domingo, 1 de março de 2020

A PONTE da ESTAÇÃO de GARVÃO










Siglas de Canteiro

          A ponte da Estação de Garvão, sobre a ribeira que vem da Aldeia das Amoreiras e de São Martinho, terá sido uma das mais importantes pontes da região, relevância que está directamente relacionada com a sua posição interior no território, no trajecto da antiga Estrada Real do Algarve e numa zona de transição da planície para a serra.
           Apesar da sua origem ser desconhecida, teremos de a contextualizar numa zona onde abundam os vestígios arqueológicos de várias épocas e onde, como se referiu, no caminho Norte/Sul. Terá sido objecto de beneficiação senão em épocas mais remotas, pelo menos em cronologias mais próximas.
           Sobre a antiguidade desta ponte, já foi mencionado, em artigo anterior,1 a sua possível identificação com a ponte referenciada na primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental, por Fernando Álvaro Seco, publicado em Roma em 1561.
          Segundo Maria Fernanda Alegria,2 O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação).
            A povoação de Garvão, no referido mapa, surge entre dois cursos de água e apresenta na ribeira a poente uma ponte, a localização desta ponte a poente da vila, aponta para a ribeira da Estação de Garvão, precisamente no antigo trajecto da Estrada Real e onde se situa a ponte em questão.
           Numa fotografia que se encontra afixada no salão nobre da Casa do Povo de Garvão, apesar de não ter data, presume-se que seja de finais da década de 1930 ou princípios da década de 1940, à semelhança das restantes fotos expostas e posterior à fundação das Casas do Povo nacionais pelo Decreto-Lei n.º 23 051 de 23 de Setembro de 1933, consta a legenda, A ponte sobre a Ribeira de Garvão-Amoreiras ao ser concluída, obra em cimento armado feita pela Casa do Povo local. Mostra um trabalhador, de costas, na parte superior da ponte em finais de construção, nomeadamente os passeios pedonais e respectivos balaústres laterais dos parapeitos, de facto construidos em cimento e presume-se armado, contudo as bases da ponte não são construidos no mesmo material, mas em pedra talhada.
         Segundo a tradição oral, nomeadamente a informação dada por Francisco Zacarias, (último Regedor de Garvão), a mencionada fotografia mostra obras de alargamento do tabuleiro para incluir passeios para a circulação pedonal, sobre uma ponte existente e cujo tabuleiro, estava degradado e a precisar de reparos.
          Numa observação à parte inferior da ponte, constata-se de facto a sobreposição, sobre uma ponte existente, dos suportes em “cimento armado” sobre os quais assentam os passeios pedonais. Pelo contrário, nas suas bases e pilares, nota-se que na construção dessas bases se empregou pedra lavrada em formato quadrangular no revestimento dos arcos, com as respectivas siglas de canteiro que se observam nos silhares, desde a sua base até aos que encerram os vários arcos.
            A existência destas siglas de canteiro, (das quais se reproduzem alguns exemplos), utilizadas principalmente durante a Idade Média, (entre os séculos V e XV) e a Renascença, (aproximadamente entre meados do século XIV e o fim do século XVI), sendo facilmente identificáveis em castelos, igrejas, palácios e pontes entre outras obras, serviam para identificar o autor da pedra talhada e este receber o devido pagamento, já que o trabalho era pago à peça e não ao dia, leva-nos a descartar uma fundação romana, nem se nota, nas suas bases qualquer reaproveitamento ou vestígios de fundações anteriores e sobre as quais, posteriormente teriam sido edificados os presentes pilares. (o ligeiro desalinhamento que se observa na base do pilar a Norte, não justifica uma interpretação diferente).
           Por outro lado, está ausente, igualmente, outros aspectos construtivos e opções arquitectónicas que caracterizam a construção de pontes romanas, nomeadamente os grandes silhares de aparelho almofadado e as habituais marcas de forceps, assim como esta ponte apresenta aspectos construtivos, pouco consentâneos com a tecnologia e arquitectura das pontes romanas, como, por exemplo, o tabuleiro pouco espesso, (não incluindo os mencionados passeios pedonais) e em cavalete, o grande vão dos arcos e a pequena dimensão dos silhares.
           As mencionadas siglas de canteiro, (a relação entre as marcas dos canteiros, ou dos pedreiros e a Maçonaria é outro assunto que se tentará tratar noutro artigo), em comparação com outras e a existência, até à actualidade, de um arruamento, diante da Igreja de São Sebastião e que atravessava a ribeira, possivelmente antes da construção da ponte, leva-nos a considerar a sua origem medieval ou pós-medieval, até que surja alguma informação mais precisa sobre a data da sua construção.
          Estruturalmente, compõe-se de três arcos de volta perfeita, com o arco central de maior amplitude composto por grandes e regulares silhares bem aparelhados e por aduelas de talhe perfeito, apresenta igualmente talhamares triangulares. Apesar da sua antiguidade e da coerência material das suas partes constituintes, não foi ainda objecto de um estudo integral, ou de um levantamento gráfico da estrutura que permita avaliar de forma concisa a sua antiguidade.


       2)  Maria Fernanda Alegria, O povoamento a Sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

BRASÃO em PANO EMOLDURADO



VILA DE GARVÃO

          Cópia do Brasão, bordado em tecido, que existia nas instalações da junta de Freguesia de Garvão até 2009, quando foi retirado do quadro que o protegia e deixou de estar exposto, pelo presidente da Junta de Freguesia em final de mandato.
          A antiguidade desde brasão é aparente pela ligeira degradação que apresenta, contudo, sem o devido estudo, é difícil precisar a data da confecção deste bordado, todavia o vocábulo Vila, aparece somente com uma consoante “L”, o que aponta para uma escrita posterior à reforma ortográfica de 1911, pois uma das alterações dessa reforma foi precisamente a redução das consoantes dobradas a singelas, (com exceção de rr e ss e alguns casos pontuais),
          A data da confecção deste brasão, aponta assim para um período posterior à introdução desta reforma em 1911, cujos princípios já estavam propostos nas Bases da Ortografia Portuguesa, de 1885. Pouco mais se poderá acrescentar sobre este brasão bordado em tela de pano. Sem a peça em si para se proceder a uma mais minuciosa análise é impossível chegar a outras conclusões, a não ser, mais uma vez, lamentar a falta de sentido de responsabilidade cultural de quem lhe deu sumiço, sem, julga-se, qualquer contrapartida ou razão para tal acto.
          Tratava-se de um bordado, em razoável bom estado de conservação, com as dimensões, (de memória), aproximadas de 60 a 80 cm de altura por 40 a 50 cm de largura, onde sobressaía a cor vermelha e dourada, bordados sobre o fundo de pano branco. O escudo apresentava-se em prateado, sobre o qual sobressaiam duas cruzes de Santiago laterais superiores e o sobreiro, ao centro, com o tronco preto e a copa dourada. A ladear este bordado apresentava-se um cordão dourado com duas borlas que o atravessava numa posição pendente desde os cantos superiores direito e esquerdo. Apresentava igualmente na parte superior e inferior do bordado uma lista cadilhada ou esfiada, dourada a toda a largura do bordado.
          Este Brasão, bordado e emoldurado, assim como cerca de vinte livros antigos dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX, encontravam-se nas instalações da Junta de Freguesia, cujo executivo em finais de mandato, como já se afirmou, deu sumiço em 2009.
          Os novos executivos da Junta e da Assembleia, apesar de devidamente alertados sobre o desaparecimento destes livros e do brasão, nada fizeram para a recuperação desse espólio, ou pelo menos em saber o que lhes tinha acontecido.
             Torna-se difícil fazer uma avaliação dos vários responsáveis da Junta e da Assembleia de Freguesia, sem cairmos no banal e no ridículo. Se para uns, despreocupados com estas coisas do património, têm tido uma actuação aceitável, para outros, mais sensibilizados com a história e o património desta terra, não podem deixar de se sentir incomodados com a constante falta de sentido e responsabilidade pelo património desta terra que se reflete precisamente, na incúria e desleixo no tratamento destes espólios, não só bibliográficos mas igualmente materializados nos vários vestígios arqueológicos da freguesia.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

SRª DA COLA



A Pedra Escorregadia e o Pego do Sino
Culto Pré-Cristão Cristianizado


           Segundo o historiador José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006, sobre Ourique e no qual menciona a Senhora da Cola, menciona que este culto e devoção, seriam as reminiscências de um culto pré-histórico, praticado pela população local, que deveria ser numerosa na altura, tendo em conta os povoados, necrópoles, antas e outros testemunhos desse passado, que têm sido encontrados na região.


Havia aqui uma tradição muito antiga, um culto, um culto que vinha não se sabe de quando, mas que na fase cristã era um culto da mãe, da mãe. Um culto de Nossa Senhora aqui do Castro da Cola, é claro, era a Senhora da Cola, e as mulheres que queriam ser mães, vinham aqui numa peregrinação, continuam a vir, é em Setembro, e são romarias de milhares e milhares de mulheres que vêm fazer uma festa. A imagem está ali, veem-na lá em cima e ela segura numa das mãos um menino, na outra das mãos um fruto. Eu sei que aqui se discute se o fruto é uma pêra, se o fruto é um figo, eu julgo que é apenas um fruto, aquilo é uma ideia da Ave Maria, Ave Maria que diz que “bem dito é fruto do vosso ventre”, portanto é um culto da maternidade, da mulher mãe, é o fruto que ela mostra, e do outro lado o seu menino. Bom, este culto continua até hoje. Uma coisa curiosa, o que sai na procissão não é a imagem verdadeira que está além, dizem que aquela é a senhora, o que sai é esta que está cá em baixo, que dizem que é a criada, quem sai a fazer o trabalho é a criada, quem fica no seu trono é a senhora. Reparem como isto é ainda um vestígio medieval. 1


           De facto, à semelhança de outros lugares, o culto da Senhora da Cola, remonta ao período pré-histórico e seria um culto, não só dedicado à fertilidade feminina como o historiador José Hermano Saraiva menciona, mas igualmente devotado à fertilidade dos campos e animais, como ainda nos anos sessenta do século XX se observava nas preces e nas ofertas em géneros agrícolas que se depositava na portinhola lateral da Igreja, cuja função era precisamente receber tais ofertas.

         Contudo, segundo José Leite de Vasconcelos,2 a relação da fecundidade das mulheres e a esperança de um bom parto, encontra-se igualmente presente neste lugar. Tanto mulheres como homens procediam a um ritual de escorregarem numa formação rochosa natural, denominada por Pedra Escorregadia.


Numa ladeira que vai ter ao barranco da Horta do Marchitão ve-se uma lage natural a que se chama Pedra escorregadia, porque ai vão deixar-se escorregar homens e mulheres no dia da festa. O atrito fez que já se produzisse grande sulco ou rogo na pedra. Qual a razão d'este brinquedo? O povo não m'a disse quando estive na Cola, mas tempo depois ouvi contar que havia ali uma lage por onde as mulheres gravidas iam escorregar-se para serem felizes no parto. Se a lage é a mesma, como suponho, temos a explicação quanto ás mulheres. Falta quanto aos homens. Noutras terras de Portugal existem costumes analogos I, bem como lá fóra, por exemplo, em França2.
(NOTAS de RODAPÉ: 1 Vid. as minhas Trad. pop. de Portugal, § 203. 2 Vid. P. Sébillot, Le Folk-lore de France, I, 335 sgs.)


             Segundo Mircea Eliade, 3 Em algumas religiões acredita-se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos partenogênese das deusas mediterrânicas. Assim as mulheres estéreis procuravam engravidar, ao escorregarem na lage, depois das mulheres fecundadas nesse dia.


        Com a chegada do Cristianismo, era costume a nova religião, conquistadora, assimilar e moldar a seu proveito os cultos indígenas locais, como aconteceu não só neste caso, mas igualmente noutros lugares sagrados pré-cristãos. Essas religiões, pré-históricas, tinham um grande contacto com a natureza. A sacralização dos lugares campestres, por vezes manifesta-se nos mais diversos lugares, sejam em árvores,4 cursos de água,5 ou outros acidentes ou formações naturais, como certos relevos rochosos.6

          A religiosidade, dos povos autóctones, consagrava-se, assim, na adoração de locais naturais, fontes e rios, adorando e respeitando o espaço tribal. Os cursos e os pegos de água, eram assim, em certos lugares, considerados sagrados, pelas suas capacidades de cura e processos de regeneração de traumas físicos.

          Era assim no Pego do Sino, na ribeira do Marchicão, junto ao santuário, até aos anos sessenta do século passado,7 a que se atribuíam propriedades traumatúrgicas, onde os crentes se banhavam num processo mítico-religioso de esperança de cura das maleitas ou ferimentos que os afligiam. Esta tradição do banho sagrado no referido pego e a fecundação das mulheres, como se observou no caso da Pedra Escorregadia, poderá estar na origem da religiosidade deste local.

             A partícula Sin, encontra-se igualmente em Sintra e Sinai, relacionados com o culto da Lua. O Pego do Sino seria o pego da Lua, e em termos teóricos o termo poderia-se igualmente estender à elevação que o cinge , (como em Sintra e Sinai), e onde assenta o Castro da Cola e o actual Santuário, antes da presente designação de Marachique ou Marchicão.


(1) - José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006.

(2) - O Archeologo Português, Volume XXIX 1930-31_ edição de 1934, José Leite de Vasconcelos, Excursão ao Baixo-Alentejo, 1897. P. 239.

(3) - Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, São Paulo, 1992. P. 153.

(4) - Como se observa na tradição Celta e ainda hoje se encontra nos santuários Xintoístas.

(5) - Como ainda hoje se assiste com o Ganges, rio sagrado para os Hindus.

(6) - Como é o caso do monte Ululu (Ayers rock), para os aborígenes australianos. Ou de tantos Montes-Santos que se encontram em Portugal. De notar igualmente, a formação geológica de dois sulcos naturais paralelos no terreno, da era do gelo, associados a um alinhamento astronómico, cujo sentido aponta na direcção do Solstício de Verão e cuja associação religiosa/astronómica levou, no final destes sulcos, à criação do santuário de Stonehenge.

(7) - Ainda na década de setenta do século passado, havia uma Srª em Ourique que só bebia água da fonte do Moinho do pego do Sino, não se sabendo se a podemos enquadrar numa vertente de tradição local ou familiar, passada às sucessivas gerações, ou se se trata de um episódio recente, mais do âmbito da moderna religião.


 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

ORIGEM das FESTAS POPULARES de GARVÃO

Festas e Bodos da Irmandade do

Sagrado Espírito Santo

              A origem das Festas populares que se observam em vários pontos do país, tanto nos meios urbanos como nos meios rurais, apesar de na maior parte dos casos se ter perdido a sua origem e hoje bastante desvirtuados e adulterados, conseguem-se identificar, na maioria, com as festas medievais consagradas ao culto do Espírito Santo, realizadas sete semanas depois da Páscoa, no Domingo de Pentecostes. (1) 

          As Festas do Espírito Santo, promovidas pela respectiva confraria, caracterizam-se pela cerimónia dos Impérios do Divino Espírito Santo que culminava na confeção de um enorme "Bodo", refeição comunitária de assistência aos mais carenciados.
          A carne para este "Bodo" provinha da morte de um touro, previamente toureado pelas ruas da povoação, para diversão da população e não só era distribuída pelos mais carenciados, como, inclusivamente, servia para confecionar um enorme banquete em que toda a população participava.
           Estas festas, reflectiam o compromisso entre a população e o divino, a falta destas festas/cerimónias, levava-os a recordar anos, em que estas se não fizeram, para catástrofes naturais, como tempestades, trovoadas, ciclones, secas, ou pragas de lagartas ou de gafanhotos que dizimavam as colheitas e infestavam os celeiros, conforme o fólio vinte e dois do livro do Sagrado Espírito Santo e da Misericórdia, nos elucida sobre as pragas de gafanhotos.


(…) nem poderião alegar os ditos
foreiros anno de esterilidade,
nem de gafanhotos (…)


         O medo do castigo divino comprometia toda a comunidade e estes festejos, com a oferta de comida á divindade e a respectiva distribuição pelos pobres, procurava a protecção das colheitas agrícolas, das catástrofes naturais e a salvaguarda dos celeiros, das pragas de formigas ou ratos.
           As festas eram como um agradecimento de uma promessa cumprida, pelas colheitas dos anos anteriores e uma prece de protecção, para os anos vindouros.
           As tradicionais Festas populares que se observam de Norte a Sul do país, terão, na sua maior parte, origem nestas festas do Espírito Santo. Surgem nos documentos medievais, praticamente em todos os concelhos, referências a estas festas, nomeadamente em; Tomar nas Festas do tabuleiro; em Barrancos; nos Açores e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva; em Portel e em muitas outras povoações de Norte a Sul do país, assim como em vários outros países, levado pelas várias comunidades de imigrantes, nomeadamente no Brasil e Estados Unidos da América.
            Em Tomar realiza-se a tradicional Festa dos Tabuleiros de quatro em quatro anos, no princípio de Julho, a qual atrai á cidade muitos turistas nacionais e estrangeiros. Esta Festa tem como origem o culto do Espírito Santo instituído no séc. XIV.
          Os tabuleiros com o pão que as participantes carregam à cabeça, são adornados com os elementos típicos das antigas festas das colheitas e da celebração da fertilidade da terra, flores e espigas de trigo, e encimados pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. Depois do cortejo faz-se a distribuição da carne, do pão e do vinho, benzidos no dia anterior, pelos mais necessitados da cidade.
          A antiga tradição do sacrifício dos bois, cuja carne seria depois distribuída por todos, (como acontece ainda no Penedo/Sintra, após a tourada à corda), manteve-se na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, até 1895, a partir de 1966, os bois do Espírito Santo voltaram ao cortejo, mas agora só com funções simbólicas.
          As festas tradicionais de Barrancos, com a largada de touros no largo principal desta vila alentejana e a exigência da morte do touro, durante a garraiada, é justificada pela tradição da distribuição de carne pela população num enorme banquete, e é com base precisamente nestas tradições que muitas vilas alentejanas se arreigam do privilégio de também matar o touro durante a tourada, tendo como justificação as mesmas tradições da distribuição de carne aos mais necessitados.
          Em Garvão, assim como noutros lugares, apesar da data da realização das festas, possivelmente já não coincidir com a data primitiva, e apesar de já não se fazer o bodo ou de tal haver lembrança, as festas de Garvão apresentam características próprias destas festas ao culto do Espírito Santo. A ideia principal mantém-se que é reunir o povo para a festa anual e a largada nas ruas da vila.


           Há notícias destes festejos de Norte a Sul do país, nomeadamente em Portel no Alentejo.


(…) dá mais jantar esplêndido à pobreza em dia do Espírito Sancto, e ração de pão e carne a todos os moradores pobres da villa a quem conciderão necessitados.(2)


           Na povoação de São João da Lampas, no concelho de Sintra, existe também notícias destes festejos.


A sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: “A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte” (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festa no interior dos “seus” paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.(3)


          Igualmente em Alvalade, distrito de Beja, surge a notícia de “O Bodo de 1943”(4)


O Bodo foi também tradição secular em Alvalade, que se cumpria a partir da Capela do Espírito Santo (instituída na segunda metade do séc. XVI), situada na Praça D. Manuel I no local onde hoje está a residência dos herdeiros do lavrador Ilídio, assim conhecido na terra.
A festa anual do Divino Espírito Santo decorria sempre de forma solene e muito participada, sendo a distribuição do Bodo um dos seus momentos altos e que consistia na distribuição de alimentos aos pobres ou remediados, a que por vezes se juntava algum dinheiro. Para o Bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.


 1) - No antigo calendário Israelita a Festa das Colheitas - no hebraico hag haqasir - recebeu o nome de Pentecostes a partir do domínio Grego. Estas festas das colheitas teriam a sua origem noutros povos do Mediterrâneo Oriental, nomeadamente os Cananeus, povo que cultivava os férteis vales de Canaã quando da chegada dos pastores semi-nomadas Hebreus.

2) - Francisco Macedo da Pena Patalin, na sua Relação Histórica da Vila de Portel, edição de 1730.

3) - Catarino Coelho, José Lourenço Gonçalves, A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001, in: Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 6, número 2, 2003, p.521-544

4) -  Luís Pedro Ramos. In: https://www.alvalade.info/o-bodo/

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O DERRUBE DA IGREJA PARA A CONSTRUÇÃO DO CEMITÉRIO VELHO


 Pia de água benta encontrada junto Cemitério Velho e Parede de uma construção anterior incorporada na parede do Cemitério Velho.

       É prática ancestral na civilização cristã, deixar ao cuidado da religião a tarefa dos ritos funerários, cabendo-lhe não só cuidar do espírito mas também tratar do destino do corpo. Coube sempre à igreja cuidar da alma, ao mesmo tempo que dava destino aos restos mortais dos defuntos. Uma coisa era inseparável da outra, pelo que orando pela alma, enterrava os mortos no perímetro dos espaços sagrados, quer no interior dos próprios templos, para as classes mais privilegiadas, quer nos espaços adjacentes, claustros, jardins e adros.

          Contudo, independentemente dos rituais funerários e das rezas pelo destino das almas dos defuntos, a disposição dos corpos em condições deficientes nos adros das igrejas, sempre foi problemática. As pestes frequentes a que se assistia na idade média, são um exemplo dos efeitos mortais que os mortos poderiam ter sobre os vivos. Não era somente os corpos dos justiçados por morte perpétua que ficavam a balançar na forca por tempo indeterminado, eram igualmente os corpos em decomposição junto às igrejas, ou mal enterrados ou por falta de espaço.
           Nesse sentido, no seguimento das várias reformas executadas pelo regime liberal no século XIX, foi publicado o decreto de 21 de Setembro de 1835, por razões de salubridade pública, veio determinar que em todas as povoações do reino, serão estabelecidos Cemitérios Públicos para nelles se enterrarem os mortos, fóra dos limites das Povoações, para o que as Camaras Municipaes designarão os terrenos nas requeridas circumstancias para nelles se estabelecerem os Cemiterios.
           Como consequência desta mudança de práticas, foi publicado o Decreto de 16 de Setembro de 1844, que veio organizar a Repartição da Saúde Publica, passava a ser expressamente prohibido enterrar os mortos dentro de qualquer Igreja, ou Capella da Freguezia, ou Concelho, onde houver Cemiterio publico, como passava a ser igualmente prohibido fazer o enterramento de cadaveres fóra do Cemiterio publico depois de estabelecido e benzido.
             Assim, por razões de salubridade pública, a partir de 1835 o destino final dos despojos do corpo, passou a ser tarefa pública, a cargo dos municípios e deixou de ser tarefa a cargo da Igreja, contrariando os ancestrais ritos e práticas costumeiras.
             Estas alterações, com proibições de enterrarem os familiares em solo sagrado e a obrigatoriedade de enterramento nos novos cemitérios públicos, (pagando as devidas taxas), estão precisamente na origem da revolta da Maria da Fonte e, na sua sequência, a guerra da Patuleia, únicas revoltas verdadeiramente populares em Portugal, em que as populações armadas com alfaias de trabalho, (foices, machados, paus, alavancas, espingardas e com tudo quanto eles pudessem apanhar), procuravam o derrube do governo, inclusivamente da Rainha, e a mudança dos lideres políticos com o fim do regime liberal.
          Estas transformações pouca influência tiveram no quotidiano da população de Garvão, ou por habilidade política, ou por conveniência prática, a população continuou a enterrar os seus mortos em solo sagrado e no mesmo lugar.
          Em Garvão, em vez de se construir um novo Cemitério, optou-se por derrubar a Igreja para o Cemitério ficar no mesmo local. A igreja que se situava neste lugar, devido à falta de obras, estaria degradada e em ruínas, algumas das suas paredes foram inclusivamente incorporadas, como ainda hoje se observa, no muro que circunda o Cemitério Velho.





terça-feira, 21 de janeiro de 2020

IGREJA do SAGRADO ESPÍRITO SANTO de GARVÃO

         




 

Entrada do Cemitério Velho cujas cantarias se julga pertencerem à primitiva igreja matriz, existente no local e porta da Igreja do Espírito Santo de Montoito com cantarias similares.

             Existe uma tradição cultural desde a pré-história que se perpetua no tempo, referente aos locais onde são levantados os monumentos sagrados, com exemplos em várias localidades. Esta tradição tem mantido os locais de culto, independentemente da religião cultuada, no mesmo lugar ou próximo deste. Temos assim assistido à sobreposição de vários credos religiosos no mesmo edifício.

          Abundam os exemplos da cristianização de lugares sagrados pré-cristãos, nomeadamente a Srª da Cola na freguesia de Ourique onde se veo a edificar a igreja actual, e o Santuário de Endovélico, onde foi fundada a capela de S. Miguel da Mota, entre outros. O padrão seguido foi muito idêntico em várias localidades, primeiro encontramos um assentamento do tipo castrejo, depois seguiu-se uma assimilação romana, seguida pelos Visigodos e com a ocupação Árabe, do século VIII até ao século XIII, em Portugal, foram islâmicas,. A um lugar sagrado pré-cristão, sucedia uma igreja, a esta igreja, com a ocupação muçulmana, sucedeu uma mesquita e novamente uma igreja com a reconquista cristã.


          Em Santarém, a mesquita da alcáçova parece ter sido substituída pela Igreja de Santa Maria, e é possível que na medina a Igreja de Santa Maria de Marvila estivesse em lugar da mesquita principal; em Lisboa, existe indicação da mesquita ter estado no sítio onde mais tarde foi construída a Igreja de Santa Maria Maior, a Sé; em Elvas, na alcáçova, sucede à mesquita da alcáçova a Igreja de Santa Maria da Alcáçova e à mesquita da medina a Igreja de Santa Maria dos Açougues; em Alcácer do Sal, a Igreja de Santa Maria, no espaço da medina, terá sido edificada sobre a mesquita maior; em Mértola, a Igreja Matriz ou Igreja de Santa Maria é resultante da mesquita; em Lagos, no sítio da mesquita construiu-se a Igreja de Santa Maria da Graça ou Santa Maria Mayor arruinada com o terramoto de 1755; em Tavira, sabemos que a mesquita maior foi antecessora da Igreja de Santa Maria do Castelo; e em Faro, a mesquita maior dá lugar à Igreja de Santa Maria de Faro.(1)


           No que concerne à vila de Garvão e mais propriamente ao lugar onde ficava situada e ainda se observam as ruínas da primitiva Igreja Matriz, junto ao Cemitério Velho, no cimo da Ladeira do Padre, este local, pelo tipo de vestígios encontrados, apresenta indícios de cultuação de um período anterior à cristianização.
             Não só a localização do Deposto Votivo da 2ª idade do ferro, indicador de um templo pré-cristão, fica relativamente perto, como inclusivamente há indícios que o próprio templo fique neste local, tendo em consideração o surgimento, em quintal particular, de uma estrutura cujos paralelismos com templos no oriente Mediterrânico é indiciador da sua funcionalidade cultual.
        Sobre o estado de abandono desta igreja, dois eventos, embora separados temporalmente, contribuíram para a sua degradação. Primeiro foi a rivalidade entre a Irmandade do Espírito Santo de Garvão e a Santa Casa da Misericórdia de Garvão, ou melhor a usurpação dos bens da Irmandade pela Misericórdia e uma vez desprovida de rendimentos, a impossibilidade da Irmandade prover para as obras na referida igreja.
             No fólio trinta verso do Livro da Misericórdia e do Espírito Santo,(2) com a data de Dezembro de 1763, desenvolve mais um episódio, entre outros, da disputa entre a Irmandade do Espírito Santo, detentora de várias propriedades e a Santa Casa da Misericórdia, ambas desta vila, que, animada de proteção régia, tentava assenhorar-se dos bens da Irmandade.


             (…) aprezentando lhe o Mordomo do ditto Hospital os livros da Reseita e despeza que na ditta Caza haviaõ lhos naõ quizera restituir entregando as ao Prior para governar a referida confraria fazendo suspender as obras que a Irmandade da ditta Caza trazia em reparos da Igreja (…)


          Terá sido a partir desta data que a Irmandade do Espírito Santo, desprovida de propriedades e receitas deixou de poder fazer os devidos reparos na Igreja, assim como o terramoto de 1755 que tanto danificou a primitiva Igreja Matriz, junto ao cemitério velho, como a própria Igreja do Espírito Santo, para onde a Igreja Matriz se deslocou posteriormente.  
              O segundo acontecimento que ditou o fim desta igreja, aconteceu no século XIX, durante a revolução liberal, nomeadamente a lei que proibia o enterramento dos defuntos no adro da igreja e a obrigatoriedade de enterramentos nos novos Cemitérios Municipais, e como consequência da falta de reparos nesta Igreja desde 1763, esta devia de se apresentar por esta altura bastante degradada e optou-se pelo derrube do que restava da igreja e fazer o Cemitério neste lugar, só se aproveitando algumas paredes e possivelmente as cantarias da porta no muro que circunda o referido Cemitério, conforme se observa ainda hoje.


1 -  Mafalda Sampayo. O modelo urbanístico de tradição muçulmana nas cidades portuguesas, séc. VIII-XIII. Tese de Mestrado em Desenho Urbano, ISCTE-IUL, Lisboa. 2002. P. 334.

2- Este livro, da Irmandade do Sagrado Espírito Santo e da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, com a data mais antiga de 1609, Foi entregue pelo Sr Augusto Loução Martins à Junta de Freguesia em 1974.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O CEMITÉRIO VELHO - Origem



 

          O local onde se situa o Cemitério Velho, (velho, em relação ao Cemitério Novo, inaugurado em 1937), no cimo da Ladeira do Padre, tem, pelos achados arqueológicos encontrados, sido o local de enterramento dos defuntos desde tempos remotos.

       No período anterior à reconquista cristã, apesar dos vestígios encontrados apontarem para uma presença de populações em Garvão, os indícios sobre a inumação dos corpos neste local ainda não produziram evidências, para que se possa afirmar, com alguma certeza que este lugar já servia para o enterramento dos defuntos, no período anterior à nacionalidade.
            Apesar das raras sondagens arqueológicas confirmarem uma presença dos vários povos e civilizações que precedeu a reconquista cristã. Principalmente uma presença romana e muçulmana, (composta por vários povos, Árabes, Berberes, Egípcios e Iemenitas entre outros) e observando-se uma continuidade habitacional, também podemos aferir numa continuidade na inumação dos corpos em volta deste local.
           As datas das poucas pedras de cabeceira dos túmulos que ainda se encontram, apontam para os enterramentos dentro dos muros do Cemitério para o século XX, contudo as circunstâncias em que este Cemitério se veio a constituir neste local, aludem também para enterramentos desde o século XIX.
           No exterior do recinto amuralhado, quando se procedia ao nivelamento de terras, encontrou-se algumas estelas medievais que leva a concluir pela inumação de corpos igualmente fora dos muros do Cemitério e num período anterior à construção deste.


         Estas estelas, ou cabeceiras de sepulturas, de caracteristicas medievais, encontram-se associadas ao enterramento dos defuntos nos adros das igrejas, como era costume no mundo cristão antes das alterações provocadas pela revolução liberal no século XIX.


          As necrópoles nos adros das igrejas, com as suas estelas, ou seja no interior do espaço urbano por vezes amuralhado, corresponde a inovação da autoria dos conquistadores cristãos (...).1


          Assim em Garvão e neste local as estelas encontradas extra-muros, correspondem aos enterramentos no adro da primitiva Igreja Matriz, cujos restos arquitetónicos do edifício, ainda se encontram incrustados na parede do dito Cemitério.


          De facto, também podemos concluir que os maiores conjuntos de estelas agora estudadas, provêm de sítios que tiveram grande importância nos períodos sob administração romana e muçulmana, conforme aconteceu com Aljustrel (Metallum Vipascense), Mértola (Myrtilis, Martula), Moura (Arucci), Garvão (Arandis) e Serpa (Sirpens), existindo continuidade de povoamento entre aqueles tempos e os da presença cristã da Idade Média.2


         Devido à lei, introduzida durante o regime liberal num período conhecido por Cabralismo em 1842, que proibia o enterramento nos adros das igrejas e a obrigação de construção de Cemitérios Camarários. Em Garvão, devido ao estado de degradação da Igreja Matriz, optou-se por destruir o que restava da mencionada igreja e amuralhar o recinto adjacente, incorporando, inclusivamente algumas paredes dessa igreja na estrutura do Cemitério, conforme ainda se pode observar nos respectivos muros que circundam o mencionado Cemitério.
          Podemos assim aferir, até que as devidas investigações arqueológicas nos deem maiores certezas, que a construção do Cemitério Velho se realizou no seguimento desta lei, assim como os respectivos enterramentos.
          Nota-se igualmente que a construção deste Cemitério se observou em duas fases. Uma inicial em torno do lugar e dos restos da referida igreja e outra posterior como se observa pelas paredes que o rodeiam. Poderemos, igualmente supor que esta segunda fase construtiva se terá processado durante um período de maior mortalidade observada na população, como aquela que ocorreu durante a chamada pneumónica de meados do século XX.
           Não se pode deixar de referir o estado de degradação e abandono que se observa neste conjunto arquitetónico composto pela Necrópole / Igreja / Cemitério / Ossário, apesar das constantes chamadas de alerta para a necessidade de salvaguardar este património, continua abandonado e a degradar-se e sujeito à perda irremediável de elementos arqueológicos e arquitetónicos que só iriam enriquecer a vila de Garvão.


1 - José Daniel Braz Malveiro. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, UNL-FCSH. Janeiro, 2013. P. 1.

2 - Idem, Ibidem.

3 - Idem. P. 76.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...