sábado, 25 de setembro de 2010

TAÇA EPIGRAFADA DO DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO

 

A IMPORTÂNCIA DE UM GRAFITO, NA BASE DE UMA CERÂMICA, DESCOBERTO NO DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO 

Entendia-se que a primeira forma de escrita na Península Ibérica, introduzida pelos Fenícios e adaptada às línguas locais (ou nas próprias línguas destes navegadores do Levante Mediterrâneo), estaria em uso entre os séculos VII e V a.C., segundo as inúmeras estelas epigrafas encontradas e o contexto em que estavam inseridas, considerando-se extinta a partir dessa data.

Contudo a descoberta destas inscrições na base de uma taça no Depósito Votivo de Garvão do século II a.C., coloca Garvão e Alcácer do Sal, (pelas moedas encontradas), os locais onde mais tardiamente se manifesta a utilização e o conhecimento desta escrita, para muito além do que era vulgarmente entendido. 

"Em Garvão identificou-se um grafito (Alarcão e Santos 1996, 272 nº 32), de leitura discutida (Correa 1996a), sobre a base de um vaso do depósito votivo. Independentemente da sua leitura o seu achado é muito importante pela sua cronologia e a sua paleografia significativa pela sua proximidade à da amoedação de Alcácer do Sal (cf. Correia 2004b)." 

"O grafito de Garvão documenta a extensão do uso da escrita do Sudoeste, mesmo já fora do seu uso mais tradicional da epigrafia funerária, até meados do séc. II a.C. (Beirão et alii 1985, Correia 1996b); é essa data do fecho do depósito votivo e o grafito foi feito numa das peças de tipologia mais comum nesse depósito, sendo por isso natural pensar que não era uma peça muito antiga quando foi ocultada.

Esta datação permite afirmar que o grafito de Garvão é genericamente contemporâneo da legenda indígena da amoedação de Alcácer do Sal, sendo portanto necessário abandonar o mais forte argumento quanto à não pertença dessa amoedação ao signário do Sudoeste, que era precisamente a questão das datas conhecidas de utilização de um e de outro (Correia 2004c).

Retirado este Argumento (contra Faria 1991), não há razão para se não valorizarem alguns indícios paleográficos presentes numa e noutra inscrição, que abonariam a favor da pertença de ambos ao mesmo corpus epigráfico, o do Sudoeste."

In: A ESCRITA DO SUDOESTE: UMA VISÃO RETROSPECTIVA E PROSPECTIVA, Virgílio Hipólito Correia


 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Estela do Arzil Epigrafada em Caracteres do Sudoeste

  


 


A estela do Arzil, com inscrições da denominada escrita do Sudoeste, de influência Fenícia e de outros povos Semitas do Mediterrâneo Oriental, provém de uma necrópole situada a cerca de 200 m do Monte do mesmo nome, a pouca distância da ribeira de Garvão, relatando-se, possivelmente, com o habitat da Idade do Ferro localizado na proximidade.

 



Situa-se numa pequena elevação de vertentes suaves, onde predominam os terrenos xistosos, aflorando à superfície os denominados “chapéus de ferro” que foram, muito possivelmente, durante a Idade do Ferro, alvo de exploração mineira por povos do Mediterrâneo oriental, cujos vestígios foram detectados.

 



Leitura segundo Rodriguez Ramos (J.21.1):
uarpánté[/]arenaRkénii
uarpóiirsaruneeapárenaRkénii
[Mu] Vartoiir Saruneea mare nargenii

 



As referências à existência de uma mina nas proximidades, e alguns vestígios de exploração mineira no local, têm sido os argumentos usados para conectar o sítio com uma actividade extractiva de minério. Os solos do seu território envolvente incluem-se nas Classes C e D, o que, aliado à proximidade de cursos de água, faz pensar numa área de razoáveis capacidades agrícolas, permitindo uma agricultura de subsistência.

 



Sobre os mecanismos de relacionamento e coesão social, religiosa e económica destes habitats, ver o artigo sobre o Castelo de Garvão, como “Lugar central” e a sua supremacia nestes grupos mais ou menos dispersos.

 



In: ARRUDA, ANA MARGARIDA, A Idade do Ferro pós-orientalizante no Baixo Alentejo, REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 4.número 2.2001


 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

ESTELA EPIGRAFADA ROMANA

 

ESTELA EPIGRAFADA ROMANA DOS FRANCISCOS

"A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila. Administrativamente pertence ao concelho de Ourique e ao distrito de Beja. O monumento funerário agora dado a conhecer foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e de onde provêm outros materiais do período romano."

"Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam ali a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada, identificando-se na altura restos de estruturas habitacionais e materiais romanos que abrangem um período situado entre os séculos I e III d.C."

"A leitura desta epígrafe, com luz rasante, permitindo-nos executar o decalque cuja redução apresentamos na fig. 2 sempre preferível a um desenho, é a seguinte:"


LADRONV[S] / DOVAI • BRA[CA]RVS • CASTEL[LO] / DVRBEDE • [H]IC / SITUS • ES[T] • AN[N]ORV[M]  XXX (triginta?) / [S(it)] • [T(ibi)] • T(erra) • L(evis) •


"A sua tradução parece não oferecer grandes problemas propondo-se:"

Aqui jaz Ladronus (filho de) Dovaios, Bracarus do Castello Durbed, de trinta anos de idade. Que a terra seja leve.

"A estela dos Franciscos é, pois, um importante monumento, atribuível ao séc. II ou aos inícios do século III d.C., cuja forma e realização se integra, como vimos, no tipo de lápides encontradas no Sudoeste Alentejano (concelhos de Aljustrel, Ourique e Almodôvar) (Encarnação, 1978), embora o seu conteúdo mantenha estreitas ligações com a epigrafia do Noroeste, sobretudo no plano onomástico, para o qual encontrámos paralelos maioritariamente no Conventus Bracarensis (Fig.1)."

"Ainda recentemente também M. Manuela A. Dias (1979), num bem fundamentado trabalho, reconheceu a origem norte-peninsular de muitos antropónimos registados em estelas do Conventus Pacensis, encontrando uma possível explicação na emigração com vista aos trabalhos de mineração. Estes movimentos migratórios que fazem instalar populações do norte da península no Sul e Sudoeste Ibérico, ocupadas tanto na agricultura como na mineração, mostram, em última análise e de modo claro, as diferentes dinâmicas da ocupação territorial da Península, revelando-nos afinal a mesma fraca densidade populacional que ainda hoje conhecemos nas terras do sul, mais avessas à instalação das comunidades humanas."

in: GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984) Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, "Conimbriga", 23, p. 43-54. ...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

AINDA A QUESTÃO DA DEGRADAÇÃO DO NOSSO PATRIMÓNIO

    



Mapa Cadastral

designando local do

Cemitério Antigo

pelas letras "St"


Fotografía área do local

do Cemitério antigo,

notando-se a parede

virada a poente (ainda)


 O QUE NÃO SE CUIDA ESTRAGA-SE

Depois do Brasão dos Antigos Paços do Concelho ter sido caiado por cima, como se não existisse. 

Depois das pinturas da Igreja do Sagrado Espírito Santo, incrustadas na parede do Cemitério Velho terem sido, também, caidas por cima, como se, também, não existissem. 

Depois do desaparecimento dos livros do extinto concelho de Garvão, da Misericórdia e da Paroquia de Garvão das instalações da Junta de Freguesia. 

Depois dos últimos vestígios do Castelo estarem a ser destruídos por cabras. 

Depois da destruição dos últimos vestígios Romanos dos franciscos. 

Depois de tudo isto e muito mais. 

O que é que faltará mais? 


Falta naturalmente um plano de desenvolvimento da vila, uma ideia sobre a melhor maneira de melhorar a vila, para evitar que o pouco que ainda resta não caia no esquecimento e seja destruído como o Cemitério Antigo que se encontra entre o  furadouro e o moinho, e até o próprio moinho deveria merecer uma recuperação.

O conhecimento deste Cemitério chega-nos através da tradição oral da população mais idosa da Vila de Garvão, consubstanciado pelo registo cadastral nacional da área, alguns vestígios no terreno e pelo o acesso que se fazia pelo "Furadouro" por um caminho próprio ainda hoje visível no terreno.

Tendo em consideração que no Cemitério Velho, a cerca de cem metros, no outro lado do "Furadouro", encontram-se sepultados defuntos de familiares ainda vivos desta terra, tendo, também, em consideração as Estelas Funerárias encontradas no exterior do Cemitério velho, que provam a utilização, nos séculos anteriores, deste espaço como lugar de enterramento continuado, coloca-se a questão de saber qual a época em que este Cemitério Antigo teria servido a população de Garvão, tendo em consideração que ainda se nota no terreno o respectivo caminho de acesso e a memória da sua existência na população mais idosa. 


 

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SUL e SUESTE - 70 Anos Depois

  

SUL E SUESTE

 Já lá vão setenta anos.


Foi em 1940 que Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicou através das oficinas da Gazeta do sul no Montijo, o livro “SUL e SUESTE- Prosas de Além-Tejo”.

Joaquim da Costa era, como já se disse, natural de Garvão, cuja família tinha casas na Rua Direita e era proprietária de propriedades como a Monchica e os Cachorros, era familiar de José Júlio da Costa, que matou o presidente da republica, Sidónio Pais em 14 de Dezembro de 1918 e de Celestino da Costa, primeiro presidente da Junta de Freguesia de Garvão depois da revolução de 25 de Abril de 1974.

Este livro que apesar de tratar essencialmente de lugares e famílias de Garvão passa despercebido hoje em dia com um total desconhecimento sobre este nosso conterrâneo e a sua obra, contudo trata-se de uma série de crónicas, que nos brindou, relativas a esta parte do Alentejo em geral e a Garvão em particular, nos vários contos e novelas deste livro, fruto da sua infância e da sua memória.

Na novela a “Luíza” fala-nos sobre um amor impossível entre a filha de um rico lavrador e um dos criados que acabou com a morte do criado e o suicídio do lavrador. Fala-nos das Festas do São Barão, da Sr.ª da Cola, do Marguilha de Garvão e do seu cachimbo, da ponte do Carrascal, do lavrador José Francisco, sem contudo precisar a herdade, fala-nos do almocreve António Braga e do seu pai José Braga, Sebastiano de São Martinho entre outras referências a lugares e pessoas da região.

Na novela “João Teles”, menciona a moleja, menina de cinco olhos, jogo do botão e “molha a orelha”, menciona o ano da pneumónica, o pego do Azulão e a ponte do caminho de ferro.

Na crónica sobre o poeta “João da Graça” Joaquim da Costa fala-nos do avô, lavrador abastado da Monchica e dos Cachorros. João da Graça seria alfaiate e pai do Ti’Farrapinho, ultimo alfaiate de Garvão, cuja bisneta ainda reside em Garvão, menciona, também, a ponte velha de Garvão, da Igreja Nossa Sr.ª da Assumpção, da hospedaria do Manuel Rosa, do Caetano Rosa, da Rua Direita e das meninas Rosas.

A “ A Velha o Chibo e o Lobo” é uma crónica passada na Pézinha, e m enciona o Monte Major, o Cezar e o Serafim de Carvalho de Garvão e a Marianita.

Noutros contos fala-nos sobre a avó, Maria Tereza de Jesus lavradora da Monchica e dos Cachorros, fala-nos, também da Miquelina, do Francisco alhinho da Natividade, da Maria Barbara, do Serro dos Besteiros e da gruta do lobo.

Trata-se, sem dúvida, de uma obra escrita com grande sensibilidade e conhecimento cuja redacção a papel não só nos permitiu tomar contacto com outros tempos e realidades que nos precederam e nos deram vida como nos transmitiu conhecimentos e informações sobre famílias lugares e costumes de há setenta anos atrás.

Era livro obrigatório de leitura, nas casa dos lavradores da região, era guardado religiosamente. Ainda nos anos setenta do século XX havia lavradores, que embrulhado em pano, o conservavam na arca juntamente com outros pertences mais valiosos. Devia ter sido livro de leitura nas longas noites de Inverno, entre outras histórias, contadas de geração em geração para delicia de miúdos e graúdos nos serões em volta da fogueira debaixo do chupão.

Uma segunda edição desta publicação promovida pelos autarcas locais não só iria homenagear este nosso conterrâneo como iria dignificar a vila de Garvão e um contributo para a sua valorização, porque como diz o ditado "um povo sem memória é um povo sem futuro".


 


 

terça-feira, 6 de abril de 2010

DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO

DÁ ORIGEM À CRIAÇÃO DO CENTRO DE ARQUEOLOGIA CAETANO DE MELLO BEIRÃO (CACMB)


Uma parceria entre a Universidade de Évora, a Câmara Municipal de Ourique e a  Direcção Regional de Cultura do Alentejo, criando assim: “uma estrutura municipal, única a nível regional, cuja primeira acção foi a reivindicação do espólio para a sua região de origem cons-tituindo assim um motivo de interesse para visitantes e factor de desenvolvimento para o Concelho.”

Entrevista a:

José António Paulo Mirão

Professor Auxiliar da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, Doutorado em Geologia, membro do Departamento de Geociências e do Centro de Geofísica de Évora e Director do Laboratório de Microscopia e Microanálise do Centro HERCULES – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda

António José Estêvão Grande Candeias

Professor Auxiliar da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, Doutorado em Química, membro do Departamento de Química e do Centro de Química de Évora, membro colaborador do Centro de Geofísica de Évora e Director do Centro HERCULES – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda


•           O que é o depósito votivo de Garvão?

À área de Garvão parece ter tido uma intensa ocupação, pelo menos, desde a idade do Bronze. Durante um determinado período, provavelmente na idade do Ferro, nas proximidades da povoação de Garvão terá existido uma estrutura religiosa. O Culto incluía oferendas, estas acumularam-se até ao momento em que foram depositadas.

Em 1982, após a sua descoberta acidental durante a instalação de infra-estruturas sociais, realizaou-se uma campanha de trabalhos arqueológicos, dirigidos por Caetano de Mello Beirão, na altura Director do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul. Esta escavação deu a conhecer o Depósito Votivo da II Idade do Ferro, na encosta do Cerro do Castelo, em Garvão, que suscitou o interesse e o entusiasmo da comunidade científica face à dimensão e qualidade do espólio que encerrava, constituído por cerâmicas, metais e alguns vidros, intencionalmente depositados e cuidadosamente organizados de modo a optimizar o espaço disponível. Na área foi escavada uma cavidade para armazenar as oferendas não desejadas. É elíptica, com cerca de 10 por 5 metros e uma profundidade de aproximadamente de 0,80 m, concluída na segunda metade do século III a. C.

Com excepção de alguns exemplares seleccionados e restaurados que integraram o acervo do Museu Nacional de Arqueologia, este conjunto de materiais ficou armazenado, desde o final dos anos 80, primeiro em Évora, depois em Conímbriga, a aguardar a oportunidade para ser tratado, estudado e apresentado ao público.


Questões para a entrevista:

1.         Como é que a Universidade de Évora tomou conhecimento do depósito votivo de Garvão? Porquê o interesse da UÉ em investir neste projecto?

A Universidade de Évora colabora há mais de 6 anos com a Direcção Regional da Cultura do Alentejo em diversos projectos que visam o estudo material, a valorização e conservação do Património da região. 

Conscientes do carácter excepcional dos materiais arqueológicos do depósito votivo de Garvão (uma das grandes descobertas da arqueologia portuguesa), a Universidade de Évora colaborou com a Câmara Municipal de Ourique e a  DRCALEN na recente criação do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão (CACMB), uma estrutura municipal, única a nível regional, cuja primeira acção foi a reivindicação do espólio para a sua região de origem constituindo assim um motivo de interesse para visitantes e factor de desenvolvimento para o Concelho.

Simultaneamente, foi obtido junto da Fundação para a Ciência e Tecnologia os fundos necessários (projecto GODESS) para o estudo material e investigação arqueológica do espólio e da zona envolvente do depósito.

Obviamente, a Universidade de Évora apesar do seu cariz universalista tem sempre todo o interesse em contribuir e desenvolver projectos na região onde se insere. Diríamos mesmo, é um dos seus principais objectivos.

2.         Porquê a UÉ e não outra instituição?

A resposta a esta pergunta pedia que respondêssemos por outras instituições, situação para a qual não estamos capacitados. Podemos, no entanto sublinhar que a Universidade de Évora é uma Instituição de Ensino Superior de referência na Região e tem-se empenhado firmemente e criado as infra-estruturas necessárias para este tipo de estudos. Neste âmbito, foi recentemente criado o Centro Hercules  – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda  cujo principal objectivo é o estudo material e salvaguarda de património arqueológico e artístico. Queríamos ainda salientar que, o projecto de investigação GODESS compreende diversos parceiros designadamente o Centro de Arqueologia das Universidades de Coimbra e Porto, o Instituto Politécnico de Tomar e a DRCALEN que contribuem com o seu conhecimento científico e técnico constituindo assim uma equipa multidisciplinar

3.         Em que contexto histórico se enquadra o espólio de Garvão?

Na Ibéria, a Idade de Ferro é um período de sucessivas transformações sociais e políticas, algumas resultando em conflitos. Estas transfigurações começam com as primeiras invasões (ou migrações) celtas, que impõem uma forte influência continental em toda a ibéria, contra sociedades inspiradas por modelos orientais, como o Reino de Tartessos. O movimento desses povos para Sul é constante ao longo de todo o período. Entretanto, as civilizações semitas exercem forte controlo no sul da Península Ibérica, pela presença de cidades autónomas com fortes ligações comerciais e culturais com o Mediterrâneo. Este quadro geopolítico geral é destruído em 218 a.C. pelos romanos ao desembarcarem na península, no contexto da segunda guerra cartaginesa.

Durante a 2ª Idade do Ferro, o território no sul da Península Ibérica parece ser controlado por cidades centrais com grande número de habitantes que dominam um grande território, com importantes recursos naturais. Estes povoados são também importantes centros manufactores e, por vezes, os centros políticos e religiosos são indistintos. A longa distância, as influências culturais parecem ser controladas pelos níveis sociais mais elevados da população.

Neste contexto geral, em torno de 200 a.C., Garvão está em território Cónio que corresponde ao sudoeste de Portugal i.e. ao Baixo Alentejo e ao barlavento algarvio. Apesar de algumas incertezas, parece que esta região é marcada por forte influência cultural tártissica, mas os habitantes são etnicamente celtas. De facto, o território Cónio parece funcionar como uma zona de integração entre a área Celta (étnica e cultural) que está localizada a norte e a Turdetana localizada a leste.

4.         Na sua opinião, qual a importância destas peças para o período histórico em causa? E para a freguesia de Garvão?

O estudo das cerâmicas do depósito votivo de Garvão irá permitir conhecer as tecnologias e a proveniência dos materiais. Espera-se que este conhecimento seja um contributo para entender o papel destes centros religiosos nas sociedades do Sul de Portugal, as relações comerciais e culturais que mantinham com os seus vizinhos e a capacidade tecnológica que dispunham.

As conclusões dos estudos que empreendemos irão valorizar as descobertas já efectuadas e irão aumentar o interesse no sítio arqueológico de Garvão, possibilitando  às autoridades locais e regionais o empreendimento de acções que valorizem o sítio para visitantes.

5.         De que forma a UÉ vai explorar o depósito?

O estudo que pretendemos efectuar não é um estudo tradicional de arqueologia. De facto, as únicas escavações que estão previstas são pequenas sondagens. O trabalho irá compreender a identificação, selecção e seriação arqueológica das peças, o estudo material das peças com técnicas analíticas  de ponta, a aplicação de técnicas piloto de prospecção geofísica e o desenvolvimento de metodologias de conservação e restauro adequadas.

6.         Quantas pessoas e com que tipo de especializações vão estar a cargo deste processo?

Bem, a equipa de investigação é muito longa. Sublinhamos apenas que é uma equipa multidisciplinar composta por geólogos, químicos, geofísicos, arqueólogos e conservadores-restauradores  e que irá envolver igualmente jovens investigadores que pretendem adquirir os graus académicos de Mestrado e Doutoramento. Tal como mencionámos anteriormente, trata-se de um projecto que para além da Universidade de Évora e dos seus centros e estruturas de Investigação (Centro de Geofísica de Évora, Centro de Química de Évora e Centro HERCULES), participam também a Universidade de Coimbra, a Direcção Regional de Cultura do Alentejo e o Politécnico de Tomar.

7.         A nível cientifico, que técnicas vão ser utilizadas?

Iremos fazer algumas sondagens arqueológicas em zonas identificadas pelos estudos de prospecção geofísica com geo-radar que irão ser desenvolvidos, mas a maioria do trabalho irá ser realizado usando técnicas de microanálise e análise estrutural como microscopia óptica, microscopia electrónica de varrimento, microscopia Raman e difracção de raios X e técnicas analíticas de alta resolução como cromatografia líquida com espectrometria de massa, cromatografia gasosa com espectrometria de massa e PIXE.

8.         Estão a trabalhar sobre algumas peças específicas ou sobre o depósito em geral?

Em princípio os estudos irão incidir apenas nas peças recolhidas pela escavação liderada pelo Dr. Caetano Beirão, nos anos 80. No entanto, com o decorrer do trabalho poderá haver necessidade em estudar peças recolhidas recentemente, designadamente para efeitos de datação por termoluminescência.

9.         Existem mais projectos da UÉ em parceria com a Câmara Municipal de Ourique para apoiar o espólio de Garvão?

A recente criação do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão (CACMB) e o regresso dos materiais arqueológicos do Depósito Votivo de Garvão nele integrados corresponderam, pois, ao culminar de um processo de reivindicação liderado pelo Município de Ourique. O primeiro objectivo estabelecido para o CACMB é o estudo e a valorização do património arqueológico, com prioridade, naturalmente, para o espólio do Depósito Votivo de Garvão. Complementarmente, no entanto, esta estrutura municipal, única a nível regional e que conta com a direcção técnica da Drª. Deolinda Tavares da Direcção Regional da Cultura irá desenvolver  um programa de actividades que pode sinteticamente definir-se como a promoção dos saberes e tecnologias tradicionais, abordados segundo actuais metodologias de pesquisa e numa estratégia de aproximação dos públicos à cultura e ao conhecimento científico. Para a consecução dos seus objectivos, o CACMB tem promovido diversos projectos de divulgação e formação de onde se destaca o projecto CSI Ourique – Cultura, Sustentabilidade e Inovação em Ourique, um programa de divulgação e de formação que contempla a criação de núcleos expositivos (em Gravão e Ourique) e acções de formação e divulgação, numa perspectiva de interacção com as escolas e com o tecido social em que se insere, e que foi recentemente candidatado ao QREN-POA.

10.       Na sua opinião, e enquanto “explorador” das peças do depósito, acha que estas deviam voltar a Garvão, expostas num local apropriado? Quais seriam as vantagens?

Pensamos que mais importante do que as peças voltarem para Garvão seria a dinamização do espaço e da sua envolvente do Cerro do Castelo, designadamente com a criação de uma estrutura de acolhimento a visitantes junto ao local da escavação com um centro interpretativo recorrendo a elementos expositivos e tecnologias de multimédia. 

Por outro lado, esperamos que os estudos que se irão desenvolver no âmbito do projecto GODESS, possam revelar novas estruturas construtivas contribuindo para um melhor conhecimento do sítio e constituindo um novo factor de interesse e desenvolvimento em Garvão.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

GARVÃO ERAS UM JARDIM

Garvão eras um jardim

Em tempos que já lá vão

O gado dava o dinheiro

E a moagem dava o pão


O gado deixou de dar

E a moagem levou fim

E em tempos que já lá vão

Garvão eras um jardim


Porque será que os nossos conterrâneos passados tiveram a necessidade de fazer/cantar esta moda?

Teria Garvão em alguma altura da sua história recente parecido um jardim? Obviamente jardim está aqui no sentido metafórico, na medida em que implica um período de algum bem-estar.

Reporta claramente para um período em que a população de Garvão se sentia bem, talvez um período de trabalho e que pela altura da moda, não só já não se sentia bem, como sentia, inclusivamente, saudades desse período.

De facto se olharmos bem para as décadas de cinquenta e sessenta do século passado, constatamos que para além do trabalho agrícola e do gado que, como canta a moda,  deveria de prover, na altura, com rendimentos aceitáveis, e proporciona trabalho, não só temporário nas mondas, ceifas, debulha, apanha da azeitona e outros produtos, assim como trabalho permanente em cuidadores de gado, vaqueiros, porcariços, pastores etc, existia, também,  na vila unidades fabris que garantiam trabalho anual para uma boa parte da população.

Por essa altura havia a alta e a baixa moagem da Estação de Garvão, pelo menos duas fabricas de cortiça, o lagar no Largo da Amoreira (nessa altura chamado do Lagar), o lagar na moagem da estação, a fábrica dos pirolitos e adegas de vinho, estas unidades fabris davam emprego a várias centenas de pessoas que naturalmente permitiam a manutenção do comércio local e das lojas como a do Sr Sabino, a do Sr Pina, a do Sr José Cunha, a do Sr Joaquim Martins entre outras.

A questão a saber é se, tendo em consideração uma certa pujança fabril em Garvão num passado relativamente recente, se numa realidade completamente diferente, como a actual, será possível implementar mecanismos de desenvolvimento local, sejam eles de iniciativa privada ou colectiva, Associações e órgãos autárquicos.


 

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...