quarta-feira, 31 de maio de 2023

O ESCONDERIJO De José Júlio da Costa










     

Segundo informação de Tiago Maia, da povoação de Malta, (freguesia de Malta e Canidelo, Concelho de Vila do Conde), corre a história que José Júlio da Costa esteve, durante algum tempo, escondido numa casa na localidade de Malta.

     José Júlio da Costa, no seguimento da sua prisão depois de ter cometido o atentado que vitimou o presidente da república Sidónio Pais, viria a ser solto pelos autores da “noite Sangrenta” em 19 de Outubro de 1921.[1]

     Sobre o local ou locais para onde foi levado e onde esteve escondido, têm surgido várias informações, nomeadamente Rocha Martins nas páginas dos seus Fantoches onde dá conta que José Júlio da Costa foi primeiramente levado para Nine, perto de Braga, e posteriormente terá ficado escondido noutras localidades no Norte do País.[2]

     Surge agora, como já se afirmou, a informação de que esteve igualmente escondido numa casa da povoação de Malta no Concelho de Vila do Conde e segundo Tiago Maia:

     A casa em questão é cá conhecida como a Casa do Moreira da Quinta, que no início do séc. passado pertencia a José Moreira da Quinta. Atualmente pertence a descendentes deste. Já falei com eles, mas o que sabem é apenas que o assassino de Sidónio Pais esteve lá escondido num saguão[3]  ou numa mina de água que já não existe.

     Provavelmente porque o tal José Moreira da Quinta simpatizava com a causa. Já falei com várias pessoas de mais idade na freguesia, incluindo o meu avô, mas apenas contam a mesma história.

     No romance, Psiché, do escritor Fernando Campos que passou a sua infância nesta freguesia, umas personagens do livro passam uns dias nesta Casa do Moreira da Quinta e numa conversa mencionam a mesma história que aqui transcrevo. Este livro é a história romanceada do avô materno do autor. Também já falei com a filha de Fernando Campos, mas também não sabe de mais nada.

    "Enquanto se pôs a executar uma valsa de Chopin ouvia o cunhado a dizer:

    - No saguão desta casa se escondeu por vários dias o assassino de Sidónio Pais. Dizem os que na altura passavam na estrada verem um homem embuçado recolher-se, vindo de estranho vagabundear noturno, e, antes de entrar, virar-se para a igreja ameaçando-a com o punho fechado e os olhos a fuzilarem cóleras."

     A casa fica na Rua de Igreja, n.º 126, Malta, Vila do Conde.

     Envio também em anexo fotos da casa. Antigamente era revestida a azulejo verde, mas hoje em dia expuseram a pedra durante o último restauro. As fotos antigas são de procissões e vê-se a casa ao fundo.

[1] A “Noite Sangrenta”, episódio ocorrido entre o dia 19 e a madrugada de 20 outubro de 1921, encheu de horror a opinião pública nacional e internacional e marcou o futuro da I República de forma irreversível, nesse dia um grupo de sublevados recolhe numa camioneta e são assassinados, vários heróis do 5 de Outubro de 1910, incluindo Carlos da Maia e Machado Santos. Uma das primeiras preocupações dos golpistas foi a libertação de José Júlio da Costa nesse mesmo dia, que se encontrava detido no Hospital Miguel Bombarda, por um grupo de 300 civis armados que, segundo informações da época, ter-se-ão dirigido ao referido hospital e o levado para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no Norte do país


[2] José Pereira Malveiro. O Famigerado Herói do crime Grande da Estação do Rocio, 2018.


[3] Saguão - Espaço aberto entre duas alas do mesmo edifício para permitir a claridade e ventilação, geralmente sem saída.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

RICARDO GUERREIRO autor do livro GARVONESA - REENCONTRO COM A HISTÓRIA

PUBLICAÇÃO DO LIVRO

Garvonesa - Reencontro com a História
de: Ricardo Guerreiro

     Em 12 de Maio, por ocasião da Feira de Garvão, concelho de Ourique, teve lugar o lançamento do livro “Garvonesa - Reencontro com uma Raça Histórica”, da autoria de Ricardo Guerreiro.

     Este livro é o culminar de um trabalho desenvolvido por Ricardo Guerreiro ao longo de 10 anos com a raça Garvonesa.
     Nele o autor procura mostrar uma “coleção de pequenas narrativas visuais acompanhadas de legendas curtas em que o leitor é guiado por alguns enredos simples que desvendam comportamentos, peculiaridades e ligações destes animais com o meio que habitam”.
     Este livro tem o patrocínio da Câmara Municipal de Ourique e conta com o apoio da Associação de Agricultores do campo Branco, da EDIA e da Ruralbit.

Mais informação em:

Ricardo fotografou a raça garvonesa com a dignidade de um animal selvagem | Reportagem | PÚBLICO (publico.pt)

Fotogaleria: As Garvonesas, segundo Ricardo Guerreiro (nationalgeographic.pt)

Ricardo Guerreiro lança obra dedicada à raça garvonesa - Diário do Alentejo (diariodoalentejo.pt)

Pecuária.pt (pecuaria.pt)


quinta-feira, 11 de maio de 2023

BUSTO DE MÁRMORE - Agripina Menor (descoberto nos Franciscos)

   




 


      


        




 Em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (1) menciona um busto em mármore, possivelmente de Agripina Menor, descoberto nos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.

Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.

Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.

Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (2)

         Pela maneira como estão tratadas as pregas do vestuário e a comparação das dobras do manto, sobretudo as dobras no ombro esquerdo, leva a tecer comparações com os bustos conhecidos de Agripina Menor, por estas características e pela forma do busto, a peça pode datar-se da época de Cláudio(3).

        O busto está vestido com uma túnica e um manto caído sobre os ombros, as dobras das roupas superior e inferior são separadas umas das outras por furos profundos e a espécie de cunha na parte inferior do busto, servia para fixá-lo numa base.

1- VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas.
2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
3- Governou de 24 EC até 54 EC.

sábado, 25 de março de 2023

CURRAL do CONCELHO de GARVÃO

         Num post anterior, de 30/5/2021, mencionou-se a eventualidade de o local conhecido por Curral dos Bois, na junção da rua Nova e Rua Direita, junto à estrada das Amoreiras, correspondesse ao curral concelhio de que falam as fontes.

       A descrição das confrontações deste Curral no Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 1826, não nos permite, pelo menos nesta fase do conhecimento, afirmar que o mencionado Curral dos Bois corresponda ao local conhecido por Curral dos Bois.

      Segue abaixo a respectiva descrição, como se encontra no Livro do Tombo.

Fólio 28          

Auto de Vistoria, Medição, Confrontação e

Tombação do Curral do Concelho

(…) que consta de terra própria para sementeira toda morada de pedra

e barro, que nelle serve para se guardarem os gados encoimados; (…)

(…) que o dito curral parte do Norte com quintal do Lagar de Cera

de Maria de jesus; do Nascente, e Sul com estradas, e do Poente

com Cerca de Diogo Mendes Lopes d´Azevedo, (…)

(…) que tem de comprimento do Norte ao Sul trinta e huma varas, na cabeceira

do Norte vinte e huma e meia e na do Sul vinte e seis varas (…) [1] 


[1] O sistema craveiro adoptado em Portugal pela formação da nacionalidade, foi usado até vingar o sistema métrico decimal, na segunda metade do século XIX. A vara de craveira era uma antiga medida linear equivalente a cerca de 1,1 metro, embora na idade média esta medida variasse de concelho para concelho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

CERRO DAS CÔVAS - Em Garvão

Cemitério Antigo

           No Tombo do Concelho da Vila de Garvão, de 1826, consta no local, onde a tradição oral localiza um cemitério, um local denominado por Cerro das Côvas.

          Num post anterior sobre o “Cemitério Antigo” de 6 de Janeiro de 2020, aventou-se a possibilidade da necessidade de construção desde cemitério durante a pneumónica de 1918, devido a um excessivo número de mortos.

        Tendo em consideração que o Cemitério Velho, localizado a cerca de cem metros deste Cemitério Antigo, esteve em uso até à inauguração do Cemitério Novo em 1937 e o surgimento de Pedras de Cabeceira ou Estelas Funerárias junto ao Cemitério Velho, denunciadora de uma Necrópole Medieval, sugere uma continuidade de enterramentos neste local desde a Idade Média até ao século XX, e só uma necessidade extra-normal, justificaria a necessidade de construção deste Cemitério Antigo.

          Contudo pelo ano a que se reporta esta informação, 1826, volta a estar em dúvida as datas cronológicas de uso destes dois cemitérios. Por um lado, temos uma Necrópole Medieval junto aos muros do Cemitério Velho, por outro lado temos este Cemitério Velho com enterramentos até 1937, tal situação coloca em questão o período em que este Cemitério Antigo esteve em uso, questão essa que tarda em obter respostas enquanto não se processar uma pesquisa arqueológica no local que esclareça estas dúvidas.

Fólio 138          

Auto de Vistoria, Medição, Confrontação e

Tombação de hum terreno de que he Ephyteuta

Alexandre António, paga de fôro pelo Natal      -           - 400


Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus 

Christo de mil outocentos vinte e seis, aos treze de Maio,

neste sítio do Cerro das Côvas, Couto da villa de Garvão,

terreno de que he Ephyteuta Alexandre António (…)

(…) sendo ahi


o Doutor Joaquim José Nabuco d´Araujo, cavaleiro

professo na Ordem de Christo, do desembargo de sua

Magestade Fidelissima seu Dezembargador da Rela

çao da Bahia com exercício no lugar de Corregedor e

Provedor desta Comarca, comigo escrivão, os medido

res Romão Estevens e António Pedro Malveiro, (…)


(…) passou a fazer a vistoria no mesmo e achou nelle  

se acha edificado de taypa hum Moinho de vento,

que se acha moente e corrente,[1] (…)


(…) parte redondamente com terra do Conselho, e

que só tem o necessário para o dito moinho, e

seus logradouros; (…)


[1] “Moente e corrente”, diz-se do moinho que se encontra a laborar e em boas condições de funcionamento.

sábado, 28 de janeiro de 2023

ESTRUTURAS CULTUAIS

Depósito Votivo de Garvão



       






    A existência de estruturas cultuais em núcleos urbanos pré-romanos está bem documentada no Sudoeste Peninsular, entre outros pontos em Capote (Badajoz, Espanha), onde se localizou um depósito votivo primário: um conjunto de peças selado enquanto decorria a sua utilização ritual (Berrocal 1992, 1994).

       A estrutura a que o depósito se associava era uma pequena câmara, integrada na estrutura urbana do povoado, largamente aberta para a rua. Um banco onde se empilhavam contentores cerâmicos de uma tipologia particular rodeava as paredes, no centro um altar construído em alvenaria a seco serviu como mesa para uma refeição ritual.

       Nesta, terá participado, no sentido estrito, um número de pessoas próximas das duas dezenas, logo sendo os animais sacrificados distribuídos pela restante população do povoado. Neste caso parece não ter existido uma noção clara de culto a uma divindade específica, mas sim um ritual público, gentilício ou supra-gentilício, parecendo difícil que uma estrutura como a de Capote pudesse gerar a acumulação de ex-votos capaz de vir a produzir um depósito secundário com a dimensão do de Garvão (Berrocal 1994, 263-275).

       Por outro lado, o povoado a que os romanos conheceriam sob o nome de Mirobriga Celticorum inclui, na sua área mais elevada, um templo cujo estatuto sacro foi suficientemente marcante para que sobrevivesse, com remodelações, até à construção romana do fórum e com ele coexistisse por um período indeterminado (Correia 1995, 244-246).

       A prestação de culto a uma divindade num templo como este, poderia, ao fim de um certo período de tempo e dependendo do volume e tipo de oferendas que o costume e a esfera geográfica de difusão do culto acarretassem, levar à necessidade de criação de depósitos secundários.

       Depósitos secundários de peças votivas, terão existido com mais frequência em antigos santuários, em qualquer época, do que a arqueologia tem oportunidade de conhecer e estudar.

       No seio das sociedades complexas da Idade do Ferro Peninsular, as divindades terão desempenhado um papel muito importante na consolidação das estruturas supra-gentilícias que agregavam a sociedade. O fenómeno de concentração económica, apenas vagamente indiciado pela concentração de objectos cerâmicos.

In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

O Maltês

Mais vale roubar do que pedir

          Embora, hoje em dia, se pretenda romancear o papel do maltês nas décadas de fome e miséria nos campos alentejanos, o certo é que este fenómeno é fruto das graves assimetrias sociais que se manifestavam essencialmente fora dos períodos de trabalho agrícola, a que os sem terra alentejanos recorriam, com caracter mais ou menos de vagabundismo, principalmente fora do período das ceifas, como José Pacheco Pereira, muito bem, apontou no seu trabalho, “As lutas sociais dos trabalhadores alentejanos: do banditismo à greve”.[1]

          Os malteses, trabalhadores rurais durante as ceifas, vagabundos o resto do ano, são responsáveis por numerosos roubos, atentados pessoais, incêndios de searas, rixas, extorsão de comida e outros crimes, cuja fronteira entre criminalidade individual e social, sendo difícil de traçar para cada caso concreto, é nitidamente de carácter social se a analisarmos no seu conjunto.[2]

       Ainda na segunda metade do século passado, na vila de Garvão, observava-se que certas pessoas já com uma certa idade e já avós, mas que em certos períodos do ano, tinham a “mania” de se ausentarem de casa durante umas boas semanas e voltarem com taleigos, alforges ou simples sacas cheias de comida, embora não fosse uma actividade ou costume anual, em tempos de escassez era certo que recorriam a este subterfugio.

          Sobre a origem da palavra maltês, esta terá evoluído a partir da vinda para a Europa de largos grupos de pessoas originários da ilha de Malta à procura de trabalho, principalmente depois da invasão da ilha pelas tropas francesas de Napoleão que forçou a saída dos militares da Ordem de Malta que se lhes opunha, por o seu código os proibir de lutar contra outros cristãos.

         A vinda destas pessoas para Portugal poderá estar relacionado com a ajuda militar prestada por Portugal à resistência maltesa contra a invasão francesa, assim passou-se a denominar por “Malteses”, não sé os oriundos de Malta, mas igualmente uma “classe de homens sem domicílio fixo, sem profissão, que vivem às custas dos lavradores”[3], homens esses que vêm a ser conhecidos no futuro como malteses, designado os grupos de trabalhadores que andavam juntos para procurar trabalho, gente solta, sem poiso certo, sem responsabilidades nem compromissos, á procura de sustento em troca de algum trabalho junto das herdades agrícolas.

       Depressa se conotou os “Malteses”, sobretudo no Alentejo, como um grupo ou bando de pessoas com as mesmas e necessidades e caraterísticas, como gente desfavorecida, vadios, vagabundos, pessoas sem escrúpulos, trapaceiros, mentirosos e nos quais não se podia confiar, a mendigos de passagem, indivíduos mal-encarados, pessoas desprezíveis. A palavra “Maltês” passaria a ser empregue sempre com conotações negativas e com sentido pejorativo.

        As condições de vida no Alentejo, por meados do séc. XX, eram muito penosas, e o número de pessoas sem trabalho fixo, ou mesmo, sem nenhum trabalho, era muito elevado, sendo a única possibilidade de sobrevivência, a esmola. Parte desses homens que andavam de Vila em Vila, de aldeia em aldeia, e até de Monte em Monte, eram denominados malteses. Ao contrário dos ciganos, que chegavam a permanecer num sítio, por vezes, uma semana; os malteses, esses, nunca dormiam no mesmo sítio mais que uma noite, circulando sempre, entre os locais onde sabiam ter certa uma esmola, quase sempre em alimentos, como sopas de pão alentejano, migas, etc. Mas o maltês da minha infância tem laivos de Romantismo. Refiro-me ao maltês que ecoou no imaginário alentejano feito cultura. Este vagabundo, uma espécie de sem abrigo camponês, sem marca étnica que não a da rebeldia, tipificado como corpo de resistência à ordem latifundiária. Recusando o alinhamento social e os códigos de compromisso ou luta, vivendo da poesia do luar feito almofada e cobertor e de pequenos roubos de alimentos em estado bruto para matar a fome. Permanentemente acossado por guardas republicanos, o maltês estava muito longe do estereótipo do camponês proletário que lutava pelas quarenta horas. Depois, como se sabe, o último maltês não foi morto por um guarda republicano, nem por pancadas de um feitor. O último maltês faleceu por lhe terem liquidado o atrevimento da dissidência, o olhar de vagabundo com que teimava ser livre.

       De facto, ainda recorrendo a José Pacheco Pereira e segundo a imprensa dos primeiros anos do século XX continua este coro de protestos contra os malteses. As queixas são permanentes: «são contínuos os roubos pelos campos»; «a praga dos malteses [...] agora infestam a freguesia de Cabrela»; «os malteses e os ciganos [...] constituíram este ano ainda maior flagelo que anteriormente»; «os gatunos andam desenfreados por estas paragens — S. Cristóvão»; «a maltesaria é a praga daninha da agricultura», etc.[4]

        A actuação destes bandos é característica: «É por de mais o desaforo desses vagabundos, que aos bandos assaltam os montes e ali exigem o sustento diário. Os amigos do alheio (a maltesaria) usam agora dum estratagema: munidos de uma foice, andam de monte em monte a pedir trabalho, que eles sabem não existir. Mas pedem também comida e, se esta lhes é recusada, ameaçam os lavradores de grandes prejuízos».[5]

       Claro que nem todas as esmolas eram voluntariamente dadas. Nalguns casos é difícil distinguir entre a esmola e a extorsão de dinheiro e géneros ou o roubo mais ou menos consentido. Quando nos referimos aos vadios e aos malteses, notamos como é difícil distinguir as fronteiras entre estes actos.[6]

        Por outro lado, não deixa de ser relevante a caracterização dos “Malteses” como uma figura romanceada, de um certo registo por vezes ficcionado, por vezes real, de uma época onde o tempo de escrita e o tempo da história colidem, o romance, embora impregnado de verdade humana, não deixa de transcender as condicionalidades temporais. No fundo procura-se romancear o plano humano de uma experiência vivida, enquanto torna o tempo e o espaço do romance irreconhecíveis como momentos e lugares de vivências humanas e sociais.

     Nesse sentido os escritos de Manuel da Fonseca, em torno da personagem do maltês, uma figura recorrente tanto na obra poética, como na prosa do autor. Campaniços, mendigos, vagabundos e malteses são homens em conflito com um espaço físico e social adverso, a quem Manuel da Fonseca dedica uma particular atenção e investe de valentia e coragem fora do comum, exaltando a dimensão heroica no confronto com a sua condição marginal. Homens corajosos e rijos que enfrentam determinados todas as dificuldades e privações, conservando uma dignidade muito própria e uma ânsia de liberdade acima de tudo na vida. Homens insubmissos para com as injustiças e dignos de exaltação.

[1] José Pacheco Pereira. As lutas sociais dos trabalhadores alentejanos: do banditismo à greve. Análise Social, vol. XVI (61-62), 1980-l.º-2.º, 135-l56.

[2] Idem, p. 147.

[3] Idem, P. 146.

[4] Idem. P. 146/147.

[5] Idem. P. 147.

[6] Idem. P. 153.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...