domingo, 4 de abril de 2021

IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS EM GARVÃO

 

 





- Imagem da procissão da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

- Livro da Irmandade dos Homens Pretos

          Como o título indica, a existência de comunidades de negros em Portugal, (e consequentemente sobre as relações esclavagistas e a sua evolução), deixou marcas da sua existência, ainda visível na onomástica de certas povoações, nomeadamente na actual população da vila de Garvão, conforme se observou.

         Umas das características da presença de negros nas várias vilas do reino era a presença das Confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e segundo Jorge Fonseca,[1] a Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, assume que: Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos.

         Se no artigo sobre Os Pretos do Sado, se observou a concentração desta população nas lezírias do Sado, a sua presença em Portugal é anterior e teria origem na expedição de António Gonçalves, iniciada em 1441, como o começo do tráfico negreiro para o reino português, passando então, o mercado esclavagista, a ser umas das principais actividades mercantis entre Portugal e África.

         A privação da liberdade e a servidão imposta aos negros africanos, encontra-se justificada pelos papas através de várias bulas outorgadas aos reis cristãos da península e a respectiva conversão dos povos indígenas à Igreja.


Na bula Dum diversa, de 1442, o papa Nicolau V outorgara a Afonso V de Portugal (o “Africano”), o direito de “atacar na costa da África os infiéis, pagãos ou sarracenos, escravizar suas pessoas e apropriar-se de seus bens.” Depois, em 1456, o papa Calixto V outorgara à Ordem de Cristo a Jurisdição eclesiástica sobre a Guiné, assegurando-lhes uma participação no tráfico negreiro.[2]


           Desde 1450 cerca de 800 escravos eram enviados anualmente para Portugal e até 1500 cerca de 150 mil foram comercializados pelos portugueses através do Atlântico. A partir de então a Igreja passou a cumprir o papel de integrar esses escravos numa sociedade católica e branca, utilizando as irmandades como principal instrumento para os introduzir no catolicismo.

           A devoção a Nossa Senhora do Rosário foi então utilizada pelos dominicanos para inserir os negros nesse novo universo cultural. Um dos fatores que contribuíram para a maior adesão dos negros foi o rosário, que os lembrava do oráculo Ifá, objeto mágico da cultura africana, composto por pequenas peças irregulares que se assemelhavam ao rosário.

          Esse contato religioso possibilitaria uma coesão cultural entre brancos e negros por estarem interligados através de uma crença comum. A união das duas etnias evitaria a divisão das esmolas, condicionando os escravos à mesma subjugação que vivia fora do ambiente religioso.

          A fim de terem uma maior representatividade na sociedade e as suas necessidades serem mais atendidas, os negros começavam a reivindicar uma irmandade que fosse de sua gente, onde os objetivos e a situação socio-económica fossem pelo menos equivalentes.

         A cor da pele então passou a assinalar a separação dos grupos levando os primeiros devotos de Nossa Senhora do Rosário a abandonarem quase que completamente essa devoção, quanto se instituíram as primeiras associações negras.

         A Confraria do Rosário dos Negros, pela mestiçagem, pela assimilação, pelo fim da escravatura em Portugal, em 1761 e pela proibição da cláusula de limpeza de sangue pelo Marquês de Pombal, em 1773, ditou o fim destas Confrarias dos negros cuja razão de ser deixou de existir.

          De notar igualmente que uma das características destas Irmandades era a execução de várias danças, uma das quais há memória de se ter realizado em Moncorvo, no dia de reis, até aos anos de 1930, segundo informação de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. (Assistente da faculdade de Ciências do Porto, conservador do Museu Antropológico). NOTA DE COREOGRAFIA POPULAR TRASMONTANA. A DANÇA DOS PRÊTOS (Moncorvo), 1934.


Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930.

(…)

Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".


[1] Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] FREITAS, Décio. Escravos e Senhores de escravos, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983, p. 16.


 





terça-feira, 23 de março de 2021

IRMANDADE DO ROSÁRIO DOS BRANCOS

 

Imagem de Nossa Senhora do Rosário - Lisboa, 1733

          Ao se desenvolver a temática das Confrarias e Irmandades na vila de Garvão, sejam elas de invocação ao Espírito Santo, ou as Santas Casas da Misericórdia, surge-nos a informação da existência de outras Irmandades em Garvão, nomeadamente a Irmandade do Rosário dos Brancos, a Irmandade do Rosário dos Pretos[1], a Confraria do Santíssimo Sacramento da vila de Garvão[2] e a Confraria das Almas.[3]

           O conhecimento desta Irmandade chega-nos através do arquivo da Ordem de Santiago, Mesa da Consciência e Ordens, Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade.[4]

          O culto a Nossa Senhora do Rosário surgiu em 1282, quando São Domingos de Gusmão, seu devoto, fundou confrarias sob a sua invocação em Portugal, França e Espanha. Depois de algum tempo abandonada, a devoção foi retomada dois séculos depois da morte do devoto, quando ocorria o processo de propagação da fé católica pelos dominicanos em terras da África.

        A Confraria do Rosário tinha a componente pedagógica da obrigatoriedade da reza diária, parcial ou total, de um Rosário, o que correspondia a cento e cinquenta Ave-Marias e quinze Pais-nossos, o que numa população analfabeta onde dominava a expressão oral, o repetivismo proporcionava-lhes uma melhor memorização e inculcação dos mistérios e dogmas da fé cristã

          Assim, ao se aprofundar o conhecimento sobre as duas primeiras Irmandades referidas, vai-nos surgindo, esporadicamente, a menção a outras Irmandades e da mesma maneira que a Irmandade do Espirito Santo está, de uma certa forma, relacionada com os cristãos-novos, (diga-mos judeus e mouros convertidos ao cristianismo), as Irmandades do Rosário, ou por controle e autonomia das populações de origem africana, ou como lugar normativo, de assimilação de valores culturais da sociedade colonial cristã, leiga e popular, estão relacionadas com a presença e assimilação dos negros em Portugal.

        Contudo a presença de irmãos negros na Irmandade manifestava-se de um modo que desagradava aos católicos mais puritanos. Oriundos de uma cultura, cujas crenças exprimiam-se com diferentes modos simbólicos do vasto continente africano, eram sempre vistas, pela nomenclatura católica, como pagãs e obras do demônio, perante as recriminações escandalizadas dos poderes eclesiásticos locais.

          Procurava-se, por conseguinte, frequentemente forçá-los a mais moderação nas suas expressões festivas onde os traços culturais africanos exprimiam-se com maior vivacidade e naturalidade. A história das confrarias religiosas negras é a do conflito entre esta cultura e a representada pela religião católica, maioritária, considerada como a única detentora da verdade e a única aceitável.

          Assim, ainda no século XVI, quando os membros da Confraria eram mistos, os irmãos negros conseguiram eleger vários elementos, dentre eles, para os lugares-chave da Mesa da instituição devido ao maior número de irmãos negros, o desentendimento e o conflito chegaram a tal ponto que a instituição dividiu-se em duas confrarias, a Confraria do Rosário Branca e a Confraria do Rosário Negra, fruto das divergências internas entre estas duas camadas da população.

          A Confraria do Rosário dos Brancos, em certos casos, ter-se-há associado à confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos primavam pela limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”, o que, teoricamente, os membros das antigas irmandades do Rosário não podiam fazer parte. Estatuto esse já existente no caracter exclusivista da Confraria dos Brancos em oposição à Confraria dos Negros.


[1] Ano de referência 1766. Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] 1819 – 1846, Grupo de Arquivos Privados dos Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja.

[3] Livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão. Fólio 93.

[4] IANTT, OS/CA, Liv. 36, Dez. 1766, Irmandade do Rosário dos Brancos. Garvão. Igreja matriz.

quinta-feira, 11 de março de 2021

OS PRETOS DO SADO em GARVÃO











- Livro de Isabel Castro Henriques: Pretos do Sado» – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV).

  - Pastor de Rio de Moinhos











- Habitante de Rio de Moinhos

          A presença de negros em Portugal está atestada desde o século XV, fruto da expansão marítima portuguesa, iniciada na primeira metade do século XV e a sua presença no Alentejo, nomeadamente no Vale do Sado tem sido objecto de vários estudos relacionados com a sua resistência a certas doenças, como o paludismo que afectavam a população branca.

          Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico que durante séculos deixou o território desabitado, eram terrenos insalubres, rodeados de charnecas e pântanos. Traços negroides esses ainda identificáveis nalguns moradores das povoações das margens do rio Sado: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos e nariz largo, nomeadamente em Alcácer do Sal, São Romão de Sádão, Rio de Moinhos e São João dos Negrilhos entre outros.

Já José Leita de Vasconcelos na sua obra Etnologia Portuguesa, de 1933, se refere aos mulatos da ribeira do Sado e descreve-os como de pele escura, cabelo encarapinhado e nítidos traços negroides. Tanto os registos paroquiais como os da Inquisição dão notícia de no século XVI, viverem pessoas negras e mestiços nesta região.


Ribeira do Sado

Ó Sado, Sadeta

Meus olhos não viram

Tanta gente preta.


Quem quiser ver moças

Da cor do carvão

Vá dar um passeio

Até São Romão.[1]


          Esta presença no reino, ao longo de vários séculos, de um elevado número de indivíduos de origem africana, que no século XVI chegaram a ultrapassar o décimo da população portuguesa, em regiões como a de Lisboa e o Algarve, não pôde deixar de legar marcas reveladoras dessa presença africana sub-sariana.

          Apesar de inicialmente, se tratar de uma população estranha, minoritária, marginalizada e alvo de preconceitos pela população branca, pelo seu estatuto não só de escravos, mas igualmente pelas profissões que desempenavam, nomeadamente relacionadas com a agricultura e pastoreio de gados, não deixou contudo de ter um certo impacto, em termos socioeconômicos e demográficos, nas terras onde se fixaram, cuja presença ainda hoje é atestada por nomes de família ou alcunhas, como fulana Preta, fulano Escuro, Moreno, Carapinha, Castanho e Pardo entre outros, assim como na nomeação de certos lugares como Monte da Pretas, Monte Negro, Negrilhos etc.

          É neste quadro de dispersão da população negra e escrava pelas várias vilas do interior alentejano que se fundaram e desenvolveram as várias confrarias negras ainda na primeira metade do século XVI, revelando a existência de comunidades escravas importantes. Embora de cariz religioso cristão, não deixava de se notar certas influências da religião tradicional africana nas suas cerimónias.


[1] Recolhida em Alcácer do Sal.

domingo, 7 de março de 2021

RAPA, TIRA, DEIXA E PÔE… ou DREIDEL JUDAICO










JOGO DO RAPA

E O JOGO DO DREIDEL


Quem não se lembra de jogar do Rapa?

Rapa – Tira tudo o que estiver no centro da mesa.

Tira – Tira uma peça.

Deixa – não tira nem põe

Põe - Põe uma peça no centro da mesa.

Cada jogador, começa com cinco peças e antes de jogar põe uma delas, pedrinhas, grãos, chocolates ou rebuçados no centro da mesa.

Quem ficar sem as peças, perde.

Quem ganhar, lambuça-se de chocolates, rebuçados ou em tempos de escassez, fica com os grãos, feijões ou com as pedrinhas.

Jogo infantil português com claras influências judias.

O “Dreidel” judaico é um pião de quatro lados com uma letra do alfabeto hebraico de cada lado, e segundo se consta, remonta ao tempo do rei grego Antíoco IV (175 a.e.c.) que baniu o judaísmo nos seus territórios.

Os judeus, clandestinamente, juntavam-se para estudar os seus textos religiosos e quando em vista das autoridades do rei, dissimulavam esse estudo com o jogo do “Dreidel”, fazendo os soldados acreditar que estavam a jogar.

Existe igualmente relatos desta prática na idade média até aos nossos dias, permanecendo nas comunidades que se foram cristianizando, com a denominação de “Rapa” e as letras R, T, D e P em cada um dos lados.

Hoje em dia, no mundo judaico, joga-se com o objetivo de ganhar o maior número possível de moedas de chocolate embrulhadas em papel laminado dourado, ou outras guloseimas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

IGREJA E FESTA DE SÃO BARÃO

IGREJA DE SÃO BARÃO

A Igreja de São Barão é um antigo local de peregrinação, seguido de extenso arrail que juntava as populações das terras e montes vizinhos, até praticamente a meio do século XX. Tendo indo perdendo pogressivamente afluência a partir daí. com um total desconhecimento das gerações actuais. Sáo Barão, (ou mesmo Varão), tem a particularidade de não fazer parte do panteão católico. A sua origem terá de se procurar noutras culturas que marcaram a paisagem alentejana, conjuntamente com outros santos e santas não reconhecidos pela igreja católica e que se encontram amiúde nestas terras alentejanas.

Excerto do livro SUL e SUESTE da autoria de Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicado em 1940, sobre a Igreja e festa do São Barão, situada na Estrada do Saraiva, na confluência da freguesia de Ourique com a freguesia de São Martinho das Amoreiras.

              Sôbre alta lomba que, por esses tempos, uma vegetação rasteira - a esteva, o rosmaninho, a urze e o tojo – cobria, em plena serra, num lugar quási inacessível a veículos, ergue-se a branca ermida de S. Barão.

            Lugar aprazível dum pitoresco abrupto. Em volta, cerros mais altos, de cujas pregas irrompem, filhos do mesmo seio ressequido da terra atormentada, os sobreiros, os chaparros e os penhascos. Em baixo, num leito cheio de pedregulhos e ladeado de ravinas e trincheiras que mostram, como ossaturas esburgadas, raízes de árvores que o vento arrancou e rochedos quási a despenhar-se, corre um ribeiro.

Païsagem áspera, bravia, de serra alentejana. Plena serra do Caldeirão...

Do alto dêstes cêrros que circundam S. Barão, em tardes de perfeita visibilidade, que belo e variado panorama se disfruta!

Olhando para os lados de Beja, e abarcando toda essa imensidade, a vista prende-se nesse panorâma raro de serra e de planície. Até Garvão e mesmo um pouco além dessa antiqüíssima vila, as lombas sucedem-se cada vez mais pequenas e mais redondas... Depois, a planície rasa estende-se até aos barros de Beja como pista imensa, sem obstáculos..

Se olharmos, depois, em sentido contrário, para os lados do vizinho Algarve, vê-se que as as lombas avançam, sempre maiores, e vão formando cordilheiras até que, a distância, em linhas Irregulares, barram o horizonte. Mais longe, para a esquerda, por cima destas serranias, tocada de uma névoa ténue, azulada, lembrando cetáceo monstruoso repousando, ergue-se a serra de Monchique, a serra maior do Sul...

Todos os anos, pela Primavera, quando a esteva mostra a branca flor de cális amarelo, êstes lugares solitários e pitorescos de S. Barão, rnoradias próprias de águias e de lobos, se animam com a presença de gente que vem de muitas léguas de terras em redor, dos casais da serra e dos montes da planície, desejosa, muito mais, verdade se diga, de provar a boa pinga que ali se vende em pipas colocadas sobre os carros alentejanos e que ramos verdes de salgueiros encobrem, e de se divertir em bailaricos e descantes, que de render homenagens, acompanhadas de oferendas ao Senhor S. Barão, que em tempos de viva crença, tão distantes, foi venerado e tido como obreiro de altos milagres.

          Logo na madrugada do dia de festa, serrenhos e campaniços ali afluem, e é de ouvir no ar fresco do dealbar, o alegre rumor das guizeiras dos carros que, por carreteiras estreitas, avançam nas ladeiras ingremes, rodeando precipícios, a caminho de S.Barão.

            Serrenhas de chaile e lenço de vivas cores, montadas em mulas ou barricos que trepam os cêrros por veredas de cabras, trazem animação e arruído à romaria.
Nas subidas e descidas, qualquer mocinha da serra se agüenta bem, segurando-se com firmeza, mão direita na rabicha da albarda, a esquerda esticando a arreata, não vá o brutinho que monta, num tropeço, deitar com ela no fundo de algum abismo onde a morte espreita.

          As albardas e albardões em que estas belas raparigas da serra se firmam, ostentam, em dias de festa, certos cobertores de côr azul de um belo efeito decorativo.

Ah! montar gorda mula, ou burrico rijo, sôbre albardão engalanado, mostrando cobertor que faça vista, chame a atenção das gentes nas romarias, é um vivo prazer de corpo e de alma para as moçoilas da serra!


            S.Barâo! Dia de festa nas alturas!

Surge gente de todos os lados, com fatos de «ver-a-Deus» e lavradores e lavradoras, serrenhos e serrenhas, pobres e ricos, ali se divertem nos bailaricos e se dessedentam no acidulado carrascão vendido a copo junto dos carros com pipas enramadas.

Ao som do harmónium, concertina, ou gaita de beiços, não se faz questão de toque, tudo baila, minha gente!

Para as bandas da tarde, nas barracas de «comes e bebes», onde cheira a massa frita com bacalhau, começam os cantares a despique, ao som do arrastado dlim -dlam -dlum da vióla portuguesa quer dedilhada pelo cèguinho de S. Martinho, tocador e cantador de fama, chega a lembrar toque de harpa...

Conhecem-se pessoas dos arredores que, há mais de trinta anos são devotos de S.Barão, não própriamente do santo, valha a verdade, não da festa na ermida, mas verdade, verdadinha, daquela alegria das gentes, do arruído, dos petiscos, da rica pinga que espuma no copo e pica na língua, da pândega entre serras, da festa dionisíaca, pagã... Ali vereis, todos os anos, o Salustiano de S. Martinho, que sabe como poucos imaginar e contar uma anedocta, e no canto a despique, quando lhe dá para isso, leva de vencida qualquer parceiro, por muito destro que seja; ali vereis o Marguilho de Garvão, com o seu cachimbo a deitar fumo que nem locomotiva trepando a serra, o Marguilho, bom camarada em romarias. amigo do seu amigo, mas sem ficar a ganhar nada ao Salustiano, que é menos hábil todavia no derrubar das perdizes em pleno voo.

          Caras conhecidas a amigas de Garvão, S. Martinho, Colos, Ourique, dos rnontes da planície e dos casais da serra, ali se divertem, que tristezas não pagam dividas e a vida são dois dias...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

COLUNA “ROMANA”






Na Travessa do Álamo

Numa das artérias da vila, mais precisamente na Travessa do Álamo, pode-se observar uma coluna de mármore, vulgarmente conhecida por “Coluna Romana”, sem, contudo, devido à falta da respectiva investigação, se possa claramente identificar a sua antiguidade, proveniência ou utilização.

O seu aspecto, semelhante às clássicas colunas dos templos antigos, remete-nos, embora com as devidas cautelas, para o período da ocupação romana ou mesmo anterior. Se a monumentalidade romana se expressava em edifícios imponentes, onde se destacam as colunas como símbolo de importância, solidez, grandiosidade e poder, também é certo que já em civilizações anteriores se assistia à edificação de monumentos com colunas desta natureza.

Os parâmetros temporais para a utilização destas colunas, na vila de Garvão, limitam-nos para o período imediatamente antecedente à ocupação romana, à própria romanização ou para uma época posterior.

Limitando esta pesquisa ao período romano e anterior, temos para o período romano os diversos achados e vestígios encontrados na freguesia, destacando-se um busto marmóreo descrito por José Leite de Vasconcelos em 1908 e uma Estela funerária Romana estudada por Mário e Rosa Varela Gomes em 1984, entre outros vestígios e achados que proliferam na freguesia e que atestam a presença Romana, esta coluna poderia vir de algum templo ou edifício, desta época, ainda não descoberto.

Em relação ao período pré-romano a utilização de colunas do género da estudada, poderia ter feito parte do templo da idade do ferro, cuja localização ainda é desconhecida,[1] mas que se conhece a sua existência pela descoberta do Depósito Votivo, onde as oferendas eram depositadas.  

Esta coluna foi trazida, da ribeira junto à ponte da Estação de Garvão, onde foi achada, para o local onde se encontra, nos anos quarenta do século XX, por populares da vila.


[1] Sobre a localização deste templo, existe a cerca de 50 metros do Depósito Votivo e ao mesmo nível topográfico, uma estrutura, mociça, de construção pétrea, elevada a cerca de 2.50 metros do solo, com cerca de 6 metros de comprimento por 3 metros de largura, com escadaria frontal à largura da edificação.    

sábado, 13 de fevereiro de 2021

RITUAL de SACRALIZAÇÃO

 


 




 








Fundação do Depósito Votivo de Garvão

Em Garvão, distrito de Beja. A pesquisa arqueológica, desenvolvida na década de 80 do século XX , indica que a primitiva ocupação humana remonta, pelo menos, ao Bronze Final.

No «Cerro do Castelo», uma elevação no interior da própria vila, detetou-se, em 1982, na sua zona central, uma fossa, coberta por lajes de xisto, dentro da qual se encontrava um crânio humano, separado do respetivo esqueleto e com indícios de trepanação.

Estava associado a alguns ossos de animais, bem como a um grande conjunto de cerâmicas pisadas, ao que parece, propositadamente; «talvez os últimos restos de um ritual de sacralização, ou de fundação do depósito, anterior à deposição dos objetos votivos», datado da segunda metade do século  III a. C. Ainda na opinião de alguns autores, todo o espólio encontrado poderá implicar a existência de um eventual ritual de libação sacralizadora, relacionado com um sacrifício humano [...] O crânio localizado na base do depósito pertenceu a uma mulher [...] A morte foi-lhe provocada por três golpes desferidos na zona occipital e parietal por um instrumento contundente, pesado, dotado de um gume curvo pouco penetrante, que incidiu obliquamente sobre a cabeça da vítima [...] a vítima encontrar-se-ia deitada em decúbito ventral, quando lhe foram desferidos sucessivamente três golpes. Qualquer um deles seria o suficiente para lhe provocar a morte [...]. A morfologia das lesões sugere que o instrumento utilizado terá sido um machado de pedra polida de que, aliás, se recolheu um exemplar no depósito. O crânio foi então separado do corpo; a forma como isso se deu e o espaço de tempo que mediou entre este facto e a deposição do crânio como elemento ritual na criação do depósito votivo são, no entanto, indetermináveis [...]. Parece certo que, no topo do Cerro do Castelo de Garvão, existiu o santuário a que o depósito secundário corresponde.

Partindo deste exemplo de Garvão, vamos agora examinar quanto as dádivas funerárias ou objetos votivos nos podem também ajudar a fortalecer a hipótese da existência de um culto das cabeças, desde longa data.

Este sítio ter-se-á revestido de uma considerável importância, uma vez que foi reutilizado ao longo dos tempos, chegando ao período romano, como o atesta a presença de duas colunas de mármore de um possível templo dessa época, recolhidas na própria vila de Garvão.

O considerável conjunto de recipientes cerâmicos constituintes de um possível depósito secundário de peças votivas, os inúmeros artefactos pertencentes ao domínio do sagrado, como seriam os ídolos de cornos e os ídolos falange, ajudam-nos a tecer algumas considerações e a incluir este achado dentro da tradição cultual céltica.

Sem esquecer, contudo, que, nas suas datações mais recentes, são já bem visíveis outros sincretismos com tradições especificamente mediterrânicas. Todo o depósito de Garvão continha uma enorme variedade de cerâmicas, objetos de oiro, prata e bronze, cornalinas e vidros, cuidadosamente arrumados, numa vontade aparente de organização do espaço disponível.

O santuário faria parte de um povoado de origem antiga e de longa sobrevivência, e a grande acumulação de ex-votos indicia um ritual público, muito concorrido pela população das regiões circundantes.

Nas suas fases mais tardias, nas sociedades já fortemente hierarquizadas da Idade do Ferro peninsular, os atos de carácter religioso terão sido, tal como os mitos e os seus rituais em épocas paleolíticas, um modo de coesão e de agregação social, e este santuário, «certamente incluído numa mais complexa estrutura com finalidade religiosa», parece ser um dos locais paradigmáticos e demonstrativos de tal contexto organizacional.

A natureza dos objetos encontrados neste sítio arqueológico mostra igualmente que estamos numa época de forte desenvolvimento comercial entre o Ocidente e o Oriente, havendo indícios claros das componentes civilizacionais da chamada civilização tartéssica, da fenícia ou da grega. No entanto, isso não exclui a base étnico-cultural céltica a que pertenceriam estas populações, que naturalmente adotariam não só o que teria significados semelhantes, como o que lhe era exótico, até por uma questão de prestígio social, no que toca aos grupos de elite.

Mas esta componente céltica é reconhecida unanimemente pelos historiadores, mesmo por parte daqueles que continuam a manter a ideia de invasões ou migrações desses povos para a Península apenas no século  VII ou  VI a. C. Garvão poderá inserir-se, por um lado e pelo que reflete de mais tardio, no culto das cabeças cortadas em contexto guerreiro e, por outro, dentro do culto das cabeças inserido em rituais fundacionais e de soberania.

Quanto ao primeiro contexto, as características e a presença de certos ex-votos podem refletir o que afirmámos no início deste trabalho sobre a existência, também em Portugal, dessa segunda fase evolutiva do culto das cabeças e a sua correspondente importância na afirmação do poder, nessas sociedades da Proto-História. Aliás, já em textos clássicos, como o de Diodoro Sículo (Biblioteca Histórica, XIII, 57, 2), se diz que os soldados hispânicos nos exércitos cartagineses cortavam as cabeças do inimigo, pendurando-as nas suas lanças. E o mesmo parece estar refletido nos desenhos da lúnula de prata (século II a. C.) de Chão de Lamas (Miranda do Corvo, Coimbra). Nesta, no centro e dentro de um círculo trançado, vêem-se duas cabeças decepadas, exibindo uma coroa de folhas e associadas a uma pátera, lanças e punhais.

Ao redor da lúnula, estão representados javalis e pássaros – alusões às deusas de guerra célticas, com formas de pássaro? –, alternando com serpentiformes, motivos recorrentes e de larga diacronia, mostrando claramente o entrelaçar da simbologia mais antiga com a mais recente. Por outro lado, vemos Estrabão afirmar que, entre as tribos lusitanas, «muitas vezes também cortam a mão direita aos cativos e as oferecem aos deuses», o que nos recorda o herói irlandês Cu Chulainn, a quem decapitaram e cortaram a mão direita.

Parece, com efeito, não haver dúvida de que em Garvão se efetuou um sacrifício humano, prática dada como certa entre os povos do Ocidente peninsular da Proto-História, descrita por escritores como Tito Lívio, Plutarco, Estrabão ou Diodoro de Sículo. Estas descrições referem-na ainda como havendo uma «aparente associação de homens e cavalos num contexto ritual eminentemente guerreiro e a importância da dimensão divinatória do sacrifício de vítimas humanas». A respeito desta associação mencionada pela investigadora Maria João Santos, um dos elementos encontrado neste depósito é precisamente a estatueta de cerâmica de um cavalo. Curiosamente, não tem cabeça. Porém, a razão desse facto infelizmente não é concludente, pois pode ter sido acidental.

Mas também se encontrou, isolado, um prótomo de cavalo de cerâmica, possível parte de um recipiente. Mas a autora acima citada, para além de nos dar exemplos dessa associação no mundo indo-europeu, relacionados com sacrifícios humanos de carácter guerreiro, lembra-nos também a tradição céltica existente no Ulster referente ao ritual de consagração real, ou ritual de fundação de um novo reinado, expresso na cópula ou na ingestão de um animal sagrado, como é, entre outros, o caso do cavalo. Um aspecto que merece sem dúvida atenção é o facto de que, na tradição indo-europeia, as festas destinadas às divindades guerreiras se celebrarem habitualmente no solstício de Inverno [...] O sacrifício do cavalo que parece protagonizar estes ritos, sempre relacionados com a figura do rei, assume particular importância, sendo destinado à renovação das forças em declive do monarca no final do ano[...].

Forças essas que estão em consonância com os movimentos cíclicos da natureza,  comandados  pela  Terra-Mãe, transfigurada nas épocas pré-históricas mais recentes nas várias versões das deusas-mães e das deusas da soberania. E, como bem recorda Maria João Santos, na Península Ibérica, este tema subsiste «nas correrias de jovens mascarados realizadas ainda hoje nas festas de Inverno e de Ano Novo do Norte de Portugal». Mencionem-se a Festa dos Rapazes ou a Serração da Velha, em Trás-os-Montes, em que alguns rapazes envergam, ritualmente, trajos femininos (a filandorra – fiadeira – e as madamas) e ostentam máscaras, com uma iconografia animal sugestiva, como uma serpente esculpida no rosto.

É deste modo que esta cabeça de Garvão, ao que tudo indica deliberada e ritualmente cortada, poderá atestar um segundo contexto: o contexto de ritual de fundação, semelhante ao verificado anteriormente com as cabeças de auroque, um par de milénios antes, em possível homenagem a um deus masculino ainda não antropomorfizado, conotado com a energia vital deste animal. Mas os múltiplos restos animais e os vários tipos e formas de cerâmica serão também indicativos dessas refeições e libações rituais que poderiam decorrer, talvez, ciclicamente, como as cerimónias solsticiais, tanto no interior do santuário – para alguns, supostamente os membros da elite sacerdotal e/ou guerreira – como no exterior, para a demais população. E não falta, entre o espólio, um pequeno címbalo de prata, alusivo à realização de práticas musicais, próprias dos banquetes cerimoniais. Em articulação com estas várias facetas, e relembrando os rituais célticos da união – sexual ou através da ingestão de um animal sagrado – entre o rei e a deusa da soberania para legitimação do poder real, parece-nos estar o facto de, neste santuário de Garvão, a cabeça ser a de uma mulher e de haver uma presença marcante de objetos votivos representando a forma feminina.

Disso são exemplo certas estatuetas e peque nas cabeças toucadas ou com penteados atribuídos ao feminino, chegando uma delas a ser conotada com uma divindade indígena, semelhante à Tanit fenícia/cartaginesa ou a Deméter, à maneira do sincretismo religioso já mencionado.

Estes são, certamente, alguns dos sinais possíveis do pensamento mítico céltico acerca do poder da terra e da produção – o terceiro poder, segundo Dumézil –, que residiriam na mulher/rainha, personificação da deusa da soberania.

Outros achados conjugam-se bem com esta interpretação: são múltiplas as placas oculadas, de oiro ou prata, indicando a popularização e a continuação de mitos e práticas cujas origens podem remontar aos vasos e aos «ídolos oculados» do Neolítico, comummente aceites como sendo representações da deusa-mãe, tema a mencionar a seguir. E podemos relacioná-los com outros, muito semelhantes, encontrados em França em Source des Roches à Chamalières (Clermont-Ferrand) ou em Source de la Seine, na Borgonha.

Neste, encontrou-se um vaso dedicado à deusa Sequana, deusa cujo paralelismo com essoutra deusa céltica da soberania, Brigite, foi já referido. Essas peças, devendo reflectir igualmente o resultado de curas, especialmente de carácter oftalmológico, acontecidos por intervenção divina, mostram-nos o possível carácter profiláctico do lugar; mas mostram também a continuidade das crenças que vão prolongar-se pelos tempos cristianizados e chegar até hoje, sempre consubstanciados numa personagem feminina, a divindade, por excelência, da fertilidade, da regeneração e da cura. Dessa cristianização será exemplo Santa Luzia, a quem ainda hoje, bem perto de Garvão, se oferecem ex-votos constituídos por placas oculadas de prata, culto aliás muito difundido também na Andaluzia; emblemática é, igualmente, a sua veneração no Santuário de Santa Luzia, em Viana do Castelo e no Minho.


In: Gabriela Morais, (com a colaboração de Fernanda Frazão), Contributos Portugueses Para O Estudo Do Culto Das Cabeças. 1ª ed. - Lisboa : Apenas Liv







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