quinta-feira, 1 de julho de 2021

CAVALHADAS

E o Culto do Espírito Santo






 


          

As cavalhadas, eram corridas de cavalos, onde se apresentavam no local designado para as disputas, com vestimentas de gala e à moda antiga. Outrora, no local do certame, apresentava-se o cavaleiro em trajes vistosos no seu garboso cavalo, acompanhado por um pajem, também vestido de gala, embora de modo diferente e a pé, segurando o cavalo pelas rédeas ou freio.

          Estes torneios, eram feitos com o fim de mostrarem a destreza dos melhores cavaleiros das redondezas. Corriam dois a dois, a par, em alta velocidade para uma meta. Vindos a correr nos seus cavalos, tinham de espetar uma lança num frango ou galinha vivos, os quais estavam dependurados numa corda atada a dois paus, distanciados um do outro de 5 a 6 metros.

          Com o andar dos tempos, este costume, considerado demasiado bárbaro, foi desaparecendo e substituído por outro menos chocante. Em vez dos animais vivos, é colocada uma argola que constitui o alvo e desafio à perícia do cavaleiro, pois se este, vindo a correr, não enfiar a lança na argola, fica desclassificado e desfeiteado perante o povo, que muito gosta desta manifestação.

          Como recompensa do êxito, o vencedor recebe uma grande salva de palmas e um animal vivo (galinha, frango, etc,...). Actualmente, esta actividade ainda é mantida numa ou outra localidade, mas de um modo muito mais simples.

          Até há pouco tempo, ainda se faziam as cavalhadas na freguesia de Gomes Aires”. (in: Monografia da Vila de Almodôvar, António Júlio Gonçalves, Associação Cultural e Desportiva da Juventude Almodovarense, 2000).

          Tempos houve em que os jogos eram mais elaborados, realizando-se inclusivamente nas ruas das vilas, e em vez das farpas era utilizado um pau para enfiar nas argolas, quebrando por vezes, (o desajeitado cavaleiro), as quartas de água, que estavam igualmente penduradas na corda.

          Por outro lado, as reminiscências que nos chegam doutros locais, nomeadamente os Açores e Brasil, locais onde a presença portuguesa impôs os usos e costumes da metrópole, estes festejos evocam uma época em que se desenvolviam em torno das lutas entre cristãos e mouros.

          De facto, se no continente há já muito que se perdeu a origem destas festas, e a sua relação com as festividades religiosas que se celebravam no princípio da nacionalidade. Em cenários mais isolados e imunes às influências externas ainda se assiste à ligação destas festas ao culto do Espírito Santo, (assim como a maioria dos festejos tradicionais das aldeias e vilas têm as suas origens nas confrarias do Espírito Santo local).

          Igualmente a passagem e a aproximação dos cavaleiros, nomeadamente as voltas em torno da igreja local, evocando os dons do Espírito Santo, e do local do “torneio”, era anunciada pelos corneteiros comandados por um “rei”. Seriam igualmente acompanhados por um mordomo e as cores nos trajes usados pelos cavaleiros seriam predominantemente as cores do Espírito Santo, (o branco e o vermelho).

          “Em Vildemoinhos, perto de Viseu, mantêm-se como desfile de cavaleiros vestidos de fato escuro e montando cavalos ajaezados. Resultam, segundo a tradição, de uma promessa feita a São João Baptista pelos moleiros, no caso de conseguirem sentença favorável de água para os seus moinhos, havendo quem pense que têm influência das Cavalhadas da Ribeira Seca. A primeira destas romagens à capela do santo, com os cavaleiros vestindo de negro, como os nobres, e com os cavalos ajaezados, terá sido em 1652. No entanto, no século XX passaram a incluir carros alegóricos, bandas de música, ranchos folclóricos e muitos outros elementos que não faziam parte da tradição.” (in: Cavalhadas em Vildemoinhos)





segunda-feira, 21 de junho de 2021

A MULTIPLICIDADE DOS CAMINHOS

           É difícil ouvir falar de "um Garvão” que não assuma uma perspectiva de divisão contaminada de pseudo-interesses tacanhos.

          Deve-se acreditar acima de tudo na diferença, na multiplicidade de opiniões e vontades como suplemento vitamínico e gerador de escolhas para uma vila mais próspera e saudável.

          O desconhecimento, a falta de visão, a falta de ambição, o fechamento sobre si próprios – face ao desconhecimento do exterior - defendido em surdina por alguns, seja face às restantes regiões que nos rodeiam, seja face a um mundo muito maior, cheio de oportunidades, conhecimentos e ideias, leva a uma perigosa ignorância, estagnação e degradação das instituições culturais e sociais.

          É preciso recusar-se a pensar que por cá não existem pessoas cultas, com outros conhecimentos e visões, que por cá não existem leitores seguidores de José Saramago, de Fernando Pessoa, de Florbela Espanca, de Eça de Queiróz, Agostinho da Silva ou Camões, que por cá não existem cinéfilos seguidores de Woody Allen, Chaplin, Oliver Stone ou Michael Moore, ou fãs incondicionais de pintores, músicos, historiadores ou filósofos.

          É preciso recusar-se a pensar que por cá não existem pessoas que se destacaram como profissionais, nas várias profissões que exerceram, ou militares que exemplarmente progrediram nas suas carreiras, que por cá não existem pessoas que se destacaram na área da medicina, ou na engenharia e arquitetura, nas ciências agronómicas ou na educação, cujos contributos em muito contribuiriam para o progresso desta terra.

          Falamos de diferentes olhares, de um Garvão que nos foge debaixo dos pés, de um excessivo que nos cega e que muitas vezes nos afasta do que realmente somos e precisamos, culturalmente, economicamente e socialmente, com a participação cívica e contributos reais ao desenvolvimento desta terra. Mas, contudo, uma susceptibilidade quase subliminar face ao desconhecido continua a marcar comportamentos. Aqui mesmo, onde as opções particulares continuam a vigorar e a dominar face ao interesse colectivo, continua-se a assistir a fronteiras invisíveis e muitas vezes a cair no erro de privilegiar interesses próprios.

          Do cimo desta falsa altivez, o contributo surge por vezes na forma de uma massa crítica inconsciente, sem forma, formato ou feitio. Os resquícios da diáspora alentejana fazem-se sentir precisamente cá dentro e não lá fora, com residentes regionalizados e meros simpatizantes da visão do próprio umbigo sem levantar a cabeça, tentando, contudo, mostrar aos outros, demagogicamente, as virtudes duma palestra impugnada de falsas promessas que depressa se esquecem fora dos períodos eleitorais.

terça-feira, 8 de junho de 2021

NOVA ESTELA JUDAICA OU JUDAIZANTE

DESCOBERTA EM GARVÃO


Estela descoberta em Garvão


Estrela esculpida no lintel da casa que ficou conhecida como a Casa do Judeu de Quintela, Galiza.

          Em 2003, no livro Garvão - Herança Histórica, tinha-se dado a conhecer a descoberta, em Garvão, de uma estela funerária medieval que no contexto cripto-judaico da época, se poderia associar à existência de judeus em Garvão e do qual várias fontes relatam a sua presença nesta vila, (Mayer Kayserling, História dos judeus em Portugal, entre outros).

          Apesar desta estela apresentar uma estrela com cinco pontas, ao contrário da estrela de David, associada aos judeus, ter seis pontas, esta de cinco pontas poderia ser de influência judaica e uma simulação desta fé, para fugir à perseguição religiosa movida pela fatídica inquisição de que tantos exemplos existem na península Ibérica.

          Esta estrela, de cinco pontas, Pentagrama ou Pentalfa, poderá igualmente ser identificada com o Selo de Salomão, ou Anel de Salomão, em latim "Signum Salomonis", popularmente conhecido como "Sino Saimão".

          Surge agora, descoberta pelo arqueólogo José Daniel Malveiro, incrustada nas paredes do Cemitério Velho, na vila de Garvão, uma nova estela funerária com uma estrela de seis pontas e uma roseta hexapétala no centro.

          Esta nova estela, em comparação com outros motivos iconográficos judaicos que se encontram no mundo Galaico-Português, em muito se assemelha a estes e está mais dentro dos parâmetros conhecidos como judaicos ou judaizantes.

        De facto, ao observarmos outros monolíticos relacionados com esta fé, constata-se a enorme semelhança entre uns e outros, entre os vários exemplos que existem, podemos tomar como exemplo a estrela de seis pontas com uma pentapétala no centro, esculpida no lintel da casa que ficou conhecida como a Casa do Judeu de Quintela, em Cabanelas, na Galiza.

          Neste local existe um casario em ruínas, cujas estreitas ruelas de escadas albergam a mencionada casa, no lintel desta habitação, situada no cimo da vila, pode-se ver uma Estrela de David com uma flor de cinco pétalas ao centro. Também, nos pilares laterais da entrada e que suportam o lintel, figuram os retratos, esculpidos em pedra, da família hebraica que habitou esta casa.

            No interior da porta, no pilar da direita, quando se entra existe uma cavidade na parede identificada com o local da Mezuzah, (Símbolo religioso judaico que consiste em dois parágrafos de uma oração, colocados num estojo de metal, madeira ou vidro, pregado nos umbrais das portas, à direita), trata-se de uma pequena capelinha característica das casas hebreias onde as famílias judias deixavam dentro as orações.





domingo, 6 de junho de 2021

Bibliotecas Itinerantes Concelhias




 

          A rede concelhia de leitura no distrito de Beja, dispõe de duas bibliotecas itinerantes da responsabilidade dos respectivos concelhos, uma em Almodôvar e outra em Castro Verde onde as mencionadas autarquias disponibilizam à população do concelho os serviços de uma biblioteca móvel.

          Igualmente o município de Grândola disponibiliza à população os serviços de uma biblioteca itinerante, Com esta unidade será possível fazer chegar a todos os munícipes, os serviços que são disponibilizados na Biblioteca Municipal de Grândola, designadamente o livre acesso a livros, jornais e revistas (para consulta local e empréstimo domiciliário), o acesso à Internet e ao catálogo colectivo da rede concelhia, bem como a acções de promoção do livro e da leitura.  O Município procura, assim, garantir o princípio da igualdade de oportunidades para todos, e promover o desenvolvimento sustentado e integrado do território, valorizando as zonas rurais e os centros de menor dimensão.

          Também noutros municípios do país, os respectivos municípios facultam e promovem a leitura através da criação de bibliotecas Itinerantes, acompanhando outros serviços culturais disponibilizados à população do concelho. 

          Estas Bibliotecas Itinerantes prestam um importante contributo no enriquecimento cultural das populações das freguesias, nomeadamente aos alunos dos Jardins de Infância e das Escolas, permitindo, entre outros aspetos, a descentralização da oferta cultural por parte do Município, promovendo junto dos alunos e da população em geral o empréstimo de livros e incentivando a prática da leitura. 

          Segundo o Jornal Público, O município alentejano de Almodôvar (Beja) vai criar uma rede de leitura através de uma biblioteca itinerante que levará "cultura em forma de livros" às localidades isoladas do concelho.

         Constantino Piçarra, director da Biblioteca Municipal de Almodôvar, explicou à Lusa que se trata de um serviço criado a partir da biblioteca "mãe", situada na sede de concelho.

            "É preciso acabar com a macrocefalia cultural das sedes de concelho", defendeu.
        "Iremos levar a cultura em forma de livros às localidades isoladas do concelho de Almodôvar, para combater a desertificação cultural", acrescentou. Neste sentido, a biblioteca itinerante vai circular pelas 25 localidades do concelho, passando por cada uma delas, de 15 em 15 dias, em locais e horários pré-definidos e a afixar nas juntas de freguesia.

         A carrinha irá transportar um acervo de 1500 livros de todos os géneros literários, além de CD, DVD e um computador com acesso à Internet e ligado à base de dados da biblioteca.
      Desta forma, explicou Constantino Piçarra, os utilizadores vão poder consultar, de forma rápida, os acervos da biblioteca itinerante e da biblioteca municipal.

         Através de prévia inscrição como leitores, o serviço itinerante destina-se aos cerca de oito mil habitantes do concelho, que podem requisitar até três livros por um prazo de 15 dias, renovável por igual período desde que não haja leitores em lista de espera.

       Com um investimento inicial de 80 mil euros, a rede concelhia de leitura e a Biblioteca Itinerante foram financiadas pela autarquia de Almodôvar, sendo o fundo documental co-financiado, em 50 por cento, pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.


livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/bibliotecasPublicas/documentacaoBibliotecas/Paginas/DocumentosapoiocandidaturaprogramadaRNBP.aspx

Biblioteca itinerante em Almodôvar | LOCAL LISBOA | PÚBLICO (publico.pt)

As Bibliotecas Itinerantes, um serviço municipal de proximidade (dglab.gov.pt)

quarta-feira, 2 de junho de 2021

MEDALHA DA PAIXÃO DE CRISTO



 

 



 


          




A medalha que aqui se apresenta foi descoberta pelo falecido António Loução, mais conhecido por "Mudo", em 2009, quando procedia ao amanho da horta situada na Rua Nova, desconhecendo-se se encontrava no local e foi desenterrada quando se procedia ao amanho da terra ou se foi trazida para este local junto a alguma carrada de fertilizante animal (estrume).

          Trata-se de uma medalha de devoção, talvez proveniente da igreja de Santa Cruz de Jerusalém, em Roma, onde se venera uma relíquia da santa cruz de Jesus.

          No anverso da medalha reconhece-se a Cruz de Cristo, rodeada dos instrumentos da paixão ou martírios do Senhor.

          Eram esses martírios que as crianças, vestidas de anjos, levavam nas procissões dos passos, na quaresma ou semana santa.

          Rodeando a cruz, vêem-se, do lado esquerdo, os flagelos, a torquês, o martelo. À direita, a espada, a vara com a esponja de vinagre na ponta.

          Legenda: SAN[CTUS] DEUS SAN[CTUS] FOR[TIS] SAN[CTUS] IMORT[ALIS] MIS[ERERE] NOB[IS] ROMA = Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, tende piedade de nós. Era este um chamado impropério ou antífona que se cantava na adoração da cruz, na sexta-feira santa. Cantava-se também em grego: Hagios o Theos, Hagios Ischiros, Agios Athanatos, eleison himas.

          No reverso, em xis, a escada e a coluna, mais abaixo o galo (da negação de Pedro), a túnica de Cristo, os dados com que ela foi sorteada. Legenda: PAS[CHA] CRIS[TI] SAL[VA] NOS.

          Estes símbolos da paixão de Cristo vêem-se em certos cruzeiros, principalmente no Centro e Norte do país, por exemplo, num que está no monte de Santo Amaro, em Maceira; outro em frente da capela de Nossa Senhora da Tojeirinha, no Alqueidão da Serra, Porto de Mós; outro em frente da capela de Nossa Senhora da Ortiga, perto de Fátima, etc. (...)

          A grandiosa composição realizada por Michelangelo entre 1536 e 1541, concentra-se em torno da figura dominante do Cristo, representado no instante que precede à emissão do veredito do Juízo (Mt 25,31-46). Seu gesto, imperioso e sereno, parece ao mesmo tempo chamar à atenção e aplacar a agitação circundante: isto dá o início a um amplo e lento movimento rotatório no que se veem envoltas todas as figuras. Ficam fora deste as duas lunetas acima, com grupos de anjos que levam em voo os símbolos da Paixão (à esquerda, a Cruz, os dados e a coroa de espinhos; à direita, a coluna da Flagelação, a escada e a lança com a esponja banhada em vinagre)

          Símbolos da paixão de Cristo:

          Escada: A escada foi um dos instrumentos usados na crucificação de Cristo.

          Esponja: Afixada numa haste que foi usada para oferecer vinagre a Jesus enquanto estava na cruz.

          Chicote e Pilar: O chicote é mostrado junto de um pilar, no qual Jesus provavelmente foi amarrado.

          Pregos: Os pregos foram instrumentos da crucificação de Jesus.

          Coroa de espinhos: Simboliza o flagelo de Cristo.

          Coração: Com chamas de fé.

          Galo: Simboliza a omissão a Cristo quando São Pedro nega tê-lo conhecido.

          Martelo: Utilizado para cravar os pregos nas mãos e pés de Cristo.

          JNRJ ou INRI: Inscrição que significa Jesus Nazareno Rei dos Judeus.

          Lança: Dos soldados romanos que transpassou o coração de Jesus.

          Torquês: Utilizada para arrancar os pregos que prendiam as mãos e os pés de Cristo.

          Canas: Que serviam como cetro quando Cristo foi torturado e intitulado rei dos judeus.

          Corneta: Que servia como arauto anunciando a morte de um condenado.

          Cálice: Onde foi recolhido o sangue de Cristo.

          Ossos humanos: Diz a lenda que, quando Cristo agonizava na cruz, no Monte Calvário, houve uma grande tempestade e a erosão escavou na base do Monte alguns ossos que seriam de Adão.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

AS BIBLIOTECAS ITINERANTES

Da Fundação Calouste Gulbenkian (1958-2002)


Biblioteca/Carrinha Citrôen HY 

             As Bibliotecas Itinerantes da Calouste Gulbenkian fazem parte do imaginário de diversas gerações, possibilitavam a leitura de livros para aqueles que não tinham fácil acesso a estes, ou promoviam a leitura junto das Escolas um pouco por todo o País.

           A Fundação Calouste Gulbenkian criou este serviço em 1958 segundo uma ideia de Branquinho da Fonseca, que tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” Isto chegava um pouco a todo o território nacional, com especial incidência nas Aldeias ou locais em que não existiam Bibliotecas Municipais ou não tinham fácil acesso a elas.

          Na década de 70 eram muitas as vozes na Fundação que eram contra este serviço, devido aos seus poucos lucros e as muitas despesas que acarretava este tipo de Bibliotecas, mas com o 25 de Abril as coisas continuaram na mesma e quando Vergílio Ferreira assumiu o cargo de director do programa das bibliotecas itinerantes, voltou a ganhar uma nova vida.

          De 1981 a 1996 contribuiu para que se promovesse cada vez mais uma animação cultural que devia estar ao alcance de todos, com leitura de contos, exposições ou encontros com autores.

          A carrinha era toda ela carismática, o modelo Citrôen HY era o escolhido pela fundação para promover as Bibliotecas Itinerantes, com duas portas na traseira que abriam de par-em-par para além de uma parte lateral que abria para cima de modo a facilitar o acesso e a visibilidade desses livros que nos ajudavam a viajar e a conhecer outros mundos. As crianças podiam requisitar alguns livros infantis, contos de fados ou histórias fantásticas que ajudaram a promover a leitura em muitos jovens em formação.

         Foi sem dúvida um excelente serviço para aqueles que vivendo em locais isolados, não tinham acesso aos livros e à leitura, e por ter existido algo do género nas vilas e aldeias ajudou tantos a ganharem o gosto pelo mundo maravilhoso dos livros.

           Para o início efectivo das bibliotecas móveis em Portugal é apontado a data de 1953, referente ao início dos serviços de uma biblioteca-circulante, implementada por Branquinho da Fonseca, no Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, onde na altura exercia funções de conservador-bibliotecário. Esse carro-biblioteca deslocava-se até “às associações, escolas e lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo domiciliário, o acesso ao livro pela população.”. Era de carácter gratuito e o acesso às estantes era livre.

              Em 1958 a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) criou, por sugestão do mesmo Branquinho da Fonseca, um serviço similar ao de Cascais, mas que almejava abranger todo o território nacional, incluindo mesmo os arquipélagos. Surgiu assim o Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI), que B. da Fonseca dirigiu até à sua morte (1974). Este tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” Afigurava-se como tal um serviço de leitura pública moderna.

              O público a quem era mais dirigido o serviço era sobretudo aquele que era mais parco no acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mas desfavorecidas. Estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia será no público mais jovem que este serviço terá melhor acolhimento, apesar de se pretender contemplar de modo símile todas as idades.



domingo, 30 de maio de 2021

CURRAL DOS BOIS

CURRAIS CONCELHIOS

             Em vários lugares do país encontra-se a denominação de “Curral do Concelho”, em Garvão existia até há relativamente pouco tempo um lugar denominado “Curral dos Bois”, na confluência da Rua Nova com a Rua Direita, junto à Estrada das Amoreiras e presentemente serve para estacionamento de viaturas de apoio à oficina de pneus/mecânica.

              As fontes consultadas, até agora, não nos permitam afirmar que era aqui que se situava o “Curral do Concelho de Garvão”, apesar de surgir uma menção ao curral do concelho nesta vila num registo do Tombo do antigo concelho de Garvão: Terreno ao Curral do Concelho, de que é Efiteuta Diogo Mendes Lopes D´Azevedo, paga de foro 600 reis,[1] contudo a proximidade da Rua Direita e do antigo Rocio, (atuais Largo da Palmeira, Lardo da Amoreira e Rua 25 de Abril), lugar onde se realizava a feira antes da urbanização deste espaço e da sua transferência para os terrenos da Sardoa,  leva a crer estarmos presente perante um lugar com estas características.

             Segundo a tradição e segundo a denominação que lhe deu o nome, este local servia para guardar não só os bois e vacas mas igualmente outro gado miúdo, ovelhas e cabras, apreendidos pelas autoridades concelhias, (...) que serve para nelle se guardarem os gados encoimados (...), tanto em transito no concelho, como na afluência à feira de Garvão, tanto de proprietários da vila como dos ganadeiros que se deslocavam à dita feira. Em Ourique atual sede do Concelho, ainda existe a Rua Curral do Concelho,

              A denominação de “bois”, advirá certamente da maioria do gado guardado nestes currais ser bovino e da enorme afluência destes à feira de Garvão o qual tomou inclusivamente o nome: Garvonês.

              As funções destes currais concelhios eram onde os gados tresmalhados ou apanhados em propriedades alheias eram guardados, até aparecer o dono e/ou que este pague as devidas coimas e os estragos que causou em propriedades doutros.

               Era propriedade do concelho e as devidas multas revertiam para os cofres concelhios, assim como o produto da venda do gado não reclamado, este espaço era supervisionado por guardas do concelho que precisavam igualmente de ser pagos.

                Numa sociedade essencialmente agrícola e pecuária que marcou a época medieval, a responsabilidade dos concelhos em prover lugares para a guarda dos gados em transito ou tresmalhados, materializou-se na criação de currais próprios para guarda destes gados. Os Currais Concelhios.

                Sobre o gado perdido encontrado nos campos, encontramos nos forais de leitura nova, (D. Manuel I), uma cláusula sobre os denominados gados de vento.

O gado do vento é direito real no arrecadamento do qual mandamos que se guarde inteiramente a Ordenação que sobre isso é feita e os montarazes e oficiais e rendeiros do gado do montado do dito campo não tomarão nenhum gado que ande fora do seu rebanho por dizerem que lhes pertence ou que é seu o qual não tomarão nem mandarão tomar sem autoridade de justiça ouvidas primeiro as partes a que pertencer sobre o dito gado e serem sobre isso ouvidas e despachados com justiça.[2]

             Contudo, segundo Carlos Manuel Ferreira Caetano[3], já existe uma referência implícita ao Curral do Concelho nos Capítulos Gerais das Cortes de Santarém de 1331, quando se diz que certos Povos.

(...) am en seu foro que as cousas que acham de uento que as uendam a certo tenpo e per certa maneyra e as leuem a certo loguar e todo esto dizem que se nom aguarda [...].[4]


[1] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 7 verso.

[2] Foral-Novo de Garvão, fólio V verso.

[3] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII) [Em linha]. Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[4] Idem, p. 175.



 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...