quinta-feira, 25 de abril de 2024

COMEMORAÇÕES Dos 50 ANOS do 25 DE ABRIL de 1974

Na primeira pessoa

Há 50 anos no Largo do Carmo











Jornal Républica de 26 de Abril de 1974.
Assinalado, em circulo branco, o Editor do Jornal de Garvão.











Capacete de Ferro.
Do assalto à sede ou delegação da Legião Portuguesa, no Bairro Alto, em Lisboa, pelo Editor do Jornal de Garvão e outros populares.

       A manhã tinha acordado fresquinha. Na rádio ouvia-se o hino nacional e, o programa das forças armadas.

     17 aninhos. Paquete (moço de recados), em Lisboa, na empresa Nova Idade que publicava: O Volante e O Musicalíssimo.

     Mário Ventura Henriques, (preso em Caxias e solto pelo 25 de Abril), José Vaz Pereira, Bernardo Brito e Cunha (BBC), entre outros, eram os “colegas”.

     Também por lá passaram, Zeca Afonso, José Saramago e Lino de Carvalho, (igualmente preso no forte de Caxias e libertado pelo 25 de Abril), no projeto de um novo jornal.

     Dias antes, na sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, a entregar ou receber documentos.

     Dias depois, numa quinta-feira, a 25 de Abril, na rua da PIDE, as balas zumbiam no ar e assistia ao assassino de cidadãos.

     No quartel do Largo do Carmo, um militar manda afastar os populares e ouve-se as rajadas e as paredes metralhadas.

    Saiu um carro preto. Sai uma autometralhadora. Rende-se Marcelo Caetano aos militares revoltosos.

     Nos dias seguintes era a festa da liberdade, das manifestações espontâneas, o grito amordaçado, durante tantos anos, que se soltava. O país assistiu a uma exaltação popular, como nunca antes tinha vivido, só quem assistiu e viveu estes dias a poderá ter, como o dia mais marcante da sua vida, fora do seu círculo familiar.

     Desse dia ficou a lembrança, uma foto no jornal República (do dia 26) e um capacete de ferro do assalto à sede ou a alguma delegação da Legião Portuguesa no Bairro Alto.

      Hoje passados tantos anos, admiro a coragem e a maturidade destes jovens oficiais com pouco mais de trinta anos. De um jovem oficial - que agora sei que se chamava Salgueiro Maia - da sua maturidade em lidar com uma situação potencialmente explosiva e delicada.

     De um jovem oficial que agredido por um Brigadeiro, afecto ao regime, se manteve incólume e firme na sua dedicação á revolução.

     De um comandante de um navio e, de uma frota, que se recusou em abrir fogo sobre os camaradas revoltosos e sobre uma população indefesa, só porque saiu á rua em defesa da liberdade.

     De um soldado artilheiro de um carro de combate que preferiu fechar-se dentro do tanque e desobedecer a ordens superiores, do que disparar contra os colegas revoltosos e de um segundo-comandante, afecto ao regime, que compreendeu a situação e impediu uma carnificina.

     Situações potencialmente conflituantes que poderiam ter descambado num banho de sangue e pôr em risco uma revolução que hoje se identifica com revolta, esperança, liberdade e o entusiasmo de uma população amordaçada e frágil, como os cravos vermelhos que a simbolizam.

sábado, 20 de abril de 2024

Passado, Presente e Futuro.

        Considerando o conceito de património, enquanto classificação atribuída no presente a construções que na sua maioria foram criadas no passado e que se pretende transitem para o futuro, é de realçar a importância do conhecimento histórico, como forma de conferir valor a esses testemunhos, de os projetar para o futuro e de lhes atribuir a devida importância patrimonial.

     A indecisão pauta-se entre a opção em manter a ruína até ao seu esquecimento, ou pela recuperação desse património e nesta perspetiva salvaguardar um passado que embora corresponda a diferentes épocas e modos de viver, mas cuja salvaguarda e conhecimento é necessário para valorizar o presente que merecem ser guardados.

      Explicam igualmente o nosso presente, as memórias que definem a nossa identidade coletiva, (ou individual), e que asseguram o futuro e a continuidade herdados do passado, no qual uma comunidade reconhece sinais da sua identidade e que pretende transmitir às gerações futuras.

     Os patrimónios materiais ou mesmo memoriáveis, perdem o seu sentido para as gerações seguintes quando não são devidamente salvaguardadas e divulgadas, ou partem os conhecedores das memórias, aqueles que possuíam as lembranças e tradições que lhes estavam associadas, e não se levam a cabo as ações de identificação, estudo e divulgação com vista ao registo e à valorização desse património.

      Se não for dada a conhecer às novas gerações, a história ligada ao património legado pelos seus antepassados, através da investigação, intervenção e divulgação histórica, o seu significado perde-se e muito dificilmente lhes continuarão a ser atribuídos valores, ou a ver neles qualquer traço de identidade e valorização, assim como, inevitavelmente,  perdem o seu valor como património.

     A reconstrução daquilo que nos chegou do passado, ou apenas a consolidação do existente, como opções essenciais na preservação do património, (ainda que o estado de degradação seja elevado), para que não desapareçam por completo e deixem de fazer parte da nossa lembrança colectiva, permitirá, não só um maior conhecimento do património associado à memória, mas, também à revitalização da economia e à criação de emprego, já que o património histórico-cultural é uma atividade económica e a patrimonialização valoriza o bem conservado.

     Contudo, se o seu valor patrimonial se cingir ao estudo pelos especialistas, corre o risco de não ser devidamente valorizado pela comunidade, mas se essa importância for divulgada e dada a conhecer ao público em geral e á comunidade que lhe diz directamente respeito em particular,  o mesmo pode vir a ser entendido e consequentemente valorizado como património, como um símbolo identitário que se quer preservar e transmitir, impedindo-se que fique esquecido no passado e não se venha a transmitir para o futuro.

domingo, 17 de março de 2024

JORNAL DE GARVÃO Nº 30











EDIÇÃO COMEMORATIVA dos 50 ANOS do 25 de ABRIL de 1974

Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, registam informações, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz.

O Jornal de Garvão, que comemora este ano 30 anos da sua existência, tem procurado a participação direta dos habitantes desta terra e de uma forma geral procura estimular a escrita e a leitura e promover o diálogo e o debate.

Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberiam, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Ti´Farrapinho - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL






TI´FARRAPINHO

O Caso da Foice e do Martelo e… da Prisão.

     António Jacinto Maria, mais conhecido por Ti´Farrapinho, alfaiate de profissão, herdado do seu sogro, João da Graça, (descendente dos Borreiros de Villanueva de los Castillejos, Andaluzia, Espanha), morava numa casinha humilde da «Outra Banda», erguida ao lado da igreja da Nossa Senhora da Assunção[1], um larguinho para o qual abre a porta da casa onde viveu, uma rua estreita à esquerda, oliveiras centenárias num quintal e ali vivia o Ti´Farrapinho, entregue ao seu trabalho de alfaiate, tal como o seu sogro, cortando e cosendo a forte saragoça dos fatos encomendados.

     A destreza com a tesoura, fazendas, linhas e agulhas e dedais, não correspondia à sua habilidade de pedreiro, se nas fazendas era mestre, não se dava muito bem no trabalho de obras de alguma porta, janela ou poiais que precisasse de arranjo.

     A falta de jeito, deixava-o de mau feitio, ou por falta de habilidade, ou já quentinho de alguma pinga vinícola, deixava-o de mau humor e a obra no poial que tentava arranjar não saia muito bem, ou porque o cimento ou pedra partiam noutro lugar, ou como, talvez, o martelo pendia para o sítio errado.

     - O que é que falta aí, mestre António, gracejou um passante, perante tão desajeitado trabalho, na esperança de, senão em irritar o atormentado alfaiate, pelo menos de se armar em engraçado.

     Para o destemperado aprendiz de pedreiro era demais; não bastava já as dificuldades na obra e o poial ainda para arranjar, como agora, um a querer galhofa!

     A resposta não se fez esperar, falta a foice e o martelo, e se o martelo não seria a ferramenta apropriada para tal trabalho, uma foice também não seria com certeza e se o outro se estava armado em engraçado, talvez com umas marteladas na cabeça com o martelo, ou com a foice para lhe cortar a língua, se lhe acabasse com a graçola.

     O certo é que tanto repetiu a frase, foice e martelo, tantas vezes que foi denunciado.

     Nesse mesmo dia vieram buscá-lo para interrogações, passou vários dias na prisão a pão e água, a quererem à viva força que respondesse ao que não sabia, ou que denunciasse quem desconhecia.

     Passou mal, relatou depois à família, tirado do seu local de trabalho e da casa familiar, com roupa para talhar e família para sustentar, viu-se submetido a interrogatórios humilhantes à ordem da PIDE, só por ter mencionado uma foice e um martelo.

[1] parafraseando Joaquim da Costa em 1940

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

50 ANOS do 25 de ABRIL e 30 ANOS do JORNAL de GARVÃO

             O 25 de Abril, foi há 50 anos. Foi um dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade.

            A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.

            O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e injustas, e as permissões irrelevantes e insignificantes, dava lugar a uma nova realidade. No país onde era proibido pensar - e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença - passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem de Maio de 68.

            Já lá vão 50 anos. Assinalar o aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é, ainda, um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê.

            Para celebrar, mas, também, para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Jornal de Garvão, decidiu lançar, no ano em que celebra 30 anos, uma edição especial.

          A importância social de um jornal local, como fonte primária de informação, deve ser considerado como um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento e divulgação.            

          Assim, este Jornal tem vindo a despertar a produção, a criatividade, o senso crítico e a participação direta dos participantes, desenvolvendo variados tipos de aptidão, além de transmitir, informações vocacionadas para a divulgação de histórias do quotidiano das comunidades locais e a recolha, tratamento e divulgação de notícias, institucionais e educativas a toda a comunidade e desenvolver habilidades de leitura, estimular a escrita e a criatividade e promover o diálogo e o debate.

          Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, uma vez que registam informações de âmbito local e mesmo regional, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz e assumem um papel decisivo num mundo onde a globalização está cada vez mais instalada.

      Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

Calisto - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL











CALISTO JOAQUIM

O caso do Bandido, do Café Crocodilo e… da prisão!

     Viva o Bandido, exclamou Calisto Joaquim, de sua graça, quando entrou no Café Crocodilo e depara-se perante um discurso de Salazar na televisão que entoava em toda a sala.

     Viva o Bandido, tornou a exclamar e tudo ficou mudo e calado, conhecedores das consequências de qualquer manifestação antagónica ao regime.

     Uns calados, incrédulos perante tal inconsciência, outros espantados perante tal foiteza, e ainda  para outros, tal atrevimento iria trazer represálias.

     Era dia de pagamento da jorna e era certo que Calisto Joaquim “molharia o bico” senão em todas as tabernas, vendas e cafés da vila, pelo menos naquelas que apresentavam a agora novidade da televisão e, pelo menos enquanto os tostões tilintassem nas algibeiras.

     Bom bebedor, não deixava de beber o seu copinho em a parca economia caseira o permitir, e nem deixava por mãos alheias a sua contestação ao regime, não fosse ele afinal sobrinho de Francisco Parreira, da família dos Gusmão, preso pela PIDE, (ver página 11).

     Quentinho ou com um grão-na-asa, rumou a altas horas a casa, podia varrer a rua de lado a lado, esquivando-se a algum buraco ou barreira que lhe estorvasse o passo, a casa sabia ele onde era e no outro dia estaria pronto e fresco para mais uma jornada de trabalho.

     Conforme as lembranças de Augusto Charrua, 91 anos de idade, (já mencionado neste Jornal), (…) dias depois, estávamos nós muito bem a apanhar seixos, para o arranjo das estradas, quando vemos aproximar um carro preto vir direito a nós, hó diabo, pensamos nós, o que é que estes quererão? saem de lá uns tipos, vestidos também de preto, todos sisudos e  perguntam com voz alta, qual de vocês é que é o Calisto Joaquim?

     Sou eu, respondeu prontamente o voluntarioso e ingénuo aprendiz de opositor político e sem nada desconfiar, aproximou-se dos senhores do carro preto.

     Anda connosco, entra para dentro do carro, não se apresentaram, nem disseram os bons dias e muito menos se despediram, mas quem assistiu sentiu pelo tom autoritário da voz com que se lhes dirigiram que o Calisto estava em maus lençóis. De Beja levaram-no para o Aljube e do Aljube para Caxias e de Caxias sabe-se lá para aonde, o certo é que de cada vez que o mudavam, mais interrogatórios se sucediam e mais torturas sofria no seu já massacrado corpo. 

     Foi amassado, mas bem amassado, segundo relatou aos colegas, depois de vários dias preso, podiam-no ter judiado, berrado e humilhado, mas de nada valeu, pois Calisto Joaquim não sabia de nada, não sabia cá de células da oposição comunista, prospetos revolucionários ou reuniões secretas, (se calhar até sabia!), só sentia na pele a carestia da vida e as agruras de uma vida de trabalho de Sol a Sol, sem horas para entrar ou horas para sair, ainda o Sol não tinha nascido e já estava a trabalhar e a trabalhar continuava já o Sol se tinha posto, até ser dada ordem para pararem.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...