quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O ZEBRO

 O ZEBRO

Mencionado no Foral Velho de Garvão, 1267.

       


          Consta no Foral-Velho de Garvão de 1267, no fólio cinco rosto, a menção a um animal denominado por Zebro/Zebra ou Zevro/Zevra que habitaria a Pení­nsula Ibérica e teria desaparecido por volta do século XVI, cuja carne era consumida juntamente com outros animais selvagens e cuja venda, da pele curtida destes animais, pagava de portagem, ao concelho, dois denários em pé de igualdade com as peles curtidas das vacas.


(...) corio de vaca et de zevra duos dinarios. De corio de cer

vo et gamo três mealias. De carrega de cera quinque silidos.

De carrega de azeite quinque sólidos. Istud portagium de

hominibus foras ville tercia pars de suo hospi

te, et due parte de ordino.


Que corresponde ao português actual:

(...) coiro de vaca ou de zevra, dois dinheiros[1]; de coiro de veado e de vaca e gamo, três medalhas; de carga de cera, cinco soldos; de carga de azeite, cinco soldos. Esta portagem é dos homens de fora da vila; a terça parte desta portagem dê-se ao hospedeiro[2] e  duas partes à  ordem

           Segundo alguns textos medievais seria um animal com uma estrutura semelhante a uma égua, ou se tivermos em atenção a origem da palavra Zevro, do Arabe "Zarb" que corresponde a Burro selvagem, seria assim, de facto, um Burro selvagem que errava nos matagais que cobriam estes territórios no princí­pio da nacionalidade.

          A cor da sua pelagem seria acinzentada com o focinho escuro e teria como caracterí­stica principal várias listas escuras nos membros dianteiros e no dorso que se prolongaria desde o lombo até à  cauda. Se a origem da palavra Zevro ou Zebro se encontra numa li­ngua trazida por povos invasores pelo Norte de África que denomina um animal que se encontrava em Portugal, não deixa de ser curioso que os navegantes portugueses, quando chegaram a África, ao verem aqueles animais listrados os tivessem apelidado do mesmo nome e conhecidos até hoje como Zebras em detrimento das denominações nas linnguas locais.[3]

          O consumo da carne destes animais perpectou-se no tempo e ainda hoje, em várias aldeias do paí­s, manteve-se o costume de comer carne de burro, num quadro festivo religioso em que este animal seria sacrificado e a sua carne consumida num grande banquete ritual.[4]   

            Igualmente encontra-se, de norte a sul do pais, vários topónimos alusivos ao Zebro, nomeadamente, Vale Zebro, Zebreira ou Azebreira, Zebro de baixo e Zebro de cima, Horta do Zebro, Alto do Zebro, Monte Zebro, Zebras (Fundão), Zebreira (Idanha-a-Nova), ou denominados Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços) e Zebreiros (Gondomar), entre outros.

          Certos investigadores entendem que o Zebro seria descendente, senão o próprio, "Equus Hydruntinus", um equí­deo pré-histórico que teria vivido na Europa há cerca de 12.000 anos e teria sobrevivido até ao século XVI nas extensas matas e matagais que cobriam o território, há quem defenda igualmente que o actual cavalo de Sorraia descende do Zebro.


[1] Sobre o valor das moedas mencionadas, o Morabitino ou Maravedi valia 15 soldos, o soldo valia 12 dinheiros, o dinheiro ou denário valia 2 mealhas, ou medalhas que valiam assim meio dinheiro.

[2] Hospedeiro - Aquele que no concelho dava hospedagem ao mercador vindo de fora e que por isso tinha direito a um terço da portagem, por este pago. 

[3] A Zebra, ou sub-espécies, em Swahili denomina-se Pundamilia, em Sesotho, Qoaha, em Chichewa, Mbidzi e em Yoruba, Abila.

 [4] Nomeadamente nas aldeias de Manigoto e Lameiras, no concelho de Pinhel, onde se preservou o costume de comer carne de burro por ocasião das festividades populares onde o burro é sacrificado e consumido por todos os habitantes num grande banquete público. 

sábado, 13 de maio de 2017

Feira de Garvão 2017

Tivemos mais uma Feira de Garvão.
Mais espectáculo, mais diversão, mais animação e mais transmissão televisiva.
Muito se poderia dizer sobre estas transmissões televisivas, verdadeiras máquinas de fazer audiências, vazios de conteúdo algum a não ser o sucesso financeiro dos acionistas em vez de uma programação virada para a elevação cultural dos tele-espectadores e consequentemente da população em geral.
De facto a Feira de Garvão, autêntico circo mediático, de onde de cima do palco os artistas do momento e do ocasião mandam beijinhos, e o povo, alienado, completamente extasiado, assobia e piropiteia, “ai és tão bela”, “és linda”, "casa comigo" e o baile vai rodando.
Mas por mais ridícula e degradante que seja a subversão da ideia de conhecimento, da realidade cultural local, da especificidade da própria feira, a divulgação mediática, no seu corrupio sensacionalista de atração desmesurada das massas, ao transmitir estes conteúdos alienígenas, subverte a natureza, a riqueza e a especificidade especial do próprio evento.
Não se trata de ser feirante sem ser espectador, ou atrair espectadores sem serem feirantes, o que se trata será do aproveitamento mediático em que tanto uns como outros são apanhados. As fragilidades sociais sobrepõem-se a qualquer outro interesse, a não ser a euforia de um momento efémero que tudo justifica e a tudo se impõe, sejam culturais, sejam históricas, sejam patrimoniais ou até mesmo comerciais.
Como ferramenta para embevecer e afastar os feirantes e a população em geral daquilo que deveria ser o interesse principal: a Feira de Garvão, claro que estes subterfúgios cumprem o seu objectivo, a alineação da população de outros temas mais enriquecedores, mais esclarecedores, mais educativos. A receita é conhecida de séculos, por quem procura fama, riqueza, influência e poder: mais festas, mais espectáculo e mais petiscos.
E, até nesta democracia virtual, se poderia compreender tal, se inovadora e promovida por quem colhe tais proveitos e não aproveitar um evento secular e histórico, desvirtuando-o e moldando-o a necessidades narcísicas.

domingo, 22 de janeiro de 2017

COMEMORAR OS 750 ANOS DO FORAL VELHO DE GARVÃO




Jornal de Garvão 23 

          Em Fevereiro de 1267, no reinado de D. Afonso III, o Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, conjuntamente com João Raimundo, Comendador de Mértola, outorga a carta de Foral de Garvão. 

          O Foral de Garvão é um documento importante, não só para a história da própria vila, mas, porque consubstancia matérias de direito penal, militar, administrativo e fiscal, também, para o estudo da organização da sociedade do século XIII. Para além da sua importância política, como símbolo do poder local, este documento, também, nos permite tomar conhecimento dos laços de solidariedade e das relações económicas implementadas por estas comunidades isoladas e concentradas sobre si mesmas desde tempos remotos, que o tornam num documento de referência no quadro do património documental desta época.
           Tem sido referenciado por vários autores, em várias épocas, tanto no campo do direito penal, militar, administrativo, político e fiscal como no campo histórico e linguístico a partir do único original conhecido e conservado no Arquivo Nacional na Torre do Tombo. Os trabalhos de investigação e divulgação relativos às cartas foralengas, atribuídos aos diversos concelhos portugueses, têm merecido, desde há já alguns anos, uma vasta referência ao Foral de Garvão, como demonstra as diversas produções dedicadas a esta matéria.

          Comemora-se assim, esta data tão importante para a vila de Garvão, com a edição do Jornal de Garvão nº 23 inteiramente dedicado ao Foral Velho de Garvão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo



Aivados – Memória da Resistência Rural no Alentejo

          Inês Fonseca apresentou na livraria Ler Devagar, a sua obra sobre memórias e identidade de uma aldeia do Alentejo, Aivados, no concelho de Castro Verde. Uma povoação que pela posse igualitária da terra se envolveu na luta pela reforma agrária logo após a Revolução de Abril.

          O livro, com a chancela da Dinossauro Edições tem por título Aivados. Posse da Terra, Resistência e Memória no Alentejo e teve por base a tese de dissertação que apresentou no seu mestrado em Antropologia, em 1997, sob orientação dos Profs. Jorge Crespo e Paula Godinho.

          A obra abre com a apresentação geográfica da localidade e o seu povoamento. Daí parte para a inserção regional de Aivados no território do Baixo Alentejo e para as estruturas sociais que ali existiam e se formaram ao longo do século XX. “Movimentos sociais no contexto alentejano” é o título deste capítulo que se desenvolve depois, no capítulo seguinte, na epopeia da posse colectiva da terra, “naquele dia [em que] éramos todos iguais”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ZECA AFONSO


Zeca Afonso

          Faleceu em 23 de Fevereiro de 1987, trinta anos depois nunca é demais lembrar um dos mais influentes e interpretes da música popular portuguesa e de intervenção politica durante a ditadura Salazarista e Marcelista que veio a cair em 25 de Abril de 1974.
          A sua música "Grandola Vila Morena" está intimamente associada ao movimento que depôs o regime ditaturial ao ser escolhida pelos militares, como senha, para inicio da rebelião depois de passar na Rádio Renascença.
           Zeca Afonso recriou temas folclóricos e até infantis, reescrevendo formas tradicionais como a "Canção de Embalar", evocando mesmo, neste retomar das mais puras raízes culturais portuguesas, o ambiente lírico dos cancioneiros primitivos (cf. "Cantiga do Monte"), ao mesmo tempo que introduziu no texto temas resultantes de um compromisso histórico, denunciando situações de miséria social e moral (os meninos pobres, a fome no Alentejo, a ausência de liberdade) e cimentando a crença numa utopia concentrada no anseio de "Um novo dia" ("Menino do Bairro Negro").
          Reagindo contra a inutilidade de "cantar o cor-de-rosa e o bonitinho, muito em voga nas nossas composições radiofónicas e no nosso music-hall de exportação", partiu da convicção de que "Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja atualização poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair." ("Notas" de José Afonso in Cantares, p. 82).
          Apesar de galardoado por três vezes consecutivas (1969, 1970 e 1971) com um prémio oficial, a sua produção viria a ser banida dos meios de comunicação, dado o seu conteúdo indesejável para o regime; por essa mesma ordem de razões - talvez mais do que pela inovação musical -, a sua popularidade viria a crescer após a reimplantação da democracia.

domingo, 27 de novembro de 2016

RICOS E POBRES NO ALENTEJO



RICOS E POBRES NO ALENTEJO
De José Cutileiro


          Quarenta anos depois da primeira publicação em português do livro de José Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo, este livro, produto de um exaustivo trabalho de campo, continua a ser uma obra de leitura obrigatória e uma referência nos meios académicos, particularmente nas áreas da antropologia e da etnografia.
          O livro descreve a vida de uma freguesia rural alentejana, em meados dos anos sessenta do século XX, e é leitura indispensável para quem queira conhecer o Portugal rural do Sul. Além disso, como em aspectos capitais da sua vida e da reflexão que faziam sobre ela os camponeses alentejanos não diferiam dos seus compatriotas do resto do país, o livro continua a ser uma excelente introdução à chamada 'identidade portuguesa’.
          Monografia antropológica, o livro estuda a distribuição da terra, as classes sociais que dela resultavam e as relações entre estas, a estrutura administrativa e política, família, parentesco, compadrios, amizades e vizinhança, as crenças e os valores morais que davam Norte às pessoas. Publicada pela Oxford University Press, em 1971, sob o título A Portuguese Rural Society, a obra veio a ser traduzida e editada seis anos mais tarde (1977) em Portugal, com um posfácio do autor.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ACUSA-SE

ACUSA-SE
Torna-se a alertar.
Torna-se a avisar.
Torna-se a lamentar.
Torna-se a acusar os nossos autarcas, tanto da Junta de Freguesia de Garvão, como da Camara Municipal de Ourique, de propositadamente estarem a destruir o património arqueológico, cultural e histórico da vila de Garvão.
Torna-se a apelar às instâncias superiores, àquelas que deviam garantir a protecção destes sítios arqueológicos.
E, nada é feito, nem se assiste ao mais leve movimento para parar a destruição deste património.
Mas que fique registado, em que houve tempos que alguém se preocupou, que denunciou, que batalhou para a protecção da nossa herança histórica, que tem alertado os nossos autarcas, que tem avisado as instâncias superiores, que tem alertado os meios de comunicação.
Que fique registado, também, que nessa cruzada pela protecção do nosso património, quem teve o atrevimento de levantar a voz na denúncia dessa situação se viu exposto à devassa, numa impressionante manifestação de ignorante histeria colectiva.
O que se pede hoje não é um exaustivo processo de exploração arqueológica, (apesar disso ser o objectivo), mas meramente a sua salvaguarda actual de qualquer destruição, até que haja melhores condições para a sua efectiva exploração, estudo, divulgação e factor de desenvolvimento local.
Destruição essa que se assiste presentemente, pelo desmazelo, pela incúria pela continuada prática de usos e preceitos que promovem de facto a destruição desse património pelos nossos autarcas.
Assim, mais uma vez, se denuncia e acusa os autarcas locais de serem os responsáveis pela destruição do património arqueológico e cultural da vila de Garvão.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...