terça-feira, 12 de abril de 2022

Mercedes Blasco











Recorda-se Mercedes Blasco na data do seu falecimento a 12 de Abril de 1961. 

 Por: Luís Baltasar. Centro de Estudos da Mina de São Domingos (CEMSD)

Conceição Vitória Marques nasceu na Mina de São Domingos, no dia 4 de Setembro de 1867, como Mercedes Blasco, nome artístico por si escolhido, teve momentos de glória e de imensa felicidade, mas longe dos palcos conheceu a tragédia e o infortúnio.

Ainda em criança viveu em Huelva (Espanha), localidade onde o pai, que era ferroviário, desenvolveu a sua profissão durante alguns anos, mas aos sete anos estava de volta a Portugal, desta vez ao Porto onde viveu pelo menos até aos seus 20 anos.
Foi na cidade do Porto que iniciou e concluiu os seus estudos, tendo tirado o Curso do Magistério Primário (Professora). Foi ainda na cidade nortenha que principiou a sua carreira artística, ainda com o pseudónimo Judith Mercedes, atuando na peça “Grande Avenida” onde desempenhou o papel de “Jockey”. O uso prematuro de um pseudónimo tem por finalidade evitar que o nome da família fosse de alguma forma “enxovalhado” uma vez que a profissão de artista de teatro, principalmente para as Mulheres, na altura não era muito bem vista.
Em 1890, com apenas 23 anos, e já sob o pseudónimo “Mercedes Blasco” integra o elenco do Teatro da Trindade em Lisboa, à data um dos mais importantes da capital, tendo-se estreado na peça “Mademoiselle Nitouche” de Vaudeville. Representou ainda muitas operetas, um género de teatro musical muito em voga no final do século XIX. Foi no grande teatro Lisboeta que cantou pela primeira vez canções francesas que eram sucesso internacional, Mercedes falava fluentemente o francês, língua que estudou ainda menina quando vivia no Porto.
Entre 1890 e 1897 representou nos principais palcos de Lisboa e do Pais, onde fez enorme sucesso, tendo contracenado com grandes nomes do teatro nacional, como Palmira Bastos ou Augusto Rosa.
Mercedes Blasco foi sempre uma mulher controversa e que procurou desde cedo romper com algumas barreiras do preconceito e do puritanismo vigente, para além de algumas atuações em que procurou inovar em palco, tomando atitudes até então impensáveis para uma Mulher, mesmo em cena, coisas tão simples e hoje banais como usar um “maillot” ou traçar as pernas, o que na época era considerado como obsceno. Também na sua vida privada Conceição tinha uma postura que contrastava com a moral vigente, foi por exemplo a primeira mulher a andar de bicicleta em público, veículo que ela usava nas ruas de Lisboa para se deslocar entre a sua residência no Chiado e os teatros onde trabalhava.
Em 1907 publica o livro “Memórias de uma atriz”. A publicação tão prematura de um livro de memórias, na altura tinha 40 anos, não era uma situação comum, mas devido à sua notoriedade social, o livro vendeu muito bem.
Até 1914 efetuou inúmeras tournées, tendo-se apresentado nos principais palcos mundiais, fez enorme sucesso em cidades como Madrid, Paris, Londres, Roma ou Bruxelas, mas para além das capitais europeias atuou com grande brilho no Brasil, onde e deslocou em digressão por diversas vezes.
Quando eclodiu a primeira guerra mundial, Conceição vivia em Liége (Bélgica) onde tinha casado com um belga de nome Remi Ghekiere e com o qual tinha dois filhos, Stelio e Marcelo, durante a guerra alistou-se na Cruz Vermelha como enfermeira de modo a poder dar auxilio aos feridos e prisioneiros de guerra. No decorrer do conflito recusou-se a cantar para as tropas alemãs, que na altura ocupavam Liége e parte da Bélgica, demonstrando assim mais uma vez a tenacidade e a força do seu carácter. Com o fim dos combates teve uma participação bastante ativa no repatriamento dos militares portugueses feitos prisioneiros pelos alemães.
Ainda durante o decorrer da grande guerra, falece o seu primeiro filho, Stelio, então com 16 anos, vítima da doença e da subnutrição decorrentes das más condições vividas durante o conflito, começa aqui o infortúnio de Mercedes Blasco.
De regresso a Lisboa, na companhia do filho Marcelo, na época já bastante debilitado pelas privações vividas na Bélgica, procura trabalho nos teatros lisboetas, mas o contexto artístico da capital tinha mudado e as ousadias que a tinham tornado célebre não se coadunavam com a sua idade e com a sua condição de mãe de família.
Em 1920 vivia em Lisboa com muitas dificuldades, com a ajuda de alguns amigos tenta entrar para o Teatro Nacional, o que lhe permitiria mais tarde o acesso a uma pensão de que beneficiavam os atores desse teatro. No entanto e embora tivesse tido o apoio da imprensa e se tivesse ressalvado o seu papel no apoio aos prisioneiros de guerra, o seu intento seria gorado e a única vaga existente foi ocupada por outra atriz.
A 13 de Agosto de 1922 o seu filho Marcelo morre, também aos 16 anos, vítima de tuberculose, doença agravada pelas más condições em que vivia, na altura as suas únicas fontes de rendimento eram uma pequena pensão atribuída pelo governo civil de Lisboa, e os parcos proveitos resultantes dos livros publicados e de um ou outro artigo publicado na imprensa.
A partir dessa data e até à sua morte Mercedes Blasco dedica-se apenas à escrita e embora tenha publicado um vasto número de títulos, a sua nova condição de escritora nunca lhe trouxe de volta a glória vivida enquanto atriz, e os rendimentos que daí lhe advinham não lhe permitiam viver desafogada, valiam-lhe os poucos amigos, que nunca lhe faltaram, e que a iam auxiliando como podiam.
Faleceu em Lisboa, a 12 de Abril de 1961 tendo sido sepultada no Cemitério dos Prazeres, onde permaneceu num túmulo sem identificação, na altura vivia “de favor” na casa de uns amigos em Lisboa.
No centésimo quinquagésimo aniversário do seu nascimento o Centro de Estudos da Mina de São Domingos (CEMSD) em parceria com outras dez instituições organiza uma série de iniciativas que visam “resgatar” a memória de Mercedes Blasco, dando-a a conhecer não só aos seus conterrâneos como ao público em geral.
No passado dia 4 de Setembro decorreu uma homenagem no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, tendo sido descerrada uma placa no local onde repousam os seus restos mortais, passando o mesmo a estar devidamente identificado em sinalizado, foi igualmente colocada uma placa no túmulo do seu filho Marcelo que se encontrava igualmente “anónimo”.
No decorrer das celebrações está ainda prevista a republicação de um dos seus livros (já no prelo) e a atribuição do seu nome a um arruamento na sua terra natal, a Mina de São Domingos.
Por iniciativa do CEMSD foi elaborado um sítio internet (http://cemsd.pt/mblasco) sobre Mercedes Blasco e que para além da sua biografia, disponibiliza o acesso a muitas das suas obras literárias e uma galeria de imagens que ilustram a sua vida.
Por último gostaria de deixar um agradecimento muito especial ao Sr. António Pacheco que enquanto membro do CEMSD tem dedicado muito do seu tempo a investigar, a fazer contactos e a compilar a informação sobre a Mercedes Blasco que agora tornamos pública.

Luís Baltazar 

Coordenador do Centro de Estudos da Mina de São Domingos

Mercedes Blasco, uma “Diva” Alentejana quase esquecida. | Centro de Estudos da Mina de São Domingos (cemsd.pt)

segunda-feira, 21 de março de 2022

UM POUCO MAIS DE CULTURA

(575) CELINA DA PIEDADE - Ceifeira ( tradicional Alentejo ) - YouTube

Oiçam CELINA DA PIEDADE.

          Agora que se está a aproximar a Feira de Garvão e com um pouco de sorte, teremos, em Agosto, as festas, talvez seja boa altura para refletir sobre o tipo de cultura que os responsáveis por estes eventos querem transmitir à população.

          Pelo menos na música difundida pelos autofalantes instalados nas ruas da vila.

         Iremos continuar a assistir a música pimba?

          Iremos continuar a ouvir música ordinária?

          Iremos continuar a submeter o resto da população a estas incongruências ignorantes?

          Iremos continuar a infestar os nossos jovens com influências degradantes?

          Como se não houvesse música ligeira de qualidade no Alentejo ou mesmo em Portugal.

          Que tipo de cultura é que queremos transmitir?

          Temos a responsabilidade de transmitir às futuras gerações a nossa cultura, a cultura dos seus pais e avôs e privilegiar o enraizamento cultural como parte de pertença de um todo.  

          Estes eventos são uma boa ferramenta de comunicação social, proporcionam um bom ambiente, incrementam a interação e as relações interpessoais, mas temos de ter cuidado com a nossa perceção do que é digno e cultural e com aquilo que se apresenta.

          Muitos organizadores enganam-se ao segmentar o público-alvo apenas por aquilo que presumem ou pensam. Há, no entanto, uma clara distinção entre a cultura que se apresenta e a responsabilidade cultural dos agentes envolvidos. Para não falar já das várias camadas da população e das particularidades inerentes a cada segmento, sejam elas geracionais ou culturais.

sexta-feira, 18 de março de 2022

CRUZ DE PEDRA NO MONTE ZUZARTE

 




 






No livro “Garvão – Herança Histórica” publicado em 2003, dava notícia da existência de uma cruz em pedra junto à Estrada Real do Algarve, na propriedade do Monte Zuzarte:

Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem, esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

Numa visita recentemente ao local (março 2022), notou-se que a mesma estava tombada no terreno e com sinais de gradagem por cima, como se comprova pelas fotografias ilustradas, foi recolhida, pelo autor e guardada junto ao outro espólio arqueológico descoberto em Garvão.

Os residentes nos montes próximos, mesmo os mais idosos nos anos setenta do século passado, desconheciam a origem deste monólito, nem se encontra registo sobre esta cruz de pedra, pelo menos nos documentos da Paróquia de Garvão, consultados até agora.

Estamos assim perante um monumento, junto à antiga Estrada Real do Algarve, como se encontra em muitas outras estradas do país, embora este, pela sua forma e tamanho, seja bastante diferente daqueles que nos habituamos a ver noutros lugares.

São geralmente sustentadas por um amontoado de pedras, ou cravadas no próprio terreno, como no caso desta. Na maior parte dos casos, marcam locais de acontecimentos individuais ou públicos, quer históricos, quer religiosos.

O aparecimento deste tipo de Cruz de Pedra, remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Procurava-se igualmente cristianizar os lugares e vestígios doutras crenças.

No local onde se cometeu um pecado, onde se adorou um ídolo pagão, onde aconteceu uma tragédia, uma morte, um assalto, uma promessa, um agradecimento ou remorso, estas cruzes sagram locais, dominam e protegem os campos, recordam igualmente epidemias, assinalam momentos históricos, pedem orações e onde são depositadas algumas flores até que esquecidas pelas novas gerações ficam abandonadas no meio do campo e cobertas de mato.

Constituem óptimos elementos para o estudo das crenças, dos costumes, qualidades e tendências artísticas do povo, nas várias épocas da sua história.

terça-feira, 15 de março de 2022

CERÂMICAS DE GARVÃO









Programa HERCULES da Universidade de Évora

IN: National Geographic, Agosto de 2010

A edição de Agosto da National Geographic Portugal conta com uma reportagem dedicada aos projectos do Centro HERCULES (Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda) da Universidade de Évora. O trabalho multidisciplinar do mais recente centro de investigação da universidade e dos seus investigadores foi o mote para a peça "Arte antiga, ciência nova", que destaca a utilização da tecnologia de ponta na investigação e intervenção no património.

São oito páginas dedicadas ao trabalho de análise, por uma câmara de reflectografia de infravermelhos, dos Painéis de São Vicente, presentes no Museu de Arte Antiga, aos trabalhos de recolha de amostras de algumas das antigas pinturas murais do Mosteiro da Batalha, à investigação que está a ser desenvolvida nas pinturas murais de uma ermida no Alto Alentejo e ao projecto de estudo de fragmentos da Idade do Ferro, recolhidos num dos mais importantes sítios arqueológicos deste período, em Garvão, concelho de Ourique.

A iniciativa parte do Centro HERCULES, acrónimo para Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda, uma estrutura da Universidade de Évora, parceira do instituto dos Museus e da Conservação, que procura juntar tecnologia de ponta e uma equipa multidisciplinar para investigar e intervir no património, muitas vezes in situ, reescrevendo metodologias e apresendo resultados surpreendentes.

Constituído por uma equipa de dez especialistas e quatro alunos de doutoramento, o HERCULES está dotado de equipamento científico de topo, que inclui um microscópio electrónico de pressão variável com uma capacidade de ampliação de 300 mil vezes, permitindo a análise de constituição química e elementar de objectos de grandes dimensões. O centro disponibiliza a historiadores e arqueólogos dispositivos pouco comuns nas instituições nacionais. Sinal da dinâmica que o anima, poucos meses após o arranque das actividades, tornado possível pelo apoio financeiro do mecanismo EEA Grants, são mais de uma dezena os projectos em curso, cujo orçamento ultrapassa já 1,5 milhões de euros.

No laboratório, de jeans e botas de montanha, contrariando a ideia feita do cientista descabelado, o geólogo José Mirão, um dos responsáveis do HERCULES, assoma à porta com um estranho objecto nas mãos: é um fragmento de cerâmica da Idade do Ferro recolhido em Garvão, no concelho de Ourique, num dos mais importantes sítios arqueológicos deste período conhecidos na península Ibérica. “Têm sido descobertos neste local pratos com uma forma específica de construção de base, que utiliza um tipo de barro diferente, menos gordo”, explica. “Analisaremos esta amostra para identificar a composição de argilas e a relação que possa existir com os demais achados. Talvez nos permita identificar a origem desta particularidade e nos dê outra perspectiva sobre o mundo naquela época e a relação da região com o resto da península e do Mediterrâneo. “Através da análise química, é possível destrinçar o processo de fabrico e a origem das matérias-primas. Esteticamente, identificaram-se já as influências estilísticas, nomeadamente celtas, mas tamb+em cartaginesas e fenícias. Mas falta a prova dos nove – a química.

A descoberta deste sítio arqueológico em Garvão remonta à década de 1980. Obras de saneamento básico no local revelaram então múltiplos objectos de olaria. Os trabalhos foram suspensos e um arqueólogo foi chamado, identificando o local como um depósito votivo. Seria um depósito onde se arrumariam as oferendas a um templo que até hoje permanece desconhecido, provavelmente nas imediações. Aliás, quem visista o local encontra apenas um barracão que protege o sítio da escavação.

Para além do contributo para estudar os artefactos, o HERCULES tem outro desafio pela frente: identificar a necrópole perdida. Em breve, será utilizado um georradar, equipamento raro em Portugal que, sem necessidade de escavações prévias, sondará o solo em busca de edificções soterradas. Para já, porém, o trabalho de seriação do espólio setá em curso, realizado no Centro  Arqueológico Caetano de Mello Beirão, que funciona na fria cave do cineteatro de Ourique. Esse esforço tem sido orientado por Françoise Mayet, investigadora francesa que, aos 75 anos, vem nos tempos livres a Portugal, no seu próprio carro, tala relevância e paixão por este património. O trabalho  arqueológico, definitivamente, deixou de estar restrito ao campo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O CEMITÉRIO VELHO - Limpeza







           


         





A Junta de Freguesia de Garvão, procedeu à limpeza do Cemitério Velho, não só ao sub-coberto vegetal que cobria as campas, acumulado ao longo de vários anos, como inclusivamente à limpeza das centenárias oliveiras.

O recinto do Cemitério, completamente amuralhado, apesar da notória deterioração das paredes, fruto do abandono a que tem sido votado, tem sido usado para vários fins, como já em 2003 se denunciava no livro “Garvão – Herança Histórica”.

Apesar de este Cemitério estar em uso até à relativamente pouco tempo, e ainda conservar lápides funerárias de familiares de pessoas da Terra, o Cemitério Velho tem sido votado ao desprezo e abandono, ainda recentemente, foram cortas as centenárias oliveiras e a sua lenha carregada para as lareiras. Os gradeamentos das lápides funerárias foram tirados dos seus lugares e postos a um canto para o gado não fugir. Já foi curral de gado, já foi horta, já foi caiado de branco por cima de pinturas antigas e mais se verá, assim diz o povo, se quem de direito não tomar as devidas providencias.[1]

[1] José Pereira Malveiro. Garvão – Herança Histórica. Beja, 2003, p. 96/97.



domingo, 23 de janeiro de 2022

BESTEIROS EM GARVÃO

 

 


          




Na Necrópole Medieval de Garvão, junto ao Cemitério Velho, descobriu-se uma Estela Funerária, (acima reproduzida), que identificava o local de enterramento de um besteiro.

         As primeiras referências aos besteiros ou balestariis encontram-se no foral de Tentúgal de 1108 e no de Sernancelhe de 1124; na carta de foral de Miranda do Corvo de 1136, mencionam-se os “sagitários”, embora as Cartas de Foral, atestem a sua presença como força militar concelhia desde o seculo XII, a sua organização num corpo especial, os besteiros de conto, só aconteceu no terceiro quartel do século XIV. Coube a Dom Dinis criar este exército, em 1299, mais profissionalizado, disponível e fiel que o recrutado pelos processos tradicionais concelhios.

         Os corpos de besteiros constitui uma das mais originais e bem-sucedidas experiências da organização militar portuguesa medieval. De facto, a milícia dos Besteiros do Conto, criada por D. Dinis em finais do século XIII, marcou presença nas mais importantes operações militares de todo o século XIV e atingia, nas primeiras décadas do século XV, um total de 5000 efectivos, provenientes de perto de 300 unidades locais de recrutamento.[1]

         O Foral Velho de Garvão, de 1267, menciona igualmente os Besteiros no fólio 21 verso, numa postura denominada De forro de cavaleyros, e de peos, e de veesteyros, onde estipula que os senhores da terra os façam as devidas armas de guerra denominadas por bestas. Estamos assim perante uma força militar anterior ao estabelecimento dos besteiros de conto por D. Dinis em 1299. Segundo António Martins Quaresma, em 1385 o número de besteiros em Garvão era de 14 e em 1422 seria de 18. [2]

          A seguir aos cavaleiros, o mais importante corpo militar era o dos besteiros, que já terão desempenhado um papel fundamental nas campanhas de D. Afonso Henriques e continuaram a aperfeiçoar-se ao longo da primeira dinastia.

         Na cidade de Évora, em 1306, entre as armas que os moradores possuíam contam-se o alfanje, a espada, o estoque, o dardo, a lança, o cutelo, o punhal, a porra e a besta. Esta última arma, especialmente eficaz e mortífera, levará à formação de um corpo militar especial, o dos besteiros, que devem ter desempenhado um papel fundamental nas campanhas da reconquista, desde o início do reinado de D. Afonso Henriques, e se continuaram a aperfeiçoar, ganhando tal importância que o foral de Coimbra, Santarém e Lisboa, de 1179, lhes reconhece um estatuto idêntico ao dos cavaleiros:  Balistarii habeant fórum militum.[3]

          A besta difundiu-se na Europa no século XII, havendo quem diga que foi trazida de Bizâncio por altura das Cruzadas. Tendo-se revelado uma arma extraordinariamente mortífera, e perante a divulgação que já tinha alcançado, o concílio de Latrão proibiu o seu uso contra os cristãos.

            O corpo de besteiros foi eventualmente substituído pelos espingardeiros criados no segundo quartel do século XV, ainda assim, mais do que a substituição imediata de uma milícia pela outra, a administração régia procurou, ao longo do século XV, convergir os contributos dos dois setores. A inserção da pirobalística no cenário bélico não significava, no entanto, que os contingentes de besteiros perdessem subitamente a sua importância militar; as alterações que levaram à substituição das armas neurobalísticas pelas armas de fogo portáteis foram graduais e acarretaram um século de convergência dos dois modos de fazer a guerra.[4]


[1] José Daniel Braz Malveiro. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, UNL-FCSH. Janeiro, 2013. P. 76.

[2] António Martins Quaresma, (2006) Odemira histórica – Estudos e documentos, Câmara Municipal de Odemira.

[3] António Matos Reis. História dos Municípios [1050-1383]. Lisboa, 2006.

[4] Pedro Filipe Fernandes Sebastião. Os Espingardeiros. Um Novo Corpo Militar No Alvor Da Modernidade (1437-1495). Dissertação de mestrado. Coimbra, 2018.



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

CENSO À POPULAÇÃO 2021






O CENSO

Os resultados do censo à população de Portugal realizados em 2021, já se encontram disponíveis para consulta, no endereço eletrónico do Instituto Nacional de Estatísticas.

No que diz respeito à população portuguesa em geral, nota-se que houve um decréscimo de 2%. Em dez anos Portugal perdeu 214.286 habitantes.

Mesmo contabilizando a entrada de novos imigrantes, cerca de 35.780 indivíduos, não bastou para compensar a redução da população portuguesa.

Nota-se igualmente que os territórios no interior do país foram os que perderam mais população, sendo a área da grande Lisboa e o Algarve as únicas regiões onde se registou um aumento populacional, 1,7% e 3,7%, respectivamente.

No concelho de Ourique registou-se uma diminuição de 587 pessoas, cerca de 10.2%, passou de 5.389 habitantes em 2011, para 4.842 em 2021. A freguesia de Ourique foi onde se registou menos perca de população, cerca de 2.3%, de 67 pessoas, de 2874 em 2011 para 2807 em 2021. Nas restantes freguesias registou-se uma redução na população de 22.4% em Santana da Serra, correspondente a 190 pessoas, de 850 em 2011 para 660 em 2021 e em Panoias/Conceição notou-se uma perda de 16.2%, correspondente a 94 pessoas, de 582 em 2011 para 488 em 2021.

Quanto à freguesia de Garvão, o censo relativo a 2021, devido à união das freguesias de Garvão e Santa Luzia, ocorrido depois do último censo de 2011, os números apresentados correspondem às duas povoações, apresentando uma quebra, em 2021, de 18.1% relativo ao censo de 2011.

Como a freguesia de Garvão apresentava uma população de 731 habitantes no censo de 2011, se retirarmos a quebra de 18.1% registada no censo de 2021, (partindo do princípio equitativo para as duas freguesias), teremos uma quebra para Garvão de 132 habitantes e um total residente de 598 pessoas. Nota-se assim que a freguesia de Garvão tem vindo a perder população desde a década de 1950 quando apresentava 2.282 Habitantes, uma perda de 1684 habitantes em relação a 2021.

Da mesma maneira que se nota a nível geral do país uma fuga da população do interior para os grandes centros urbanos e para o litoral, também nos próprios concelhos do interior se nota uma concentração da população para as sedes municipais em detrimento das próprias freguesias.

A QUESTÃO

            Aquilo que as últimas décadas nos mostra, principalmente desde o 25 de Abril de 1975, é a questão da sustentabilidade populacional no interior alentejano perante uma sociedade em mutação constante, aquilo que era verdade nas décadas de sessenta e mesmo na década de setenta do século passado, não se coloca agora. A publicação de uma certa cultura neo-realista, durante o século XX, onde abunda a vilificação de um patronato rural e a vitimização dos trabalhadores agrícolas, (José Cutileiro, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, José Rodrigues Miguéis, Fernando Namora, entre outros[1]), tão presente na geração que participou nas ocupações de propriedades agrícolas, cujas privações, longas horas de trabalho diário, longo períodos de desemprego, fome e miséria já ouviram nas gerações que os precederam, coloca-nos hoje numa realidade distante e ininteligível para os recém-formados engenheiros ou médicas, filhos e filhas do barbeiro, do taberneiro ou do lojista da terra, cujos avós eram pastores ou almocreves e que aspiraram a caseiros ou donos de uma pequena lavoura e hoje compram casas de férias no Alentejo onde, nos fins-de-semana recordam a vida árdua dos pais e avós. Longe vão os tempos em que toda a ânsia era alcançar na morte a paz e o descanso que nunca tiveram em vida.

            Colmatar os desequilíbrios existentes, as diferenças, as disparidades e as assimetrias continuadas entre as grandes cidades e o litoral com mais população, com habitantes mais jovens, regiões mais ricas e com mais oportunidades de emprego, de serviços, equipamentos e infraestruturas, e o interior despovoado, envelhecido e com menos oportunidades de emprego ou empresariais, constitui o grande desafio, não só a nível governamental, mas igualmente a nível das responsabilidades das autarquias locais.

A fixação das populações nas zonas ameaçadas, a formação profissional dos habitantes e oportunidades de emprego, a inovação e o desenvolvimento são sustentáculos para um crescimento e desenvolvimento inteligente, abrangente e sustentável do território, capazes de inverter o envelhecimento da população e o grande défice na reposição geracional, a fraca oferta de emprego, o baixo empreendedorismo, os níveis críticos de infraestruturas e serviços, a redução da actividade económica e que obrigam a população a migrar e reverter a perda de capital humano, é um dos principais desafios das políticas de coesão territorial, económica e social

Os baixos níveis de escolaridade da população ativa no interior são, também, factores que condicionam o desenvolvimento equilibrado da região. O combate ao abandono escolar e o aumento da população com ensino obrigatório completo são metas a atingir. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Rendimento e Condições de Vida, Emprego e mais educação significam mais rendimento – 2015, de 13 de maio de 2016, a população com rendimentos mais elevados em 2014, 57,5% tinha completado o ensino superior, em contraste com quase metade da população que apenas tinha completado o ensino básico, viviam, em 2014, com um rendimento muito inferior. Assim, os baixos níveis de educação escolar e de acesso ao ensino superior têm implicações directas nos rendimentos das famílias e na competitividade das próprias regiões onde residem.

Num exame geral, o interior enfrenta movimentos demográficas negativos: perda de população, envelhecimento, baixa taxa de fertilidade, níveis de instrução da população ainda aquém dos nacionais, falta de oportunidades comerciais e taxas migratórias incapazes de equilibrar as restantes realidades, resume, de forma sucinta, os diversos constrangimentos que estes territórios do interior enfrentam.

[1] José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo. Manuel da Fonseca, Seara de Vento, Cerro Maior. Soeiro Pereira Gomes, Esteiros. Alves Redol, Gaibéus. José Rodrigues Miguéis, O Pão Não Cai Do Céu. Fernando Namora, Retalhos da vida de um médico.


 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...