terça-feira, 4 de dezembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 11ª Parte


CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SEGUNDA PRISÃO
Ou o Resgate em 1927
Parte 11 (de 12)

              José Júlio da Costa só em 14 de Janeiro de 1927, sexta-feira, volta a ser preso, em Matosinhos, no hotel Central, onde se encontrava protegido pelo proprietário Alberto Midões, em circunstâncias ainda não plenamente esclarecidas, por António Maria Fernandes, funcionário público, apoiante de Sidónio Pais e sidonista convicto. José Júlio da Costa volta à Penitenciária de Lisboa de onde só sairá para o hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, aonde viria a falecer em 28 de janeiro de 1948.

          António Maria Fernandes não seria um obscuro funcionário público, como os jornais da época fizeram crer, seria um dos muitos que Sidónio Pais aliciou para as suas fileiras, nomeadamente para a sua Policia Preventiva. O seu percurso coloca-o no meio dos círculos revolucionários que agitavam o país antes de Sidónio, de facto António Maria Fernandes era conhecido de José Júlio da Costa e andaram pelos mesmos círculos do desassossego politico.
          O jornal “O Século”, de 16 de Janeiro de 1927, relata “O senhor António Maria Fernandes, funcionário público, é aquele indivíduo que, na noite de 19 de Julho de 1925, fardado de capitão, subiu para bordo do “Vasco da Gama”, acompanhando o comandante Mendes Cabeçadas, a fim de revoltar a guarnição daquele barco”. Ora não será um reles funcionário publico que tem acesso directo ao ministro, nem muito menos veste a farda de capitão e subleva a tripulação dum navio com o futuro primeiro-ministro, (Presidente do Ministério).
          A sua actuação só se compreende dentro dum quadro politico em que alguns membros dos grupos de civis armados ao serviço dos partidos, inclusivamente da carbonária e da Formiga Branca, tenham feito a passagem, como muitos outros, para a nova policia politica.
          As circunstâncias da iniciativa de tal prisão, não estão cabalmente esclarecidas. Era certo que com a mudança política os apoios que o sustentaram esses anos todos, começaram a rarear. Era certo, igualmente, que as ajudas familiares se tornavam insustentáveis devido à falta de rendimentos provenientes das propriedades da esposa, vendidas anteriormente e cujas receitas José Júlio da Costa já há muito tinha desbaratado e, às dificuldades financeiras da restante família. Terá de se entender que tal inciativa terá sido o resultado de um aglomerar de circunstâncias a que o próprio José Júlio da Costa e respectiva família não eram alheios.
          Assim, por ordens superiores ou por iniciativa própria e combinado com os familiares de José Júlio da Costa e com o conhecimento deste, António Maria Fernandes munido de um salvo-conduto que o permitia requisitar as forças da ordem, parte primeiro para Garvão e Algarve e, seguidamente, acompanhado por um irmão de José Júlio da Costa, para o Norte onde viria a efectuar a prisão, segundo a versão da imprensa na altura, ou o resgate, segundo a opinião de alguns familiares que o aconselhavam a entregar-se.
         O jornal O Século de 16 de Janeiro de 1927 relata que: várias pessoas da família o aconselharam a que se entregasse à prisão, e que este se recusava com medo de represálias, tudo leva a crer que, com a mudança política e uma vez dissipadas essas dúvidas, esperaria pela libertação, como parece ser pelo facto de não se ter ausentado do lugar habitual e das características da sua captura.
          Esta acção, planeada dentro do círculo familiar, procurou tranquilizar o fugitivo de que não iria ser preso e alguém seu conhecido e da sua confiança o iria buscar e proteger, acompanhado pelo irmão. Esta nova oportunidade, catapultada pela nova dinâmica política, aliada à saturação dos anos em fuga, (e das dificuldades financeiras), terá sido a força fulcral, aproveitada pela família, para o convencer ou combinarem a sua captura e resolução da sua situação.
         José Júlio da Costa ao ver António Maria Fernandes, quando este o foi “prender” terá exclamado, “obrigado Fernandes por me vires buscar que eu estava farto disto”.
          De facto o seu regresso a Lisboa fez-se sem qualquer das características que caracterizam um preso, falta de algemas, falta de prisão por policiais, limitou-se a acompanhar o captor, convencido em como não estava a ser preso e seria solto ou levado para outro lugar seguro como acreditava.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.


GARVÃO nos PRIMEIROS MAPAS de PORTUGAL


A questão da antiguidade da chamada, “PONTE ROMANA” da Estação de Garvão, nos mapas de Fernando Alvaro Seco e de Pedro Teixeira Albernaz

          A primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental é a carta efectuada por Fernando Álvaro Seco e publicado em Roma em 1561.
          Em 1662, publicava-se em Madrid, a carta de Pedro Teixeira Albernaz, Description del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla...
          Tanto uma carta como outra serviriam de base, às diversas cartas e mapas de Portugal que se publicaram nos séculos seguintes. No inventário das localidades referidas pelo mapa de P. T. ALBERNAZ começaram por manter-se as mesmas áreas que tinham sido definidas no de A. SECO.1 
          As povoações do antigo concelho de Garvão, Garvão e Santa Luzia, aparecem, nos respectivos mapas, com as designações actuais, embora, no caso de Garvão, com alguns erros gráficos, nomeadamente no de A. Seco, em que a vila de Garvão aparece com a designação de GARNÃO.
          Segundo Maria Fernanda Alegria, O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação),2 esta observação de Maria Fernanda Alegria, leva-nos a tecer considerações sobre a antiguidade da chamada “Ponte Romana” da Estação de Garvão.
          Embora esta antiguidade seja discutida; pela falta de estudos que o confirmem; pela existência de um arruamento que atravessava a ribeira nesse local, (diante da Igreja de S. Sebastião); pela construção das edificações que respeitaram esse arruamento, aparece, contudo, no referido mapa, a poente da vila, a sinalização de uma ponte sobre a ribeira de Garvão.
          Nesta altura a vila limitava-se ao Serro do Castelo, não se tinha, ainda, estendido para nascente, para o outro lado da ribeira, assim a sinalização duma ponte, a poente, aponta para a referida ponte na Estação de Garvão, no trajecto da Estrada Real. De notar igualmente que a ponte, em alvenaria, que liga a parte antiga da vila à parte mais recente, (demolida no seguimento das cheias de 1997), é uma construção de meados do século XX. A ribeira que atravessa actualmente a vila, aparece igualmente no referido mapa, sem menção a qualquer ponte.

          Embora com algumas reticências, teremos de enquadrar a localização da ponte, mencionada nos referidos mapas, como a ponte da Estação de Garvão, precisamente onde, não só, a tradição oral, mas igualmente as publicações sobre a matéria, localizam a antiga Estrada Real no caminho de Lisboa para o Algarve.

          Assim a existência de uma ponte neste local, remonta pelo menos ao século XVI, se se trata de uma ponte muito mais antiga, datável ao periodo romano, só a devida intervenção arqueológica o poderá confirmar.


1 Maria Fernanda Alegria, O povoamento a sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206
2 Idem

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 10ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SOLTO na NOITE SANGRENTA
Em 19 de Outubro de 1921
Parte 10 (de 12)

                   José Júlio Costa seria libertado no seguimento dos acontecimentos da noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921.

             Libertado por um grupo de 300 civis armado, ter-se-ão dirigido ao hospital Miguel Bombarda e levado-o para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no norte do país, por um grupo de revolucionários, nomeadamente dois irmãos de nome Brás e outro individuo de nome Alberto Midões, proprietário do hotel Central em Matosinhos.
            Naquela noite fatídica, militares comandados pelo tristemente célebre cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, na chamada “camioneta fantasma”, circula pelas ruas de Lisboa prendendo aqueles que deverão ser mortos. São assassinados, nessa mesma noite, o próprio primeiro-ministro, (ou presidente do ministério como então se dizia), António Granjo e Machado Santos o herói da Rotunda, assim como José Carlos da Maia,1 o coronel Botelho de Vasconcelos e o comandante Freitas da Silva. Outros escaparam à turba assassina porque não foram encontrados.
            Se esta libertação era uma divida que se sarou para os seus antigos camaradas, o mesmo não se poderá dizer dos cabecilhas partidários, os mandantes, os que influenciaram e foram os responsáveis pelo reboliço político em que a Republica se transformou. Os seus acólitos libertaram-no mas foram os dirigentes políticos que proveram para a sua evasão, que proveram os transportes e os respectivos locais de fuga e para o seu sustento esses anos todos.
            Segundo o jornal A Capital,2 o próprio combustível do automóvel que o levou para o Norte foi fornecido pelo comando da polícia, No dia seguinte, conta A Capital, sai de Lisboa num automóvel de um «conhecido revolucionário», sendo a gazolina, queforam quatro latas, fornecida pelo comando da polícia, com a requisição assinada pelo conhecido comissário-geral major Carrão de Oliveira.3 
            Não se julgue contudo que depois desta libertação e nos meses seguintes José Júlio da Costa estava esquecido, pois Rocha Martins continuamente vinha a denunciar tal facto, nomeadamente nos Fantoches nº 48 de 1 de Dezembro de 1923, Neste panfleto tem-se pedido a todos os governos, a prisão do assassino de Sidónio Pais. Claro, que o medo nutrido pelo poder dos democráticos é tanto, que não se faz caso do que se escreve aqui e nos jornais decentes. Exigir a captura de um bandido, do matador de um chefe de Estado, é nobre missão de quem não uiva com os lobos daquele partido de traficâncias e de escandalo.Igualmente no número vinte e um na primeira página descreve os locais por onde tem andado, Os homens do 19 de outubro deliberaram, porém, pôr a salvo o criminoso, dar-lhe a fuga e a protecção. Como se fosse um benemérito, o José Júlio da Costa, exibicionista e excitado, é apageado agora em casa dum magnate republicano, umas vezes no Minho, logo noutra do Douro, amanhã em Traz-os-Montes, sempre de algibeireira cheia – porque mantem quotas para o seu sustento - e mostrando-se como um credor.4 
            A tese de que José Júlio da Costa não passava de um desequilibrado mental, vítima dos seus preconceitos políticos, e que procedera isoladamente, movido por uma doentia tendência de criminoso exibicionista, continua, todavia, a ser muito difícil de sustentar considerando-se a impunidade de que goza, depois do 19 de Outubro.5 


1 - Marta Maia, esposa de José Carlos da Maia, autora de “As minhas entrevistas com a Abel Olimpio “O Dente de Ouro”. Paginas para a historia da morte vil de Carlos da Maia, republicano - combatente de 5 de Outubro”. Publicado em Lisboa em 1928, revelou a identidade dos mandantes dos crimes, apesar dos nomes que avançou e das conclusões a que chegou, o processo judicial nunca foi reaberto ou os responsáveis castigados. Pelo que é referido por Berta Maia, Abel Olímpio teria sido aliciado pelo padre Lima, (ambos de Estevais da Vilariça), e a camioneta teria sido fornecida pelo tenente Mergulhão que juntamente com Fernando de Sousa, do jornal A Voz, mais Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereira e o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos crimes.

2 - Franco e Barriga, 2008. P. 108.

3 - Carrão de Oliveira viria a falecer em circunstâncias estranhas num acidente de automóvel. Em sessão da Câmara dos deputados de 10 de Agosto de 1922, o presidente desta, Domingos Leite Pereira, (dissidente democrático em 1920-21), Propôs à Câmara “Um voto de sentimento pela morte desastrosa do comissário geral de polícia de Lisboa, Sr. Carrão de Oliveira“, o qual foi aprovado, tendo igualmente o deputado Agatão Lança, (democrático), em nome dos Deputados independentes, declarado “Esta morte deu-se em circunstâncias que não estão ainda bem conhecidas. E eu pedia para que fosse bem averiguada a causa da morte, que podia muito bem ser devida a manejos criminosos”, tendo também o deputado João Camoesas, (democrático), declarado, Vindo directamente das camadas populares, e tendo chegado a uma classe muito diferente daquela donde emergira, jamais esquecera essa mesma classe. Ficara filho do povo, sob a sua farda de oficial do exército, e como filho do povo procedeu em todos os momentos de crise para a República, sabendo sempre cumprir o seu dever de republicano In: Diário da Câmara dos Deputados, Sessão 129, de 10 de Agosto de 1922.

4 - Fantoches nº 21 de 25 de Maio de 1923.

5 - Wheeler, 1978, p.50


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 9ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
A PRISÃO - O FALSO RELATÓRIO MÉDICO
Parte 9 (de 12)


          Preso nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, José Júlio da Costa foi brutalmente espancado e torturado durante dias e só o pedido para que o deixassem falar terá salvado a sua vida.
          Contudo se no processo de investigação ao acto de José Júlio da Costa havia forças que procuravam desenvolver o seu trabalho, outras havia que procuravam subverter a justiça e terão contribuído para aumentar a desconfiança no defensor oficial do preso e requerer formalmente um exame pericial sobre o seu estado mental.
          Assim, em Junho de 1920, José Júlio da Costa foi submetido a um exaustivo exame psicológico, por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos que posteriormente daria o seu nome ao Hospital Psiquiátrico de Lisboa, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid, igualmente com uma unidade hospitalar com o seu nome em Coimbra e do psiquiatra Caetano Beirão, um dos fundadores do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda.
          As conclusões desse exame eximem José Júlio da Costa de qualquer perturbação mental que o levasse a cometer o atentado e como tal imputável perante a justiça, segundo o Relatório sobre o estado mental de José Júlio da Costa apresentado pelos mencionados psiquiatras em 10 de Fevereiro de 1921.
          Contudo apesar deste parecer bastante categórico sobre o estado mental do preso e apesar de já ter o julgamento marcado para o dia 31 de Março de 1921, no dia 5 desse mesmo mês e ano, vinte e cinco dias depois da emissão desse relatório médico e vinte e seis dias antes do julgamento, o médico prisional António José Furtado de Mendonça Boavida redige um relatório, para o ministério da Justiça, sobre o estado mental de José Júlio da Costa, no qual, arredado de qualquer investigação médica independente e baseado em pressupostos que entravam em conflito com o relatório médico dos três psiquiatras, pura e simplesmente, recomenda o “internamento deste num manicómio para ser observado por um psiquiatra”, o que levou o Procurador da República, Pais Rovisco, no antigo convento da Boa-Hora, agora convertido em tribunal, a adiar o julgamento indefinitivamente.
          Com que bases Mendonça Boavida faz esta analise?
        Que pressões terão havido para vinte e cinco dias depois da emissão do relatório médico por três conceituados psiquiatras portugueses que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado, fazer um juízo destes? Do que é que o advogado defensor de José Júlio da Costa se apercebeu para requerer um exame mental ao preso? A quem é que interessava que vinte e seis dias antes do julgamento o dessem como inimputável perante a justiça?
         Que forças se movimentavam nos bastidores que não permitiram o seu julgamento e o devido depoimento em tribunal? Porque não foi feito então outro exame psiquiátrico ao preso, antes de o submeter novamente a julgamento, como o próprio Mendonça Boavida sugeria?
          De facto o relatório de Mendonça Boavida se por um lado é bastante perentório sobre o estado mental de José Júlio da Costa, na medida em que tem a palavra final e o surripiou ao julgamento público, por outro lado não deixa de ser ambíguo na decisão que tomou e do exame que faz do preso.
          Contudo acontecimentos posteriores à noite sangrenta e à sua libertação, muito dificilmente esta versão sobre o estado mental de José Júlio da Costa se mantêm. Torna-se de facto insustentável justificar, baseado numa alineação mental, como se manteve fugitivo todos esses anos até à definitiva mudança da situação politica com a instauração do Estado Novo, saído do golpe de 28 de Maio de 1926.
           Quem estaria envolvido? Muitos e muitos eram de facto os interessados ou cúmplices que pactuaram com a tramoia, capazes de subverter instituições que se queriam íntegras e independentes.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


domingo, 28 de outubro de 2018

FRIEDRICH NIETZSCHE




Filósofo

“O que não te mata fortalece-te”

174 anos depois do nascimento de Friedrich Wilhelm Nietzsche e, 118 anos depois da sua morte, continua atual o modelo filósofo que o tornou célebre.  

Nasceu em Rocken, aldeia alemã, agora parte do município de Lutzen, em 15 Outubro de 1844 e faleceu em 25 de agosto de 1900 em Weimer, também na Alemanha,

Distinguiu-se essencialmente como filósofo, mas igualmente como filologista, poeta, compositor, critico cultural e estudos latinos e Gregos, cujos trabalhos tem influenciado profundamente a filosofia ocidental e, por conseguinte, a história moderna.

Apesar do pensamento de Nietzsche ser demasiado complexo para se resumir em poucas linhas, podemos de uma forma concisa, muito básica, explanar as ideias principais do seu pensamento.


O CONCEITO DO SUPER-HOMEM.

Para Nietzsche o homem tem de ultrapassar o medo da morte, tem de deixar de acreditar nas falsas promessas do paraíso ou da vida eterna. O homem não precisa da moralidade religiosa cristã, nem de outros argumentos que negam a ideia da morte. O Super-Homem está em todos nós, não na força física, mas na elucidação intelectual e psicológica.


O ETERNO RETORNO

Quantas vezes nos interrogamos sobre o sentido da vida, especialmente quanto esta se transforma numa rotina diária, sem esperanças, frustrados e com a ideia de que se poderia estar a fazer coisas diferentes. A maneira como encaramos este dilema, a forma como reagimos perante as alternativas, faz-nos questionar a maneira sobre as decisões que tomamos e sobre o rumo que se dá à vida.


A MORTE DE DEUS

Na sua obra O Anticristo, Nietzsche declara que Deus está morto. Tentava assim atacar a falsa moral cristã. Para o filósofo a bondade que os cristãos apregoam, não é mais do que o medo do inferno. Não é uma bondade genuína porque assenta no medo da punição, propagada pela Igreja cristã. A ideia da moral e da ética deve de ser inerente a cada pessoa e não acreditar em castigos divinos, nem no medo do inferno ou na recompensa do paraíso.


O NIILISMO

Talvez o seu pensamento mais conhecido e debatido, o Niilismo é basicamente a descrença total dos valores impostos pela sociedade. Tudo está em questão e nada deve de ser regida em função de nenhum tipo de padrões ou regras. Tudo o que os pais ou a escola nos transmitiram ou ensinaram tem de ser questionado e desacreditado. Só assim, questionando o sentido das coisas, o homem se vê livre de dogmas e responsável em acreditar em si mesmo, criando as suas próprias regras, sem as ameaças de deuses vingativos ou regimes políticos totalitários.

PEDIR OS BOLINHOS

 


No dia de Todos-os-Santos

           Apesar desta tradição ter desaparecido, na grande maioria das terras portuguesas, ainda persiste em certos lugares, nomeadamente na freguesia de Garvão, graças aos esforços de algumas mães da vila e de louvar igualmente o empenho das Educadoras de Infância que procuram manter viva esta tradição, dinamizando as crianças a seu cargo de efetuarem o respetivo peditório, pelas ruas da vila.

             É costume no dia um de novembro, as crianças irem de porta em porta, pelas ruas da vila, com um talego de pano, geralmente feito pelas mães ou avós, a pedirem os bolinhos.

           Raro eram, as famílias, (se algumas), que não acediam a esse pedido, que consistia na maioria das vezes em ofertas em nozes, bolotas, castanhas, amêndoas, figos, rebuçados ou algum bolo que houvesse na altura ou fruta da época.             

             No dia de Todos-os-Santos, era vê-los, a pequenada, de talego, em grupos nas ruas da vila, geralmente de manhã, a baterem de porta em porta a pedirem o bolinho, para muitos era uma oportunidade de comerem alguns figos secos entremeados com amêndoas ou nozes. Era uma festa que a pequenada competia para ver quem recebia mais bolinhos e várias vezes, durante o dia, comparavam o conteúdo dos talegos, para ver o que uns e outros recebiam.

             É uma tradição muito antiga, havendo registos desta prática no século XV, cuja simbologia de partilha e de entreajuda, está bem viva ainda em certas comunidades do interior. Certamente uma reminiscência do culto pré-histórico de lembrar os mortos.

            O conceito de Património Cultural Imaterial, observa-se precisamente no reviver destes hábitos, sem dúvida uma das tradições mais antigas da vila de Garvão. Tradição essa acumulada ao longo de gerações, de facto a herança de uma comunidade, um bem coletivo que deve ser salvaguardado, protegido e divulgado para que continue a ser uma realidade na vila de Garvão e poder ser transmitido às gerações futuras.

domingo, 14 de outubro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 8ª Parte

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

OU MATAVA OU MORRIA 

Parte 8 (de 12)


          José Júlio da Costa terá chegado a Lisboa, acompanhado da esposa e de Caetano Rosa, a nove de Dezembro. Nos dias anteriores ao atentado, a catorze de Dezembro, desenvolve enérgica actividade em vários locais da cidade de Lisboa e arredores, procurando e encetando conversas com conhecidos, comprometidos, ou não, com o que se propunha fazer, incluindo marinheiros e outros militares, mas essencialmente junto dos seus antigos colegas carbonários que por esta altura,  constituíam uma boa parte da guarda pretoriana dos democráticos de Afonso Costa, os chamados Formigas Brancas e que agora viam com apreensão a sua actividade politica na sua terra natal, nomeadamente junto dos círculos sidonistas e junto do administrador da Câmara Municipal de Ourique[1] e igualmente das suas acções junto das forças policiais, durante as perseguições aos trabalhadores agrícolas do Vale de Santiago, pela ocupação de terras, no seguimento da Greve Geral de 18 de Novembro de 1918.[2]

          De facto José Júlio da Costa muito dificilmente conseguiria apaziguar os seus antigos camaradas senão com uma acção dramática que o expurgava de todas as dúvidas o seu cometimento à revolução. Se por um lado na capital, alinhava ao lado dos democráticos de Afonso Costa, pugnando por uma via revolucionária, “Afonso Costa no Governo da República marcou o seu lugar junto dos maiores estadistas estrangeiros e para mim foi ele igual a Sebastião José de Carvalho e Melo, este expulsando os Jesuítas e aquele decepando a Igreja. Os monarquicos não podiam ouvir o nome desse homem, que foi e ainda é o maior de todos os republicanos”.[3] 3 Por outro lado, na sua terra natal, não só fazia parte da elite local ao lado dos ricos proprietários, como encetou uma tenaz perseguição aos trabalhadores revoltados do Vale de Santiago ao lado das forças sidonistas.

          Segundo a carta escrita, por José júlio da Costa, reproduzida por Rocha Martins[4] este relata os sítios onde esteve e com quem falou no próprio dia e antes de cometer o atentado, quando descreve que, “Cheguei assim à toa em frente do quartel de marinheiros”, ou de que se lembrou em, “fazer nesse quartel a revelação da morte do Presidente”, e que ali encontrou um marinheiro e lhe perguntou, “se já lá estava a Marinha”, que lhe revelou o plano e, “fiz que ele chamasse um soldado das colónias para o aliciar”, de que este, “teve também gostosamente notícia da morte do Presidente”, descreve igualmente que convidou o marinheiro a ir com ele afim de, “prevenir no Arsenal alguns fixes”, onde o, “marinheiro perguntou pelo sargento Almeida”, que não se encontrava e com o qual José Júlio da Costa queria falar para ver o grau moral da Marinha, pedindo então que lhe trouxessem, “um marinheiro bom republicano” os quais foram jantar no restaurante Silva do Chiado, onde, durante o jantar, foi dando instruções de combate e, “que fossem logo desmontando algumas peças que não fizessem falta a bordo dos navios”, e que igualmente, “os barcos se pusessem abrigados ou fora do alcance da artilharia da terra”, instruiu também, “Que tomassem o Parque Eduardo VII com as peças de grosso calibre e metralhadoras”.

          Ora, muito dificilmente José Júlio da Costa passa a ideia da ocasionalidade desses encontros, ou da falta de concertação, entre alguns sectores da vida politica nacional que planeavam a eliminação física de Sidónio Pais.

          De facto não seria agora um simples marujo encontrado ocasionalmente à porta do quartel dos marinheiros que iria desmontar as peças de guerra a bordo dos navios ou que pusesse os barcos abrigados e fora do alcance da artilharia e muito menos que tomasse o Parque Eduardo VII, (a Rotunda das revoluções), com peças de grosso calibre e metralhadoras.

          Ou havia de facto um planeamento insurrecional que o seu gesto despoletaria, ou de facto José Júlio da Costa foi ludibriado da iminência duma revolução e por quem interessava a morte de Sidónio. Estaria certamente convencido disso e as pessoas que procurou, mais do que meros acasos, seriam de facto, ou seus conhecidos, ou figuras lançadas para o confundir, (com ou sem conhecimento dos próprios), por quem nos bastidores urdia o drama e fariam parte dessa tramoia que o afastou da realidade e o levou a cometer o atentado.


[1] O Administrador da Câmara Municipal de Ourique, era, por esta altura, Ricardo Ayres D´Oliveira que em secção do executivo camarário propõe em 22 de Dezembro de 1918, que seja dado à Praça D. Dinis, na parte nobre da vila, o nome de Praça Sidónio Pais. Contudo em acta do mesmo executivo, datada de 5 de Fevereiro de 1919, Ricardo Ayres D´Oliveira é exonerado do cargo de administrador do concelho por decreto do Governador Civil de Beja, nessa mesma reunião é igualmente proposto ser dado à Praça D. Dinis o nome de Praça da República, em clara oposição ás aspirações de Ricardo Ayres D´Oliveira. Assistia-se assim à limpeza dos cargos públicos dos últimos sidonistas. Ricardo Aires de Oliveira, seria novamente, em 1937, Presidente da Comissão Administrativa do Concelho de Ourique empossado em plena ditadura do Estado Novo. Esta passagem de elementos Sidonistas para a ditadura Salazarista, como se observou, não se limitava somente à capital ou ao governo, observava-se igualmente nestes concelhos do interior do país.


[2] “José Júlio da Costa pertencia ao partido democrático, portanto adversário do Sidónio; mas na questão da greve agiu como lavrador, como defensor do capitalismo, sem noção dos interesses partidários e sem consulta aos superiores hierárquicos do partido. O certo é que, depois desta saída à frente da força da G.N.R. não mais voltou a Garvão. A greve teve início em 18 de Novembro; esta acção da guarda republicana sobre os rurais do Vale de Santiago, já foi depois do dia 20. Diz-se (dizia-se) que José Júlio seguira para Beja, capital do distrito e ali os chefes distritais do partido tê-lo-iam posto ao facto da situação, possivelmente admoestando-o do trabalho prestado ao ditador Sidónio Pais, pelo que tomou o rumo de Lisboa e em 5 de Dezembro cometeu o atentado. Há quem diga que essa acção foi ordenada pela maçonaria, mas eu, mais não sei do que estou a contar.” In: Sequeira. Lisboa. 1978. P. 24

3] Rocha Martins, 2008, p. 389.

[4] Rocha Martins, 2008, p. 388 e seguintes


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018


 

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