domingo, 25 de setembro de 2016

INFELIZMENTE

INFELIZMENTE ...!


Já lá vão 22 anos que o Jornal de Garvão denunciava nesse seu primeiro número a degradação e a falta de protecção do Património de Garvão, mas principalmente a falta de sensibilidade dos eleitos locais para, de facto, a sua recuperação e rentabilização em termos de locais visitáveis e criação de postos de emprego.
Mas sejamos realistas, a história, a arqueologia e o património em geral não resolvem todos os problemas da vila, mas poderão, à sua maneira, contribuir para colmatar certas mazelas que afligem estas comunidades de fraca ou nenhuma visibilidade.
A criação de um, dois, ou três postos de trabalho irá, sem dúvida, contribuir para um crescimento sustentado da vila de Garvão.
É preciso é uma ideia, um sentido, um projecto de desenvolvimento local e, … não há.
O que se assiste é o aproveitamento mediático pelos responsáveis políticos locais dum património que devia de estar num museu local para o desenvolvimento da própria vila, como o caso das cerâmicas do Deposito Votivo de Garvão, e está na cave do Cineteatro em Ourique.
Não se assiste á dinamização desse espólio para a criação de postos de trabalho na vila de Garvão.
Não se assiste a uma continuação da pesquisa arqueológica nesse mesmo Depósito Votivo.
Pelo contrário assiste-se à degradação, á incúria e ao desmazelo.
E isto é sintomático com o resto do património em geral.
O Cerro do Castelo tem sido charruado, o acesso terraplanado e cabras têm derrubado o que resta dos muros protectores.
Agora temos cabras junto ao conjunto Cemitério Velho/Igreja do Espírito Santo/Ossário, não tarda muito que as próprias paredes do Cemitério Velho comecem a ficar degradadas e a desborralhar com o pisoteio e o peso das próprias cabras e o próprio cemitério convertido num curral como já em tempos o foi.


JORNAL DE GARVÃO Nº 0


GARVÃO, RIQUEZA ARQUEOLÓGICA POR DESVENDAR
Garvão, na sua área geográfica, tem, sem dúvida, uma enorme riqueza arqueológica a desvendar. Na área da sua actual freguesia ou na área do extinto Concelho de Garvão, a abundância de vestígios e ruínas é reconhecidamente notória, e só a falta de verbas, não tem permitido a continuação das pesquisas até agora efectuadas.
Nunca foi feito um apanhado geral dos vestígios existentes e visíveis à superfície, e posteriormente desenvolver esse trabalho no terreno por meio de um programa de pesquisa e exploração, desenvolvendo assim uma actividade de valorização da própria vila de que a população se orgulharia e apoiaria, permitindo assim um afluxo superior de visitantes e turistas que incrementaria, sem sombras de dúvidas, a economia da região.
O que tem sido feito até agora tem sido um trabalho de catalogação e salvaguarda daquilo que por um motivo ou por outro urge salvar de momento, postos a descoberto geralmente por máquinas efectuando trabalhos de terraplanagem ou abertura de valas, partindo e destruindo enormes quantidades de riquezas históricas e arquelógicas, que nunca mais serão aproveitadas, com enorme prejuízo, não só material mas também de investigação para o melhor entendimento daquilo que é a nossa herança histórica.


DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO “DESCOBERTO” POR MÁQUINA DA CÂMARA
É o caso nomeadamente do DEPÓSITO SEGUNDÁRIO DO SANTUÁRIO DE GARVÃO da II idade do ferro, ou mais correntemente chamado depósito votivo de Garvão, o qual teve de ser urgentemente “socorrido” pelos serviços de arqueologia oficiais, depois de uma máquina escavadora, quando procedia à abertura de uma vala para o saneamento básico na vila, ter posto a descoberto uma enorme quantidade de telharia e cacos fora do que é normal se encontrar naquela zona, apesar desta mesma zona ser fértil em ossadas e vestígios cerâmicos, telhas e outros cacos, inclusivé terra sigilata. Alertados os serviços oficiais de arqueologia, de imediato procederam ao seu estudo e exploração pondo a descoberto um importante depósito de oferendas a qualquer divindade, estando ainda por descobrir o santuário propriamente dito.


POTES, HABITAÇÕES E ESTELAS FUNERÁRIAS “TERRAPLANADAS”
É o caso também, daquilo que chamamos de conjunto do cemitério velho, árabe/medieval, o qual requereu a intervenção de Arqueólogos a título de urgência devido a uma máquina da Câmara ter posto a descoberto vestígios de habitações e enormes potes de cerâmica já parcialmente destruídos pela dita máquina, mais ou menos à frente da igreja matriz de Garvão.
Junto ao cemitério velho, na parte exterior, também a dita máquina pôs a descoberto algumas estelas funerárias que se presumem medievais, presentemente em exposição, entre outras peças, na Sede da Associação Cultural e Defesa do Património. Algumas dessas estelas foram recolhidas que procedia aos trabalhos em curso. Outras foram recolhidas por elementos da dita Associação numa visita ao local.


OS VESTÍGIOS ROMANOS DOS FRANCISCOS “MUDAM” ESTRADA
Também nos Franciscos, propriedade do Arzil, local de enorme concentração de ruínas romanas, que Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, pondo a descoberto restos de paredes numa área bastante extensa tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade dita romana, forçando assim a que a dita estrada viesse a ser construída noutro local.
Nas ditas escavações foi posto a descoberto também enorme quantidade de cerâmica o que não é de estranhar pois esta encontra-se em grandes quantidades na dita propriedade, assim como ainda vestígios de muros romanos que estão sujeitos ao seu desaparecimento motivado pelas modernas práticas cerealíferas. De notar ainda que desta propriedade e desta mesma zona foi trazida enorme quantidade de pedras para encher os caboucos do prédio situado entre o Largo da Palmeira e o Largo da Amoreira, que nessa altura estava em construção, nas quais se encontrava uma pedra que os pedreiros, achando diferente e com umas letras gravadas, a pouparam, tratando-se de uma ESTELA ROMANA de enorme importância que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram, encontrando-se a estela em exposição na dita sede da Associação Cultural e Defesa do Património.


TORNA-SE URGENTE...
Constata-se assim que todos os trabalhos arqueológicos desenvolvidos em Garvão são de carácter urgente e de emergência devido ou a obras projectadas em locais de reconhecido interesse, ou porque alguma máquina pôs a descoberto, partindo e perdendo-se uma boa parte do espólio que justifica, sendo Garvão local de reconhecido interesse arqueológico, um levantamento geral dos seus vestígios que se torna urgente salvaguardar e evitar futuras destruições, como as acima mencionadas.


 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

IRMANDADE do SAGRADO ESPÍRITO SANTO

IRMANDADE DO SAGRADO ESPÍRITO SANTO

E DA

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE GARVÃO


          Na vila de Garvão existe conhecimento da existência da Misericórdia, contudo a Santa Casa da Misericórdia da vila de Garvão edificou-se por cima de uma Confraria muito mais antiga, a Irmandade do Sagrado Espírito Santo, daquelas que surgiram no mundo Cristão a partir do século XII ou XIII.
          Durante um certo tempo existiram pacificamente ao lado uma da outra, até que a Misericórdia, investida de protecção régia, foi-se apropriando dos bens da Confraria. Quando da extinção, no século XIX, da Misericórdia de Garvão, só a lembrança desta chegou aos nossos dias, com um total desconhecimento da população sobre a existência da Irmandade do Sagrado Espirito Santo.
          Assim, a assistência aos necessitados e aos mais desfavorecidos tem uma tradição muito antiga em Garvão que remonta muito antes da instituição das Misericórdias pela Rainha D. Leonor em Lisboa a 15 de Agosto 1498.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo era uma Confraria muito antiga, de que não sabemos a data da fundação, tinha Igreja; a Igreja do Sagrado Espirito Santo, o hospital, e era a detentora de todas as terras e propriedades que passaram posteriormente para a Misericórdia.
          Apesar de não se saber a data precisa da fundação da Misericórdia de Garvão, existem referências à Santa Casa da Misericórdia de Garvão já no século XVI, a sua extinção deu-se no século XIX, depois da Revolução liberal e o seu património foi disperso, chegando-nos contudo um livro com a data mais antiga de 1609 que servia para “copiar todas as Provisões, Alvarás, Documentos, Escrituras da Misericórdia e do Sagrado Espirito Santo”.
          Nesse livro, que apesar de não ser a história da Irmandade ou da Misericórdia da vila de Garvão, contribui de forma significativa para o seu conhecimento e para a sua história. Aqui relata os nomes de uma boa parte da população, dos Provedores, Secretários, Tesoureiros e mais Irmãos da Santa Casa da Misericórdia como Manoel Lopes Gamitto, André Malveiro, lança, Mestre, Guerreiro, Raposo, Martins, entre muitos outros.
          Tomamos conhecimento que várias propriedades em torno de Garvão eram da Irmandade do Sagrado Espirito Santo, e passou posteriormente para a Santa Casa da Misericórdia de Garvão, nomeadamente o Arzil, (propriedade de considerável dimensão, a maior e a mais rica da actual freguesia), assim como oMau Passo e outras já desaparecidas de que se perdeu a localização como a horta das Maçans ou o Pego do Limão, a Vinha Velha, Mesa das Oliveiras, Moinho do Morgado ou do Madeira, Farrejal da Coroa, terras da Xarneca, cerca do Fidalgo, cerca ao pego D’andorde, entre outras.
          Também à referência a proprietários, o nome de Dom Miguel Maldonado e Dom Sebastião Maldonado surgem como detentores de grande extensões de terras que chegavam inclusivamente aos arrabaldes da vila, á rua Nova. Outras terras, dentro da freguesia, eram da Capela da Coroa e da Capela do Anal, outras terras eram do Concelho desta vila, também a Comenda da vila de Garvão surge nesse livro como detentora de várias propriedades.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo e posteriormente a Santa Casa da Misericórdia de Garvão eram detentoras de outras herdades fora da actual freguesia como a Quinta do alto em Cazevél, Vinha dos Bacorinhos em Santa Luzia, um Farrejal no Vale de Santiago, e as Herdades de Domingos d‘Egua, do Monte Alto da Corte Pego, da Fauza, da Alcaria da Serra, do Verdelho e da Galharda todas na Freguesia de São Martinho das Amoreiras.
          Surge referências também a outras Herdades, como o “Pixouto”, “Val de Inxares”, “Carvalheira” etc., assim como Manoel Guerreiro Gadelha, morador no Monte Zuzarte, que tem a particularidade de “Gadelha” ser um nome judeu.
          A passagem dos bens da Irmandade para a Misericórdia, ao que parece e ainda segundo o mencionado livro, não foi pacífica, pois surgem em várias páginas petições do Provedor e mais Irmãos da Santa Casa da Misericórdia para que lhe sejam entregues os bens da Irmandade.
          Em 17 de Dezembro de 1733 surge uma provisão, baseada numa petição da Misericórdia, no qual em nome de EL Rei Dom João, mandam entregar á Misericórdia os bens da Irmandade, “Hei por bem fazer mercey aos suplicantes Provedor e mais Irmãos da Mizericórdia da Villa de Garvão, a ... pose de cobrarem os sobejos, e as rendas do Hospital da dita Vila de Garvão”, baseado em “... hum livro velho que servio ndita Caza numerado, e rubricado por Roque Cortês de Freites Juiz da Ordem que foi na mesma Comarca ...”, “...tudo se declara no Alvará de vinte e um de Fevereiro do ano de mil e seis Centos e nove, que se acha registado nos livros da mesma Caza da Mizericórdia ...” No qual: “... Pelo que mando ...aos ditos Provedores, e Irmaos cobrar e despender os sobejos das dittas rendas ... sem embargo de qualquer, Porvizão ou regimento ... pasado pela Xanselaria da ordem. // Luis Penedo a fez em Lisboa a vinte e hum de Fevereiro de mil e seis Centos, e nove anos, e Eu Jorge Coelho de Andrade a fiz escrever // REY . . . .. . . . // Garvão vinte e quatro de Janeiro de mil e sete Centos trinta e quatro, sobre dito o escrevi e asignei / / O Padre Duarte Barradas, ~ ~ ~ ~ //.
          Contudo ao que parece os Irmãos da Irmandade não entregaram á Misericórdia os bens, nem em 1609 nem em 1733, pois em 5 de Dezembro de 1765 surge outra provisão em nome de El-Rei Dom José na qual volta a dar posse à Misericórdia dos bens da Irmandade: “...fora eu servido ordenar ao Juiz da Ordem da Comarca os metece de pose de cobrar os dittos sobejos e rendimentos que ouve...” ”...El Rei nosso Senhor o mandou pelos Doutores Manoel Ferreyra Lima e Sebastião Mendes de Carvalho deputadoda menza da Consciencia e Ordens. AgostiNho Joze da Costta a fez em Lisboa a sinco de Dezembro de milsette Centtos e sesenta e sinco annos, Vicente Gomes de Araujo e Souza a fes escrever ... por despacho da Menza da Conciencia e ordens de Outto de Outubro de mil settecenttos e sesenta e sinco...”.
          Porém, continua a haver divergências pois surge uma recusa em entregar os livros conforme se constata no enxerto seguinte, assim como tomamos conhecimento que celebrava-se duas festas do Espirito Santo. “...socedia que o Juis da Ordem da ditta Comarca Diogo Couseiro de Abreu na vezita que fizera na mesma villa em Dezembro de mil e sette Centos e sessenta e tres aprezentandolhe o Mordomo do ditto Hospital os livros da Reseita e despeza que na ditta Caza haviaõ lhos naõ quizera restituir entregando as ao Prior para governar a referida confraria fazendo suspender as obras que a Irmandade da ditta Caza trazia em reparos da Igreja com o fundamento de axar por satisfazer a duas festas do Espirito Santo, e da obrigaçaõ do ditto Hospital...”
          Os bens da Irmandade acabaram por ser praticamente usurpados pela Misericórdia, que animada de protecção régia acabou por extinguir as Irmandades e Confrarias, movimentos laicos que está precisamente na origem das Misericórdias.
          Afirmar que foi a Rainha D. Leonor que fundou as Misericórdias em Lisboa em 1498 é desprezar todo o movimento misericordioso desenvolvido pelas comunidades e populações que muitas vezes sem conhecimento régio ou do clero, pegaram nas suas parcas possibilidades e desenvolveram esquemas de protecção dos mais desfavorecidos, enfermos, pobres, órfãos etc. O que parece, é que, com a instituição das Misericórdias, ouve um aproveitamento régio e do clero no sentido de usurpar ou controlar alguma riqueza que as Irmandades administravam e vinham acariando há já dois ou três séculos. O que eventualmente acabaram por conseguir, pois o seu dinamismo era animado pelo poder Real e contavam com a protecção e incentivo dos restantes poderes instituídos.
          A Irmandade do Sagrado Espirito Santo, a partir do momento que perdeu os bens, deixou de ter receitas para fazer face ás despesas, inclusivamente para as obras na Igreja do Sagrado Espirito Santo. As bases sociais de apoio das Misericórdias divergem das Confrarias. As Confrarias admitiam “Irmãos” de base social diversa, incluindo mulheres, e tinham origem em movimentos associativos laicos e, os leigos formavam naturalmente os seus corpos de gestão, pouco ou nada supervisionados pelas entidades eclesiásticas. As Misericórdias, admitiam apenas homens e membros das elites existentes a nível local: nobreza, clero, comerciantes, mestres, lavradores proprietários, etc., em consequência desta filiação condicionada, o número de “Irmãos” era reduzido em comparação com as Confrarias.
          No século XIX, várias vicissitudes levaram ao fim das Misericórdias, por um lado, as fraudes eleitorais, o desprestígio dos irmãos, a má gestão e as dívidas acumuladas trouxeram o descrédito generalizado ás Misericórdias. Por um lado as leis Pombalinas quebraram a tradicional autonomia das Misericórdias, colocando-as sob ingerência estatal, e com o advento do liberalismo e a promulgação da lei de 4 de Abril de 1861, que ordena a venda dos bens das Misericórdias, acabaram por encerrar de vês a maioria das Misericórdias do reino.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Necrópole e Estela do Pardieiro - 35 Anos depois



Necrópole do Pardieiro

35 Anos depois
           Foi precisamente há 35 anos, em Agosto de 1981, que José Pereira Malveiro (JPM), Manuel Zacarias e José Pacheco acompanhados pelo proprietário do Monte do Pardieiro, (localmente conhecido por Galinha Preta), junto à Corte Malhão na freguesia de São Martinho das Amoreiras recolheram e levaram para o então Núcleo Arqueológico de Garvão uma Estela Epigrafada com caracteres da Escrita do Sudoeste.
           Esta Estela, com o encerramento do Núcleo Arqueológico de Garvão, foi guardada na residência de JPM, (junto a outras peças de interesse arqueológico, achadas e recolhidas ao longo dos anos pelo próprio), onde mereceu a visita de Jürgen Untermann e esposa, (ver artigo a seguir) e de Caetano de Mello Beirão, que foi inclusivamente levado ao local do Pardieiro por JPM,  tendo desenvolvido posteriormente a respectiva publicação com Mário Varela Gomes em 1988, na revista VELEIA - Revista de prehistoria, historia antigua, arqueologia Y filología clássicas (Veleia.pdf). Tendo esta necrópole, posteriormente sido escavada em 1989-1990 pelos arqueólogos Caetano de Mello Beirão e Virgílio Hipólito Correia.


           Em 1996, quando esta Estela estava em exposição nos antigos Paços do Concelho de Garvão, foi indevidamente levada e à revelia do depositário, JPM, e só depois de devidamente denunciado o caso às autoridades foi esta entregue ao Museu Rainha D. Leonor em Beja e posteriormente ao Museu Escrita do Sudoeste em Almodôvar onde se encontra actualmente em exposição.
          Quanto ao sítio do Pardieiro, tem sido valorizado e aberto ao publico, segundo a nota de imprensa do presidente da Câmara Municipal de Odemira de 28/04/2008, “(…) vai abrir ao público o sítio arqueológico da Necrópole do Pardieiro, um espaço funerário construído durante a 1ª Idade do Ferro, entre os séculos VII e V a.C., localizado a cerca de 3 km de Corte Malhão, (…). O sítio é composto por um conjunto de 12 sepulturas individuais cobertas por um monumento construído com pedras ligadas com barro. Nestas sepulturas foram encontradas oferendas funerárias votivas, desde colares de contas de vidro, algumas armas de ferro e peças de cerâmica, bem como três lápides epigrafadas e duas estelas decoradas.
          A Escrita do Sudoeste, encontrada apenas no Sudoeste Peninsular, terá cerca de 2.500 anos e terá entrado em desuso a partir do séc. V a.C. Transmite uma língua muito antiga, que já estava perdida no período romano, não sendo possível ainda hoje decifrar o seu significado. A descoberta de estelas com este tipo de escrita conferem à Necrópole do Pardieiro uma importância singular no âmbito da arqueologia peninsular”.

JÜRGEN UNTERMANN


JÜRGEN UNTERMANN

           Faleceu em 7 de Fevereiro de 2013, em Pulheim, na Alemanha, com 84 anos de idade, o Prof. Jürgen Untermann, eminente linguista que dedicou toda a sua vida ao estudo das línguas pré-romanas da Península Ibérica. Esteve, naturalmente, por diversas vezes em Portugal, inclusivamente na residência de José Pereira Malveiro em Garvão, onde tomou conhecimento da Estela do Pardieiro, tendo-se interessado muitíssimo quer pelos textos aqui encontrados em língua dita «lusitana» quer, de modo especial, pela chamada «escrita do Sudoeste», exarada em estelas identificadas no Sudoeste peninsular, designadamente no Alentejo e no Algarve.
          Um dos seus primeiros trabalhos, Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua (Madrid, 1965), é citado ainda hoje como obra de referência, pois que, embora se tenham multiplicado muito os testemunhos dos antropónimos aí tratados, o certo é que permanecem válidas as conclusões retiradas já nesse longínquo 1965 em relação, por exemplo, às influências detectadas com vista à determinação de áreas linguísticas.
          Foi um dos grandes motores dos colóquios sobre línguas e culturas paleo-hispânicas, a cuja comissão coordenadora, de cariz internacional, presidiu durante longos anos e só a pouca disponibilidade para fazer viagens é que o impossibilitou de estar fisicamente presente no XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valência, de 24 a 27 de Outubro, p. p.
          Importância marcante teve a sua obra monumental, os Monumenta Linguarum Hispanicarum, publicados em Wiesbaden, o I volume em 1975 e o IV, em 1997 (Band IV. Die tartessischen. keltiberischen und lusitanischen Inschriften). Logrou ainda terminar o último, dedicado à toponímia.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

HEMIDRACMA EM PRATA






Hemidracma descoberto em Garvão

Hemidracma (Exemplo)

                          

HEMIDRACMA EM PRATA
Descoberta em Garvão

          A data da constituição do depósito votivo de Garvão é apontada por uma hemidracma em prata, batida em Gades, de 238 ou 237 a.C., que pode ter circulado até aos finais do séc. III. A sua vida “útil” como ex-voto pode, no entanto, ter sido um pouco mais alongada mas, o fecho do depósito não terá ocorrido para além da primeira metade do séc. II a.C. (Beirão et al. 1985, 91 nº 81).
          Segundo a discrição dos mesmos autores trata-se de uma moeda (Vala), de prata, pertence à oficina de Gades, com 17 cm de diâmetro máximo, 2 mm de espessura e 2,5 (?) g de peso. No anverso, muito deteriorado, reconhece-se a representação da cabeça de Hércules-Melkart, toucado com a pele de um leão.
          O reverso mostra, centralmente, um atum, voltado para o lado direito, sobre o qual se vêem quatro signos, quase ilegíveis, de uma legenda púnica. O conjunto é rodeado por uma gráfia de pontos.
          Parece tratar-se de um hemidracma (2,5g) cunhada na segunda metade do século III a. C.
          O Dracma foi uma moeda de origem grega muito utilizada no mediterrâneo durante vários séculos, tomando várias formas e valores segunda a época e origem da cunhagem, esta, encontrada em Garvão, segundo os referidos autores tudo indica que tivesse sido cunhada nas oficinas de Gades, actual Cádis no sul da Espanha e o hemidracma refere-se ao valor de metade de um Dracma.
          O Dracma, em utilização desde meios do sexto século a. C. era de facto a moeda da Grécia clássica, foi uma das primeiras moedas em circulação e de uso geral, o nome derivaria da palavra grega “apanhar” ou “segurar” e o seu valor corresponderia à quantidade de setas que uma mão conseguia agarrar.
          O Dracma a principio tinha vários valores, conforme o lugar onde era cunhado, a partir do século quinto a cidade-estado de atenas sobrepôs-se comercialmente aos outros estados gregos e o Dracma ateniense ganhou preponderância em relação aos outros Dracmas cunhados em diferentes cidades-estados.
          Diz-se que o culto de Hércules foi introduzido na Hispânia pelos fenícios. Este Hércules era o nome romano do Deus Saturno ou BAAL-MELKART, regente do tempo e dos testemunhos.
          Deuses como Melkarte, o Hérakles fenício, ou Tanit, a Vénus guerreira, são pervivências de cultos que iriam prolongar-se até à época romana. Os cultos egípcios, espalhados por toda a Península, atingiram o seu grande auge na época romana, em particular o de Ísis. Encontramo-los, inclusivamente, na etapa ibero-fenícia, e talvez tenham sido até, porventura, muito anteriores. Deuses celtas como Cernunno, o Sol-Cervo, ou o culto das bifaces, ou deuses Acha, são comuns por toda a Celtibéria, mas não parecem iberos de origem.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

AS TRAVESSIAS DA RIBEIRA


 AS TRAVESSIAS DA RIBEIRA


          Antes do nivelamento da ribeira e da cimentação do leito e das margens, o cenário que se apresentava em termos de via, ruas e travessas era totalmente diferente do actual.
De facto antes da construção daquilo que ficou sendo conhecido como “A Placa”, ou pelo menos a primeira fase deste nivelamento da ribeira que atravessa a vila, as vias para a sua travessia eram outras.


PONTE DE MADEIRA
          Se por esta altura a ponte em alvernaria, no centro da vila, já existia, tempos houve em que a ponte era construída de madeira, e a história de que, “Garvão tem uma ponte rota”, não deixa de ter alguma verdade e remete-nos precisamente para o tempo em que a travessia da ribeira no centro da vila que ligava o Largo do Poço da Praça ao Largo do Lagar, (agora Largo da Amoreira), se fazia através de uma ponte de madeira, segundo a memória popular, que se julga ser tanto para peões como para carros de tracção animal.
          De facto a ponte de madeira deveria estar de tal maneira degradada que justificou a construção de uma nova ponte em alvenaria, contudo a história da “Ponte Rota” e ainda segundo a versão popular, se relacionar com um individuo que perdido de bêbado pura e simplesmente caiu da ponte, quando se preparava para se aliviar do que tinha bebido em excesso.
          Numa fotografia do início da edificação da nova ponte, onde se observa a configuração dos dois vãos ainda em construção, nota-se, no local onde actualmente estão plantadas as laranjeiras, uma passagem rebaixada de acesso à ribeira.
          Essa mesma fotografia mostra um candeeiro de iluminação publica cuja base se encontra numa posição muito mais baixa que o novo tabuleiro da ponte em construção, o que parece levar a crer que a ponte de madeira seria mais baixa que a nova, permitindo assim tanto o acesso, de um lado para o outro, pela ponte de madeira, para pessoas ou animais e pelo leito da ribeira para cargas mais pesadas.
          Esta nova ponte, de dois vãos, apesar de superficialmente danificada pelas intempéries de 1997, foi, subsequentemente, substituída por uma nova ponte de um só vão. Encontra-se ainda no local, pregada na parede do posto da GNR a primitiva placa com que a Junta de Freguesia de Garvão homenageou o dono da moagem António de Brito Ramos em 1943, o qual não se poderá aqui deixar de prestar igualmente o devido reconhecimento a um dos industriais de Garvão, a quem muito se deve uma grande parte do vigor económico que se viveu nesta vila por essa altura.


A passagem do POÇO NOVO e a Ponte do Perú
          A antiga passagem junto ao Poço Novo, combinava passagem pedonal para pessoas, bestas e nos seus últimos dias também bicicletas, era a chamada Ponte do Perú com aproximadamente um metro de largura e possivelmente com trinta ou quarenta metros de comprimento, para compensar o vão da ribeira que aqui se alargava, muito usada por pessoas que iam ao Poço Novo abastecer-se de água, com as tradicionais quartas de água de barro cozido á cabeça ou ao quadril, quando não era em carrinhos de mão ou no dorso dos animais.
          A passagem da ribeira, pelo leito, permitia igualmente a travessia de gados, bovinos, ovinos ou caprinos quando não era também por varas de porcos e por carros de parelhas de muares para cargas pesadas, que vinham ou iam pelo “Furadouro” e evitavam assim as ingremes ladeiras do castelo.
          A criação de perus, neste local, poderá ser igualmente uma realidade, mais do que um simples lugar de passagem, de um local para o outro, destes repastos natalícios, a sua criação, no próprio leito da ribeira, alimentando-se das tenras ervas e outros arbustos, quando a corrente de água o permitia, poderá muito bem ter dado o nome á referida ponte pedonal, já que a criação destas aves em grande número, era até há bem poucos anos uma realidade que se poderia encontrar nestes lugares.

 

TRAVESSIA JUNTO AO POÇO DA VARZEA
          Havia outra passagem que desapareceu completamente, sem qualquer alternativa viária, com a construção da primeira fase da placa, que era de facto o seguimento da Rua da Oliveira rumo às hortas e atravessava a ribeira diagonalmente imediatamente a seguir às últimas casas do lado direito e ia ter um pouco antes onde actualmente se situa o lavadouro, emborcando na rua que vinha do Largo do Lagar, (actual Largo da Amoreira), e seguindo rumo à Funcheira, com um ramal rumo à Sardoa logo a seguir ao poço da Várzea atravessando a avenida nova que ainda não tinha sido construída, (actual rua Gonçalo Nobre Valente).
          O seguimento do caminho da antiga estrada da Funcheira, (que não tem nada a ver com a moderna estrada de alcatrão), seria, assim que atravessava a ribeira, junto a esta e adjunto às últimas casas da vila. A posterior e moderna estrada para Santa Luzia acabou por atravessar esta antiga estrada e dividir as casas que aí se encontram, umas ficando a Sul do lado da vila, outras a Norte no lado da estrada que seguiria para a Funcheira e Panoias.
          Esta travessia, juntamente com a do Poço Novo, seriam as primitivas travessias da vila antes desta se ter prolongado para a outra margem da ribeira e justificado a construção da mencionada ponte de madeira.


OUTRAS TRAVESSIAS
          Outras travessias haveria, com certeza, umas mais próximas da vila, outras mais afastadas, das mais próximas há a destacar a do Curral dos Bois, a Sul, na saída da vila para o Cerro da Forca e a passagem da ribeira junto à estrada da Funcheira, a Norte, praticamente no local da nova Estada Nacional junto à parede em taipa da várzea que se estende para Norte, direito à Igrejinha de São Pedro e Estrada Real.
          De realçar igualmente a passagem da Ribeira do Arzil junto à Estação de Garvão e no sítio da localmente chamada “Ponte Romana”, (a romanidade dessa ponte, ou não, ficará para outra altura), fiquemo-nos, por agora, em realçar o caminho que ainda se nota por detrás da antiga padaria do Arreganhado, mesmo diante da Igreja de São Sebastião (para quem está de costas para a referida Igreja) e que viria, certamente, ter à Ladeira do Padre rumo à vila.



 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...