quarta-feira, 1 de maio de 2024

Menina dos olhos tristes

A menina dos olhos tristes que chorava porque «o soldadinho não volta do outro lado do mar» era a imagem perfeita da nossa própria angústia naquele universo de jovens que víamos partirem todos os dias para a guerra e não regressarem, num destino que sabíamos poder em breve vir também a ser o nosso.

Música: Zeca Afonso

Letra: Reinaldo Ferreira

Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar

O soldadinho não volta 

Do outro lado do mar


Senhora de olhos cansados

porque a fatiga o tear

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


Vamos senhor pensativo

olhe o cachimbo a apagar

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


Anda bem triste um amigo

uma carta o fez chorar

o soldadinho não volta

do outro lado do mar


 A lua que é viajante

é que nos pode informar

o soldadinho já volta

Do outro lado do mar


O soldadinho já volta

está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho

desta vez o soldadinho

nunca mais se faz ao mar

quinta-feira, 25 de abril de 2024

COMEMORAÇÕES Dos 50 ANOS do 25 DE ABRIL de 1974

Na primeira pessoa

Há 50 anos no Largo do Carmo











Jornal Républica de 26 de Abril de 1974.
Assinalado, em circulo branco, o Editor do Jornal de Garvão.











Capacete de Ferro.
Do assalto à sede ou delegação da Legião Portuguesa, no Bairro Alto, em Lisboa, pelo Editor do Jornal de Garvão e outros populares.

       A manhã tinha acordado fresquinha. Na rádio ouvia-se o hino nacional e, o programa das forças armadas.

     17 aninhos. Paquete (moço de recados), em Lisboa, na empresa Nova Idade que publicava: O Volante e O Musicalíssimo.

     Mário Ventura Henriques, (preso em Caxias e solto pelo 25 de Abril), José Vaz Pereira, Bernardo Brito e Cunha (BBC), entre outros, eram os “colegas”.

     Também por lá passaram, Zeca Afonso, José Saramago e Lino de Carvalho, (igualmente preso no forte de Caxias e libertado pelo 25 de Abril), no projeto de um novo jornal.

     Dias antes, na sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, a entregar ou receber documentos.

     Dias depois, numa quinta-feira, a 25 de Abril, na rua da PIDE, as balas zumbiam no ar e assistia ao assassino de cidadãos.

     No quartel do Largo do Carmo, um militar manda afastar os populares e ouve-se as rajadas e as paredes metralhadas.

    Saiu um carro preto. Sai uma autometralhadora. Rende-se Marcelo Caetano aos militares revoltosos.

     Nos dias seguintes era a festa da liberdade, das manifestações espontâneas, o grito amordaçado, durante tantos anos, que se soltava. O país assistiu a uma exaltação popular, como nunca antes tinha vivido, só quem assistiu e viveu estes dias a poderá ter, como o dia mais marcante da sua vida, fora do seu círculo familiar.

     Desse dia ficou a lembrança, uma foto no jornal República (do dia 26) e um capacete de ferro do assalto à sede ou a alguma delegação da Legião Portuguesa no Bairro Alto.

      Hoje passados tantos anos, admiro a coragem e a maturidade destes jovens oficiais com pouco mais de trinta anos. De um jovem oficial - que agora sei que se chamava Salgueiro Maia - da sua maturidade em lidar com uma situação potencialmente explosiva e delicada.

     De um jovem oficial que agredido por um Brigadeiro, afecto ao regime, se manteve incólume e firme na sua dedicação á revolução.

     De um comandante de um navio e, de uma frota, que se recusou em abrir fogo sobre os camaradas revoltosos e sobre uma população indefesa, só porque saiu á rua em defesa da liberdade.

     De um soldado artilheiro de um carro de combate que preferiu fechar-se dentro do tanque e desobedecer a ordens superiores, do que disparar contra os colegas revoltosos e de um segundo-comandante, afecto ao regime, que compreendeu a situação e impediu uma carnificina.

     Situações potencialmente conflituantes que poderiam ter descambado num banho de sangue e pôr em risco uma revolução que hoje se identifica com revolta, esperança, liberdade e o entusiasmo de uma população amordaçada e frágil, como os cravos vermelhos que a simbolizam.

sábado, 20 de abril de 2024

Passado, Presente e Futuro.

        Considerando o conceito de património, enquanto classificação atribuída no presente a construções que na sua maioria foram criadas no passado e que se pretende transitem para o futuro, é de realçar a importância do conhecimento histórico, como forma de conferir valor a esses testemunhos, de os projetar para o futuro e de lhes atribuir a devida importância patrimonial.

     A indecisão pauta-se entre a opção em manter a ruína até ao seu esquecimento, ou pela recuperação desse património e nesta perspetiva salvaguardar um passado que embora corresponda a diferentes épocas e modos de viver, mas cuja salvaguarda e conhecimento é necessário para valorizar o presente que merecem ser guardados.

      Explicam igualmente o nosso presente, as memórias que definem a nossa identidade coletiva, (ou individual), e que asseguram o futuro e a continuidade herdados do passado, no qual uma comunidade reconhece sinais da sua identidade e que pretende transmitir às gerações futuras.

     Os patrimónios materiais ou mesmo memoriáveis, perdem o seu sentido para as gerações seguintes quando não são devidamente salvaguardadas e divulgadas, ou partem os conhecedores das memórias, aqueles que possuíam as lembranças e tradições que lhes estavam associadas, e não se levam a cabo as ações de identificação, estudo e divulgação com vista ao registo e à valorização desse património.

      Se não for dada a conhecer às novas gerações, a história ligada ao património legado pelos seus antepassados, através da investigação, intervenção e divulgação histórica, o seu significado perde-se e muito dificilmente lhes continuarão a ser atribuídos valores, ou a ver neles qualquer traço de identidade e valorização, assim como, inevitavelmente,  perdem o seu valor como património.

     A reconstrução daquilo que nos chegou do passado, ou apenas a consolidação do existente, como opções essenciais na preservação do património, (ainda que o estado de degradação seja elevado), para que não desapareçam por completo e deixem de fazer parte da nossa lembrança colectiva, permitirá, não só um maior conhecimento do património associado à memória, mas, também à revitalização da economia e à criação de emprego, já que o património histórico-cultural é uma atividade económica e a patrimonialização valoriza o bem conservado.

     Contudo, se o seu valor patrimonial se cingir ao estudo pelos especialistas, corre o risco de não ser devidamente valorizado pela comunidade, mas se essa importância for divulgada e dada a conhecer ao público em geral e á comunidade que lhe diz directamente respeito em particular,  o mesmo pode vir a ser entendido e consequentemente valorizado como património, como um símbolo identitário que se quer preservar e transmitir, impedindo-se que fique esquecido no passado e não se venha a transmitir para o futuro.

domingo, 17 de março de 2024

JORNAL DE GARVÃO Nº 30











EDIÇÃO COMEMORATIVA dos 50 ANOS do 25 de ABRIL de 1974

Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, registam informações, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz.

O Jornal de Garvão, que comemora este ano 30 anos da sua existência, tem procurado a participação direta dos habitantes desta terra e de uma forma geral procura estimular a escrita e a leitura e promover o diálogo e o debate.

Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberiam, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Ti´Farrapinho - COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL






TI´FARRAPINHO

O Caso da Foice e do Martelo e… da Prisão.

     António Jacinto Maria, mais conhecido por Ti´Farrapinho, alfaiate de profissão, herdado do seu sogro, João da Graça, (descendente dos Borreiros de Villanueva de los Castillejos, Andaluzia, Espanha), morava numa casinha humilde da «Outra Banda», erguida ao lado da igreja da Nossa Senhora da Assunção[1], um larguinho para o qual abre a porta da casa onde viveu, uma rua estreita à esquerda, oliveiras centenárias num quintal e ali vivia o Ti´Farrapinho, entregue ao seu trabalho de alfaiate, tal como o seu sogro, cortando e cosendo a forte saragoça dos fatos encomendados.

     A destreza com a tesoura, fazendas, linhas e agulhas e dedais, não correspondia à sua habilidade de pedreiro, se nas fazendas era mestre, não se dava muito bem no trabalho de obras de alguma porta, janela ou poiais que precisasse de arranjo.

     A falta de jeito, deixava-o de mau feitio, ou por falta de habilidade, ou já quentinho de alguma pinga vinícola, deixava-o de mau humor e a obra no poial que tentava arranjar não saia muito bem, ou porque o cimento ou pedra partiam noutro lugar, ou como, talvez, o martelo pendia para o sítio errado.

     - O que é que falta aí, mestre António, gracejou um passante, perante tão desajeitado trabalho, na esperança de, senão em irritar o atormentado alfaiate, pelo menos de se armar em engraçado.

     Para o destemperado aprendiz de pedreiro era demais; não bastava já as dificuldades na obra e o poial ainda para arranjar, como agora, um a querer galhofa!

     A resposta não se fez esperar, falta a foice e o martelo, e se o martelo não seria a ferramenta apropriada para tal trabalho, uma foice também não seria com certeza e se o outro se estava armado em engraçado, talvez com umas marteladas na cabeça com o martelo, ou com a foice para lhe cortar a língua, se lhe acabasse com a graçola.

     O certo é que tanto repetiu a frase, foice e martelo, tantas vezes que foi denunciado.

     Nesse mesmo dia vieram buscá-lo para interrogações, passou vários dias na prisão a pão e água, a quererem à viva força que respondesse ao que não sabia, ou que denunciasse quem desconhecia.

     Passou mal, relatou depois à família, tirado do seu local de trabalho e da casa familiar, com roupa para talhar e família para sustentar, viu-se submetido a interrogatórios humilhantes à ordem da PIDE, só por ter mencionado uma foice e um martelo.

[1] parafraseando Joaquim da Costa em 1940

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

50 ANOS do 25 de ABRIL e 30 ANOS do JORNAL de GARVÃO

             O 25 de Abril, foi há 50 anos. Foi um dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade.

            A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar.

            O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e injustas, e as permissões irrelevantes e insignificantes, dava lugar a uma nova realidade. No país onde era proibido pensar - e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença - passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem de Maio de 68.

            Já lá vão 50 anos. Assinalar o aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é, ainda, um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê.

            Para celebrar, mas, também, para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Jornal de Garvão, decidiu lançar, no ano em que celebra 30 anos, uma edição especial.

          A importância social de um jornal local, como fonte primária de informação, deve ser considerado como um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento e divulgação.            

          Assim, este Jornal tem vindo a despertar a produção, a criatividade, o senso crítico e a participação direta dos participantes, desenvolvendo variados tipos de aptidão, além de transmitir, informações vocacionadas para a divulgação de histórias do quotidiano das comunidades locais e a recolha, tratamento e divulgação de notícias, institucionais e educativas a toda a comunidade e desenvolver habilidades de leitura, estimular a escrita e a criatividade e promover o diálogo e o debate.

          Os jornais locais têm um papel muito importante na preservação das memórias locais, são um guardião das histórias, tradições e identidades, uma vez que registam informações de âmbito local e mesmo regional, de uma forma que nenhum outro meio de comunicação o faz e assumem um papel decisivo num mundo onde a globalização está cada vez mais instalada.

      Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que paulatinamente vão desaparecendo.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...