domingo, 14 de junho de 2020

CHAMINÉS DE GARVÃO E os minaretes muçulmanos

  













As chaminés alentejanas
E os minaretes muçulmanos.


          Não diferem muito, as chaminés de Garvão, das que se observam no Sul do país, ou mais precisamente das chaminés algarvias, onde, estas intrincadas obras de arte sobressaem das, por vezes, monótonas paredes de taipa caiadas de branco.
         Reminiscências mouriscas dos minaretes muçulmanos? Ou talvez não, o certo é que se se encontra alguma polaridade disfarçada na riqueza arquitetónica destes monólitos, como que a esquecer uma outra cultura, proibida, perseguida, desfigurada.
          Dos outros.
          Quando, afinal, os outros somos nós.
        Há algo de ancestral nesta forma singular de construir chaminés, mais parecem pequenas torres brancas, como uma erupção violenta em direção ao infinito, num mar de telhas vermelhas da cor do sangue, como recordações saudosistas dos minaretes árabes, de um passado não muito longínquo.
     Sejam em redondo, quadradas ou retangulares, as chaminés do Sul refletem toda uma influência de cinco séculos de ocupação muçulmana, seja no subconsciente, seja na tradição, ou seja, na cultura intrínseca a todos os povos, “a saudade do minarete a palpitar timidamente, no rebuço cristão da chaminé”, como alguém já escreveu.
       A chaminé das casas alentejanas são um dos elementos, que melhor refletem o apelo à tradição, para além da sua utilidade, tinha grande valor estilístico e ornamental, sempre presentes na arquitetura tradicional do Sul, herdeiras de uma cultura árabe, onde se nota os rendilhados e arabescos, de pequena ou grande escala, conforme as posses dos moradores e símbolo de um estrato social.
        Em Garvão, talvez devido à sua proximidade com o Algarve e à devida influência mourisca, ainda são visíveis alguns notáveis exemplos desta arte, uns a precisarem de reparos, outros primorosamente caiados de branco, outros infelizmente tombados, mas que as fotos antigas nos dão a conhecer.

domingo, 17 de maio de 2020

MORREU JOSÉ CUTILEIRO




 






Morreu hoje, 17/05/2020, José Cutileiro.
Alentejano de Évora, com 85 anos.

Hesito,
Em homenagear o Antropólogo.
Ou o diplomata.
No fundo foi ambos.
Com igual devoção.
Mas entre o criador de “Ricos e Pobres no Alentejo”
E as,
Suas contribuições para a paz mundial,
Seja na antiga Jugoslávia
Ou,
Na África do Sul,
Entre outras ações diplomáticas,
“Os diplomatas servem para impedir que haja guerras”. Dizia.
Talvez,
Prefira a humanidade expressa nas suas escritas.
A personalidade académica,
As cuidadas análises políticas,
O prestígio internacional,
O equilíbrio cuidado,
O respeito por de quem não gostava,
No fundo,
Homenageio José Cutileiro, o Diplomata e o Antropólogo que nos legou Ricos e Pobres no Alentejo.


O  livro descreve a vida de uma freguesia rural alentejana, em meados dos anos sessenta do século XX, uma obra considerada um clássico da antropologia portuguesa e europeia dos anos 70 do século XX, pela forma como retrata o Portugal mediterrânico de então, centrado na geografia humana e com uma intenção de realismo ao mostrar um mundo dramaticamente desigual, o que tornou a sua publicação possível somente após o 25 de abril.

sábado, 9 de maio de 2020

CIGANOS

Feira de Garvão

          A corredoura da feira depressa se enchia de gente, uns para comprar, outros para vender, outros admirando aquele espetáculo todo, eram ciganos a mostrar as dentaduras dos bichos e mesmo faltando-lhe dois dentes afiançavam que a besta só tinha dois anos.


          Eram bestas aos pinotes, cavalos a cocear, burros a zurrar, mulas aos coices, albardas de reboleta, cilhas partidas e no meio daquela poeirada toda emergia o cigano triunfante, com a melhor das bestas pela arreata, besta nunca vista naquela feira, nem dez contos de réis pagam este animal, assim recitavam frases repetidas sabe-se lá já quantas vezes. Ai homem atão não vê que o cavalo é da melhor raça, até pode montar o cavalo virado ao contrário, qu´ele continua a ir pr´á frente.
          As fazendas que vendem são sempre as melhores, não se rasgam, não se queimam, nem que lhe mandem petroli e lhe puxem fogo e se encurtarem depois do fato feito e lavado é porque o cliente cresceu, nem que já tenha setenta anos.
          Não negoceiam em barro cozido, mas as panelas de ferro, alumínio ou esmalte que vendem são sempre do melhor material, fabricadas no estrangeiro, numa terra onde custam mais do dobro, não se partem, não se furam, nem se amolgam, não podem é ir ao fogo muitas vezes.
          O cabedal das botas é do melhor e do mais fino, importado directamente da frância, faça chuva ou faça sol nada lhes pega, podem-lhe passar com um tratori ou um carro de bestas por cima que não se rompem, nem se estragam, é sempre a aviar, é só uma notinha.
           Nas roupas, plásticos e bijutarias é tudo da melhor marca, nem que sejam variações inventadas de nomes de marcas famosas, à camisola Lacoste falsa, para ser verdadeira só lhe falta o crocodilo que custa dez mil réis.

        Até já vendem carteiras anti-roubo que apitam quando se aproximam os carteiristas.

          Os Ciganos sempre foram uma presença na feira de Garvão desde que há memória, a sua chegada a Garvão, ter-se-á iniciado com a vinda destes primeiros povos para o Alentejo, onde o modo de vida errante, forçada ou por vontade própria, se tem mantido ao longo dos séculos.
           Tal como há umas décadas, ainda se deslocam em carroças e se reúnem em acampamentos, geralmente nos eucaliptos na periferia da feira, onde possam preservar a sua autonomia e manter a unidade familiar. Já não se encontram os tradicionais caldeireiros a trabalharem em cobre, os tachos e panelas, desde que há memória ganham a vida de volta do gado, negociando equinos, asininos ou muares. As mulheres continuam a ler a sina, nas mãos ou a deitar as cartas.
            Ciganas com as suas roupas coloridas, (quando não estão de luto), de vestuários ornados, de colares de contas e de abotoaduras metálicos, davam uma nova animação à feira, tingindo o ambiente com cores fortes e vivas, abordavam a população, principalmente as moças casadoiras, fazendo profecias na leitura de mãos.
            Os homens por hábito usavam chapéu, botas e calças usualmente de cotim ou fazenda semelhante, curta, muito justa ao corpo e colete e jaqueta, presas com cordão entrançado, ou, no vestuário dos mais abastados, adornada com botões de prata forrado de tecido e enfeitado com cordões em intricados desenhos, por onde passa o botão.
              À noite sentavam-se em redor de uma fogueira ao ar livre, em cima de fardos de palha comendo e bebendo e onde, na maior parte das vezes, cantavam ao som de uma viola, batendo palmas e dançando. É o espírito viajante, como feirantes e vendedores ambulantes.
             Vinham não só do Alentejo e Algarve, mas inclusivamente do resto do país e até de Espanha e durante os dias de feira, desenvolviam intensa actividade comercial, vendendo, trocando e comprando cavalos e éguas, burros e burras, bestas e machos, correndo na corredoura das bestas, no meio da poeirada levantada pelos cascos destas
           Mais do que romancear a cultura deste povo, os ciganos como o último povo nómada do mundo ocidental, têm, na maioria dos casos, sido rejeitados por uma sociedade que menospreza uma parte dos seus próprios cidadãos. Não só a falta de políticas de integração deste povo, mas fundamentalmente a desconfiança e rejeição do resto da sociedade, levou-os a optar por uma exclusão do modelo de sociedade onde vivem, vivendo à margem, rejeitando até há bem pouco tempo, na maioria dos casos, a cidadania.
         Esta ostracização, este fechamento sobre si próprios, permitiu até aos dias de hoje a continuação de usos e preceitos ultrapassados. Ainda é o mundo dos casamentos arranjados, onde as raparigas casam cedo, de preferência entre primos, onde se recusa a mandar os filhos à escola.
          Descendentes de um povo nómada originário do noroeste da Índia. Por volta do século X/XI começa a odisseia deste povo que a partir do delta do rio Indo, entre a Índia e o Paquistão, chegaram, nos séculos seguintes, praticamente a todas as partes do globo.



terça-feira, 28 de abril de 2020

FADO LAMENTO de Amália Rodrigues

Proibido pela Censura


ABANDONO Ou Fado de Peniche

Letra: David Mourão Ferreira.
Música: Alain Oulman.
Intérprete: Amália Rodrigues


          Por volta de 1962, o fado interpretado por Amália Rodrigues, “Abandonado”, também conhecido como o Fado de Peniche. Foi proibido por ser considerado um hino aos que se encontravam presos em Peniche,


          O dia 25 de Abril de 1974 a prisão da Fortaleza de Peniche foi cercada por uma força militar do MFA proveniente de Leiria, mas os elementos da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) só se renderam na manhã do dia seguinte.
          A concentração de populares junto à Fortaleza, a ação dos militares do MFA e a decisão tomada pelos presos de que ou “saíam todos, ou nenhum” impulsionaram a libertação dos presos concretizada, enfim, na madrugada do dia 27 de abril. (Museu Nacional, Resistência e Liberdade. Fortaleza de Penivhe)


Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria


Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.


Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.


https://www.youtube.com/watch?v=0-_7BqY7e-8

sábado, 25 de abril de 2020

25 de ABRIL - Já lá vão 46 anos

(...)

Dia 25, na rua da PIDE, António Maria Cardoso, as balas zumbiam no ar e assistia ao assassino de cidadãos.
No quartel do Largo do Carmo,
Ouve-se a rajada e as paredes metralhadas.
Saiu um carro preto.

Sai uma autometralhadora.
Rende-se Marcelo Caetano a Salgueiro Maia.
Nos dias seguintes era a festa.
Desse dia ficou a lembrança. 
Uma foto no jornal República e um capacete de ferro do assalto a uma delegação da Legião Portuguesa no Bairro Alto.


 



domingo, 19 de abril de 2020

PENICO e PENICOS




 


 


1996 foi, sem dúvida, um annus terribilis.
Ano das cheias que num ápice devorou, paredes, telhados, casas e tudo o que lá se encontrava.
          Se uns lamentam a falta dos tarecos, outros lamentarão as recordações, os livros, as fotos e as coleções de artefactos juntados ao longo dos anos.
         Vem isto a propósito de um caco encontrado no quintal, ainda das cheias de 1996, mais precisamente uma pega de um penico (ou púnico se preferirmos os arcaísmos locais), de uma pequena coleção da altura, mas que prometia vir a tornar-se numa coleção interessante.
          Num ápice, acabou-se assim com a coleção de penicos.
         Nesta pequena coleção, não havia penicos de plástico, nem de metal, só loiça e da melhor e de comprovada qualidade e antiguidade, com rebordos fortalecidos, para que o mimoso assento ao “obrar” as necessidades fisiológicas, não ostentasse vergões vermelhos ou arroxeados, consoante o tempo que ostensivamente permanecesse nesse trono de efémera glória.

         O primeiro veio do Monte Ruivo (Santa Luzia), assim como uma mesa com mais de um século, (segundo os curiosos), que as mencionadas cheias, fizeram o favor de arrastar.
          Mas voltando aos penicos, os outros vieram de finas casas, (urbanas ou rústicas), mas de comprovada qualidade e antiguidade, da feira da Ladra veio um, de uma casa de antiguidades das Portas de Santo Antão veio outro e até da casa de velharias da Aldeia da Corte Malhão veio outro, cujos motivos alegóricos não só são inapropriados, como não é aqui o local para os descrever.
          Penicos há muitos, (seu palerma, dirá alguém, parafraseando Vasco de Santana), mas estes tinham um significado especial, primeiro porque eram antigos, segundo porque não se encontra muitas coleções de penicos, terceiro porque foram escolhidos com o melhor cuidado e qualidade e quarto pela irreverência, porque de génio e de louco todos temos um pouco.
          Enfim, era uma coleção, no mínimo, interessante, do qual só resta a pega de um.
         Testemunhas de um glorioso passado, presentes em todas as casas de família, arredados de salões nobres, sem direito a se exibir em aparadores de fina madeira ao lado de jarras e jarrinhas de inferior qualidade.
         Relegados para debaixo da cama, ou dentro da mesa de cabeceira, foram ingloriamente destronados, na maior parte das casas de família, pelas modernas retretes.
       Apesar da inegável contribuição para a civilização ocidental e mundial, em termos de higiene e na prevenção de doenças infecto-contagiosas, ainda não lhes foi feito o devido reconhecimento.
        Não há uma única Travessa, Azinhaga ou Beco com o nome de penico, quanto mais uma Avenida, Praça ou Rua.
        Devia de ser dado o seu nome á Avenida da Liberdade, ou até mesmo á Ponte 25 de Abril, se já antes foi Ponte Salazar, bem podia ser agora a Ponte do Penico.

sábado, 18 de abril de 2020

ALBARDEIRO, ALBARDAS e MOLINS


ANTÓNIO ALBARDEIRO - último albardeiro de Garvão.

ALBARDA e MOLIN










MULA COM ALBARDA E ARREIOS


               Albarda-se o burro à vontade do dono.
               E para bom entendedor, basta.
               Terá as medidas da carteira do dono.
        

          Já lá vai o ofício de albardeiro e por assim dizer, do abegão, do ferrador, do latoeiro, do carpinteiro, ou outras profissões doutros tempos, antes das maquinização da agricultura.
               Só o tosquiador é que se safou, ao tratori não lhe cresce o pelo, rematava o barbeiro da Rua do Salitre, lá para mil novecentos e sessenta e poucos, não se tosquia o burro, corta-se o cabelo ás pessoas, dizia de sua razão.
           Agora ao albardeiro, a mudança de profissão, não se mostrava tão prometedora. O ofício aprendera-o com o pai e o pai já o tinha aprendido com o avô, por isso há-de continuar a albardar até morrer.
             Ao último albardeiro de Garvão, António Albardeiro, com oficina na Rua de Ourique, pouca diferença lhe fazia, não tinha filhos para ensinar, por isso quando morresse, morria a profissão com ele, se já não fazia albardas, molins ou enxergões de palha de centeio, pelo menos entretinha-se a fazer miniaturas, coisa que até se vendia bem, não era preciso andar carregado, para vender na feira.
           Se nos últimos anos lhe faltava as encomendas de albardas ou molins novos ou para remendar, tempos houve que não dava mãos a medir, até do Algarve, desde Monchique a Loulé, procuravam os seus serviços, para além das terras em redor até Beja e Alcácer.
                O centeio tinha de ser inteiro, para maior resistência e a sarapilheira tinha de ser da melhor, primeiro media o animal, burro, burra, besta ou mula, para lhe assentar bem, depois, com artifício de mestre, fazia o molde em sarapilheira e enchia de palha, sempre a apertar e em sentido milenar, para não ficar frouxa, tornava a reforçar com sarapilheira, reforçava os cantos, por vezes, com couro, há medida da carteira do dono, e enfeitava com pontos e berloques de lã colorida.
            A albarda depois de apertada no lombo do animal com uma cilha, estava pronta para o carrego de pessoas, de cargas pesadas nas cangalhas, enchapotas e outra lenha, de cântaros de água, de cereais, palha e o que fosse preciso. Sentadas na albarda, em cima do burro ou da besta, chegavam ainda há pouco tempo há feira de Garvão, as donzelas e outras menos donzelas, dos montes e aldeias em redor.
             Outras e familiares, vinham no carro de bestas, de um só animal ou de parelha, os molins eram peça obrigatória para as cangas, onde atrelava a vara do carro ou as charruas e arados, não ferirem o cachaço do animal. Se havia molins para a lavoura, outros molins apresentavam-se coloridos e vistosos para ocasiões de festa, garridos e enfeitados com berloques, fitas de lã e ponteados em flor encimados com um espelho que reluzia quando o Sol lhe dava.





 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...