quinta-feira, 8 de abril de 2021

CONFRARIA DAS ALMAS EM GARVÃO

Cópia dos Estatutos da Confraria das Almas da Freguesia de Carreço, Viana do Castelo.

            A menção à Confraria das Almas, na vila de Garvão, surge: No livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão, no fólio 93.

(…) cujas cazas ja dittas parte com o ditto sele

iro do Sul e do Norte com as cazas da Con

fraria das Almas desta villa e do Poente

com a Rua da Mizericordia e do Nascen

te com a azinhaga que vai para a ribei

ra (…)


          Para além desta menção das, cazas da Confraria das Almas desta villa, existe actualmente, em Garvão, um terreno denominado Farrejal das Almas, pertença actual da Junta de Freguesia e herdado da Santa Casa da Misericórdia, contudo desconhece-se se teria Igreja própria ou outros bens.

          A Confraria das Almas ou dos Defuntos, de nome completo Confraria das Almas do Purgatório, tinha como princpal função manter a relação entre os mortos e vivos, com a finalidade de resgatar as almas do purgatório através da oração.

            Durante a Quaresma, todas as noites depois da ceia e da reza familiar, um dos membros da Confraria percorria as ruas da vila, anunciando as rezas pelas Almas do Purgatório. Geralmente fazia-se anunciar fazendo soar uma matraca de madeira e entoava uma toada soturna e lenta:

Irmão, lembra-te de rezar pelos que já lá estão.

          Um dos principais motivos do ingresso dos irmãos nestas irmandades das Almas, foi a necessidade de obter a maior quantidade possível de intercessores no mundo celeste para conseguirem garantir a proteção divina na sua vida quotidiana e a salvação das suas almas após a morte. Apesar de nem só através das irmandades das Almas do Purgatório se procedia ao culto dos mortos, podendo os fiéis encontrar resposta para esta necessidade em outras associações religiosas, dada a tendência de outros estabelecimentos ou instituições religiosas em proverem os respetivos sacramentos.



quarta-feira, 7 de abril de 2021

CONFRARIA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DE GARVÃO

                   

Emblema da Confraria do Santíssimo Sacramento de Mafra e Custódia da Igreja.

            Num documento relacionado com os Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja, consta na segunda página a menção à Confraria do Santíssimo Sacramento de Garvão, 1819/1846.

            Conjuntamente com a Irmandade do Sagrado Espírito Santo, a Santa Casa da Misericórdia de Garvão e a Confraria das Almas, (mencionada no livro Herança Histórica, p. 82) e o conhecimento, agora, desta Confraria do Santíssimo Sacramento, vem contribuir para o conhecimento das vivências, pelo menos em termos caritativos, da população do extinto concelho de Garvão. 

            As confrarias sob a invocação do Santíssimo Sacramento, tal como as do Rosário e das Almas, foram impulsionadas após a realização do Concílio de Trento. Independentemente da invocação das confrarias, um dos principais interesses da atuação das mesmas, a par da ajuda à pobreza e do acompanhamento dos mortos, foi a reforma dos costumes através de propostas de modos de vida de acordo com as decisões conciliares, o que favoreceu a paz vicinal. Isto é, as confrarias contaram-se entre os mecanismos de disciplinamento social incrementados após o Concílio.

            No caso das confrarias do Santíssimo Sacramento, constituíram uma tentativa de resposta à crise teológica levantada pela reforma protestante quando os mesmos negaram a presença de Deus na eucaristia. Teria sido o modelo da arquiconfraria instituída no convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva (Roma), aprovada por Paulo III, em 1539, a repercutir-se pela Cristandade.

            Visando em especial a solenização do culto, essas instituições investiram muito particularmente nas celebrações litúrgicas ligadas aos mistérios de Cristo, tornando-se o ciclo da Páscoa o mais relevante. No entanto, algumas dessas irmandades foram criadas anteriormente ou em data muito próxima desses eventos, o que demonstra a não influência dessa realidade.

            Em Portugal as confrarias estão documentadas desde a Idade Média, remontando as origens a épocas anteriores. Eram associações leigas, embora pudessem contar com clérigos. A Igreja rapidamente as controlou, enquadrando-as nas paróquias e mosteiros, embora só fossem fiscalizadas pelos bispos no plano espiritual.

            A entrada dos confrades era voluntária, pública e celebrada por meio do juramento do compromisso — isto é, das normas ou estatutos pelos quais era regida —, o que implicava a inscrição no livro dos confrades e o pagamento de uma joia anual. Em princípio, essas agremiações estavam abertas a todos. Porém, o pagamento da quota anual implicava, desde logo, a exclusão dos mais carenciados.

            Constituíram um importante espaço de sociabilidade — na Época Medieval, ligada inclusivamente ao banquete, por ocasião da festa do orago, prática que posteriormente caiu em desuso com exceção das confrarias do Espírito Santo —, asseguraram as cerimônias fúnebres dos confrades e instituíram um meio de evidenciar integração e prestígio social. Assim se explica a presença de cristãos-novos nas fileiras dos confrades, apesar de algumas irmandades levantarem problemas ligados à limpeza de sangue, como se observou na artigo sobre a Confraria do Rosário dos Brancos, onde certos irmãos, perante a presença de irmãos negros, preferiram filiar-se na Confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos continham geralmente a cláusula de limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”. Por outro lado, saliente-se que algumas irmandades colocavam limites etários à adesão: as mulheres podiam integrar a maioria das confrarias e as havia especificamente para negros e mulatos.

            Algumas irmandades medievais foram absorvidas pelas Misericórdias, como se observou no caso da Irmandade do Espirito Santo, absorvida, de uma forma bastante contestada, pela Misericórdia, como se encontra sobejamente descrito no Livro da Misericórdia e do Espirito Santo de Garvão.

            Igual destino terá acontecido também com as restantes Irmandades ou Confrarias do concelho de Garvão, pois a Misericórdia, animada de proteção real, não só rivalizava com as restantes Irmandades do concelho como igualmente invejava a sua riqueza e através de posturas reais eventualmente veio a conseguir.

domingo, 4 de abril de 2021

IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS EM GARVÃO

 

 





- Imagem da procissão da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

- Livro da Irmandade dos Homens Pretos

          Como o título indica, a existência de comunidades de negros em Portugal, (e consequentemente sobre as relações esclavagistas e a sua evolução), deixou marcas da sua existência, ainda visível na onomástica de certas povoações, nomeadamente na actual população da vila de Garvão, conforme se observou.

         Umas das características da presença de negros nas várias vilas do reino era a presença das Confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e segundo Jorge Fonseca,[1] a Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, assume que: Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos.

         Se no artigo sobre Os Pretos do Sado, se observou a concentração desta população nas lezírias do Sado, a sua presença em Portugal é anterior e teria origem na expedição de António Gonçalves, iniciada em 1441, como o começo do tráfico negreiro para o reino português, passando então, o mercado esclavagista, a ser umas das principais actividades mercantis entre Portugal e África.

         A privação da liberdade e a servidão imposta aos negros africanos, encontra-se justificada pelos papas através de várias bulas outorgadas aos reis cristãos da península e a respectiva conversão dos povos indígenas à Igreja.


Na bula Dum diversa, de 1442, o papa Nicolau V outorgara a Afonso V de Portugal (o “Africano”), o direito de “atacar na costa da África os infiéis, pagãos ou sarracenos, escravizar suas pessoas e apropriar-se de seus bens.” Depois, em 1456, o papa Calixto V outorgara à Ordem de Cristo a Jurisdição eclesiástica sobre a Guiné, assegurando-lhes uma participação no tráfico negreiro.[2]


           Desde 1450 cerca de 800 escravos eram enviados anualmente para Portugal e até 1500 cerca de 150 mil foram comercializados pelos portugueses através do Atlântico. A partir de então a Igreja passou a cumprir o papel de integrar esses escravos numa sociedade católica e branca, utilizando as irmandades como principal instrumento para os introduzir no catolicismo.

           A devoção a Nossa Senhora do Rosário foi então utilizada pelos dominicanos para inserir os negros nesse novo universo cultural. Um dos fatores que contribuíram para a maior adesão dos negros foi o rosário, que os lembrava do oráculo Ifá, objeto mágico da cultura africana, composto por pequenas peças irregulares que se assemelhavam ao rosário.

          Esse contato religioso possibilitaria uma coesão cultural entre brancos e negros por estarem interligados através de uma crença comum. A união das duas etnias evitaria a divisão das esmolas, condicionando os escravos à mesma subjugação que vivia fora do ambiente religioso.

          A fim de terem uma maior representatividade na sociedade e as suas necessidades serem mais atendidas, os negros começavam a reivindicar uma irmandade que fosse de sua gente, onde os objetivos e a situação socio-económica fossem pelo menos equivalentes.

         A cor da pele então passou a assinalar a separação dos grupos levando os primeiros devotos de Nossa Senhora do Rosário a abandonarem quase que completamente essa devoção, quanto se instituíram as primeiras associações negras.

         A Confraria do Rosário dos Negros, pela mestiçagem, pela assimilação, pelo fim da escravatura em Portugal, em 1761 e pela proibição da cláusula de limpeza de sangue pelo Marquês de Pombal, em 1773, ditou o fim destas Confrarias dos negros cuja razão de ser deixou de existir.

          De notar igualmente que uma das características destas Irmandades era a execução de várias danças, uma das quais há memória de se ter realizado em Moncorvo, no dia de reis, até aos anos de 1930, segundo informação de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. (Assistente da faculdade de Ciências do Porto, conservador do Museu Antropológico). NOTA DE COREOGRAFIA POPULAR TRASMONTANA. A DANÇA DOS PRÊTOS (Moncorvo), 1934.


Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930.

(…)

Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".


[1] Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] FREITAS, Décio. Escravos e Senhores de escravos, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983, p. 16.


 





terça-feira, 23 de março de 2021

IRMANDADE DO ROSÁRIO DOS BRANCOS

 

Imagem de Nossa Senhora do Rosário - Lisboa, 1733

          Ao se desenvolver a temática das Confrarias e Irmandades na vila de Garvão, sejam elas de invocação ao Espírito Santo, ou as Santas Casas da Misericórdia, surge-nos a informação da existência de outras Irmandades em Garvão, nomeadamente a Irmandade do Rosário dos Brancos, a Irmandade do Rosário dos Pretos[1], a Confraria do Santíssimo Sacramento da vila de Garvão[2] e a Confraria das Almas.[3]

           O conhecimento desta Irmandade chega-nos através do arquivo da Ordem de Santiago, Mesa da Consciência e Ordens, Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade.[4]

          O culto a Nossa Senhora do Rosário surgiu em 1282, quando São Domingos de Gusmão, seu devoto, fundou confrarias sob a sua invocação em Portugal, França e Espanha. Depois de algum tempo abandonada, a devoção foi retomada dois séculos depois da morte do devoto, quando ocorria o processo de propagação da fé católica pelos dominicanos em terras da África.

        A Confraria do Rosário tinha a componente pedagógica da obrigatoriedade da reza diária, parcial ou total, de um Rosário, o que correspondia a cento e cinquenta Ave-Marias e quinze Pais-nossos, o que numa população analfabeta onde dominava a expressão oral, o repetivismo proporcionava-lhes uma melhor memorização e inculcação dos mistérios e dogmas da fé cristã

          Assim, ao se aprofundar o conhecimento sobre as duas primeiras Irmandades referidas, vai-nos surgindo, esporadicamente, a menção a outras Irmandades e da mesma maneira que a Irmandade do Espirito Santo está, de uma certa forma, relacionada com os cristãos-novos, (diga-mos judeus e mouros convertidos ao cristianismo), as Irmandades do Rosário, ou por controle e autonomia das populações de origem africana, ou como lugar normativo, de assimilação de valores culturais da sociedade colonial cristã, leiga e popular, estão relacionadas com a presença e assimilação dos negros em Portugal.

        Contudo a presença de irmãos negros na Irmandade manifestava-se de um modo que desagradava aos católicos mais puritanos. Oriundos de uma cultura, cujas crenças exprimiam-se com diferentes modos simbólicos do vasto continente africano, eram sempre vistas, pela nomenclatura católica, como pagãs e obras do demônio, perante as recriminações escandalizadas dos poderes eclesiásticos locais.

          Procurava-se, por conseguinte, frequentemente forçá-los a mais moderação nas suas expressões festivas onde os traços culturais africanos exprimiam-se com maior vivacidade e naturalidade. A história das confrarias religiosas negras é a do conflito entre esta cultura e a representada pela religião católica, maioritária, considerada como a única detentora da verdade e a única aceitável.

          Assim, ainda no século XVI, quando os membros da Confraria eram mistos, os irmãos negros conseguiram eleger vários elementos, dentre eles, para os lugares-chave da Mesa da instituição devido ao maior número de irmãos negros, o desentendimento e o conflito chegaram a tal ponto que a instituição dividiu-se em duas confrarias, a Confraria do Rosário Branca e a Confraria do Rosário Negra, fruto das divergências internas entre estas duas camadas da população.

          A Confraria do Rosário dos Brancos, em certos casos, ter-se-há associado à confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos primavam pela limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”, o que, teoricamente, os membros das antigas irmandades do Rosário não podiam fazer parte. Estatuto esse já existente no caracter exclusivista da Confraria dos Brancos em oposição à Confraria dos Negros.


[1] Ano de referência 1766. Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] 1819 – 1846, Grupo de Arquivos Privados dos Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja.

[3] Livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão. Fólio 93.

[4] IANTT, OS/CA, Liv. 36, Dez. 1766, Irmandade do Rosário dos Brancos. Garvão. Igreja matriz.

quinta-feira, 11 de março de 2021

OS PRETOS DO SADO em GARVÃO











- Livro de Isabel Castro Henriques: Pretos do Sado» – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV).

  - Pastor de Rio de Moinhos











- Habitante de Rio de Moinhos

          A presença de negros em Portugal está atestada desde o século XV, fruto da expansão marítima portuguesa, iniciada na primeira metade do século XV e a sua presença no Alentejo, nomeadamente no Vale do Sado tem sido objecto de vários estudos relacionados com a sua resistência a certas doenças, como o paludismo que afectavam a população branca.

          Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico que durante séculos deixou o território desabitado, eram terrenos insalubres, rodeados de charnecas e pântanos. Traços negroides esses ainda identificáveis nalguns moradores das povoações das margens do rio Sado: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos e nariz largo, nomeadamente em Alcácer do Sal, São Romão de Sádão, Rio de Moinhos e São João dos Negrilhos entre outros.

Já José Leita de Vasconcelos na sua obra Etnologia Portuguesa, de 1933, se refere aos mulatos da ribeira do Sado e descreve-os como de pele escura, cabelo encarapinhado e nítidos traços negroides. Tanto os registos paroquiais como os da Inquisição dão notícia de no século XVI, viverem pessoas negras e mestiços nesta região.


Ribeira do Sado

Ó Sado, Sadeta

Meus olhos não viram

Tanta gente preta.


Quem quiser ver moças

Da cor do carvão

Vá dar um passeio

Até São Romão.[1]


          Esta presença no reino, ao longo de vários séculos, de um elevado número de indivíduos de origem africana, que no século XVI chegaram a ultrapassar o décimo da população portuguesa, em regiões como a de Lisboa e o Algarve, não pôde deixar de legar marcas reveladoras dessa presença africana sub-sariana.

          Apesar de inicialmente, se tratar de uma população estranha, minoritária, marginalizada e alvo de preconceitos pela população branca, pelo seu estatuto não só de escravos, mas igualmente pelas profissões que desempenavam, nomeadamente relacionadas com a agricultura e pastoreio de gados, não deixou contudo de ter um certo impacto, em termos socioeconômicos e demográficos, nas terras onde se fixaram, cuja presença ainda hoje é atestada por nomes de família ou alcunhas, como fulana Preta, fulano Escuro, Moreno, Carapinha, Castanho e Pardo entre outros, assim como na nomeação de certos lugares como Monte da Pretas, Monte Negro, Negrilhos etc.

          É neste quadro de dispersão da população negra e escrava pelas várias vilas do interior alentejano que se fundaram e desenvolveram as várias confrarias negras ainda na primeira metade do século XVI, revelando a existência de comunidades escravas importantes. Embora de cariz religioso cristão, não deixava de se notar certas influências da religião tradicional africana nas suas cerimónias.


[1] Recolhida em Alcácer do Sal.

domingo, 7 de março de 2021

RAPA, TIRA, DEIXA E PÔE… ou DREIDEL JUDAICO










JOGO DO RAPA

E O JOGO DO DREIDEL


Quem não se lembra de jogar do Rapa?

Rapa – Tira tudo o que estiver no centro da mesa.

Tira – Tira uma peça.

Deixa – não tira nem põe

Põe - Põe uma peça no centro da mesa.

Cada jogador, começa com cinco peças e antes de jogar põe uma delas, pedrinhas, grãos, chocolates ou rebuçados no centro da mesa.

Quem ficar sem as peças, perde.

Quem ganhar, lambuça-se de chocolates, rebuçados ou em tempos de escassez, fica com os grãos, feijões ou com as pedrinhas.

Jogo infantil português com claras influências judias.

O “Dreidel” judaico é um pião de quatro lados com uma letra do alfabeto hebraico de cada lado, e segundo se consta, remonta ao tempo do rei grego Antíoco IV (175 a.e.c.) que baniu o judaísmo nos seus territórios.

Os judeus, clandestinamente, juntavam-se para estudar os seus textos religiosos e quando em vista das autoridades do rei, dissimulavam esse estudo com o jogo do “Dreidel”, fazendo os soldados acreditar que estavam a jogar.

Existe igualmente relatos desta prática na idade média até aos nossos dias, permanecendo nas comunidades que se foram cristianizando, com a denominação de “Rapa” e as letras R, T, D e P em cada um dos lados.

Hoje em dia, no mundo judaico, joga-se com o objetivo de ganhar o maior número possível de moedas de chocolate embrulhadas em papel laminado dourado, ou outras guloseimas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

IGREJA E FESTA DE SÃO BARÃO

IGREJA DE SÃO BARÃO

A Igreja de São Barão é um antigo local de peregrinação, seguido de extenso arrail que juntava as populações das terras e montes vizinhos, até praticamente a meio do século XX. Tendo indo perdendo pogressivamente afluência a partir daí. com um total desconhecimento das gerações actuais. Sáo Barão, (ou mesmo Varão), tem a particularidade de não fazer parte do panteão católico. A sua origem terá de se procurar noutras culturas que marcaram a paisagem alentejana, conjuntamente com outros santos e santas não reconhecidos pela igreja católica e que se encontram amiúde nestas terras alentejanas.

Excerto do livro SUL e SUESTE da autoria de Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicado em 1940, sobre a Igreja e festa do São Barão, situada na Estrada do Saraiva, na confluência da freguesia de Ourique com a freguesia de São Martinho das Amoreiras.

              Sôbre alta lomba que, por esses tempos, uma vegetação rasteira - a esteva, o rosmaninho, a urze e o tojo – cobria, em plena serra, num lugar quási inacessível a veículos, ergue-se a branca ermida de S. Barão.

            Lugar aprazível dum pitoresco abrupto. Em volta, cerros mais altos, de cujas pregas irrompem, filhos do mesmo seio ressequido da terra atormentada, os sobreiros, os chaparros e os penhascos. Em baixo, num leito cheio de pedregulhos e ladeado de ravinas e trincheiras que mostram, como ossaturas esburgadas, raízes de árvores que o vento arrancou e rochedos quási a despenhar-se, corre um ribeiro.

Païsagem áspera, bravia, de serra alentejana. Plena serra do Caldeirão...

Do alto dêstes cêrros que circundam S. Barão, em tardes de perfeita visibilidade, que belo e variado panorama se disfruta!

Olhando para os lados de Beja, e abarcando toda essa imensidade, a vista prende-se nesse panorâma raro de serra e de planície. Até Garvão e mesmo um pouco além dessa antiqüíssima vila, as lombas sucedem-se cada vez mais pequenas e mais redondas... Depois, a planície rasa estende-se até aos barros de Beja como pista imensa, sem obstáculos..

Se olharmos, depois, em sentido contrário, para os lados do vizinho Algarve, vê-se que as as lombas avançam, sempre maiores, e vão formando cordilheiras até que, a distância, em linhas Irregulares, barram o horizonte. Mais longe, para a esquerda, por cima destas serranias, tocada de uma névoa ténue, azulada, lembrando cetáceo monstruoso repousando, ergue-se a serra de Monchique, a serra maior do Sul...

Todos os anos, pela Primavera, quando a esteva mostra a branca flor de cális amarelo, êstes lugares solitários e pitorescos de S. Barão, rnoradias próprias de águias e de lobos, se animam com a presença de gente que vem de muitas léguas de terras em redor, dos casais da serra e dos montes da planície, desejosa, muito mais, verdade se diga, de provar a boa pinga que ali se vende em pipas colocadas sobre os carros alentejanos e que ramos verdes de salgueiros encobrem, e de se divertir em bailaricos e descantes, que de render homenagens, acompanhadas de oferendas ao Senhor S. Barão, que em tempos de viva crença, tão distantes, foi venerado e tido como obreiro de altos milagres.

          Logo na madrugada do dia de festa, serrenhos e campaniços ali afluem, e é de ouvir no ar fresco do dealbar, o alegre rumor das guizeiras dos carros que, por carreteiras estreitas, avançam nas ladeiras ingremes, rodeando precipícios, a caminho de S.Barão.

            Serrenhas de chaile e lenço de vivas cores, montadas em mulas ou barricos que trepam os cêrros por veredas de cabras, trazem animação e arruído à romaria.
Nas subidas e descidas, qualquer mocinha da serra se agüenta bem, segurando-se com firmeza, mão direita na rabicha da albarda, a esquerda esticando a arreata, não vá o brutinho que monta, num tropeço, deitar com ela no fundo de algum abismo onde a morte espreita.

          As albardas e albardões em que estas belas raparigas da serra se firmam, ostentam, em dias de festa, certos cobertores de côr azul de um belo efeito decorativo.

Ah! montar gorda mula, ou burrico rijo, sôbre albardão engalanado, mostrando cobertor que faça vista, chame a atenção das gentes nas romarias, é um vivo prazer de corpo e de alma para as moçoilas da serra!


            S.Barâo! Dia de festa nas alturas!

Surge gente de todos os lados, com fatos de «ver-a-Deus» e lavradores e lavradoras, serrenhos e serrenhas, pobres e ricos, ali se divertem nos bailaricos e se dessedentam no acidulado carrascão vendido a copo junto dos carros com pipas enramadas.

Ao som do harmónium, concertina, ou gaita de beiços, não se faz questão de toque, tudo baila, minha gente!

Para as bandas da tarde, nas barracas de «comes e bebes», onde cheira a massa frita com bacalhau, começam os cantares a despique, ao som do arrastado dlim -dlam -dlum da vióla portuguesa quer dedilhada pelo cèguinho de S. Martinho, tocador e cantador de fama, chega a lembrar toque de harpa...

Conhecem-se pessoas dos arredores que, há mais de trinta anos são devotos de S.Barão, não própriamente do santo, valha a verdade, não da festa na ermida, mas verdade, verdadinha, daquela alegria das gentes, do arruído, dos petiscos, da rica pinga que espuma no copo e pica na língua, da pândega entre serras, da festa dionisíaca, pagã... Ali vereis, todos os anos, o Salustiano de S. Martinho, que sabe como poucos imaginar e contar uma anedocta, e no canto a despique, quando lhe dá para isso, leva de vencida qualquer parceiro, por muito destro que seja; ali vereis o Marguilho de Garvão, com o seu cachimbo a deitar fumo que nem locomotiva trepando a serra, o Marguilho, bom camarada em romarias. amigo do seu amigo, mas sem ficar a ganhar nada ao Salustiano, que é menos hábil todavia no derrubar das perdizes em pleno voo.

          Caras conhecidas a amigas de Garvão, S. Martinho, Colos, Ourique, dos rnontes da planície e dos casais da serra, ali se divertem, que tristezas não pagam dividas e a vida são dois dias...

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...