quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

O Maltês

Mais vale roubar do que pedir

          Embora, hoje em dia, se pretenda romancear o papel do maltês nas décadas de fome e miséria nos campos alentejanos, o certo é que este fenómeno é fruto das graves assimetrias sociais que se manifestavam essencialmente fora dos períodos de trabalho agrícola, a que os sem terra alentejanos recorriam, com caracter mais ou menos de vagabundismo, principalmente fora do período das ceifas, como José Pacheco Pereira, muito bem, apontou no seu trabalho, “As lutas sociais dos trabalhadores alentejanos: do banditismo à greve”.[1]

          Os malteses, trabalhadores rurais durante as ceifas, vagabundos o resto do ano, são responsáveis por numerosos roubos, atentados pessoais, incêndios de searas, rixas, extorsão de comida e outros crimes, cuja fronteira entre criminalidade individual e social, sendo difícil de traçar para cada caso concreto, é nitidamente de carácter social se a analisarmos no seu conjunto.[2]

       Ainda na segunda metade do século passado, na vila de Garvão, observava-se que certas pessoas já com uma certa idade e já avós, mas que em certos períodos do ano, tinham a “mania” de se ausentarem de casa durante umas boas semanas e voltarem com taleigos, alforges ou simples sacas cheias de comida, embora não fosse uma actividade ou costume anual, em tempos de escassez era certo que recorriam a este subterfugio.

          Sobre a origem da palavra maltês, esta terá evoluído a partir da vinda para a Europa de largos grupos de pessoas originários da ilha de Malta à procura de trabalho, principalmente depois da invasão da ilha pelas tropas francesas de Napoleão que forçou a saída dos militares da Ordem de Malta que se lhes opunha, por o seu código os proibir de lutar contra outros cristãos.

         A vinda destas pessoas para Portugal poderá estar relacionado com a ajuda militar prestada por Portugal à resistência maltesa contra a invasão francesa, assim passou-se a denominar por “Malteses”, não sé os oriundos de Malta, mas igualmente uma “classe de homens sem domicílio fixo, sem profissão, que vivem às custas dos lavradores”[3], homens esses que vêm a ser conhecidos no futuro como malteses, designado os grupos de trabalhadores que andavam juntos para procurar trabalho, gente solta, sem poiso certo, sem responsabilidades nem compromissos, á procura de sustento em troca de algum trabalho junto das herdades agrícolas.

       Depressa se conotou os “Malteses”, sobretudo no Alentejo, como um grupo ou bando de pessoas com as mesmas e necessidades e caraterísticas, como gente desfavorecida, vadios, vagabundos, pessoas sem escrúpulos, trapaceiros, mentirosos e nos quais não se podia confiar, a mendigos de passagem, indivíduos mal-encarados, pessoas desprezíveis. A palavra “Maltês” passaria a ser empregue sempre com conotações negativas e com sentido pejorativo.

        As condições de vida no Alentejo, por meados do séc. XX, eram muito penosas, e o número de pessoas sem trabalho fixo, ou mesmo, sem nenhum trabalho, era muito elevado, sendo a única possibilidade de sobrevivência, a esmola. Parte desses homens que andavam de Vila em Vila, de aldeia em aldeia, e até de Monte em Monte, eram denominados malteses. Ao contrário dos ciganos, que chegavam a permanecer num sítio, por vezes, uma semana; os malteses, esses, nunca dormiam no mesmo sítio mais que uma noite, circulando sempre, entre os locais onde sabiam ter certa uma esmola, quase sempre em alimentos, como sopas de pão alentejano, migas, etc. Mas o maltês da minha infância tem laivos de Romantismo. Refiro-me ao maltês que ecoou no imaginário alentejano feito cultura. Este vagabundo, uma espécie de sem abrigo camponês, sem marca étnica que não a da rebeldia, tipificado como corpo de resistência à ordem latifundiária. Recusando o alinhamento social e os códigos de compromisso ou luta, vivendo da poesia do luar feito almofada e cobertor e de pequenos roubos de alimentos em estado bruto para matar a fome. Permanentemente acossado por guardas republicanos, o maltês estava muito longe do estereótipo do camponês proletário que lutava pelas quarenta horas. Depois, como se sabe, o último maltês não foi morto por um guarda republicano, nem por pancadas de um feitor. O último maltês faleceu por lhe terem liquidado o atrevimento da dissidência, o olhar de vagabundo com que teimava ser livre.

       De facto, ainda recorrendo a José Pacheco Pereira e segundo a imprensa dos primeiros anos do século XX continua este coro de protestos contra os malteses. As queixas são permanentes: «são contínuos os roubos pelos campos»; «a praga dos malteses [...] agora infestam a freguesia de Cabrela»; «os malteses e os ciganos [...] constituíram este ano ainda maior flagelo que anteriormente»; «os gatunos andam desenfreados por estas paragens — S. Cristóvão»; «a maltesaria é a praga daninha da agricultura», etc.[4]

        A actuação destes bandos é característica: «É por de mais o desaforo desses vagabundos, que aos bandos assaltam os montes e ali exigem o sustento diário. Os amigos do alheio (a maltesaria) usam agora dum estratagema: munidos de uma foice, andam de monte em monte a pedir trabalho, que eles sabem não existir. Mas pedem também comida e, se esta lhes é recusada, ameaçam os lavradores de grandes prejuízos».[5]

       Claro que nem todas as esmolas eram voluntariamente dadas. Nalguns casos é difícil distinguir entre a esmola e a extorsão de dinheiro e géneros ou o roubo mais ou menos consentido. Quando nos referimos aos vadios e aos malteses, notamos como é difícil distinguir as fronteiras entre estes actos.[6]

        Por outro lado, não deixa de ser relevante a caracterização dos “Malteses” como uma figura romanceada, de um certo registo por vezes ficcionado, por vezes real, de uma época onde o tempo de escrita e o tempo da história colidem, o romance, embora impregnado de verdade humana, não deixa de transcender as condicionalidades temporais. No fundo procura-se romancear o plano humano de uma experiência vivida, enquanto torna o tempo e o espaço do romance irreconhecíveis como momentos e lugares de vivências humanas e sociais.

     Nesse sentido os escritos de Manuel da Fonseca, em torno da personagem do maltês, uma figura recorrente tanto na obra poética, como na prosa do autor. Campaniços, mendigos, vagabundos e malteses são homens em conflito com um espaço físico e social adverso, a quem Manuel da Fonseca dedica uma particular atenção e investe de valentia e coragem fora do comum, exaltando a dimensão heroica no confronto com a sua condição marginal. Homens corajosos e rijos que enfrentam determinados todas as dificuldades e privações, conservando uma dignidade muito própria e uma ânsia de liberdade acima de tudo na vida. Homens insubmissos para com as injustiças e dignos de exaltação.

[1] José Pacheco Pereira. As lutas sociais dos trabalhadores alentejanos: do banditismo à greve. Análise Social, vol. XVI (61-62), 1980-l.º-2.º, 135-l56.

[2] Idem, p. 147.

[3] Idem, P. 146.

[4] Idem. P. 146/147.

[5] Idem. P. 147.

[6] Idem. P. 153.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

LIVRO da MISERICÓRDIA

 e da IRMANDADE do SAGRADO ESPÍRITO SANTO de GARVÃO



 








    O livro da Irmandade do Sagrado Espírito Santo e da Santa Casa da Misericórdia da Vila de Garvão, encontrava-se, por alturas das cheias de 5 de Novembro de 1997, na sede da Junta de Freguesia de Garvão, o qual, devido ás intempéries que invadiram o edifício, ficou praticamente destruído e ininteligível, restando as fotocópias tiradas pelo autor em 1985, para o respectivo estudo deste documento tão importante para a análise não só da Santa Casa da misericórdia de Garvão e da Confraria do Sagrado Espírito Santo, mas também um contributo para a história e conhecimento da vila de Garvão, das suas gentes, famílias, herdades e outros bens de raiz, lugares e hábitos e costumes.

Neste livro surge, pela primeira vez, o conhecimento da existência da Irmandade do Sagrado Espírito Santo na vila de Garvão, servindo este livro “da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”, não só para o conhecimento da sua existência, mas também para o conhecimento das intricadas relações sociais e económicas nestas vilas do interior alentejano nos séculos precedentes à revolução liberal do século XVIII, e as sucessivas alterações posteriores que ditaram o fim destas instituições.

As Irmandades do Sagrado Espírito Santo foram fundadas antes do advento das Misericórdias, no seguimento das instituições caritativas que surgiram no mundo Cristão a partir do século XII e XIII, e que não só tinha Igreja própria e regia o hospital como também era a detentora das propriedades mais significativas da freguesia que passaram posteriormente para a Misericórdia.

Este livro, que agora aqui se estuda, serviu para “copiar todas as Provisões, Alvarás, Documentos, Escrituras da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”, tem o seu início no ano de 1734 até ao ano de 1878, quando foi abruptamente interrompido pelas sucessivas legislações liberais do século XVIII.

Ficha Técnica

Título

LIVRO da MISERICÓRDIA e da IRMANDADE do SAGRADO ESPÍRITO SANTO de GARVÃO

Autor

José Pereira Malveiro

ISBN

978-989-20-7303-3

Depósito Legal

507375/22

Data da Publicação

Idioma

Formato

2022

Português

14,8 cm X 21,0 cm

Tipo de encadernação

Capa mole - Colado

Nº de páginas

238 - Mono

PREÇO

€10 + Portes

LIVRO da MISERICÓRDIA e da IRMANDADE do SAGRADO ESPÍRITO SANTO de GARVÃO











Publicação do Livro da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo de Garvão

     A história da ação misericordiosa em Portugal é uma narrativa de cobiças, conflitos e redes de poder que se sobrepunham às necessidades das populações locais.

     A assistência aos mais desprotegidos, depressa gerou conflito de interesses, pelo controle do enorme património fundiário que as Irmandades vinham a acumular.

     Tal riqueza inspirou buscas de estratégias de usurpação por parte das elites locais e da Coroa portuguesa que culminou com a fundação das Santas Cazas da Misericórdia em Portugal.

     Este livro tem como objetivo proceder à transcrição de um documento, da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, redigido entre os anos de 1734 e o ano de 1878, do Arquivo da Junta de Freguesia de Garvão.

     Trata-se de um documento que nos dá diversas informações, tanto nas práticas caritativas e relações sociais da população, como e principalmente na gestão patrimonial dos legados fundiários.

     A análise deste documento manuscrito, vem mostrar a importância da recuperação e divulgação destas fontes da história local, ao realizar uma transcrição, inserindo e identificando o conteúdo transcrito num contexto histórico, social e religioso da sua época; identificando termos arcaicos nas várias áreas sociais que abrange; identificando nomes de propriedades e localidades; mostrando os diversos cargos dos órgãos sociais destas Irmandades.

     Este trabalho vem contribuir, à sua medida, para a produção e divulgação destas pequenas histórias locais e para o desenvolvimento de estudos paleográficos, como uma ferramenta para auxiliar na aquisição de conhecimento e novas interpretações de fatos, procurando contribuir, com a divulgação destes documentos, embora raros mas que ainda se encontram nos arquivos locais, e que em muito contribuem para uma pesquisa histórica, social e cultural, destas localidades do interior de fraca ou nula representatividade.

     Contudo a transcrição de textos antigos, obedece a reproduzir o documento, conforme tal foi escrito originalmente, tendo todo o cuidado em não o alterar, para a ortografia actual, devendo-se respeitar a ortografia original, embora, por vezes, se confronte com o facto da caligrafia e abreviaturas utilizadas, nesses importantes e preciosos documentos, não serem legíveis ou entendíveis na atualidade, tais como sinais abreviativos, sinais de pontuação, paragrafação, translineação e, separação vocabular.

      Na edição destes textos manuscritos de épocas anteriores é necessário garantir a preservação das características originais do documento pesquisado, facto de extrema importância para o trabalho futuro de linguistas históricos. Dessa forma, o trabalho de edição e preparação de textos deve ser realizado visando à fidedignidade máxima ao documento original e uma transcrição rigorosamente conservadora de todos os elementos presentes no documento.

domingo, 13 de novembro de 2022

Povoado do Cerro do Castelo









Sondagens Arqueológicas Junto à Igreja Matriz

In: http://www.monumentos.gov.pt

Aglomerado proto-urbano. Povoado proto-histórico com ocupação do sítio desde o Bronze Final e posterior ocupação romana e medieval islâmica. Povoado fortificado. Foi exumado espólio significativo.

Descrição

Subsistem restos de muros feitos de pedra sobreposta e de taipa, contornando a vasta plataforma criada no topo do monte. A zona está cercada.

Na vertente do lado nascente do cerro, a 18,97m, sob o pavimento da R. do Castelo, foi encontrado um importante depósito secundário de oferendas e ex-votos, uma "favissa" ou "bothros", constituído na 2ª metade do séc. III a.c., certamente incluído numa estrutura de carácter religioso mais complexa.

A existência de inúmeras placas oculadas em ouro e prata apontam para o culto de uma divindade com poderes profilácticos nas doenças de olhos; as peças utilitárias podem ter contido oferendas alimentares, as taças podem ter sido usadas para libações ou como queimadores ou lucernas (Beirão, 1985).

O depósito votivo foi constituído numa fossa artificial talhada na rocha e foi intencionalmente coberto por grande número de peças fragmentadas misturadas com grandes blocos de quartzo e terra.

Na base assentava uma caixa com um crânio humano com indícios de trepanação, rodeado por ossos de animais e fragmentos de cerâmica pisados.

Sobre ela assentavam grandes vasos cerâmicos, cheios de outros recipientes menores alguns contendo pequenos objectos em cerâmica, ouro, prata, vidro, cornalina e bronze; os espaços entre eles era ocupado por outros recipientes menores.

Entre os objectos destacam-se placas oculadas, 2 figurações antropomórficas sobre placas de prata, com atributos de Tanit, uma fíbula anular, fragmentos de "oinochoai" em vidro polícromo, um hemidracma de Gades, que mostram componentes culturais mediterrânicas (Beirão, 1985).


Bibliografia

DIAS, M. M. A., COELHO, L., Achados de moedas romanas do concelho de Ourique, in O Arqueólogo Português, série III, vol. VII / IX, Lisboa, 1974 / 1977; BEIRÃO, Caetano de Mello, SILVA, Carlos Tavares da, SOARES, Joaquina, GOMES, Mário Varela, GOMES, Rosa Varela, Depósito votivo da 2ª Idade do Ferro do Garvão, in O Arqueólogo Português, série IV, vol. III, Lisboa, 1985.


 


quinta-feira, 13 de outubro de 2022

PULICAÇÃO DO LIVRO Notáveis da Vila de Panoias e Genealogia das Famílias











Autor: José Maria Ferreira 

Notáveis da Vila de Panoias e Genealogia das Famílias

Editor: MoDocromia, junho de 2022

      «José Maria Ferreira, ancorado numa enorme crença da grandeza das gentes da sua terra, com (im)paciência e curiosidade imensas, investiu 16 anos, do seu tempo livre, a consultar arquivos pelo país, onde, pacientemente, descodificou textos com linguagem nem sempre acessível, recolheu, interpretou e sistematizou informação e factos, que hoje nos permitem conhecer gente ilustre que na vila nasceu e cresceu num tempo de prosperidade.

      Estas figuras constituem apenas uma pequena parte da enorme pesquisa e recolha que José Maria Ferreira fez sobre os antepassados da vila de Panoias. Infelizmente, sobre alguns a informação encontrada é reduzida, porque muitos manuscritos se encontram quase ilegíveis, outros documentos desapareceram… Mesmo assim, através dos notáveis seleccionados, é agora possível conhecer tempos áureos de vila de Panoias, outrora rodeada de herdades agrícolas importantes, com Hospital, Misericórdia, Igrejas, Tribunal, Biblioteca, instalada na Casa do Povo, Escola, Correios, infraestruturas estas que configuravam uma terra próspera e influente. Hoje, resta-lhe o Brasão dos tempos de glória!
     O autor iniciou este livro em 2004. Nele constam 124 figuras por ele consideradas notáveis justificadas pelas posições que tinham na hierarquia social e pelos cargos privilegiados que desempenharam na esfera social, política e religiosa, notabilizando-se na governança da vila, no país e fora dele, designadamente nos mares desconhecidos e na Índia.

    A edição deste livro deve constituir um orgulho para o seu autor e para os seus conterrâneos.
     Através dele, vamos conhecer e partilhar com os nossos descendentes a glória da vila de Panoias abandonada e desprezada por políticos e políticas há muitas décadas.» In: Notáveis da Vila de Panoias - Livro - WOOK

     José Maria Ferreira nasceu no dia 29 de agosto de 1954, em Panoias, uma vila situada no coração do antigo Campo de Ourique, no seio de uma família de pequenos lavradores alentejanos. Frequentou a Escola Primária na sua terra natal nos anos de 1961 a 1966. Concluídos os estudos primários, ingressou no Liceu Nacional de Beja e concluiu o Curso Geral e Complementar no Liceu Nacional do Barreiro.

     Foi durante 45 anos funcionário dos Caminhos de Ferro Portugueses. Apesar de muito tempo afastado, nunca esqueceu a sua terra e as gentes que o viram nascer sempre embebido daquele sentido nostálgico que o fazem reviver aqueles tempos de infância passados na sua terra natal, mas sempre na esperança de um dia a ela poder voltar. Dedica-se à investigação a fim de escrever a história da sua terra, considera-se: um autodidata, que na busca constante da verdade, nunca deixará de ser um eterno aprendiz.

     Autor do livro "Foral da Vila de Panoias", publicado em 2012, para assinalar os 500 anos da atribuição do foral à vila de Panoias um grupo de cidadãos naturais da vila decidiu viabilizar esta edição comemorativa do documento numa versão fac-simile do único exemplar original existente, na Casa Forte dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, em Lisboa.


Foral da Vila de Panoias



quarta-feira, 12 de outubro de 2022

TRAVESSA OU RUA DO ÁLAMO

           Uma das artérias da vila de Garvão designava-se por Travessa do Álamo, hoje denominada por Rua do Álamo.

          A designação desta artéria deve-se ao curso de água que corre paralelamente a esta via e atravessa a vila. Curso de água esse denominado localmente por ribeira, cujas águas derivam de dois afluentes que se juntam a Sul da vila, no local denominado por Curral dos Bois, uma linha de água vem do Monte da Monchica e a outra vem do Monte Zuzarte.

          Segundo os registos, do século XIX e anteriores, nomeadamente nos assentos paroquiais e nos Tombos das propriedades concelhias, a denominação desta ribeira era designada por Ribeira do Alimo e por Pego do Alimo, relativo a alguma retenção de água nalgum lugar quando esta não corria.

          No livro do Tombo de Garvão com a data de 12 de Maio de 1826, surge a informação:

Terreno ao pego do Alimo junto a esta vila de que é efiteuta Manuel Jacinto, paga de foro 160[1]

O Rocio ao pego do Alimo, que serve de eiras para o povo, do qual já se aforarão dois bocados para casas, e vão estar já relacionadas a Joaquim mestre e a Mariana Guerreiro.[2]

             Nos registos paroquiais de Garvão, respeitante aos baptizados no ano de 1858, é registado Maria, em 13 de Maio, filha de Jerónimo José e Inácia Maria, moradores na Ribeira do Alimo.

            A designação da palavra Álamo ou Alimo referente a curso de água, encontra-se a Norte a Sul do país, nomeadamente em Ourique cujos registos paroquiais consta com a data de 29 de Dezembro de 1910, um individuo, de nome Júlio que nasceu no Moinho Novo da Ribeira do Alamo, igualmente junto a Mértola, surge em mapas antigos um curso de água denominado por Rio Limas, também nas ilhas (Ribeira da Lima na ilha do Pico) e o Rio Lima em Viana do Castelo.

          Segundo alguns autores, nomeadamente José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral em Povos Antigos em Portugal,[3] o vocábulo Lima denominaria um hidrónimo, tratar-se-ia de uma palavra de origem Celta ou Lígure, que significaria esquecimento e estaria na origem da nomeação destes lugares.

           Contudo, devido ao elevado número de cursos de água com esta designação, não é plausível esta explicação, embora, segundo Jorge de Alarcão[4] em A propósito do hidrónimo LETHES[5], argumente sobre o “rio do esquecimento” e depois do nome romano para “rio olvido”, seja plausível esta explicação para o Rio Lima de viana do Castelo, por outro lado a explicação, segundo certos autores, que Lima ou Limia derivaria do celta Lima e designaria inundação ou “rio da terra alagada”, parece ser uma explicação mais plausível, tendo em consideração os vários rios e ribeiras com esta denominação.

           Outros autores defendem que Lima viria do latim Limaea, do galego Limea, do qual os reis germânicos, suevos e godos, teriam tomado como topônimo de identificação.

            As alterações fonéticas, comum a todas as línguas que se observam ao longo dos anos, veio a fixar a denominação deste lugar no actual Álamo, não em referência à ribeira, ou ao pego de água, cuja localização se perdeu, mas na artéria que lhe corre paralelamente.

[1] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 7.

[2] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 8.

[3] José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral. Povos Antigos em Portugal. Paleontologia do território hoje português. Lisboa, 2000. P. 100.

[4] Professor Catedrático Aposentado da Faculdade de Letras de Coimbra; Membro do Centro de

Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto.

[5] Jorge de Alarcão. A propósito do hidrónimo LETHES. FORUM 44'45,2009/2010, Pág. 113-120.

domingo, 25 de setembro de 2022

O PELOURINHO de GARVÃO











Desenho do Pelourinho de Garvão.

          Segundo informação do Doutor António Martins Quaresma:

          “Num tombo da câmara de Garvão, de 1826, encontra-se uma descrição do pelourinho, que acho interessante.

          Envio-lha, com o resto do que escrevia já, para poder comparar com o que tem no quintal.

          Na Praça, hoje, Largo D. Afonso III, encontrava-se a casa da Câmara, o poço da Praça e o pelourinho. Este, segundo um tombo de 1826, estava implantado, “quazi no meio da Praça do lado do poço para o poente em huma piramide feita de pedra e cal, lageada com pedras pardas, e tem tres degráos, que diminuem gradualmente, estando no meio do ultimo o pelourinho, que he de pedra mármore redondo com sua simalha quadrada, e em cima desta huma piramide mais delgada e da mesma pedra marmore, que serve de padrão desta villa, e nelle se afixarem os papeis que lhe mandão publicar [...] acharam que em cada lado do dito [primeiro] degráo tem trez varas[1], e que he quadrado”

          A descrição permite vislumbrar uma imagem, sem pormenores, do pelourinho. A plataforma, de três degraus de alvenaria lajeada de pedra escura, tinha planta quadrangular. O fuste era liso e o capitel, de faces quadrangulares, era encimado por elemento piramidal, tudo de mármore.”

             Esta informação permite visualizar o que seria o Pelourinho de Garvão e desenhar a imagem acima reproduzida.

           Sobre a existência do Pelourinho em Garvão, vários autores a ele se têm referido, nomeadamente Pinho Leal na sua obra, Portugal Antigo e Moderno,[2] obra em 12 volumes, publicados em Lisboa, entre 1873 e 1890 e de todos os outros dicionários Chorográphicos e Históricos, que se lhe seguiram.

            Como símbolo da autonomia concelhia, estava edificado no centro da vila e diante dos Paços do Concelho no Largo da Praça, hoje também denominada por Largo D. Afonso III.

          A memória da população sobre a existência física deste monumento, era nula, resumindo-se unicamente a algumas pessoas de idade avançada que, em 1974, se lembravam de algumas pedras espalhadas pelo largo e que iam sendo levadas pela população para as mais diversas obras particulares, sem, contudo, precisarem a sua proveniência ou as relacionarem com o monumento em causa.   

          Em conversa com o “Ti Vilhena”, residente no Largo da Praça, por volta de 1974, sobre o Pelourinho e depois de uma breve explicação sobre do que se tratava, respondeu mais ou menos com estas palavras: “Oh! Isso é coisa muito velha, eu já não me lembro nada disso, mas parece que havia para aí umas pedras no meio do Largo (Largo D. Afonso III) que as pessoas à medida que iam precisando iam-nas carretando, uns para uma coisa, outros para outras, até que as levaram todas”.

          E noutra ocasião da conversa na esperança de se saber mais ou menos quem as levou ou onde estariam: “Olha, onde está uma pedras dessas, que levaram fazer não sei o quê, é na rua ao pé das hortas, e aqui nestas casas (diante da actual casa Paroquial) levaram também umas para fazer as escadas para o quintal “.

          Porta essa ainda visível, mas actualmente tapada, quanto à pedra junto às hortas trata-se realmente de uma coluna incompleta, possivelmente uma parte do Pelourinho, está actualmente guardada nas casas do autor, em Garvão.

          Igualmente numas casas da Travessa do Álamo, quando se procedia ao rebaixamento de uma divisão, recentemente adquirida, para servir de garagem, encontrou-se uma pedra que se julga ser a parte superior que remata o pelourinho, embora a confirmação esteja dependente da boa vontade da proprietária que se tem mostrado intransigente até agora.









Coluna mármore.

Recolhida junto às hortas, depois do Furadoro e Estrada Real. No contexto actual da investigação, torna-se dificil associar esta coluna, incompleta, ao Pelourinho, ou se estará relacionada com a coluna que se encontra na travessa do Álamo.

É de admitir que a origem do pelourinho remonte a época anterior à da civilização romana. Desde logo porque semelhantes estruturas com a mesma função se encontram em locais onde a presença de Roma não se fez sentir, como o Médio Oriente e a Ásia.[3]

         O que mais me dói na pátria é não haver correspondência no espírito dos Portugueses entre o seu passado e o seu presente. Cada monumento que o acaso preservou inteiro ou mutilado – castelo, pelourinho, igreja, solar ou simples fontanário – é para todos nós uma sobrevivência insólita, que teima em durar e em que ninguém se reconhece. Olhamos os testemunhos da nossa identidade como trastes velhos, sem préstimo, que apenas atravancam o quotidiano. Que memória individual ou colectiva se relembra nesta crónica ameada? Miguel Torga, Diário XIII.


[1] Vara era uma unidade de medida de comprimento antiga, utilizada até à introdução do sistema métrico. Tinha sensivelmente a medida de 1,10 metro.

[2] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Portugal Antigo e Moderno: Diccionário Geográphico, Estatístico, Chorográphico, Heráldico, Archeológico, Histórico, Biográphico & Etymológico de Todas as Cidades, Villas e Freguesias de Portugal e Grande Número de Aldeias. publicados em Lisboa pela Livraria Editora de Mattos Moreira. Volume Terceiro, 1874. P. 259/260.

[3] ROSA, António Amaro – Os pelourinhos da Lusitânia (1820-1974): do vandalismo oitocentista à reabilitação pelo Estado Novo. Dissertação de Mestrado em Estudo do Património apresentada à Universidade Aberta, Lisboa, 2014. P.12.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...