aplicação sobre uma base de estuque, barro, cal ou cimento, de uma camada de tinta branca que seria posteriormente raspada com um estilete, ou mesmo com um garfo de ferro na forma que se desejava.

            A cor da base, constituindo o fundo do desenho, ficava assim exposta em contraste com o branco do resto do brasão. Realizados em materiais brandos e de fácil modelação, os brasões em estuque ou em esgrafito parece terem sido sempre rodeados de ornatos de gosto ora mais erudito, ora mais popular e podem ter sido usados em muitas zonas do país e não apenas nas regiões de cal abundante.[2]


[1] In: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna. P. 497.

[2] Idem, ibidem.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...