quarta-feira, 2 de agosto de 2023

JORNAL DE GARVÃO Nº 29











Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que sistematicamente vão desaparecendo.

sábado, 29 de julho de 2023

A URGÈNCIA de uma intervenção Arqueológica no "Cemitério Medieval de Garvão"







Desenho de Estela Funerária descoberta na parede do Cemitério Velho de Garvão3

      Esta intervenção arqueológica teria por objetivos, não só proteger este conjunto do desmoronamento de paredes, do pisoteio do gado e de charruagens cada vez mais fundas, mas igualmente, pôr a descoberto as estruturas funerárias que têm aflorado à superfície, relacionadas com a necrópole medieval em torno da primitiva Igreja Matriz de Garvão, assim como proceder ao estudo do espólio material e osteológico resultam-te dos enterramentos ali efectuados, em torno e dentro do templo referido e, após a sua ruína, causada pelo terramoto de 1755, quando o espaço foi reaproveitado como cemitério da vila, até ao princípio do século XX.

     De notar que durante algum tempo se identificou os vestígios, ainda presentes no local, como sendo da Igreja do Sagrado Espírito Santo. Esta conclusão, deveu-se ao facto de as outras igrejas situadas em Garvão e mencionadas nas fontes escritas, estarem identificadas. Se as fontes históricas falam em quatro igrejas e faltando na Vila a do Sagrado Espírito Santo, os vestígios encontrados junto ao cemitério Velho, só poderiam corresponder a esta Igreja, reforçado, ainda, pelo facto de junto ao local se terem encontrado uma pia de água benta, estelas funerárias medievais e três fechos de abóboda, (que afinal correspondiam ao galilé que protegia o portal manuelino da Igreja Matriz).
     Contudo segundo informação do Doutor António Martins Quaresma1, os vestígios que se encontram presentemente junto ao Cemitério Velho, corresponderiam à primitiva Igreja Matriz de Garvão e o templo onde se encontra a actual Igreja Matriz, seria a Igreja do Sagrado Espírito Santo. Tal mudança deveu-se ao facto do estado de ruína em que ficou a primitiva Igreja Matriz, no seguimento do terramoto de 1755, segundo informação do referido historiador.

     (…) de 1755, que o terramoto desse ano causou graves danos no edifício, ainda mais lastimáveis porque ele havia sido reparado há pouco, com grande desvelo do prior. Em consequência, os fregueses recusavam-se a ouvir missa no seu interior, temendo derrocadas. (ADE, Câmara Eclesiástica de Évora, SC-L, L. 60, cx.18, fl. 50) (…).2

      (…) Alfim, por volta de 1832, deu-se o abandono definitivo da velha e arruinada matriz de Garvão e a passagem das respectivas funções para a da Misericórdia, que, lembremo-lo, fora por sua vez a antiga ermida do Espírito Santo e ocupava uma posição muito mais central no contexto urbano (…). (AHMO, Correspondência recebida, AC 9/01, Ofício de 4 de Junho de 1857).2

     Teriam de ser abertas várias sondagens, tanto no interior como no exterior da área murada que resultaram na identificação, registo e recolha igualmente dos materiais aflorados à superfície, nomeadamente as mencionadas estelas funerárias medievais, de madeiras, fragmentos de couro, ilhoses em metal e outros artefactos relacionados com os enterramentos.
     Enquanto os materiais recolhidos no exterior do perímetro muralhado são na sua maioria estelas medievais, (século XV, tanto anteriores como posteriores), já no interior deste teremos enterramentos até 1937, altura em que foi inaugurado o Cemitério Novo na Sardoa.
     Estes elementos associados às informações documentais permitiram ainda a identificação de estruturas pertencentes à mencionada Igreja. Quanto às estruturas é possível identificar várias paredes e respectivos contrafortes, incluindo uma porta entaipada, que foi posteriormente integrada e acrescentada nos muros de delimitação do espaço funerário.
     O espólio material recuperado, para além das mencionadas estelas funerárias, inclui vários objectos de adorno pessoal, fragmentos de contas, botões em vidro, metal e madrepérola, alfinetes, anéis e não raramente moedas, sobretudo dinheiros da primeira dinastia e ceitis cunhados entre meados do século XV e o final do reinado de D. Manuel I e outras moedas datadas do século XX encontradas por particulares.


1 Doutor António Martins Quaresma, é licenciado e doutor em História. Tem realizado uma vasta investigação histórica, em particular sobre o Litoral Alentejano, divulgando a história e o património cultural locais e tem publicado, em livros, artigos e actas de encontros e seminários, uma já longa lista de títulos.
2 Cortesia do Doutor António Martins Quaresma.
3 Malveiro, José Daniel. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I e II. Janeiro, 2013. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.


 

terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO do TOMBO do CONCELHO da VILA de GARVÃO






    





    Pretende-se, com a publicação do livro do Tombo do Concelho da Villa de Garvão, dar a conhecer este documento tão importante para o estudo deste antigo Concelho medieval e dar continuidade a uma série de estudos sobre esta vila, cuja génese se encontra num período anterior à nacionalidade e cuja importância mereceu, depois da consolidação territorial, a atribuição da Carta de Foral em 1267, no reinado de D. Afonso III.

     Esta publicação, contribui para promover e divulgar os estudos locais, no seguimento de outros trabalhos anteriores sobre os vários aspectos históricos desta Vila, os quais pretendem valorizar a sua história local e o património cultural deste antigo Concelho.

     Esta edição do livro do Tombo do Concelho da Villa de Garvão é mais um contributo para o reforço da identidade cultural, da narrativa ancestral deste território e das suas raízes históricas.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

O ESCONDERIJO De José Júlio da Costa










     

Segundo informação de Tiago Maia, da povoação de Malta, (freguesia de Malta e Canidelo, Concelho de Vila do Conde), corre a história que José Júlio da Costa esteve, durante algum tempo, escondido numa casa na localidade de Malta.

     José Júlio da Costa, no seguimento da sua prisão depois de ter cometido o atentado que vitimou o presidente da república Sidónio Pais, viria a ser solto pelos autores da “noite Sangrenta” em 19 de Outubro de 1921.[1]

     Sobre o local ou locais para onde foi levado e onde esteve escondido, têm surgido várias informações, nomeadamente Rocha Martins nas páginas dos seus Fantoches onde dá conta que José Júlio da Costa foi primeiramente levado para Nine, perto de Braga, e posteriormente terá ficado escondido noutras localidades no Norte do País.[2]

     Surge agora, como já se afirmou, a informação de que esteve igualmente escondido numa casa da povoação de Malta no Concelho de Vila do Conde e segundo Tiago Maia:

     A casa em questão é cá conhecida como a Casa do Moreira da Quinta, que no início do séc. passado pertencia a José Moreira da Quinta. Atualmente pertence a descendentes deste. Já falei com eles, mas o que sabem é apenas que o assassino de Sidónio Pais esteve lá escondido num saguão[3]  ou numa mina de água que já não existe.

     Provavelmente porque o tal José Moreira da Quinta simpatizava com a causa. Já falei com várias pessoas de mais idade na freguesia, incluindo o meu avô, mas apenas contam a mesma história.

     No romance, Psiché, do escritor Fernando Campos que passou a sua infância nesta freguesia, umas personagens do livro passam uns dias nesta Casa do Moreira da Quinta e numa conversa mencionam a mesma história que aqui transcrevo. Este livro é a história romanceada do avô materno do autor. Também já falei com a filha de Fernando Campos, mas também não sabe de mais nada.

    "Enquanto se pôs a executar uma valsa de Chopin ouvia o cunhado a dizer:

    - No saguão desta casa se escondeu por vários dias o assassino de Sidónio Pais. Dizem os que na altura passavam na estrada verem um homem embuçado recolher-se, vindo de estranho vagabundear noturno, e, antes de entrar, virar-se para a igreja ameaçando-a com o punho fechado e os olhos a fuzilarem cóleras."

     A casa fica na Rua de Igreja, n.º 126, Malta, Vila do Conde.

     Envio também em anexo fotos da casa. Antigamente era revestida a azulejo verde, mas hoje em dia expuseram a pedra durante o último restauro. As fotos antigas são de procissões e vê-se a casa ao fundo.

[1] A “Noite Sangrenta”, episódio ocorrido entre o dia 19 e a madrugada de 20 outubro de 1921, encheu de horror a opinião pública nacional e internacional e marcou o futuro da I República de forma irreversível, nesse dia um grupo de sublevados recolhe numa camioneta e são assassinados, vários heróis do 5 de Outubro de 1910, incluindo Carlos da Maia e Machado Santos. Uma das primeiras preocupações dos golpistas foi a libertação de José Júlio da Costa nesse mesmo dia, que se encontrava detido no Hospital Miguel Bombarda, por um grupo de 300 civis armados que, segundo informações da época, ter-se-ão dirigido ao referido hospital e o levado para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no Norte do país


[2] José Pereira Malveiro. O Famigerado Herói do crime Grande da Estação do Rocio, 2018.


[3] Saguão - Espaço aberto entre duas alas do mesmo edifício para permitir a claridade e ventilação, geralmente sem saída.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

RICARDO GUERREIRO autor do livro GARVONESA - REENCONTRO COM A HISTÓRIA

PUBLICAÇÃO DO LIVRO

Garvonesa - Reencontro com a História
de: Ricardo Guerreiro

     Em 12 de Maio, por ocasião da Feira de Garvão, concelho de Ourique, teve lugar o lançamento do livro “Garvonesa - Reencontro com uma Raça Histórica”, da autoria de Ricardo Guerreiro.

     Este livro é o culminar de um trabalho desenvolvido por Ricardo Guerreiro ao longo de 10 anos com a raça Garvonesa.
     Nele o autor procura mostrar uma “coleção de pequenas narrativas visuais acompanhadas de legendas curtas em que o leitor é guiado por alguns enredos simples que desvendam comportamentos, peculiaridades e ligações destes animais com o meio que habitam”.
     Este livro tem o patrocínio da Câmara Municipal de Ourique e conta com o apoio da Associação de Agricultores do campo Branco, da EDIA e da Ruralbit.

Mais informação em:

Ricardo fotografou a raça garvonesa com a dignidade de um animal selvagem | Reportagem | PÚBLICO (publico.pt)

Fotogaleria: As Garvonesas, segundo Ricardo Guerreiro (nationalgeographic.pt)

Ricardo Guerreiro lança obra dedicada à raça garvonesa - Diário do Alentejo (diariodoalentejo.pt)

Pecuária.pt (pecuaria.pt)


quinta-feira, 11 de maio de 2023

BUSTO DE MÁRMORE - Agripina Menor (descoberto nos Franciscos)

   




 


      


        




 Em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (1) menciona um busto em mármore, possivelmente de Agripina Menor, descoberto nos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.

Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.

Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.

Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (2)

         Pela maneira como estão tratadas as pregas do vestuário e a comparação das dobras do manto, sobretudo as dobras no ombro esquerdo, leva a tecer comparações com os bustos conhecidos de Agripina Menor, por estas características e pela forma do busto, a peça pode datar-se da época de Cláudio(3).

        O busto está vestido com uma túnica e um manto caído sobre os ombros, as dobras das roupas superior e inferior são separadas umas das outras por furos profundos e a espécie de cunha na parte inferior do busto, servia para fixá-lo numa base.

1- VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas.
2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
3- Governou de 24 EC até 54 EC.

sábado, 25 de março de 2023

CURRAL do CONCELHO de GARVÃO

         Num post anterior, de 30/5/2021, mencionou-se a eventualidade de o local conhecido por Curral dos Bois, na junção da rua Nova e Rua Direita, junto à estrada das Amoreiras, correspondesse ao curral concelhio de que falam as fontes.

       A descrição das confrontações deste Curral no Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 1826, não nos permite, pelo menos nesta fase do conhecimento, afirmar que o mencionado Curral dos Bois corresponda ao local conhecido por Curral dos Bois.

      Segue abaixo a respectiva descrição, como se encontra no Livro do Tombo.

Fólio 28          

Auto de Vistoria, Medição, Confrontação e

Tombação do Curral do Concelho

(…) que consta de terra própria para sementeira toda morada de pedra

e barro, que nelle serve para se guardarem os gados encoimados; (…)

(…) que o dito curral parte do Norte com quintal do Lagar de Cera

de Maria de jesus; do Nascente, e Sul com estradas, e do Poente

com Cerca de Diogo Mendes Lopes d´Azevedo, (…)

(…) que tem de comprimento do Norte ao Sul trinta e huma varas, na cabeceira

do Norte vinte e huma e meia e na do Sul vinte e seis varas (…) [1] 


[1] O sistema craveiro adoptado em Portugal pela formação da nacionalidade, foi usado até vingar o sistema métrico decimal, na segunda metade do século XIX. A vara de craveira era uma antiga medida linear equivalente a cerca de 1,1 metro, embora na idade média esta medida variasse de concelho para concelho.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...