domingo, 23 de janeiro de 2022

BESTEIROS EM GARVÃO

 

 


          




Na Necrópole Medieval de Garvão, junto ao Cemitério Velho, descobriu-se uma Estela Funerária, (acima reproduzida), que identificava o local de enterramento de um besteiro.

         As primeiras referências aos besteiros ou balestariis encontram-se no foral de Tentúgal de 1108 e no de Sernancelhe de 1124; na carta de foral de Miranda do Corvo de 1136, mencionam-se os “sagitários”, embora as Cartas de Foral, atestem a sua presença como força militar concelhia desde o seculo XII, a sua organização num corpo especial, os besteiros de conto, só aconteceu no terceiro quartel do século XIV. Coube a Dom Dinis criar este exército, em 1299, mais profissionalizado, disponível e fiel que o recrutado pelos processos tradicionais concelhios.

         Os corpos de besteiros constitui uma das mais originais e bem-sucedidas experiências da organização militar portuguesa medieval. De facto, a milícia dos Besteiros do Conto, criada por D. Dinis em finais do século XIII, marcou presença nas mais importantes operações militares de todo o século XIV e atingia, nas primeiras décadas do século XV, um total de 5000 efectivos, provenientes de perto de 300 unidades locais de recrutamento.[1]

         O Foral Velho de Garvão, de 1267, menciona igualmente os Besteiros no fólio 21 verso, numa postura denominada De forro de cavaleyros, e de peos, e de veesteyros, onde estipula que os senhores da terra os façam as devidas armas de guerra denominadas por bestas. Estamos assim perante uma força militar anterior ao estabelecimento dos besteiros de conto por D. Dinis em 1299. Segundo António Martins Quaresma, em 1385 o número de besteiros em Garvão era de 14 e em 1422 seria de 18. [2]

          A seguir aos cavaleiros, o mais importante corpo militar era o dos besteiros, que já terão desempenhado um papel fundamental nas campanhas de D. Afonso Henriques e continuaram a aperfeiçoar-se ao longo da primeira dinastia.

         Na cidade de Évora, em 1306, entre as armas que os moradores possuíam contam-se o alfanje, a espada, o estoque, o dardo, a lança, o cutelo, o punhal, a porra e a besta. Esta última arma, especialmente eficaz e mortífera, levará à formação de um corpo militar especial, o dos besteiros, que devem ter desempenhado um papel fundamental nas campanhas da reconquista, desde o início do reinado de D. Afonso Henriques, e se continuaram a aperfeiçoar, ganhando tal importância que o foral de Coimbra, Santarém e Lisboa, de 1179, lhes reconhece um estatuto idêntico ao dos cavaleiros:  Balistarii habeant fórum militum.[3]

          A besta difundiu-se na Europa no século XII, havendo quem diga que foi trazida de Bizâncio por altura das Cruzadas. Tendo-se revelado uma arma extraordinariamente mortífera, e perante a divulgação que já tinha alcançado, o concílio de Latrão proibiu o seu uso contra os cristãos.

            O corpo de besteiros foi eventualmente substituído pelos espingardeiros criados no segundo quartel do século XV, ainda assim, mais do que a substituição imediata de uma milícia pela outra, a administração régia procurou, ao longo do século XV, convergir os contributos dos dois setores. A inserção da pirobalística no cenário bélico não significava, no entanto, que os contingentes de besteiros perdessem subitamente a sua importância militar; as alterações que levaram à substituição das armas neurobalísticas pelas armas de fogo portáteis foram graduais e acarretaram um século de convergência dos dois modos de fazer a guerra.[4]


[1] José Daniel Braz Malveiro. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, UNL-FCSH. Janeiro, 2013. P. 76.

[2] António Martins Quaresma, (2006) Odemira histórica – Estudos e documentos, Câmara Municipal de Odemira.

[3] António Matos Reis. História dos Municípios [1050-1383]. Lisboa, 2006.

[4] Pedro Filipe Fernandes Sebastião. Os Espingardeiros. Um Novo Corpo Militar No Alvor Da Modernidade (1437-1495). Dissertação de mestrado. Coimbra, 2018.



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

CENSO À POPULAÇÃO 2021






O CENSO

Os resultados do censo à população de Portugal realizados em 2021, já se encontram disponíveis para consulta, no endereço eletrónico do Instituto Nacional de Estatísticas.

No que diz respeito à população portuguesa em geral, nota-se que houve um decréscimo de 2%. Em dez anos Portugal perdeu 214.286 habitantes.

Mesmo contabilizando a entrada de novos imigrantes, cerca de 35.780 indivíduos, não bastou para compensar a redução da população portuguesa.

Nota-se igualmente que os territórios no interior do país foram os que perderam mais população, sendo a área da grande Lisboa e o Algarve as únicas regiões onde se registou um aumento populacional, 1,7% e 3,7%, respectivamente.

No concelho de Ourique registou-se uma diminuição de 587 pessoas, cerca de 10.2%, passou de 5.389 habitantes em 2011, para 4.842 em 2021. A freguesia de Ourique foi onde se registou menos perca de população, cerca de 2.3%, de 67 pessoas, de 2874 em 2011 para 2807 em 2021. Nas restantes freguesias registou-se uma redução na população de 22.4% em Santana da Serra, correspondente a 190 pessoas, de 850 em 2011 para 660 em 2021 e em Panoias/Conceição notou-se uma perda de 16.2%, correspondente a 94 pessoas, de 582 em 2011 para 488 em 2021.

Quanto à freguesia de Garvão, o censo relativo a 2021, devido à união das freguesias de Garvão e Santa Luzia, ocorrido depois do último censo de 2011, os números apresentados correspondem às duas povoações, apresentando uma quebra, em 2021, de 18.1% relativo ao censo de 2011.

Como a freguesia de Garvão apresentava uma população de 731 habitantes no censo de 2011, se retirarmos a quebra de 18.1% registada no censo de 2021, (partindo do princípio equitativo para as duas freguesias), teremos uma quebra para Garvão de 132 habitantes e um total residente de 598 pessoas. Nota-se assim que a freguesia de Garvão tem vindo a perder população desde a década de 1950 quando apresentava 2.282 Habitantes, uma perda de 1684 habitantes em relação a 2021.

Da mesma maneira que se nota a nível geral do país uma fuga da população do interior para os grandes centros urbanos e para o litoral, também nos próprios concelhos do interior se nota uma concentração da população para as sedes municipais em detrimento das próprias freguesias.

A QUESTÃO

            Aquilo que as últimas décadas nos mostra, principalmente desde o 25 de Abril de 1975, é a questão da sustentabilidade populacional no interior alentejano perante uma sociedade em mutação constante, aquilo que era verdade nas décadas de sessenta e mesmo na década de setenta do século passado, não se coloca agora. A publicação de uma certa cultura neo-realista, durante o século XX, onde abunda a vilificação de um patronato rural e a vitimização dos trabalhadores agrícolas, (José Cutileiro, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, José Rodrigues Miguéis, Fernando Namora, entre outros[1]), tão presente na geração que participou nas ocupações de propriedades agrícolas, cujas privações, longas horas de trabalho diário, longo períodos de desemprego, fome e miséria já ouviram nas gerações que os precederam, coloca-nos hoje numa realidade distante e ininteligível para os recém-formados engenheiros ou médicas, filhos e filhas do barbeiro, do taberneiro ou do lojista da terra, cujos avós eram pastores ou almocreves e que aspiraram a caseiros ou donos de uma pequena lavoura e hoje compram casas de férias no Alentejo onde, nos fins-de-semana recordam a vida árdua dos pais e avós. Longe vão os tempos em que toda a ânsia era alcançar na morte a paz e o descanso que nunca tiveram em vida.

            Colmatar os desequilíbrios existentes, as diferenças, as disparidades e as assimetrias continuadas entre as grandes cidades e o litoral com mais população, com habitantes mais jovens, regiões mais ricas e com mais oportunidades de emprego, de serviços, equipamentos e infraestruturas, e o interior despovoado, envelhecido e com menos oportunidades de emprego ou empresariais, constitui o grande desafio, não só a nível governamental, mas igualmente a nível das responsabilidades das autarquias locais.

A fixação das populações nas zonas ameaçadas, a formação profissional dos habitantes e oportunidades de emprego, a inovação e o desenvolvimento são sustentáculos para um crescimento e desenvolvimento inteligente, abrangente e sustentável do território, capazes de inverter o envelhecimento da população e o grande défice na reposição geracional, a fraca oferta de emprego, o baixo empreendedorismo, os níveis críticos de infraestruturas e serviços, a redução da actividade económica e que obrigam a população a migrar e reverter a perda de capital humano, é um dos principais desafios das políticas de coesão territorial, económica e social

Os baixos níveis de escolaridade da população ativa no interior são, também, factores que condicionam o desenvolvimento equilibrado da região. O combate ao abandono escolar e o aumento da população com ensino obrigatório completo são metas a atingir. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Rendimento e Condições de Vida, Emprego e mais educação significam mais rendimento – 2015, de 13 de maio de 2016, a população com rendimentos mais elevados em 2014, 57,5% tinha completado o ensino superior, em contraste com quase metade da população que apenas tinha completado o ensino básico, viviam, em 2014, com um rendimento muito inferior. Assim, os baixos níveis de educação escolar e de acesso ao ensino superior têm implicações directas nos rendimentos das famílias e na competitividade das próprias regiões onde residem.

Num exame geral, o interior enfrenta movimentos demográficas negativos: perda de população, envelhecimento, baixa taxa de fertilidade, níveis de instrução da população ainda aquém dos nacionais, falta de oportunidades comerciais e taxas migratórias incapazes de equilibrar as restantes realidades, resume, de forma sucinta, os diversos constrangimentos que estes territórios do interior enfrentam.

[1] José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo. Manuel da Fonseca, Seara de Vento, Cerro Maior. Soeiro Pereira Gomes, Esteiros. Alves Redol, Gaibéus. José Rodrigues Miguéis, O Pão Não Cai Do Céu. Fernando Namora, Retalhos da vida de um médico.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Povoamento Antigo no Baixo Alentejo




 




O caso de Arandis / Arannis

          Sobre a identificação das várias cidades romanas ou pré-romanas no Sul de Portugal, mencionadas por vários autores, nomeadamente por Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia do ano 150 e no Itinerário de Antonino Pio do século III, ou dos Aranditani mencionado por Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, do século primeiro, tem levado a várias sugestões, umas mais imaginativas do que outras, nomeadamente no que diz respeito ao caminho XXI mencionado no itinerário Antoniano e mais concretamente sobre a localização de Aranni.

          De facto, sobre a localização desta mansão mencionada no iter, Aranni, têm surgido várias propostas sobre a identificação destas cidades no Sudoeste alentejano, Colos, Santa Luzia ou Garvão como o caso de Abel Viana ou mais precisamente em Garvão como defende Jorge de Alarcão.

          Outros autores nomeadamente Maria e Manuel Maia e João Pedro Bernardes defenderem a localização destas cidades no oriente alentejano, mais precisamente em Santa Bárbara dos Padrões, com base no caminho XXI do Itinerário Antoniano, num suposto itinerário que atravessaria a Serra do Caldeirão, como relata Bernardes, sem, contudo, apresentar o trajecto desse caminho:

Transposta a serra do Caldeirão, percurso sempre árduo, penoso e cheio de perigos, Aranni oferecia-se como o local de repouso merecido, onde a água era uma constante e o culto aos deuses se impunha, tal como a imagem do destino pacense que se descortinava ao fundo da planície e cuja distância seria vencida na jornada seguinte.[1]

          Contudo, Claúdio Torres em Povoamento Antigo no Baixo Alentejo. Alguns Problemas de Topografia Histórica,[2] nega a existência da qualquer travessia dessa serra, capaz de suportar veículos de tração animal ou movimentação do exército:

(…) A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. (…)[3].

(…) apenas se entreteciam caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves para Garvão de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte, (…)[4]

(…) e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. (…)[5],

          Claúdio Torres defende o trajecto através do Guadiana, propondo que o percurso terreste entre o oriente alentejano e o oriente algarvio se efectuava por terras hoje pertencentes a Espanha, acrescentando inclusivamente de que este foi o (…) percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio (…)[6]:

          Também Francisco Bilou em Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar.[7] defende a inamissibilidade de um caminho através da serra a Este do caminho descrito por Claúdio Torres, mencionando o caminho XXII, também mencionado no iter Antoniano:

Pese embora a citação em Antonino do iter XXII em milhas terrestres entre (Ba)Esuri (Castro Marim) e Myrtilis[8], nenhuma evidência arqueológica permitiu, até à data, demonstrar inequivocamente a continuidade terrestre do caminho de Beja a Mértola para sul[9] [10]

          A questão de identificar Aranni/Arandis com alguma localidade no Alentejo, segundo o caminho XXI do Itinerário de Antonino Pio, prende-se com a dificuldade em justificar as distâncias apresentadas, pois nenhuma localidade fica a simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salácia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano.

         Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni numa área do Alentejo onde são conhecidas outras urbes importantes, caso de Mértola e Beja, seria deixar todo o ocidente alentejano, entre Miróbriga e Alcácer do Sal ao Algarve, sem uma urbe de referência, em contradição com a técnica do vizinho mais próximo, segundo a aplicação da teoria dos polígonos de Thiessen.

A grande estrada e coluna vertebral de toda esta região ligava Mértola a Beja por Corte Gafo, Amendoeira Mosteiro e Salvada, onde se bifurcava para Serpa atravessando o Guadiana na zona dos grandes vaus. Incompreensivelmente, em todos os mapas até hoje publicados sobre as vias romanas no actual território português, decalca-se o traçado rodoviário entre Mértola e Beja aberto apenas no séc. XIX e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. Mértola (tal como Sevilha) foi, nesta zona, o términus dos percursos terrestres. A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. Apenas a entreteciam aventurosos caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros usados pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves em direcção a Garvão, de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte (aliás foi este o percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio como constatou recentemente João Carlos Garcia (1986).[11]

A outra grande via mineira chegava ao porto do Guadiana depois de ter atravessado as povoações dos Namorados, João Serra, S. Marcos da Ataboeira, Entradas e, finalmente, Aljustrel. Da mesma direcção e de mais longe chegavam os carregamentos de Inverno das Minas da Caveira e do Lousal, quando o Atlântico bramia e interditava, pelo menos durante 8 meses, qualquer transporte de lingotes ao largo de Sagres com carregamento no porto de Sines. Convergiam em Mértola mais caminhos e vias secundárias vindas de Garvão e Almodôvar e mesmo de Martim Longo, em plena serra algarvia, atravessando a ribeira do Vascão junto às ruínas do povoado das Relíquias. Capital administrativa de toda esta vasta região, Pax Julia é o grande núcleo urbano, sede do poder imperial e destacado centro de mercado agrícola. É a cidade romana por excelência, símbolo da ordem militar, do poder fundiário e do comércio do trigo. A sua extensão monumental parece ter criado dificuldades de defesa durante os períodos mais conturbados, e não há dúvida que o máximo do seu esplendor foi atingido durante a «pax romana».[12]


[1] BERNARDES, J. Pedro, A Propósito da Localização de Aranni / Arandis, Conimbriga, 45 (2006), p. 160.

[2] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992.

[3] Idem, p. 190

[4] Idem, P. 191

[5] Idem, p.191

[6] Idem, ibidem.

[7] BILOU, Francisco. Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar. Revista Monumentos nº 36. Direção-Geral do Património Cultural, Lisboa.

[8] Da muita literatura disponível sobre o tema, veja-se, Gustav PARTHEY; Moritz PINDER — Iternerarium Antonini Avgvsti (…). F. Nicolai Berolini, 1848. Pode consultar-se a edição digital em https://archive.org/details/itinerariumanto-00pindgoog, In Bilou, nota 19.

[9] É este, de resto, o entendimento dos historiadores locais. Veja-se, por todos, Santiago MACIAS — Mértola — O Último Porto…, vol. 1, 2006. In Bilou, nota 20.

[10] Bilou, p. 9

[11] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992, p. 190/191


[12] Idem, p. 192

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

JOSÉ FRANCISCO CUNHA




 







José Francisco Cunha, natural de Garvão, nascido em 10 de Fevereiro de 1913 e falecido em 13 de Fevereiro de 2012, cuja residência se situava no Largo da Palmeira, (antigo Largo do Rossio), relata-nos com 82 anos, num texto de 1995, sobre a ponte no centro da vila, o Poço da Praça e a Ponte da Ribeira do Monte Zuzarte.

Ao Jornal de Garvão

Lembrando o passado:

Aquela ponte que hoje existe, que passa sobre a ribeira, que liga o Largo da Amoreira à sede da Junta de Freguesia, foi antigamente outra ponte feita em vigas de ferro e pranchas de madeira, servia só para peões. Nesse tempo não havia automóveis, o trânsito para animais e carros era feito do lado de baixo da ponte, passava por uma azinhaga que existia do lado de cá que é hoje propriedade do senhor António Revez, atravessava a ribeira e do lado de lá passava pelo terreno onde está situado o Posto da Guarda Nacional Republicana.

Como a ponte estava já velhinha foi retirada, aproveitaram o pilar do meio e ajeitaram-no, e fizeram a nova ponte que hoje lá se encontra. Foram seus construtores os senhores Francisco José de Oliveira e seu pai, já falecidos, já lá vão muitos anos.

Ainda hoje existe o poço da praça, que antigamente era circundado por uns pilares redondos em cantaria, com a altura de um metro, mais ou menos, aonde apoiava um grande varão de ferro redondo, com a espessura de uns três centímetros; existia também junto ao poço uma grande pia em cantaria, servia para os animais beberem; essa pia deve encontrar-se no quintal do senhor Joaquim Fiel Mestre, porque foi para lá que a levaram. No andar de cima aonde é hoje a Junta de Freguesia era uma escola primária, foi lá que eu aprendi a ler e escrever e fiz a quarta classe. Nas horas de recreio, os rapazes vinham para junto do poço agarravam-se aos varões, pois eles estavam muito firmes, aí é que era dar cambalhotas até mais não, coisas da própria mocidade.

Eu abordei este assunto a propósito do seguinte:

No caminho que liga Garvão à estrada do Monte Zuzarte existe a mesma ribeira, como no inverno a ribeira não dava passagem às pessoas convenientemente, os dirigentes da Junta de Freguesia, desse tempo, levaram as ditas vigas de ferro que estavam na dita ponte, que atrás falei e fizeram uma pinguela com um metro de largura e levaram também os tais varões que resguardavam o dito poço da praça, para fazerem os resguardos da dita pinguela, para as pessoas se apoiarem e não caírem à água. Essa dita pinguela com o andar do tempo caiu para o leito da ribeira e mais tarde ficou coberta com a areia e o cascalho que vinha nas cheias e lá apodreceu.

Isto vem a propósito da necessidade que há de se fazer lá no mesmo sítio aonde existia a pinguela, uma ponteca com a largura suficiente para que possam, de um lado para o outro da ribeira, passar pessoas a pé, automóveis e camiões, pois o trânsito hoje é muito diferente.

A estrada em dias de cheias, quem lá chega fica a olhar para a água e não pode passar. Até em tempo normal, no Inverno, é sempre difícil as pessoas passarem a pé.

Garvão, 1 de Agosto de 1995

José Francisco Cunha

domingo, 10 de outubro de 2021

PEDRAS ESCORREGADIAS

EM GARVÃO












HERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.











HERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.











Pedra Escorregadia, ao Barranco da Pontinha.

Existe uma prática antiga que nos chegou até hoje, através da presença física no terreno e de referências literárias, localmente conhecidas pelo nome de “Pedra Escorregadia”.

MONTE DA MORGADA

Existe um exemplo destas Pedras Escorregadias, em perfeito estado de conservação, no Monte da Morgada, cuja singularidade estética é de realçar, de facto no lado direito da estrada de acesso aos cómodos agrícolas e habitacionais, numa extensão plana, ergue-se uma pequena elevação, simétrica em ambos os lados e ao centro, no substrato rochoso, nota-se a saliência, num angulo aproximado de 45 graus que servia para a prática do escorrega, ainda praticado nos finais do século XX, tanto pelos residentes locais como pelos moços da vila em idade escolar.

BARRANCO DA FONTINHA

Segundo informação do Doutor António Martins Quaresma, num documento sobre as confrontações do Couto Pequeno deste Concelho, (Garvão extinto concelho em 1936), menciona:

Couto Pequeno tirado do Grande

19 de Maio de 1826

(…) tem o princípio no Barranco da Fontinha na estrada da Monxica de frente da Pedra Escorregadia que sobe pelo dito barranco pé ao sesmo de São Sebastião, digo pé ao sesmo do ferragial de São Sebastião, (…)

Ainda segundo informação de António Martins Quaresma, o relato da visitação de 1518, menciona, uma vinha que ficava nas vinhas da pedra escorregadia, que pertencia ao hospital do Espírito Santo, cujo fólio descreve as confrontações com outras vinhas.

O breve relato da visitação de 1518, por falta de mais elementos, não nos permite localizar no terreno o lugar desta pedra escorregadia, contudo já a descrição das confrontações do Couto Pequeno, permite-nos identificar o Barranco da Fontinha, com o actual Barranco das Cangalhas que passa pela Herdade do Pouco Tempo e vem desaguar na Ribeira da Monchica, em cujo lugar, na margem oposta, já nos terrenos do Cerro da Forca, se situa um afloramento rochoso, cuja extração de pedra, em anos anteriores, terá feito desaparecer algum vestígio desta pedra escorregadia 

Neste barranco da Fontinha, ainda existe na memória da população a existência de duas fontes de água e cujos vestígios ainda afloram no terreno.

PENEDO DA PEDRA ESCORREGADIA

Igualmente no livro da Misericórdia e do Espírito Santo da vila de Garvão que chegou até aos nossos dias, menciona nos fólios 37 rosto, 37 verso e 39 rosto, o Penedo Escorregadio, no Vale de Santiago.

(…) sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e sete centos secenta e nove annos, sendo aos onze dias do mez de Abril do dito anno nesta villa de Garvão em o Cartório (…) fólio 37 rosto.

(…) entre os mais bens de que eraõ administradores da Confraria do Espirito Santo por andar anexa á Santa Caza da Mizericordia desta villa era bem assim huma Courella de terras sitto aos redores da Aldeia do Vale de San Thiago o qual parte pela estrada do posso e com hum farrejal do penedo escorregadio (…) fólio 37 verso.

(…) hum farrejal que pessuia livre e izento e dezembaraçado que parte com as mesmas terras chamado o Penedo escorregadio (…) fólio 39.

RESUMO

A fecundidade, a fertilidade e a procriação tinham grande importância para as primitivas comunidades humanas, cujos exemplos e vestígios abundam em vários locais da Europa e do mundo.

Segundo Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano, página 72.

Em algumas religiões acredita se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos e partenogênese das deusas mediterrânicas. Segundo Hesíodo, Gea (a Terra) pariu Uranos, “um ser igual a ela, capaz de cobrila inteiramente” (Teogonia, 126 ss.).

Ainda segundo Mircea Eliade em Tratado De História Das Religiões, páginas 180 e seguintes.

77, A "escorregadela"

O costume denominado "escorregadela" é bem conhecido: para terem filhos, as mulheres deixam-se escorregar ao longo de uma pedra consagrada. Um outro costume ritual ainda mais espalhado e a "fricção"; a fricção é praticada por razões de saúde, mas são sobretudo as mulheres estéreis que fazem uso dela. Em Decimas (Ródano), há não muito tempo as mulheres se sentavam num monólito que se encontra nos campos num local chamado Pierre-FrIte. Em Saint Renan (Finisterra) a mulher que desejasse ter um filho deitava-se durante três noites consecutivas sobre um grande rochedo, La Jument de Pirre. Também as jovens recém-casadas vinham ali nas primeiras noites após o casamento e esfregavam o ventre naquela pedra. Esta prática é muito disseminada. Por exemplo na aldeia de Moêdan, do cantão de Pont-Aven, as mulheres que ruçavam o ventre na pedra ficavam com a certeza de que teriam filhos do sexo masculino. Ainda em 1923 as camponesas que iam a Londres abraçavam as colunas da catedral de São Paulo Para terem filhos.

É preciso integrar neste mesmo conjunto ritual o costume relatado por Sébillot: "Por volta de 1880, não muito longe de Carnac pessoas casadas havia vários anos sem que tivessem filhos iam, pela lua cheia, até um menir, despiam-se, e a mulher corria em volta da pedra, tentando escapar do marido; os familiares vigiavam a distância para afastar os intrusos”. É- provável que estes procedimentos tenham sido mais frequentes no passado. Citam-se numerosas interdições da parte do clero e dos reis era relação ao culto das pedras e sobretudo à emissão Seminal diante das pedras, na Idade Média. Mas este último rito é muito mais complexo e não pode ser reduzido - como os das "escorregadelas" ou das “fricções" - a uma crença na possibilidade de "fertilização" direta do dólmen ou do menir. Faz-se aí menção, em primeiro lugar, do tempo da cópula ("durante a lua cheia"), o que indica vestígios do culto lunar; depois, o coito dos casados ou a emissão seminal diante da pedra explicam-se pela concepção, mais evoluída, da sexualização do reino mineral, dos nascimentos que têm por origem a pedra e que correspondem a certos ritos de fecundação pela pedra.

A maioria desses costumes, dizíamos nós, conserva ainda a crença de que o simples contato com o rochedo ou com a pedra consagrada basta para fertilizar urna mulher estéril. Nesta mesma aldeia (Carnac) as mulheres sentavam-se no dólmen Creuz-Moqem, arregaçando os vestidos; sobre o rochedo, foi erigida uma cruz para evitar esta praticais. Existem muitas outras pedras chamadas de "amor" ou de "casamento" cujas virtudes são eróticas. Em Atenas, a mulheres grávidas dirigiam-se à colina das ninfas e deixavam-se deslizar sobre o rochedo ao mesmo tempo que invocavam Apolo para terem um parto feliz. Eis aqui um bom exemplo de mudança de significação de um rito, pois que a pedra da fecundação se transforma em pedra de parto. As mesmas crenças nas pedras que, só por se tocar nelas, determinam um parto bem-sucedido, são encontradas também em Portugal.

Muitos megálitos favorecem o andar das crianças ou proporcionam-lhes boa saúde. No cantão de Amence, existe uma pedra furada; as mulheres ajoelham diante dela e oram pela saúde dos filhos. jogando uma moeda no buraco. No momento do nascimento, os pais levam a criança à “pedra furada" de Fouvent-le-Haut e fazem-na passar pelo buraco. “Era, decerto modo o batismo da pedra destinado a preservar a criança de malefícios e a dar-lhe felicidade.







domingo, 19 de setembro de 2021

CASA DA CÂMARA DE GARVÃO

In: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira. As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011. Dissertação de Doutoramento em História da Arte Moderna.










Quintal da casa da câmara de Garvão.









Brasão do reino, em esgrafito na fachada da casa da câmara de Garvão; coroa real removida.

As velhas casas da câmara constituíram a tradicional sede do poder local português, que se materializava essencialmente numa rede muito densa de concelhos. Formados no quadro das lutas da Reconquista Cristã e espalhados por todo o território, os concelhos proporcionaram um dos factores mais importantes da unidade e da própria identidade do Reino.

 A História ensina-nos que o órgão máximo do muito jovem poder concelhio, ainda em formação, era a assembleia de vizinhos ou homens-bons do concelho. Estas assembleias tinham lugar em sítios informais e improvisados, bem conhecidos de todos e consagrados e legitimados pelo uso e pela tradição. A pouco e pouco, porém, os homens-bons e sobretudo os oficiais ou agentes do concelho começam a reunir-se e a decidir em espaços fechados e cobertos e, a partir de meados do século XIV, em casas sobradadas – as casas ou paços do concelho. Dava-se então início ao amplo e longo processo de monumentalização do poder local, que consistiu na construção sistemática dessas casas – as casas da câmara – em todos os concelhos portugueses, processo que alcança o reinado de D. Manuel I (1495-1521).

 Enfim, também subsidiário da componente residencial das velhas casas da câmara é o quintal, que algumas detêm, ao serviço dos aposentados e sobretudo do Carcereiro e sua família. O quintal anexo à casa da câmara – que deve ter sido muito raro – ainda hoje sobrevive em Garvão. Por outro lado, também sabemos que a casa da câmara de Benavente tinha, em 1685, anexo às “duas [cazas] em que mora o carcereiro […] um bocado de quintal”.[1]

 Vimos atrás que, segundo o Tombo do Concelho de 1685, a antiga casa da câmara de Benavente detinha um “bocado de quintal” contíguo às duas “casas” “em que mora o carcereiro”. Com efeito, algumas antigas casas da câmara dispunham de quintal: era o caso das de Garvão ou de Vila Nova da Baronia (Alvito).[2]

 Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, quando instaladas em edifícios independentes, como em Mirandela, Aguiar da Beira, Vila de Rei, Punhete (hoje Constância, Alandroal ou Aljustrel, tal como no cume de açougues como os de Garvão, de Colos (Odemira) - ou mesmo o tão monumental açougue de Évora, adiante referido.[3]  

 Também muito raros, encontrámos brasões realizados na velha técnica do esgrafito, como na casa da câmara de Garvão, a que também foi removida a coroa real. Realizados em materiais brandos e de fácil modelação, os brasões em estuque ou em esgrafito parece terem sido sempre rodeados de ornatos de gosto ora mais erudito, ora mais popular e podem ter sido usados em muitas zonas do país e não apenas nas regiões de cal abundante. [4]

 No Alentejo, o acesso ao piso nobre das antigas casas da câmara de Vila Nova da Baronia (Alvito) e Garvão proporciona uma variante destas entradas duplas. Com efeito, nos dois casos as portas rasgadas no piso térreo de uma parede adjacente às fachadas dão acesso a escadas descobertas que conduzem aos patamares cimeiros por onde se acede verdadeiramente aos respectivos pisos nobres.[5]

[1] P. 376

[2] P. 827

[3] P. 392

[4] p.407 e 408

[5] P. 565

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

BALDIO DA SARDOA











Mapa do século XVIII (CA_196_50k_geo)

             Os Baldios eram terras comunais para usufruto das populações locais, a sua origem perde-se no tempo e remontará aos primeiros povos agrários. Não será assim de estranhar a existência de um Baldio situado no lugar da Sardoa, na freguesia de Garvão, antigo concelho medieval, extinto em 1836.

              O Baldio da Sardoa é uma reminiscência muito reduzida daquilo que eram as terras concelhias até há relativamente pouco tempo. Num mapa do século XVIII,[1] pode-se observar que as terras sob administração do concelho de Garvão abrangiam uma vasta área a Oeste, Norte e a Este da vila.

            A história recente do Baldio da Sardoa, (se de facto ainda assim lhe poderemos chamar), não deixa de ser interessante e ser mais um exemplo da enorme pressão, pelos detentores do poder, seja a nível nacional ou autárquico, para usurpação e controlo destes terrenos comuns e fuga ao controle das populações locais.

            De facto, no último quartel do século XX, a autarquia de Ourique, resolveu assenhorar-se destes terrenos, para tal instruiu junto das autoridades judiciais, (tribunal de Ourique), um processo de requerimento de posse de terra, ao abrigo da faculdade legal denominada por “Uso de Capião”, para quem está de facto na posse da terra, com o testemunho e beneplácito de três conterrâneos de Garvão.

            De notar que tanto os argumentos legais invocados pela Autarquia, (exploração do terreno há mais de quinze ou vinte anos), como os testemunhos das testemunhas convocadas, não correspondem ao que de facto se passava no terreno.

            Nunca a autarquia de Ourique, antes ou nas décadas seguintes, teve alguma posse sobre os terrenos públicos que fazem parte do “Baldio da Sardoa”. Quem apascentava o gado, recolhia lenha, fazia horta e utilizava água do poço e se servia para logradouro familiar, geralmente para depositar lenha para o inverno, sempre foram as pessoas da vila.

           Quem vendia e recebia as receitas pela venda dos eucaliptos era a Junta de Freguesia de Garvão, assim como recebia os rendimentos do “Terrado” da feira, pago pelos feirantes em dia de feira.

             A Junta de Freguesia de Garvão foi de facto quem ficou a perder com esta suposta “legalização” do baldio da Sardoa, e viu-se expropriada de um terreno com uma área considerável sem qualquer contrapartida financeira ou outra.

              Apesar das três testemunhas terem sido devidamente elucidadas pelo autor destas linhas, sobre as consequências da sua acção e do enorme prejuízo para a freguesia, a suposta posse de terra pela Câmara de Ourique, concretizou-se.

                A menção a esta situação, de três conterrâneos que com o seu falso testemunho privaram a vila de um enorme património e o aviso de outro conterrâneo para não o fazerem, não pretende diabolizar ninguém e muito menos colher louros, mas somente um alerta sobre a necessidade de se trabalhar em conjunto, tanto para evitar situações desta natureza como para concertar ideias, idealizar e concretizar acções para melhorias na vila.

[1] CA_196_50k_geo.pdf (dgadr.gov.pt)

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