domingo, 17 de março de 2024

JORNAL DE GARVÃO Nº 30











EDIÇÃO COMEMORATIVA dos 50 ANOS do 25 de ABRIL de 1974

Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, registam informações, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz.

O Jornal de Garvão, que comemora este ano 30 anos da sua existência, tem procurado a participação direta dos habitantes desta terra e de uma forma geral procura estimular a escrita e a leitura e promover o diálogo e o debate.

Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberiam, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Ti´Farrapinho - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL






TI´FARRAPINHO

O Caso da Foice e do Martelo e… da Prisão.

     António Jacinto Maria, mais conhecido por Ti´Farrapinho, alfaiate de profissão, herdado do seu sogro, João da Graça, (descendente dos Borreiros de Villanueva de los Castillejos, Andaluzia, Espanha), morava numa casinha humilde da «Outra Banda», erguida ao lado da igreja da Nossa Senhora da Assunção[1], um larguinho para o qual abre a porta da casa onde viveu, uma rua estreita à esquerda, oliveiras centenárias num quintal e ali vivia o Ti´Farrapinho, entregue ao seu trabalho de alfaiate, tal como o seu sogro, cortando e cosendo a forte saragoça dos fatos encomendados.

     A destreza com a tesoura, fazendas, linhas e agulhas e dedais, não correspondia à sua habilidade de pedreiro, se nas fazendas era mestre, não se dava muito bem no trabalho de obras de alguma porta, janela ou poiais que precisasse de arranjo.

     A falta de jeito, deixava-o de mau feitio, ou por falta de habilidade, ou já quentinho de alguma pinga vinícola, deixava-o de mau humor e a obra no poial que tentava arranjar não saia muito bem, ou porque o cimento ou pedra partiam noutro lugar, ou como, talvez, o martelo pendia para o sítio errado.

     - O que é que falta aí, mestre António, gracejou um passante, perante tão desajeitado trabalho, na esperança de, senão em irritar o atormentado alfaiate, pelo menos de se armar em engraçado.

     Para o destemperado aprendiz de pedreiro era demais; não bastava já as dificuldades na obra e o poial ainda para arranjar, como agora, um a querer galhofa!

     A resposta não se fez esperar, falta a foice e o martelo, e se o martelo não seria a ferramenta apropriada para tal trabalho, uma foice também não seria com certeza e se o outro se estava armado em engraçado, talvez com umas marteladas na cabeça com o martelo, ou com a foice para lhe cortar a língua, se lhe acabasse com a graçola.

     O certo é que tanto repetiu a frase, foice e martelo, tantas vezes que foi denunciado.

     Nesse mesmo dia vieram buscá-lo para interrogações, passou vários dias na prisão a pão e água, a quererem à viva força que respondesse ao que não sabia, ou que denunciasse quem desconhecia.

     Passou mal, relatou depois à família, tirado do seu local de trabalho e da casa familiar, com roupa para talhar e família para sustentar, viu-se submetido a interrogatórios humilhantes à ordem da PIDE, só por ter mencionado uma foice e um martelo.

[1] parafraseando Joaquim da Costa em 1940

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

50 ANOS do 25 de ABRIL e 30 ANOS do JORNAL de GARVÃO

             O 25 de Abril, foi há 50 anos. Foi um dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade.

            A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.

            O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e injustas, e as permissões irrelevantes e insignificantes, dava lugar a uma nova realidade. No país onde era proibido pensar - e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença - passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem de Maio de 68.

            Já lá vão 50 anos. Assinalar o aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é, ainda, um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê.

            Para celebrar, mas, também, para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Jornal de Garvão, decidiu lançar, no ano em que celebra 30 anos, uma edição especial.

          A importância social de um jornal local, como fonte primária de informação, deve ser considerado como um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento e divulgação.            

          Assim, este Jornal tem vindo a despertar a produção, a criatividade, o senso crítico e a participação direta dos participantes, desenvolvendo variados tipos de aptidão, além de transmitir, informações vocacionadas para a divulgação de histórias do quotidiano das comunidades locais e a recolha, tratamento e divulgação de notícias, institucionais e educativas a toda a comunidade e desenvolver habilidades de leitura, estimular a escrita e a criatividade e promover o diálogo e o debate.

          Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, uma vez que registam informações de âmbito local e mesmo regional, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz e assumem um papel decisivo num mundo onde a globalização está cada vez mais instalada.

      Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

Calisto - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL











CALISTO JOAQUIM

O caso do Bandido, do Café Crocodilo e… da prisão!

     Viva o Bandido, exclamou Calisto Joaquim, de sua graça, quando entrou no Café Crocodilo e depara-se perante um discurso de Salazar na televisão que entoava em toda a sala.

     Viva o Bandido, tornou a exclamar e tudo ficou mudo e calado, conhecedores das consequências de qualquer manifestação antagónica ao regime.

     Uns calados, incrédulos perante tal inconsciência, outros espantados perante tal foiteza, e ainda  para outros, tal atrevimento iria trazer represálias.

     Era dia de pagamento da jorna e era certo que Calisto Joaquim “molharia o bico” senão em todas as tabernas, vendas e cafés da vila, pelo menos naquelas que apresentavam a agora novidade da televisão e, pelo menos enquanto os tostões tilintassem nas algibeiras.

     Bom bebedor, não deixava de beber o seu copinho em a parca economia caseira o permitir, e nem deixava por mãos alheias a sua contestação ao regime, não fosse ele afinal sobrinho de Francisco Parreira, da família dos Gusmão, preso pela PIDE, (ver página 11).

     Quentinho ou com um grão-na-asa, rumou a altas horas a casa, podia varrer a rua de lado a lado, esquivando-se a algum buraco ou barreira que lhe estorvasse o passo, a casa sabia ele onde era e no outro dia estaria pronto e fresco para mais uma jornada de trabalho.

     Conforme as lembranças de Augusto Charrua, 91 anos de idade, (já mencionado neste Jornal), (…) dias depois, estávamos nós muito bem a apanhar seixos, para o arranjo das estradas, quando vemos aproximar um carro preto vir direito a nós, hó diabo, pensamos nós, o que é que estes quererão? saem de lá uns tipos, vestidos também de preto, todos sisudos e  perguntam com voz alta, qual de vocês é que é o Calisto Joaquim?

     Sou eu, respondeu prontamente o voluntarioso e ingénuo aprendiz de opositor político e sem nada desconfiar, aproximou-se dos senhores do carro preto.

     Anda connosco, entra para dentro do carro, não se apresentaram, nem disseram os bons dias e muito menos se despediram, mas quem assistiu sentiu pelo tom autoritário da voz com que se lhes dirigiram que o Calisto estava em maus lençóis. De Beja levaram-no para o Aljube e do Aljube para Caxias e de Caxias sabe-se lá para aonde, o certo é que de cada vez que o mudavam, mais interrogatórios se sucediam e mais torturas sofria no seu já massacrado corpo. 

     Foi amassado, mas bem amassado, segundo relatou aos colegas, depois de vários dias preso, podiam-no ter judiado, berrado e humilhado, mas de nada valeu, pois Calisto Joaquim não sabia de nada, não sabia cá de células da oposição comunista, prospetos revolucionários ou reuniões secretas, (se calhar até sabia!), só sentia na pele a carestia da vida e as agruras de uma vida de trabalho de Sol a Sol, sem horas para entrar ou horas para sair, ainda o Sol não tinha nascido e já estava a trabalhar e a trabalhar continuava já o Sol se tinha posto, até ser dada ordem para pararem.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A RODA DOS EXPOSTOS EM GARVÃO

 MENCIONADA NOS ASSENTOS DE BAPTIZO          

     Um dos flagelos da idade Média era a mortalidade infantil e o abandono de crianças. Ou por pobreza, (sem condições para sustentar mais uma criança), ou por vergonha, (caso das mães solteiras, de vários estratos sociais), só na cidade do Porto no século XVIII, foram abandonadas mais de sessenta mil crianças[1].

     Para colmatar esta situação, as Misericórdias, nos vários lugares do reino, acolhiam estas crianças, instituindo a roda, aparelho cilíndrico oco com uma abertura onde se depositava as crianças, na parede da instituição que dava para a rua, tipo janela, onde na calada da noite e no anonimato do escuro, se entregavam as crianças e tocavam o sino, a alertar o depósito de uma criança na roda, este mecanismo era construído de tal forma que aquele que expunha a criança não era visto por aquele que a recebia.

     Foi instituído igualmente o ofício de rodeira que ao badalar do sino, rodava a roda para o interior da instituição e recolhia as crianças e as amamentadeiras que amamentavam os recém-nascidos, (geralmente alguém que estivesse a aleitar os filhos), pagas para o efeito.

     Em Garvão, consta, em vários assentos de baptizo, por volta de 1800, de crianças entregues na roda dos expôstos* e, como exemplo, entre os anos de 1828 e 1877, constam nos registos de nascimento, 167 expostos dados a criar a diversas pessoas da vila.

       Constam na área do extinto concelho de Garvão, tanto um terreno denominado Cerca da Enjeitada e nomeação de pessoas como António Enjeitado e descendentes.

      Nuns registos, constam simplesmente a indicação de expostos, com a descrição do local onde foi encontrado e a quem foi dado a criar, a data do batizo e os padrinhos, noutros registos, constam igualmente quem encontrou e por vezes indica que vinham acompanhados de uma nota escrita, como o caso de Carolina, batizada a 15/9/1829, a informar que já tinha sido batizada, ou de Cristiana, batizada em 22/1/1873, encontrada na herdade da Fonte Franca, acompanhada por um bilhete a informar o nome que lhe foi posto.

            Esta junção de bilhetes com a indicação de nome já posto, ou de outro sinal, era uma indicação para a identificação de certas crianças entregues na roda e, como, em alguns casos, para o reconhecimento de alguns filhos por mães arrependidas.

     Noutros lugares onde faltava a roda, estas crianças eram deixadas em lugares escolhidos e na certeza de serem encontrados, maioria dos casos, existe uma proximidade entre os sítios do encontro da criança e o local da residência de mães em amamentação de algum filho ou, até mesmo, junto da habitação de alguns membros dos órgãos gerentes da Misericórdia.

     A entrega de uma criança na Misericórdia não era garantia de sobrevivência, de facto a mortalidade das crianças aos cuidados desta instituição, correspondia drasticamente a níveis de mortalidade muito altos, segundo o livro de Marta Páscoa Os expostos em Castro Verde entre 1887 e 1899, a mortandade nunca foi inferior a cerca de metade dos expostos, o ano em que morreram mais expostos foi o de 1894 em que das onze crianças entregues na Misericórdia morreram dez crianças, e o de 1896 em que das 14 morreram 13, o resto dos anos no estudo de Marta Páscoa apresenta uma mortandade entre os 57,1% e os 85,7%, ou seja nos treze anos estudados e dos 144 expostos morreram 110. Era sem dúvida uma mortalidade superior à das crianças não abandonadas.[2]

     Durante séculos, a caridade - o amor a Deus e ao próximo - foi enaltecida como uma das mais preciosas virtudes cristãs. O pobre era a imagem de Cristo, e a esmola o gesto com que quem dava redimia os seus pecados, (portanto podia voltar a pecar outra vez).

      O pobre, era a salvação da alma do rico, era, pois, necessário a existência de pobres para que os ricos pudessem dar e exercer a caridade e assim a salvação da sua própria alma.

       Assim, a caridade era praticada sobretudo pelas vantagens espirituais que quem dava colhia, era indiferente, no fundo, conhecer as causas da pobreza do miserável que estendia a mão.

       As instituições, quase todas de carácter religioso que, ao longo dos séculos, recolheram crianças abandonadas, curaram doentes e praticaram outras ações caritativas, estavam imbuídas deste espírito misericordioso. Esta institucionalização das esmolas, mais do que valorizar/dignificar os pobres, procurava vantagens espirituais para quem dava.[3]

PT-ADLSB-PRQ-PORQ02-001-B1_m0173.tif - Livro de registo de baptismos - Arquivo Nacional da Torre do Tombo - DigitArq (arquivos.pt)

[1] Isabel dos Guimarães Sá, Expostos, história das populações e informática. In II Encontro sobre História e Informática. S.l.: Universidade do Minho, 1989.

[2] Isabel dos Guimarães Sá, A circulação de Crianças na Europa Meridional do século XVII: O Exemplo da Casa da Roda do Porto. Boletín de la Asociación de Demografía Histórica, Barcelona, 1992.

[3] História dc Portugal (dir. José Mattoso) IN: PÁSCOA, Marta, Os expostos em Castro Verde entre 1887 e 1899Castro Verde, Câmara. Municipal de Castro Verde, 1998.


 

sábado, 25 de novembro de 2023

JOSÉ JÚLIO DA COSTA: PSICOPATOLOGIA NO MAGNICÍDIO?

Com a cortesia do Doutor Nuno Borja Santos, publica-se a conclusão do estudo com o título acima referido.

O texto completo poder ser visto em: HISTÓRIA INTERDISCIPLINAR DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL - IX, Coimbra, 2019. Pag. 159

Nuno Borja Santos 1 ; Luís Afonso Fernandes 2 ; Mário Santos 2

Hospital Fernando Fonseca
1 Médico, chefe de internamento do Serviço de Psiquiatria
2 Médico, interno de Psiquiatria
Email: n.borja.santos@gmail.com;lafonsocunha@gmail.com;marioj.gsantos91@gmail.com

(...) Conclusões

Poderíamos, pois, dizer em conclusão que, em termos clínicos, a resposta mais provável à pergunta do título desta comunicação é a de que José Júlio da Costa, estava provavelmente na fase prodrómica de uma esquizofrenia, mas que à época do homicídio e do exame médico-legal se podia ainda determinar, pelo que as conclusões da perícia psiquiátrica, estariam correctas. O seu súbito agravamento clínico com aparecimento de sintomas psicóticos, talvez até precipitado pelo life-event constituído pelo processo judicial, obstou, com toda a probabilidade, a que o processo judicial avançasse. Os factos de no internamento de 1927 a observação não deixar dúvidas acerca do diagnóstico, bem como o da sua existência incógnita durante os seis anos entre os dois internamentos, concorrem para que José Júlio da Costa já estivesse clinicamente doente (com esquizofrenia) a partir de 1921

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...