terça-feira, 11 de dezembro de 2018

PEDRA à ESQUINA da LOJA do SR ZÉ CONDUTO

 



 

Em forma de mó
          A Coluna “Romana” que se encontra na travessa do Álamo, não constitui o único vestigio de interesse arqueológico que se encontra nas ruas da vila, tempos houve em que outra coluna se encontrava na rua das hortas, pedras de cabeceira de sepulturas nos quintais junto ao castelo, pedra mármore junto ao cemitério velho, outra pedra mármore num quintal da travessa do Álamo, entre outras como a que a seguir se relata.
          Junto à porta da loja do Sr Conduto, loja de roupas e chapelaria nos anos sessenta do século passado, na rua Direita, à esquina da ladeira que dá para a ribeira, estava uma pedra redonda em forma de mó, de grandes dimensões, branca, possivelmente de calcário ou de mármore.
          As suas dimensões não correspondem ao tamanho das pedras de mó conhecidas, demasiado larga, alta e pesada para tal função, terá de se procurar a sua utilização noutra actividade.
          Desconhece-se igualmente quanto tempo lá esteve ou quem para lá a levou. Terá sido descoberta no local onde se procedeu posteriormente à construção que lá se observa? Terá sido para lá levada para ser partida e utilizada na própria construção? Terá vindo de algum outro lugar, mesmo de algum lagar antigo, como o lagar de azeite que se encontrava no Largo do Lagar? (hoje Largo da Amoreira). São questões que obviamente se desconhece e sem ser devidamente examinada também se desconhece o seu valor patrimonial e histórico.
          A pedra foi eventualmente deslocada, ladeira abaixo e hoje encontra-se incorporada na parte lateral da ribeira, a nascente, entre a actual ponte pedonal e a última casa do lado esquerdo.

sábado, 8 de dezembro de 2018

JUDEUS em GARVÃO

Guedelhas e Levis
          A menção a uma comunidade judia em Garvão remonta ao princípio da nacionalidade e segundo Mayer Kayserling, esta presença era mesmo anterior à reconquista, pois na sua História dos judeus em Portugal, do século XIX, menciona que D. Afonso III e D. Diniz nos foros que concederam ás terras arrebatadas aos Mouros após a conquista do Algarve, não excluiram os Judeus e as terras onde viviam em grande número como em Garvão. Volta a mencionar, no mesmo livro, que a comunidade de judeus em Garvão se encontrava entre as mais importantes do reino.
         Pela sua afluência à feira de Garvão ou pelas suas andanças pela Estrada Real do Algarve,  mantiveram-se, como comunidade ciente da sua origem, até praticamenteo ao século XX, havendo conhecimento actualmente de descendentes destas famílias ainda a residir na vila de Garvão.
          A Carta de Foral de Garvão de 1267, menciona, em várias cláusulas, leis referentes aos judeus, nomeadamente os que se dedicavam ao empréstimos de dinheiro, Os Onzeneyros.
         A família Guedelha, era uma família muito antiga de Judeus em Portugal. Em 1304 D. Dinis concedeu a D. Guedelha, sucessor de seu pai no Arrabiado-Mor do reino e tesoureiro da rainha mãe D. Brites, 2 torres em Beja para que fizesse casas. Outros elementos da família Guedelha distinguiram-se, também, em várias áreas e em várias épocas ao serviço dos reis de Portugal.
          Surge igualmente, num livro da Santa casa da Misericórdia da vila de Garvão, um indivíduo de nome Gadelha, a partir do ano de 1769, de nome completo Manuel Guerreiro Gadelha morador no Monte Zuzarte. Ainda residem em Garvão, familiares de um indivíduo chamado João Gadelha falecido por volta de 1930.
          Sobre a presença de famílias de nome Levi em Garvão, chegou-nos a informação(1) de um Levi José Camacho, filho de José Camacho e de Luísa Maria Botelha, (casaram em 1814), casado com Isabel Maria que foram pais de João Levi Camacho, de São Martinho das Amoreiras, que casou com Leonor Malveiro, de Garvão. Tiveram dois filhos, uma filha de nome Maria cujo padrinho foi Manuel Levi Camacho, (possívelmente irmão de João Levi Camacho), e um filho de nome Beijamim. Descendentes da famíia Camacho ainda residem em Garvão
          Levi José Camacho foi ainda padrinho de Constança, nascida a 2/3/1895, filha de Margarida Malveiro e de outro individuo de nome Levi, filho de Mariana Candeias, nascido pela mesma altura.
          Tanto os nomes de família Guedelha, Levi e Benjamim são comprovadamente de origem hebraica.
         Gedalia, Gedaliah ou Gedaliahu significa "Deus é grande". Na Torá, Gedaliah foi o governador da Judéia, designado por Nabucodonosor.
         Levi, significa "reunido a", ou "atendente de" com a conotação de devoção, amizade. Levi na Torá era o terceiro dos doze filhos de Yaacov. A mãe era Leah. Os descendentes de Levi eram os sacerdotes e levitas que serviam no Templo de Jerusalém.
         Benjamim, significa "filho de minha mão direita", com a conotação de força. Benjamin era o mais jovem dos doze filhos de Yaacov na Torá.


1 - Cortesia de Beatriz Rodrigues

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 11ª Parte


CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SEGUNDA PRISÃO
Ou o Resgate em 1927
Parte 11 (de 12)

              José Júlio da Costa só em 14 de Janeiro de 1927, sexta-feira, volta a ser preso, em Matosinhos, no hotel Central, onde se encontrava protegido pelo proprietário Alberto Midões, em circunstâncias ainda não plenamente esclarecidas, por António Maria Fernandes, funcionário público, apoiante de Sidónio Pais e sidonista convicto. José Júlio da Costa volta à Penitenciária de Lisboa de onde só sairá para o hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, aonde viria a falecer em 28 de janeiro de 1948.

          António Maria Fernandes não seria um obscuro funcionário público, como os jornais da época fizeram crer, seria um dos muitos que Sidónio Pais aliciou para as suas fileiras, nomeadamente para a sua Policia Preventiva. O seu percurso coloca-o no meio dos círculos revolucionários que agitavam o país antes de Sidónio, de facto António Maria Fernandes era conhecido de José Júlio da Costa e andaram pelos mesmos círculos do desassossego politico.
          O jornal “O Século”, de 16 de Janeiro de 1927, relata “O senhor António Maria Fernandes, funcionário público, é aquele indivíduo que, na noite de 19 de Julho de 1925, fardado de capitão, subiu para bordo do “Vasco da Gama”, acompanhando o comandante Mendes Cabeçadas, a fim de revoltar a guarnição daquele barco”. Ora não será um reles funcionário publico que tem acesso directo ao ministro, nem muito menos veste a farda de capitão e subleva a tripulação dum navio com o futuro primeiro-ministro, (Presidente do Ministério).
          A sua actuação só se compreende dentro dum quadro politico em que alguns membros dos grupos de civis armados ao serviço dos partidos, inclusivamente da carbonária e da Formiga Branca, tenham feito a passagem, como muitos outros, para a nova policia politica.
          As circunstâncias da iniciativa de tal prisão, não estão cabalmente esclarecidas. Era certo que com a mudança política os apoios que o sustentaram esses anos todos, começaram a rarear. Era certo, igualmente, que as ajudas familiares se tornavam insustentáveis devido à falta de rendimentos provenientes das propriedades da esposa, vendidas anteriormente e cujas receitas José Júlio da Costa já há muito tinha desbaratado e, às dificuldades financeiras da restante família. Terá de se entender que tal inciativa terá sido o resultado de um aglomerar de circunstâncias a que o próprio José Júlio da Costa e respectiva família não eram alheios.
          Assim, por ordens superiores ou por iniciativa própria e combinado com os familiares de José Júlio da Costa e com o conhecimento deste, António Maria Fernandes munido de um salvo-conduto que o permitia requisitar as forças da ordem, parte primeiro para Garvão e Algarve e, seguidamente, acompanhado por um irmão de José Júlio da Costa, para o Norte onde viria a efectuar a prisão, segundo a versão da imprensa na altura, ou o resgate, segundo a opinião de alguns familiares que o aconselhavam a entregar-se.
         O jornal O Século de 16 de Janeiro de 1927 relata que: várias pessoas da família o aconselharam a que se entregasse à prisão, e que este se recusava com medo de represálias, tudo leva a crer que, com a mudança política e uma vez dissipadas essas dúvidas, esperaria pela libertação, como parece ser pelo facto de não se ter ausentado do lugar habitual e das características da sua captura.
          Esta acção, planeada dentro do círculo familiar, procurou tranquilizar o fugitivo de que não iria ser preso e alguém seu conhecido e da sua confiança o iria buscar e proteger, acompanhado pelo irmão. Esta nova oportunidade, catapultada pela nova dinâmica política, aliada à saturação dos anos em fuga, (e das dificuldades financeiras), terá sido a força fulcral, aproveitada pela família, para o convencer ou combinarem a sua captura e resolução da sua situação.
         José Júlio da Costa ao ver António Maria Fernandes, quando este o foi “prender” terá exclamado, “obrigado Fernandes por me vires buscar que eu estava farto disto”.
          De facto o seu regresso a Lisboa fez-se sem qualquer das características que caracterizam um preso, falta de algemas, falta de prisão por policiais, limitou-se a acompanhar o captor, convencido em como não estava a ser preso e seria solto ou levado para outro lugar seguro como acreditava.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.


GARVÃO nos PRIMEIROS MAPAS de PORTUGAL


A questão da antiguidade da chamada, “PONTE ROMANA” da Estação de Garvão, nos mapas de Fernando Alvaro Seco e de Pedro Teixeira Albernaz

          A primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental é a carta efectuada por Fernando Álvaro Seco e publicado em Roma em 1561.
          Em 1662, publicava-se em Madrid, a carta de Pedro Teixeira Albernaz, Description del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla...
          Tanto uma carta como outra serviriam de base, às diversas cartas e mapas de Portugal que se publicaram nos séculos seguintes. No inventário das localidades referidas pelo mapa de P. T. ALBERNAZ começaram por manter-se as mesmas áreas que tinham sido definidas no de A. SECO.1 
          As povoações do antigo concelho de Garvão, Garvão e Santa Luzia, aparecem, nos respectivos mapas, com as designações actuais, embora, no caso de Garvão, com alguns erros gráficos, nomeadamente no de A. Seco, em que a vila de Garvão aparece com a designação de GARNÃO.
          Segundo Maria Fernanda Alegria, O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação),2 esta observação de Maria Fernanda Alegria, leva-nos a tecer considerações sobre a antiguidade da chamada “Ponte Romana” da Estação de Garvão.
          Embora esta antiguidade seja discutida; pela falta de estudos que o confirmem; pela existência de um arruamento que atravessava a ribeira nesse local, (diante da Igreja de S. Sebastião); pela construção das edificações que respeitaram esse arruamento, aparece, contudo, no referido mapa, a poente da vila, a sinalização de uma ponte sobre a ribeira de Garvão.
          Nesta altura a vila limitava-se ao Serro do Castelo, não se tinha, ainda, estendido para nascente, para o outro lado da ribeira, assim a sinalização duma ponte, a poente, aponta para a referida ponte na Estação de Garvão, no trajecto da Estrada Real. De notar igualmente que a ponte, em alvenaria, que liga a parte antiga da vila à parte mais recente, (demolida no seguimento das cheias de 1997), é uma construção de meados do século XX. A ribeira que atravessa actualmente a vila, aparece igualmente no referido mapa, sem menção a qualquer ponte.

          Embora com algumas reticências, teremos de enquadrar a localização da ponte, mencionada nos referidos mapas, como a ponte da Estação de Garvão, precisamente onde, não só, a tradição oral, mas igualmente as publicações sobre a matéria, localizam a antiga Estrada Real no caminho de Lisboa para o Algarve.

          Assim a existência de uma ponte neste local, remonta pelo menos ao século XVI, se se trata de uma ponte muito mais antiga, datável ao periodo romano, só a devida intervenção arqueológica o poderá confirmar.


1 Maria Fernanda Alegria, O povoamento a sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206
2 Idem

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 10ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SOLTO na NOITE SANGRENTA
Em 19 de Outubro de 1921
Parte 10 (de 12)

                   José Júlio Costa seria libertado no seguimento dos acontecimentos da noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921.

             Libertado por um grupo de 300 civis armado, ter-se-ão dirigido ao hospital Miguel Bombarda e levado-o para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no norte do país, por um grupo de revolucionários, nomeadamente dois irmãos de nome Brás e outro individuo de nome Alberto Midões, proprietário do hotel Central em Matosinhos.
            Naquela noite fatídica, militares comandados pelo tristemente célebre cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, na chamada “camioneta fantasma”, circula pelas ruas de Lisboa prendendo aqueles que deverão ser mortos. São assassinados, nessa mesma noite, o próprio primeiro-ministro, (ou presidente do ministério como então se dizia), António Granjo e Machado Santos o herói da Rotunda, assim como José Carlos da Maia,1 o coronel Botelho de Vasconcelos e o comandante Freitas da Silva. Outros escaparam à turba assassina porque não foram encontrados.
            Se esta libertação era uma divida que se sarou para os seus antigos camaradas, o mesmo não se poderá dizer dos cabecilhas partidários, os mandantes, os que influenciaram e foram os responsáveis pelo reboliço político em que a Republica se transformou. Os seus acólitos libertaram-no mas foram os dirigentes políticos que proveram para a sua evasão, que proveram os transportes e os respectivos locais de fuga e para o seu sustento esses anos todos.
            Segundo o jornal A Capital,2 o próprio combustível do automóvel que o levou para o Norte foi fornecido pelo comando da polícia, No dia seguinte, conta A Capital, sai de Lisboa num automóvel de um «conhecido revolucionário», sendo a gazolina, queforam quatro latas, fornecida pelo comando da polícia, com a requisição assinada pelo conhecido comissário-geral major Carrão de Oliveira.3 
            Não se julgue contudo que depois desta libertação e nos meses seguintes José Júlio da Costa estava esquecido, pois Rocha Martins continuamente vinha a denunciar tal facto, nomeadamente nos Fantoches nº 48 de 1 de Dezembro de 1923, Neste panfleto tem-se pedido a todos os governos, a prisão do assassino de Sidónio Pais. Claro, que o medo nutrido pelo poder dos democráticos é tanto, que não se faz caso do que se escreve aqui e nos jornais decentes. Exigir a captura de um bandido, do matador de um chefe de Estado, é nobre missão de quem não uiva com os lobos daquele partido de traficâncias e de escandalo.Igualmente no número vinte e um na primeira página descreve os locais por onde tem andado, Os homens do 19 de outubro deliberaram, porém, pôr a salvo o criminoso, dar-lhe a fuga e a protecção. Como se fosse um benemérito, o José Júlio da Costa, exibicionista e excitado, é apageado agora em casa dum magnate republicano, umas vezes no Minho, logo noutra do Douro, amanhã em Traz-os-Montes, sempre de algibeireira cheia – porque mantem quotas para o seu sustento - e mostrando-se como um credor.4 
            A tese de que José Júlio da Costa não passava de um desequilibrado mental, vítima dos seus preconceitos políticos, e que procedera isoladamente, movido por uma doentia tendência de criminoso exibicionista, continua, todavia, a ser muito difícil de sustentar considerando-se a impunidade de que goza, depois do 19 de Outubro.5 


1 - Marta Maia, esposa de José Carlos da Maia, autora de “As minhas entrevistas com a Abel Olimpio “O Dente de Ouro”. Paginas para a historia da morte vil de Carlos da Maia, republicano - combatente de 5 de Outubro”. Publicado em Lisboa em 1928, revelou a identidade dos mandantes dos crimes, apesar dos nomes que avançou e das conclusões a que chegou, o processo judicial nunca foi reaberto ou os responsáveis castigados. Pelo que é referido por Berta Maia, Abel Olímpio teria sido aliciado pelo padre Lima, (ambos de Estevais da Vilariça), e a camioneta teria sido fornecida pelo tenente Mergulhão que juntamente com Fernando de Sousa, do jornal A Voz, mais Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereira e o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos crimes.

2 - Franco e Barriga, 2008. P. 108.

3 - Carrão de Oliveira viria a falecer em circunstâncias estranhas num acidente de automóvel. Em sessão da Câmara dos deputados de 10 de Agosto de 1922, o presidente desta, Domingos Leite Pereira, (dissidente democrático em 1920-21), Propôs à Câmara “Um voto de sentimento pela morte desastrosa do comissário geral de polícia de Lisboa, Sr. Carrão de Oliveira“, o qual foi aprovado, tendo igualmente o deputado Agatão Lança, (democrático), em nome dos Deputados independentes, declarado “Esta morte deu-se em circunstâncias que não estão ainda bem conhecidas. E eu pedia para que fosse bem averiguada a causa da morte, que podia muito bem ser devida a manejos criminosos”, tendo também o deputado João Camoesas, (democrático), declarado, Vindo directamente das camadas populares, e tendo chegado a uma classe muito diferente daquela donde emergira, jamais esquecera essa mesma classe. Ficara filho do povo, sob a sua farda de oficial do exército, e como filho do povo procedeu em todos os momentos de crise para a República, sabendo sempre cumprir o seu dever de republicano In: Diário da Câmara dos Deputados, Sessão 129, de 10 de Agosto de 1922.

4 - Fantoches nº 21 de 25 de Maio de 1923.

5 - Wheeler, 1978, p.50


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

JOSÉ JÚLIO da COSTA - 9ª Parte

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
A PRISÃO - O FALSO RELATÓRIO MÉDICO
Parte 9 (de 12)


          Preso nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, José Júlio da Costa foi brutalmente espancado e torturado durante dias e só o pedido para que o deixassem falar terá salvado a sua vida.
          Contudo se no processo de investigação ao acto de José Júlio da Costa havia forças que procuravam desenvolver o seu trabalho, outras havia que procuravam subverter a justiça e terão contribuído para aumentar a desconfiança no defensor oficial do preso e requerer formalmente um exame pericial sobre o seu estado mental.
          Assim, em Junho de 1920, José Júlio da Costa foi submetido a um exaustivo exame psicológico, por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos que posteriormente daria o seu nome ao Hospital Psiquiátrico de Lisboa, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid, igualmente com uma unidade hospitalar com o seu nome em Coimbra e do psiquiatra Caetano Beirão, um dos fundadores do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda.
          As conclusões desse exame eximem José Júlio da Costa de qualquer perturbação mental que o levasse a cometer o atentado e como tal imputável perante a justiça, segundo o Relatório sobre o estado mental de José Júlio da Costa apresentado pelos mencionados psiquiatras em 10 de Fevereiro de 1921.
          Contudo apesar deste parecer bastante categórico sobre o estado mental do preso e apesar de já ter o julgamento marcado para o dia 31 de Março de 1921, no dia 5 desse mesmo mês e ano, vinte e cinco dias depois da emissão desse relatório médico e vinte e seis dias antes do julgamento, o médico prisional António José Furtado de Mendonça Boavida redige um relatório, para o ministério da Justiça, sobre o estado mental de José Júlio da Costa, no qual, arredado de qualquer investigação médica independente e baseado em pressupostos que entravam em conflito com o relatório médico dos três psiquiatras, pura e simplesmente, recomenda o “internamento deste num manicómio para ser observado por um psiquiatra”, o que levou o Procurador da República, Pais Rovisco, no antigo convento da Boa-Hora, agora convertido em tribunal, a adiar o julgamento indefinitivamente.
          Com que bases Mendonça Boavida faz esta analise?
        Que pressões terão havido para vinte e cinco dias depois da emissão do relatório médico por três conceituados psiquiatras portugueses que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado, fazer um juízo destes? Do que é que o advogado defensor de José Júlio da Costa se apercebeu para requerer um exame mental ao preso? A quem é que interessava que vinte e seis dias antes do julgamento o dessem como inimputável perante a justiça?
         Que forças se movimentavam nos bastidores que não permitiram o seu julgamento e o devido depoimento em tribunal? Porque não foi feito então outro exame psiquiátrico ao preso, antes de o submeter novamente a julgamento, como o próprio Mendonça Boavida sugeria?
          De facto o relatório de Mendonça Boavida se por um lado é bastante perentório sobre o estado mental de José Júlio da Costa, na medida em que tem a palavra final e o surripiou ao julgamento público, por outro lado não deixa de ser ambíguo na decisão que tomou e do exame que faz do preso.
          Contudo acontecimentos posteriores à noite sangrenta e à sua libertação, muito dificilmente esta versão sobre o estado mental de José Júlio da Costa se mantêm. Torna-se de facto insustentável justificar, baseado numa alineação mental, como se manteve fugitivo todos esses anos até à definitiva mudança da situação politica com a instauração do Estado Novo, saído do golpe de 28 de Maio de 1926.
           Quem estaria envolvido? Muitos e muitos eram de facto os interessados ou cúmplices que pactuaram com a tramoia, capazes de subverter instituições que se queriam íntegras e independentes.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 


domingo, 28 de outubro de 2018

FRIEDRICH NIETZSCHE




Filósofo

“O que não te mata fortalece-te”

174 anos depois do nascimento de Friedrich Wilhelm Nietzsche e, 118 anos depois da sua morte, continua atual o modelo filósofo que o tornou célebre.  

Nasceu em Rocken, aldeia alemã, agora parte do município de Lutzen, em 15 Outubro de 1844 e faleceu em 25 de agosto de 1900 em Weimer, também na Alemanha,

Distinguiu-se essencialmente como filósofo, mas igualmente como filologista, poeta, compositor, critico cultural e estudos latinos e Gregos, cujos trabalhos tem influenciado profundamente a filosofia ocidental e, por conseguinte, a história moderna.

Apesar do pensamento de Nietzsche ser demasiado complexo para se resumir em poucas linhas, podemos de uma forma concisa, muito básica, explanar as ideias principais do seu pensamento.


O CONCEITO DO SUPER-HOMEM.

Para Nietzsche o homem tem de ultrapassar o medo da morte, tem de deixar de acreditar nas falsas promessas do paraíso ou da vida eterna. O homem não precisa da moralidade religiosa cristã, nem de outros argumentos que negam a ideia da morte. O Super-Homem está em todos nós, não na força física, mas na elucidação intelectual e psicológica.


O ETERNO RETORNO

Quantas vezes nos interrogamos sobre o sentido da vida, especialmente quanto esta se transforma numa rotina diária, sem esperanças, frustrados e com a ideia de que se poderia estar a fazer coisas diferentes. A maneira como encaramos este dilema, a forma como reagimos perante as alternativas, faz-nos questionar a maneira sobre as decisões que tomamos e sobre o rumo que se dá à vida.


A MORTE DE DEUS

Na sua obra O Anticristo, Nietzsche declara que Deus está morto. Tentava assim atacar a falsa moral cristã. Para o filósofo a bondade que os cristãos apregoam, não é mais do que o medo do inferno. Não é uma bondade genuína porque assenta no medo da punição, propagada pela Igreja cristã. A ideia da moral e da ética deve de ser inerente a cada pessoa e não acreditar em castigos divinos, nem no medo do inferno ou na recompensa do paraíso.


O NIILISMO

Talvez o seu pensamento mais conhecido e debatido, o Niilismo é basicamente a descrença total dos valores impostos pela sociedade. Tudo está em questão e nada deve de ser regida em função de nenhum tipo de padrões ou regras. Tudo o que os pais ou a escola nos transmitiram ou ensinaram tem de ser questionado e desacreditado. Só assim, questionando o sentido das coisas, o homem se vê livre de dogmas e responsável em acreditar em si mesmo, criando as suas próprias regras, sem as ameaças de deuses vingativos ou regimes políticos totalitários.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...