quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A RODA DOS EXPOSTOS EM GARVÃO

 MENCIONADA NOS ASSENTOS DE BAPTIZO          

     Um dos flagelos da idade Média era a mortalidade infantil e o abandono de crianças. Ou por pobreza, (sem condições para sustentar mais uma criança), ou por vergonha, (caso das mães solteiras, de vários estratos sociais), só na cidade do Porto no século XVIII, foram abandonadas mais de sessenta mil crianças[1].

     Para colmatar esta situação, as Misericórdias, nos vários lugares do reino, acolhiam estas crianças, instituindo a roda, aparelho cilíndrico oco com uma abertura onde se depositava as crianças, na parede da instituição que dava para a rua, tipo janela, onde na calada da noite e no anonimato do escuro, se entregavam as crianças e tocavam o sino, a alertar o depósito de uma criança na roda, este mecanismo era construído de tal forma que aquele que expunha a criança não era visto por aquele que a recebia.

     Foi instituído igualmente o ofício de rodeira que ao badalar do sino, rodava a roda para o interior da instituição e recolhia as crianças e as amamentadeiras que amamentavam os recém-nascidos, (geralmente alguém que estivesse a aleitar os filhos), pagas para o efeito.

     Em Garvão, consta, em vários assentos de baptizo, por volta de 1800, de crianças entregues na roda dos expôstos* e, como exemplo, entre os anos de 1828 e 1877, constam nos registos de nascimento, 167 expostos dados a criar a diversas pessoas da vila.

       Constam na área do extinto concelho de Garvão, tanto um terreno denominado Cerca da Enjeitada e nomeação de pessoas como António Enjeitado e descendentes.

      Nuns registos, constam simplesmente a indicação de expostos, com a descrição do local onde foi encontrado e a quem foi dado a criar, a data do batizo e os padrinhos, noutros registos, constam igualmente quem encontrou e por vezes indica que vinham acompanhados de uma nota escrita, como o caso de Carolina, batizada a 15/9/1829, a informar que já tinha sido batizada, ou de Cristiana, batizada em 22/1/1873, encontrada na herdade da Fonte Franca, acompanhada por um bilhete a informar o nome que lhe foi posto.

            Esta junção de bilhetes com a indicação de nome já posto, ou de outro sinal, era uma indicação para a identificação de certas crianças entregues na roda e, como, em alguns casos, para o reconhecimento de alguns filhos por mães arrependidas.

     Noutros lugares onde faltava a roda, estas crianças eram deixadas em lugares escolhidos e na certeza de serem encontrados, maioria dos casos, existe uma proximidade entre os sítios do encontro da criança e o local da residência de mães em amamentação de algum filho ou, até mesmo, junto da habitação de alguns membros dos órgãos gerentes da Misericórdia.

     A entrega de uma criança na Misericórdia não era garantia de sobrevivência, de facto a mortalidade das crianças aos cuidados desta instituição, correspondia drasticamente a níveis de mortalidade muito altos, segundo o livro de Marta Páscoa Os expostos em Castro Verde entre 1887 e 1899, a mortandade nunca foi inferior a cerca de metade dos expostos, o ano em que morreram mais expostos foi o de 1894 em que das onze crianças entregues na Misericórdia morreram dez crianças, e o de 1896 em que das 14 morreram 13, o resto dos anos no estudo de Marta Páscoa apresenta uma mortandade entre os 57,1% e os 85,7%, ou seja nos treze anos estudados e dos 144 expostos morreram 110. Era sem dúvida uma mortalidade superior à das crianças não abandonadas.[2]

     Durante séculos, a caridade - o amor a Deus e ao próximo - foi enaltecida como uma das mais preciosas virtudes cristãs. O pobre era a imagem de Cristo, e a esmola o gesto com que quem dava redimia os seus pecados, (portanto podia voltar a pecar outra vez).

      O pobre, era a salvação da alma do rico, era, pois, necessário a existência de pobres para que os ricos pudessem dar e exercer a caridade e assim a salvação da sua própria alma.

       Assim, a caridade era praticada sobretudo pelas vantagens espirituais que quem dava colhia, era indiferente, no fundo, conhecer as causas da pobreza do miserável que estendia a mão.

       As instituições, quase todas de carácter religioso que, ao longo dos séculos, recolheram crianças abandonadas, curaram doentes e praticaram outras ações caritativas, estavam imbuídas deste espírito misericordioso. Esta institucionalização das esmolas, mais do que valorizar/dignificar os pobres, procurava vantagens espirituais para quem dava.[3]

PT-ADLSB-PRQ-PORQ02-001-B1_m0173.tif - Livro de registo de baptismos - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq (arquivos.pt)

[1] Isabel dos Guimarães Sá, Expostos, história das populações e informática. In II Encontro sobre História e Informática. S.l.: Universidade do Minho, 1989.

[2] Isabel dos Guimarães Sá, A circulação de Crianças na Europa Meridional do século XVII: O Exemplo da Casa da Roda do Porto. Boletín de la Asociación de Demografía Histórica, Barcelona, 1992.

[3] História dc Portugal (dir. José Mattoso) IN: PÁSCOA, Marta, Os expostos em Castro Verde entre 1887 e 1899Castro Verde, Câmara. Municipal de Castro Verde, 1998.


 

sábado, 25 de novembro de 2023

JOSÉ JÚLIO DA COSTA: PSICOPATOLOGIA NO MAGNICÍDIO?

Com a cortesia do Doutor Nuno Borja Santos, publica-se a conclusão do estudo com o título acima referido.

O texto completo poder ser visto em: HISTÓRIA INTERDISCIPLINAR DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL - IX, Coimbra, 2019. Pag. 159

Nuno Borja Santos 1 ; Luís Afonso Fernandes 2 ; Mário Santos 2

Hospital Fernando Fonseca
1 Médico, chefe de internamento do Serviço de Psiquiatria
2 Médico, interno de Psiquiatria
Email: n.borja.santos@gmail.com;lafonsocunha@gmail.com;marioj.gsantos91@gmail.com

(...) Conclusões

Poderíamos, pois, dizer em conclusão que, em termos clínicos, a resposta mais provável à pergunta do título desta comunicação é a de que José Júlio da Costa, estava provavelmente na fase prodrómica de uma esquizofrenia, mas que à época do homicídio e do exame médico-legal se podia ainda determinar, pelo que as conclusões da perícia psiquiátrica, estariam correctas. O seu súbito agravamento clínico com aparecimento de sintomas psicóticos, talvez até precipitado pelo life-event constituído pelo processo judicial, obstou, com toda a probabilidade, a que o processo judicial avançasse. Os factos de no internamento de 1927 a observação não deixar dúvidas acerca do diagnóstico, bem como o da sua existência incógnita durante os seis anos entre os dois internamentos, concorrem para que José Júlio da Costa já estivesse clinicamente doente (com esquizofrenia) a partir de 1921

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

GRAFITO de GARVÃO II




 


 






IN: Revista Portuguesa de Arqueologia. volume 1. número 1. 1998. Uma inscrição em caracteres do Sudoeste proveniente da Folha do Ranjão (Baleizão, Beja). António Marques de Faria António M. Monge Soares. P. 156

(…) sobre o grafito gravado no fundo de uma taça de cerâmica recolhida no depósito votivo de Garvão, nada temos a acrescentar ao que J. A. Corea afirmou na conferência proferida na Figueira da Foz, em 15 de Outubro de 1994, no âmbito do VI colóquio de línguas e culturas pré-romanas da Península Ibérica (v. igualmente Correa, 1996a, p. 69).

No texto incluído nas actas do referido colóquio, Correa entendeu não aprofundar o estudo do grafito, que acabou por ser publicado por Correia (1996b, p. 272). Dele consta o NP aiot(i)ii (gen. sg.), lido por este último investigador como ab(a)ot(i)b(a)b(a), identificativo do proprietário da taça.

Como também recordou o Prof. Correa, o NP Aiotius, claramente indo-europeu, já era conhecido numa inscrição de Ávila (Abascal Palazón, 1994, p. 263). Repare-se que no grafito em causa é cumprida a regra da sequência vocálica fixa (Correa, 1996a, p. 69); porém, os signos de i assumem nesta inscrição uma forma que não tem paralelo em todos os documentos paleo-hispânicos, fenómeno que parece denunciar uma solução de continuidade no uso da escrita, talvez o reflexo das profundas mutações sociais que terão posto fim à cultura do Sudoeste durante o século V a.C. (Gomes, 1992, p. 167)

Grafito paleohispánico hallado en el depósito de Garvâo (Ourique, Beja) · Autores: José Antonio Correa Rodríguez

sábado, 23 de setembro de 2023

IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO






 





Estação de Garvão

In: www.monumentos.gov.pt

De: José Falcão e Ricardo Pereira, 1977.

Actualização: Paula Figueiredo, 2001.

Arquitectura religiosa, vernacular. Capela de planta longitudinal composta por nave, capela-mor mais estreita e baixa e sacristia adossada ao alçado lateral esquerdo. Fachada principal em empena e com os vãos em eixo composto por portal de  verga recta moldurado, encimado por janela. Alçados com cunhais apilastrados. Coberturas de madeira, na nave, e em falsa abóbada de berço, em estuque, na capela-mor.

DESCRIÇÃO

     Planta longitudinal escalonada, composta por nave, capela-mor mais estreita e baixa, e sacristia adossada do lado esquerdo, de volumes articulados.

     Cobertura diferenciada em telhados de duas águas na nave e capela-mor prolongando-se o da  capela-moremabacorridapela sacristia.

     Fachada principal orientada, rematada por empena semicircular com pináculos piramidais nos acrotérios e encimada por cruz.

     Portal de verga recta adintelada, sobrepujado por janela.

     Sacristia com porta de verga recta adintelada a E., sobrepujada por campanário com olhal em arco de volta perfeita coroado por frontão de lanços.

     No INTERIOR, a nave possui cobertura de forro de madeira em masseira, com púlpito do lado do Evangelho. Arco triunfal de volta perfeita, com moldura e apoiado em pilastras, degrau e grade de ferro fundido.

     Capela-mor com abóbada de berço que arranca de cornija, decorada por estuques com medalhão central representando o Agnus Dei Cadeado por quatro medalhões circulares com cruzes e alfaias; altar-mor antecedido por três degraus semi-circulares e retábulo de alvenaria e decoração estucada com nicho central e duas mísulas laterais.

     Do lado do Evangelho, rasga-se a porta de acesso à sacristia, com cobertura em abóbada de arestas, nicho em arco de volta perfeita e lavabo com ornamentos de argamassa.

ENQUADRAMENTO

     Peri-urbano, junto à estrada que se dirige à estação de caminho-de-ferro de Garvão, antecedido por adro murado, com habitações adossadas do lado direito.

DADOS TÉCNICOS

     Estrutura mista ( nave e sacristia ) e paredes autoportantes ( capela-mor ).

MATERIAIS

     Paredes de alvenaria de pedra e cal, rebocadas e caiadas, cobertura de telha de canudo, pavimento de mosaico hidráulico e tijoleira, estuques.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

JORNAL DE GARVÃO Nº 29











Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que sistematicamente vão desaparecendo.

sábado, 29 de julho de 2023

A URGÈNCIA de uma intervenção Arqueológica no "Cemitério Medieval de Garvão"







Desenho de Estela Funerária descoberta na parede do Cemitério Velho de Garvão3

      Esta intervenção arqueológica teria por objetivos, não só proteger este conjunto do desmoronamento de paredes, do pisoteio do gado e de charruagens cada vez mais fundas, mas igualmente, pôr a descoberto as estruturas funerárias que têm aflorado à superfície, relacionadas com a necrópole medieval em torno da primitiva Igreja Matriz de Garvão, assim como proceder ao estudo do espólio material e osteológico resultam-te dos enterramentos ali efectuados, em torno e dentro do templo referido e, após a sua ruína, causada pelo terramoto de 1755, quando o espaço foi reaproveitado como cemitério da vila, até ao princípio do século XX.

     De notar que durante algum tempo se identificou os vestígios, ainda presentes no local, como sendo da Igreja do Sagrado Espírito Santo. Esta conclusão, deveu-se ao facto de as outras igrejas situadas em Garvão e mencionadas nas fontes escritas, estarem identificadas. Se as fontes históricas falam em quatro igrejas e faltando na Vila a do Sagrado Espírito Santo, os vestígios encontrados junto ao cemitério Velho, só poderiam corresponder a esta Igreja, reforçado, ainda, pelo facto de junto ao local se terem encontrado uma pia de água benta, estelas funerárias medievais e três fechos de abóboda, (que afinal correspondiam ao galilé que protegia o portal manuelino da Igreja Matriz).
     Contudo segundo informação do Doutor António Martins Quaresma1, os vestígios que se encontram presentemente junto ao Cemitério Velho, corresponderiam à primitiva Igreja Matriz de Garvão e o templo onde se encontra a actual Igreja Matriz, seria a Igreja do Sagrado Espírito Santo. Tal mudança deveu-se ao facto do estado de ruína em que ficou a primitiva Igreja Matriz, no seguimento do terramoto de 1755, segundo informação do referido historiador.

     (…) de 1755, que o terramoto desse ano causou graves danos no edifício, ainda mais lastimáveis porque ele havia sido reparado há pouco, com grande desvelo do prior. Em consequência, os fregueses recusavam-se a ouvir missa no seu interior, temendo derrocadas. (ADE, Câmara Eclesiástica de Évora, SC-L, L. 60, cx.18, fl. 50) (…).2

      (…) Alfim, por volta de 1832, deu-se o abandono definitivo da velha e arruinada matriz de Garvão e a passagem das respectivas funções para a da Misericórdia, que, lembremo-lo, fora por sua vez a antiga ermida do Espírito Santo e ocupava uma posição muito mais central no contexto urbano (…). (AHMO, Correspondência recebida, AC 9/01, Ofício de 4 de Junho de 1857).2

     Teriam de ser abertas várias sondagens, tanto no interior como no exterior da área murada que resultaram na identificação, registo e recolha igualmente dos materiais aflorados à superfície, nomeadamente as mencionadas estelas funerárias medievais, de madeiras, fragmentos de couro, ilhoses em metal e outros artefactos relacionados com os enterramentos.
     Enquanto os materiais recolhidos no exterior do perímetro muralhado são na sua maioria estelas medievais, (século XV, tanto anteriores como posteriores), já no interior deste teremos enterramentos até 1937, altura em que foi inaugurado o Cemitério Novo na Sardoa.
     Estes elementos associados às informações documentais permitiram ainda a identificação de estruturas pertencentes à mencionada Igreja. Quanto às estruturas é possível identificar várias paredes e respectivos contrafortes, incluindo uma porta entaipada, que foi posteriormente integrada e acrescentada nos muros de delimitação do espaço funerário.
     O espólio material recuperado, para além das mencionadas estelas funerárias, inclui vários objectos de adorno pessoal, fragmentos de contas, botões em vidro, metal e madrepérola, alfinetes, anéis e não raramente moedas, sobretudo dinheiros da primeira dinastia e ceitis cunhados entre meados do século XV e o final do reinado de D. Manuel I e outras moedas datadas do século XX encontradas por particulares.


1 Doutor António Martins Quaresma, é licenciado e doutor em História. Tem realizado uma vasta investigação histórica, em particular sobre o Litoral Alentejano, divulgando a história e o património cultural locais e tem publicado, em livros, artigos e actas de encontros e seminários, uma já longa lista de títulos.
2 Cortesia do Doutor António Martins Quaresma.
3 Malveiro, José Daniel. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I e II. Janeiro, 2013. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.


 

terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO do TOMBO do CONCELHO da VILA de GARVÃO






    





    Pretende-se, com a publicação do livro do Tombo do Concelho da Villa de Garvão, dar a conhecer este documento tão importante para o estudo deste antigo Concelho medieval e dar continuidade a uma série de estudos sobre esta vila, cuja génese se encontra num período anterior à nacionalidade e cuja importância mereceu, depois da consolidação territorial, a atribuição da Carta de Foral em 1267, no reinado de D. Afonso III.

     Esta publicação, contribui para promover e divulgar os estudos locais, no seguimento de outros trabalhos anteriores sobre os vários aspectos históricos desta Vila, os quais pretendem valorizar a sua história local e o património cultural deste antigo Concelho.

     Esta edição do livro do Tombo do Concelho da Villa de Garvão é mais um contributo para o reforço da identidade cultural, da narrativa ancestral deste território e das suas raízes históricas.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...