A apresentar mensagens correspondentes à consulta CURRAL do CONCELHO ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta CURRAL do CONCELHO ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de maio de 2021

CURRAL DOS BOIS

CURRAIS CONCELHIOS

             Em vários lugares do país encontra-se a denominação de “Curral do Concelho”, em Garvão existia até há relativamente pouco tempo um lugar denominado “Curral dos Bois”, na confluência da Rua Nova com a Rua Direita, junto à Estrada das Amoreiras e presentemente serve para estacionamento de viaturas de apoio à oficina de pneus/mecânica.

              As fontes consultadas, até agora, não nos permitam afirmar que era aqui que se situava o “Curral do Concelho de Garvão”, apesar de surgir uma menção ao curral do concelho nesta vila num registo do Tombo do antigo concelho de Garvão: Terreno ao Curral do Concelho, de que é Efiteuta Diogo Mendes Lopes D´Azevedo, paga de foro 600 reis,[1] contudo a proximidade da Rua Direita e do antigo Rocio, (atuais Largo da Palmeira, Lardo da Amoreira e Rua 25 de Abril), lugar onde se realizava a feira antes da urbanização deste espaço e da sua transferência para os terrenos da Sardoa,  leva a crer estarmos presente perante um lugar com estas características.

             Segundo a tradição e segundo a denominação que lhe deu o nome, este local servia para guardar não só os bois e vacas mas igualmente outro gado miúdo, ovelhas e cabras, apreendidos pelas autoridades concelhias, (...) que serve para nelle se guardarem os gados encoimados (...), tanto em transito no concelho, como na afluência à feira de Garvão, tanto de proprietários da vila como dos ganadeiros que se deslocavam à dita feira. Em Ourique atual sede do Concelho, ainda existe a Rua Curral do Concelho,

              A denominação de “bois”, advirá certamente da maioria do gado guardado nestes currais ser bovino e da enorme afluência destes à feira de Garvão o qual tomou inclusivamente o nome: Garvonês.

              As funções destes currais concelhios eram onde os gados tresmalhados ou apanhados em propriedades alheias eram guardados, até aparecer o dono e/ou que este pague as devidas coimas e os estragos que causou em propriedades doutros.

               Era propriedade do concelho e as devidas multas revertiam para os cofres concelhios, assim como o produto da venda do gado não reclamado, este espaço era supervisionado por guardas do concelho que precisavam igualmente de ser pagos.

                Numa sociedade essencialmente agrícola e pecuária que marcou a época medieval, a responsabilidade dos concelhos em prover lugares para a guarda dos gados em transito ou tresmalhados, materializou-se na criação de currais próprios para guarda destes gados. Os Currais Concelhios.

                Sobre o gado perdido encontrado nos campos, encontramos nos forais de leitura nova, (D. Manuel I), uma cláusula sobre os denominados gados de vento.

O gado do vento é direito real no arrecadamento do qual mandamos que se guarde inteiramente a Ordenação que sobre isso é feita e os montarazes e oficiais e rendeiros do gado do montado do dito campo não tomarão nenhum gado que ande fora do seu rebanho por dizerem que lhes pertence ou que é seu o qual não tomarão nem mandarão tomar sem autoridade de justiça ouvidas primeiro as partes a que pertencer sobre o dito gado e serem sobre isso ouvidas e despachados com justiça.[2]

             Contudo, segundo Carlos Manuel Ferreira Caetano[3], já existe uma referência implícita ao Curral do Concelho nos Capítulos Gerais das Cortes de Santarém de 1331, quando se diz que certos Povos.

(...) am en seu foro que as cousas que acham de uento que as uendam a certo tenpo e per certa maneyra e as leuem a certo loguar e todo esto dizem que se nom aguarda [...].[4]


[1] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 7 verso.

[2] Foral-Novo de Garvão, fólio V verso.

[3] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII) [Em linha]. Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[4] Idem, p. 175.



sábado, 25 de março de 2023

CURRAL do CONCELHO de GARVÃO

         Num post anterior, de 30/5/2021, mencionou-se a eventualidade de o local conhecido por Curral dos Bois, na junção da rua Nova e Rua Direita, junto à estrada das Amoreiras, correspondesse ao curral concelhio de que falam as fontes.

       A descrição das confrontações deste Curral no Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 1826, não nos permite, pelo menos nesta fase do conhecimento, afirmar que o mencionado Curral dos Bois corresponda ao local conhecido por Curral dos Bois.

      Segue abaixo a respectiva descrição, como se encontra no Livro do Tombo.

Fólio 28          

Auto de Vistoria, Medição, Confrontação e

Tombação do Curral do Concelho

(…) que consta de terra própria para sementeira toda morada de pedra

e barro, que nelle serve para se guardarem os gados encoimados; (…)

(…) que o dito curral parte do Norte com quintal do Lagar de Cera

de Maria de jesus; do Nascente, e Sul com estradas, e do Poente

com Cerca de Diogo Mendes Lopes d´Azevedo, (…)

(…) que tem de comprimento do Norte ao Sul trinta e huma varas, na cabeceira

do Norte vinte e huma e meia e na do Sul vinte e seis varas (…) [1] 


[1] O sistema craveiro adoptado em Portugal pela formação da nacionalidade, foi usado até vingar o sistema métrico decimal, na segunda metade do século XIX. A vara de craveira era uma antiga medida linear equivalente a cerca de 1,1 metro, embora na idade média esta medida variasse de concelho para concelho.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O LAGAR DE CERA DE GARVÃO

E A “PEDRA” JUNTO À PORTA DO SR ZÉ CONDUTO

 


 









No “Livro do Tombo do Concelho de Garvão”, com a data de 9 de Maio de 1826, consta, no fólio trinta e nove, a menção ao Lagar de Cera, pagando em cada anno no dia de Natal, 100 réis, ao Concelho.

Tinha de comprimento, aproximadamente 24 metros e de largura, cerca de 22 metros. Sobre o local onde se situava, se por um lado menciona a Rua da Igreja, por outro lado menciona a Estrada Real e o Curral do Concelho, sendo a sua localização imprecisa neste momento.

Auto de Vistoria, Medição, Confrontação e

Tombação de hum terreno.

O Terreno do Lagar de cera junto a esta villa, de que he

Ephyteuta Maria de Jesus, paga de fôro pelo Natal -  -  - 100 (réis)

(…) no princípio da rua da igreja o terreno de que é ephyteuta Maria de

Jesus viúva de Diogo Domingues (…)

 (…) nelle se achava edificado um hum Lagar de fabricar cêra Amarella,

com todos os seus pertences, e hum quintal de semear murado de taipa e

pedra, e nelle duas oliveiras, e huma figueira (…)

(…) que parte do Norte com rua, do Nascente com estrada Real, do Sul

com curral do Concelho e do Poente com casas do mesmo ephyiteuta (…)

(…) tem de comprimento de Norte a Sul vinte e quatro varas; na

cabeceira do Norte dez; e na do Sul dezanove varas e meia (…)[1]

 Tratava-se de hum Lagar de fabricar cêra Amarella, usada na preparação de vernizes, substâncias de limpeza e conservação de móveis, a mencionada descrição não menciona a fabricação de cera branca, usada quase exclusivamente na fabricação de velas tradicionais para iluminação e velas religiosas.

O processo de fabricação envolvia um moroso processo de aquecimento, prensagem e decantação. Na fase de prensagem, numa enorme viga, estava encaixada num parafuso de madeira que dois ou quatro homens rodavam e ao baixar a viga, esta fazia pressão no recipiente com a cera para a escoar. Este parafuso de madeira estava preso a um enorme peso que forçava igualmente a trave para baixo na ajuda à prensagem.

A pedra que se encontrava na esquina da casa do Sr. Zé Conduto, tudo aponta para que seja o peso, do lagar de cera, que força a trave para baixo.

Junto à porta da loja do Sr. Zé Conduto, loja de roupas e chapelaria nos anos sessenta do século passado, na rua Direita, à esquina da ladeira que dá para a ribeira, estava uma pedra redonda em forma de mó, de grandes dimensões, branca, possivelmente de calcário ou de mármore.

As suas dimensões não correspondem ao tamanho das pedras de mó conhecidas, demasiado larga, alta e pesada para tal função, terá de se procurar a sua utilização noutra actividade.

[1] Em Portugal, antes da introdução do sistema métrico, a vara era uma antiga unidade de medida linear com o valor de aproximadamente 1,10 metros. Era uma unidade base de comprimento, utilizada nomeadamente na construção, que podia subdividir-se em 5 palmos ou 3 côvados.  





quarta-feira, 12 de outubro de 2022

TRAVESSA OU RUA DO ÁLAMO

           Uma das artérias da vila de Garvão designava-se por Travessa do Álamo, hoje denominada por Rua do Álamo.

          A designação desta artéria deve-se ao curso de água que corre paralelamente a esta via e atravessa a vila. Curso de água esse denominado localmente por ribeira, cujas águas derivam de dois afluentes que se juntam a Sul da vila, no local denominado por Curral dos Bois, uma linha de água vem do Monte da Monchica e a outra vem do Monte Zuzarte.

          Segundo os registos, do século XIX e anteriores, nomeadamente nos assentos paroquiais e nos Tombos das propriedades concelhias, a denominação desta ribeira era designada por Ribeira do Alimo e por Pego do Alimo, relativo a alguma retenção de água nalgum lugar quando esta não corria.

          No livro do Tombo de Garvão com a data de 12 de Maio de 1826, surge a informação:

Terreno ao pego do Alimo junto a esta vila de que é efiteuta Manuel Jacinto, paga de foro 160[1]

O Rocio ao pego do Alimo, que serve de eiras para o povo, do qual já se aforarão dois bocados para casas, e vão estar já relacionadas a Joaquim mestre e a Mariana Guerreiro.[2]

             Nos registos paroquiais de Garvão, respeitante aos baptizados no ano de 1858, é registado Maria, em 13 de Maio, filha de Jerónimo José e Inácia Maria, moradores na Ribeira do Alimo.

            A designação da palavra Álamo ou Alimo referente a curso de água, encontra-se a Norte a Sul do país, nomeadamente em Ourique cujos registos paroquiais consta com a data de 29 de Dezembro de 1910, um individuo, de nome Júlio que nasceu no Moinho Novo da Ribeira do Alamo, igualmente junto a Mértola, surge em mapas antigos um curso de água denominado por Rio Limas, também nas ilhas (Ribeira da Lima na ilha do Pico) e o Rio Lima em Viana do Castelo.

          Segundo alguns autores, nomeadamente José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral em Povos Antigos em Portugal,[3] o vocábulo Lima denominaria um hidrónimo, tratar-se-ia de uma palavra de origem Celta ou Lígure, que significaria esquecimento e estaria na origem da nomeação destes lugares.

           Contudo, devido ao elevado número de cursos de água com esta designação, não é plausível esta explicação, embora, segundo Jorge de Alarcão[4] em A propósito do hidrónimo LETHES[5], argumente sobre o “rio do esquecimento” e depois do nome romano para “rio olvido”, seja plausível esta explicação para o Rio Lima de viana do Castelo, por outro lado a explicação, segundo certos autores, que Lima ou Limia derivaria do celta Lima e designaria inundação ou “rio da terra alagada”, parece ser uma explicação mais plausível, tendo em consideração os vários rios e ribeiras com esta denominação.

           Outros autores defendem que Lima viria do latim Limaea, do galego Limea, do qual os reis germânicos, suevos e godos, teriam tomado como topônimo de identificação.

            As alterações fonéticas, comum a todas as línguas que se observam ao longo dos anos, veio a fixar a denominação deste lugar no actual Álamo, não em referência à ribeira, ou ao pego de água, cuja localização se perdeu, mas na artéria que lhe corre paralelamente.

[1] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 7.

[2] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 8.

[3] José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral. Povos Antigos em Portugal. Paleontologia do território hoje português. Lisboa, 2000. P. 100.

[4] Professor Catedrático Aposentado da Faculdade de Letras de Coimbra; Membro do Centro de

Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto.

[5] Jorge de Alarcão. A propósito do hidrónimo LETHES. FORUM 44'45,2009/2010, Pág. 113-120.

sábado, 25 de junho de 2022

AS ESTRADAS DE GARVÃO




     




Garvão, devido aos seus vestígios arqueológicos, sua polarização de vias e outras mais circunstâncias, é um dos mais importantes percursos do Alentejo desde a antiguidade.
     Em Garvão, cruzavam-se e partiam várias estradas com ligação a todo o Sul e Norte do País.

     Aos caminhos mais antigos utilizados pelos primeiros povos, às veredas dos caminhantes e andantes, de cargas no lombo das bestas e carroças de tracção animal, sobrepuseram-se outros caminhos pelas sucessivas civilizações que se lhes seguiram e, inclusivamente, pela via-férrea que, em alguns locais, aproveitou as vias romanas e pré-romanas.

     Em Garvão cruzavam-se várias estradas: Canadas Reais (trajectos milenários para gados), Itinerários Celtas, Vias Romanas, Estradas Reais, “Semedariuns..”, vias Legionárias, Corredouras e outras vias que faziam a ligação por todo o Alentejo.

ESTRADA ROMANA

     Durante a ocupação Romana, várias vias cruzavam o Alentejo. Umas sobrepondo-se sobre caminhos antigos, outras de novo criadas para satisfazer as necessidades comerciais e de ocupação militar.

     Em Garvão, segundo as “Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, que se baseou no “itinerário de Antonino pio”, (descrição, do princípio da nossa Era, sobre as vias do Império Romano por Antonino Pio), cruzavam-se várias estradas romanas, uma delas a “Circunvalação dos Célticos”, que dava a volta completa ao Alentejo e Algarve, pelos lados, tocando as principais localidades.

     Esta via, pelo lado do Atlântico, irradiava da cidade Romana de Esuri (actual Salir) para Ossonoba, Serra de Monchique, Silves e Garvão donde seguia depois para Évora. De Évora, baixava novamente para Beja, donde ia, pelo interior, por Mértola, embrenhando-se em seguida novamente no Algarve até Salir; este lanço da estrada era designado por «compendium».

     Garvão era denominado pelos Romanos como ARANNI. Segundo as “Vias do Império Romano” a distância de Ossonoba a Aranni (Garvão) são mpm LX (95km), (mpm, Millia Passum, medida itinerária romana,que valia mil passos, 1481,5 metros).

     De Aranni a Serapia são XXXII milia passuum. Assim, a conversão de milhas em quilómetros dá-nos Aranni em Garvão, (num dos 20 códices lê-se Atani e Atanni), que é uma das mais notáveis mansões romanas do percurso no Alentejo.

     A via de Antonino, a partir de Garvão para Évora, passa a Ponte Romana da Estação de Garvão, vai rumo à Igrejinhade São Pedro, Horta da Saúde e corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, Vale de Romeira, Boizona, ermida de São Romão de Panóias, Monte Alto, Torre Vã, Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo e Évora.

     Pode-se afirmar, com alguma razão, que a importância da vila de Garvão em tempos mais recuados, se deve às suas excelentes condições viáveis que permitiu o caminho norte/sul e a fixação dos povos.

     A Estrada romana, de Garvão para o Algarve, passava a ponte romana da Estação de Garvão, ia junto ao Furadouro e metia-se pelas terras, do Sr. Chico Felix, direito aos Franciscos, local de grande concentração de vestígios Romanos que se crê ser de uma cidadela Romana, ia depois direito à Aldeia das Amoreiras, São Martinho das Amoreiras, Monte do Geraldo, Monte do Caldeirão, Corte de Brito, Corte de Lã, Stª Clara a Velha, Corte Sevilha, Nave Redonda, Monchique, Porto de Lagos donde como placa giratória comunicava com Silves, Portimão, Lagos e Faro.

     A trajetória de, e para Garvão são de excelentes condições viáis; a natureza abrira esse caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos, as depressões, as planícies e várzeas das margens do rio Mira e do rio Sado condizentes a Garvão.

     O acostumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajetória.


ESTRADA REAL DO ALGARVE

     A Estrada Real do Algarve aproveitou o traçado da Via Romana e Legionária, desde a Serra de Monchique a Garvão e para norte deste. A Estrada Real do Algarve tem o seu início em Lisboa e, era a ligação para o Algarve, com passagem obrigatória por Garvão.

     Era a grande via do Sul, utilizada na Idade Média nas deslocações de norte ao sul e vice-versa. Diz o povo que era a estrada por onde a Rainha D. Maria ia para o Algarve, utilizada por D. Sebastião nas suas viagens ao sul e em direcção a Marrocos.

     Era também um caminho utilizado pelas guerrilhas do Algarve no século XIX. De Garvão para Lisboa ia-se por Alcácer do Sal, passando logo a seguir a Garvão, pela Igrejinha de São Pedro (onde os mencionados guerrilheiros do Algarve procuravam abrigo), Horta da Saúde, Funcheira de Baixo, Monte Ruivo do Ameixial (aqui separa-se do antigo caminho romano), e busca Panoias, onde transpõe a Ribeira de São Romão (Rio Sado) no Porto da Crata, a 6 km de Garvão segue depois para o Monte da Alfarrobeira, Montinho, Reguengo, Aldeia de A dos Delbas, Monte da Estrada, Messejana, Rio de Moinhos, São João dos Negrilhos, Figueira de Cavaleiros, Alcácer do Sal, Setúbal e Lisboa.

     De Garvão para sul o traçado da Estrada Real aproveitou e confunde-se com o caminho da Estrada Romana atrás descrito. O piso da Estrada Real é nu e sem qualquer artifício. Até Santa Clara, a estrada continua sem possibilidade de outro rumo que não seja o de Garvão; são várzeas sumamente viáveis ladeadas de outeiros inviáveis.

     Até há relativamente pouco tempo, os Almocreves e outros preferiam a Estrada Real à Nacional, pois, apesar do mau estado do piso, representa um encurtamento na distância e, de Garvão era a única ligação para a Aldeia e São Martinho das Amoreiras, antes da construção da estrada alcatroada na década de 1970.

     Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem; esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

     Na propriedade do São Barão existe, ainda hoje, os restos de uma Igreja, denominada, também, de São Barão, local de festa e romaria, ainda no primeiro quartel do século XX, bastante frequentada pelas gentes da região.

     Uma variante desta estrada, talvez no caminho para Ourique, passava junto ao Monte São Pedro, onde ainda é visível as ruínas de uma igreja.

 ESTRADA PARA BEJA

     No caminho da Estrada Real, ou Romana, no porto da Crata desprendia-se, uma outra estrada, para a direita que ia directamente de Garvão para Beja, em parte utilizada pelo Caminho de Ferro, pela herdade da Quinta Nova, Aldeia da Conceição e Alcarias, Monte da Carregueira (Estação de Castro Verde) e daí para Beja.

ESTRADA PRÉ-ROMANA

     Existia uma outra Estrada do Algarve, mais antiga, prévia à ocupação Romana, de norte para sul pela margem esquerda do Sado, que transpunha o Rio em Alcácer do Sal. Depois seguia para Grândola, Canal, Mina da Caveira (importantes minas Romanas, cujo minério seguia para Santa Margarida, onde era tratado e seguia em embarcações pelo rio Sado), Brunheira, Loizal Novo, Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira onde passava a Ribeira de Campilhas e Alvalade. De todos os modos, Garvão era lugar obrigatório de convergência.

ESTRADA ROMANA DE SALIR A SANTIAGO DO CACÉM POR GARVÃO

     Em Garvão cruzava outra Estrada Romana, que ligava Santiago do Cacém a Salir, no Algarve, e cortava no sentido Noroeste para Sueste a Estrada Romana de circunvalação do Alentejo e Algarve.

     De Garvão a Santiago do Cacém numa extensão de XXXII milia passuum e, segundo “As Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, “...O seu início em Garvão é um sulco profundo, transversal às ribeiras de Garvão e Arzil, e imediatamente abaixo do Castelo, sulco que ali é conhecido por Ferradouro, corruptela de Furadouro”.

     Entrava depois na Estação deGarvão, onde passava a Ribeira do Arzil pela ponte Romana, seguia pelas herdades do Arzil, Crimeia, Corte Preta, e aldeias de Santa Luzia, Vale Alconde, Colos, Vale de Santiago e entrava em Santiago do Cacém, pelo sítio de chã salgada, tocando o que resta do recinto de jogos da Urbe Romana.

     De Garvão para sul, o traçado divergia da Estrada Romana e Real, enquanto estas iam pelos Franciscos e aldeia das Amoreiras. A estrada de Santiago do Cacém para Salir ia pela Monchica e Saraiva direito à Srª da Cola. Depois de passar o Furadouro, atravessava a ribeira de Garvão, junto ao Poço Novo; a saída da Vila fazia-se pelo Curral dos Bois e apontava direito à propriedade do Pouco Tempo, Monchica, Saraiva, Lagoa Seca, Vale Garvão, Portela, Monte Queimado, Marchicão (já ao pé do Santuário da Srª da Cola), Sr.ª da Cola, Santana da Serra e Salir. Em Santana da Serra bifurcava uma outra estrada directa de Salir a Silves.

“SEMEDARIUM QUI VENIT DE GARVAM ET VADIT AL ALGARBIUM” pela Srª da Cola

     O “Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium”, era a continuação directa da estrada de Santiago do Cacém. Por Semedarium, “Semedeiro”, não se entenda caminho de só menos importância, facto que não se coaduna certamente com o longo curso de 80 Km de Garvão a Salir. Semedarium derivado latim semitas de que se fez senda, sendeiro, sendim, etc.

     A menção ao “Semedarium qui venitde Garvam et vadit al Algarbium” surge, pela primeira vez, nuns documentos de1250 e 1260 referentes ao extinto concelho medieval de Marachique, vulgarmente identificado com o Castro da Srª da Cola, nomeadamente pelo Arqueólogo Abel Viana que na sua monografia sobre a Cola, faz alusão à existência das ribeiras e dos lugares de Marchicão e Marchique junto ao Santuário da Cola.

      As extremas deste Concelho Medieval, abrangiam partes dos actuais Concelhos de Almodôvar e Ourique e, que em parte servia de estremadura entre o Alentejo e o Algarve. No documento de 1250 el-rei D.Afonso III doou este concelho, com os limites que então lhes assinalou, aos seus moradores. No documento ou doação de 1260,os moradores fazem doação a um dos seus munícipes, D. Estevam Anes, de todo o território que el-rei D. Afonso III lhes havia doado e constituía o total concelho de Marachique.

CANADA REAL

     As “Canadas” eram vias próprias para as deslocações dos rebanhos de gado, de umas pastagens e regiões para outras.

     Eram trajectórias seculares, e até milenárias de pastores, como que direcções ideais nos seus caminhos da transumância.

      Apesar das Canadas serem vias próprias e independentes das outras estradas, a Canada que servia Garvão identifica-se em grande parte com a Estrada Real do Algarve.

      Não deixará de ter importância a Feira anual de Garvão no fim do ciclo Primaveril, como polo comercial e social dos pastores que traziam os seus rebanhos, inclusivamente da Serra da Estrela e até de Espanha, para as pastagens do Campo Branco e do Campo de Ourique.


CORREDOURAS

     As Corredoras ou estradas legionárias eram vias militares romanas que atravessavam, não só o Alentejo e a Península Ibérica, como também todo o Império Romano.

     Eram vias próprias para uma mais rápida deslocação das tropas, quando surgia algum foco de revolta nativa contra os invasores e ocupantes Romanos.

     É comum ainda encontrar, na topografia local, nome de sítios ou lugares com origem em eventos ou locais antigos; o Monte da Corredoura, situado a poucos km de Garvão, na estrada para Ourique, poderá bem ser um bom exemplo dessas reminiscências do passado.

     A Corredoura é também identificada com a venda de gado na feira de Garvão; o local onde os almocreves, ciganos e demais comerciantes se juntam para negociar, mulas, machos, cavalos ou éguas, burros ou burras é denominado por “Corredoura”.

domingo, 25 de setembro de 2016

INFELIZMENTE

INFELIZMENTE ...!


Já lá vão 22 anos que o Jornal de Garvão denunciava nesse seu primeiro número a degradação e a falta de protecção do Património de Garvão, mas principalmente a falta de sensibilidade dos eleitos locais para, de facto, a sua recuperação e rentabilização em termos de locais visitáveis e criação de postos de emprego.
Mas sejamos realistas, a história, a arqueologia e o património em geral não resolvem todos os problemas da vila, mas poderão, à sua maneira, contribuir para colmatar certas mazelas que afligem estas comunidades de fraca ou nenhuma visibilidade.
A criação de um, dois, ou três postos de trabalho irá, sem dúvida, contribuir para um crescimento sustentado da vila de Garvão.
É preciso é uma ideia, um sentido, um projecto de desenvolvimento local e, … não há.
O que se assiste é o aproveitamento mediático pelos responsáveis políticos locais dum património que devia de estar num museu local para o desenvolvimento da própria vila, como o caso das cerâmicas do Deposito Votivo de Garvão, e está na cave do Cineteatro em Ourique.
Não se assiste á dinamização desse espólio para a criação de postos de trabalho na vila de Garvão.
Não se assiste a uma continuação da pesquisa arqueológica nesse mesmo Depósito Votivo.
Pelo contrário assiste-se à degradação, á incúria e ao desmazelo.
E isto é sintomático com o resto do património em geral.
O Cerro do Castelo tem sido charruado, o acesso terraplanado e cabras têm derrubado o que resta dos muros protectores.
Agora temos cabras junto ao conjunto Cemitério Velho/Igreja do Espírito Santo/Ossário, não tarda muito que as próprias paredes do Cemitério Velho comecem a ficar degradadas e a desborralhar com o pisoteio e o peso das próprias cabras e o próprio cemitério convertido num curral como já em tempos o foi.


JORNAL DE GARVÃO Nº 0


GARVÃO, RIQUEZA ARQUEOLÓGICA POR DESVENDAR
Garvão, na sua área geográfica, tem, sem dúvida, uma enorme riqueza arqueológica a desvendar. Na área da sua actual freguesia ou na área do extinto Concelho de Garvão, a abundância de vestígios e ruínas é reconhecidamente notória, e só a falta de verbas, não tem permitido a continuação das pesquisas até agora efectuadas.
Nunca foi feito um apanhado geral dos vestígios existentes e visíveis à superfície, e posteriormente desenvolver esse trabalho no terreno por meio de um programa de pesquisa e exploração, desenvolvendo assim uma actividade de valorização da própria vila de que a população se orgulharia e apoiaria, permitindo assim um afluxo superior de visitantes e turistas que incrementaria, sem sombras de dúvidas, a economia da região.
O que tem sido feito até agora tem sido um trabalho de catalogação e salvaguarda daquilo que por um motivo ou por outro urge salvar de momento, postos a descoberto geralmente por máquinas efectuando trabalhos de terraplanagem ou abertura de valas, partindo e destruindo enormes quantidades de riquezas históricas e arquelógicas, que nunca mais serão aproveitadas, com enorme prejuízo, não só material mas também de investigação para o melhor entendimento daquilo que é a nossa herança histórica.


DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO “DESCOBERTO” POR MÁQUINA DA CÂMARA
É o caso nomeadamente do DEPÓSITO SEGUNDÁRIO DO SANTUÁRIO DE GARVÃO da II idade do ferro, ou mais correntemente chamado depósito votivo de Garvão, o qual teve de ser urgentemente “socorrido” pelos serviços de arqueologia oficiais, depois de uma máquina escavadora, quando procedia à abertura de uma vala para o saneamento básico na vila, ter posto a descoberto uma enorme quantidade de telharia e cacos fora do que é normal se encontrar naquela zona, apesar desta mesma zona ser fértil em ossadas e vestígios cerâmicos, telhas e outros cacos, inclusivé terra sigilata. Alertados os serviços oficiais de arqueologia, de imediato procederam ao seu estudo e exploração pondo a descoberto um importante depósito de oferendas a qualquer divindade, estando ainda por descobrir o santuário propriamente dito.


POTES, HABITAÇÕES E ESTELAS FUNERÁRIAS “TERRAPLANADAS”
É o caso também, daquilo que chamamos de conjunto do cemitério velho, árabe/medieval, o qual requereu a intervenção de Arqueólogos a título de urgência devido a uma máquina da Câmara ter posto a descoberto vestígios de habitações e enormes potes de cerâmica já parcialmente destruídos pela dita máquina, mais ou menos à frente da igreja matriz de Garvão.
Junto ao cemitério velho, na parte exterior, também a dita máquina pôs a descoberto algumas estelas funerárias que se presumem medievais, presentemente em exposição, entre outras peças, na Sede da Associação Cultural e Defesa do Património. Algumas dessas estelas foram recolhidas que procedia aos trabalhos em curso. Outras foram recolhidas por elementos da dita Associação numa visita ao local.


OS VESTÍGIOS ROMANOS DOS FRANCISCOS “MUDAM” ESTRADA
Também nos Franciscos, propriedade do Arzil, local de enorme concentração de ruínas romanas, que Caetano Beirão e José Olívio Caeiro procederam a escavações de emergência, numa área que iria ser afectada pela construção de uma estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, pondo a descoberto restos de paredes numa área bastante extensa tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade dita romana, forçando assim a que a dita estrada viesse a ser construída noutro local.
Nas ditas escavações foi posto a descoberto também enorme quantidade de cerâmica o que não é de estranhar pois esta encontra-se em grandes quantidades na dita propriedade, assim como ainda vestígios de muros romanos que estão sujeitos ao seu desaparecimento motivado pelas modernas práticas cerealíferas. De notar ainda que desta propriedade e desta mesma zona foi trazida enorme quantidade de pedras para encher os caboucos do prédio situado entre o Largo da Palmeira e o Largo da Amoreira, que nessa altura estava em construção, nas quais se encontrava uma pedra que os pedreiros, achando diferente e com umas letras gravadas, a pouparam, tratando-se de uma ESTELA ROMANA de enorme importância que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram, encontrando-se a estela em exposição na dita sede da Associação Cultural e Defesa do Património.


TORNA-SE URGENTE...
Constata-se assim que todos os trabalhos arqueológicos desenvolvidos em Garvão são de carácter urgente e de emergência devido ou a obras projectadas em locais de reconhecido interesse, ou porque alguma máquina pôs a descoberto, partindo e perdendo-se uma boa parte do espólio que justifica, sendo Garvão local de reconhecido interesse arqueológico, um levantamento geral dos seus vestígios que se torna urgente salvaguardar e evitar futuras destruições, como as acima mencionadas.


 

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O PATRIMÓNIO DE GARVÃO. O que fazer? Deixá-lo ao abandono até à sua destruição total ou recupera-lo?

       

O QUE É QUE O CEMITÉRIO VELHO A IGREJA DO SAGRADO ESPÍRITO SANTO E AS FESTAS DE GARVÃO TÊM DE COMUM?


Pelas revoluções Liberais de 1820, que acabou com o Concelho de Garvão, promulgou-se a lei da proibição de enterrar os mortos nos adros das igrejas e a obrigatoriedade dos Municípios construírem Cemitérios nas povoações.


Em todo o reino se construíram cemitérios novos menos em Garvão, onde preferiram derrubar o que restava da primitiva Igreja Matriz de Garvão, para o cemitério ficar no mesmo lugar.


De facto os restos da primitiva igreja Matriz ainda são visíveis na estrutura do Cemitério Velho, são paredes sobrepostas e restos dos contrafortes, pinturas, pia baptismal, fechos das abóbadas e estelas funerárias do adro da referida Igreja.


Devido ao estado de ruína da primitiva Igreja Matriz, devido ao terramoto de 1755, o culto passou para a Igreja da Irmandade do Sagrado Espírito Santo. Desde a fundação da Misericórdia de Garvão no século XVI/XVII que esta tentou apoderar-se dos bens da Irmandade do Sagrado Espírito Santo fundada nos séculos anteriores e era a detentora de propriedades como o Arzil, Mau Passo, Monxica, Pixouto, Val de Inxares, Carvalheira e outras, o que veio a conseguir e acabar com a Irmandade ficando a Igreja posteriormente a ser a nova Igreja Matriz de Garvão e a antiga ao abandono até à sua completa destruição para fazerem o cemitério.


A Irmandade do Sagrado Espírito Santo, caracterizava-se por ter, para além das propriedades, a referida Igreja, o hospital e as festas do Espírito Santo, onde a população se divertia toureando um touro que depois matavam e alimentavam a população mais pobre, daí a força da tradição da festa Barranquenha e outras vilas alentejanas que se arreigam do mesmo direito de matarem o touro para o “Bodo” dos pobres, e da festa do pão em Tomar para alimentarem os pobres pelas festas dos Espírito Santo.


As Festas de Garvão, já sem a tradição de outrora e desvirtuada das tradições que lhe deram origem, terão também a sua origem nestas tradições do "Bodo" do Espirito Santo.


Assim este conjunto arquitectónico Cemitério/Igreja/Ossário, continua abandonado e a degradar-se, já foi horta e curral de ovelhas, as centenárias oliveiras cortadas e os gradeamentos das campas postas a um canto para o gado não fugir, os gradeamentos das campas já foram treze, hoje está reduzido a cinco, das cruzes das cabeceiras já só restam duas.


 

sábado, 30 de maio de 2015

CERRO da FORCA




Cerro da Forca

          No extremo Sul da vila de Garvão, sobranceiro ao "Curral dos Bois", na  Estrada para o Monte Zuzarte fica situado o "Cerro da Forca", onde, segundo a  tradição oral eram enforcados os justiçados.

          Segundo informação dos antigos proprietários toda aquela área estava coberta de sobreiras e azinheiras, sendo a forca, quando era preciso, colocada numa das pernadas de determinada azinheira.

           As Forcas como símbolo da execução da justiça e da autonomia municipal, (assim como os Pelourinhos, os Forais e os respectivos Paços do Concelho), foram abolidas em Portugal a 26 de Junho de 1867 no reinado de D. Luís.

          As Forcas eram situadas, geralmente, em Serros sobranceiros à Vila, de boa visibilidade onde a exposição dos justiçados na Forca teriam um efeito dissuador e de intimidação dos possíveis infractores e da população em geral.

          Os sentenciados à "morte perpéctua", (sem direito a enterramento cristão para salvação da sua alma, nem direito a ser enterrado em solo sagrado nos adros das igrejas como era habitual), implicava que os "enforcados" ficavam expostos na Forca, até ao próximo dia de Todos-os-Santos, quando os Irmãos da Misericórdia organizavam a Procissão dos Ossos, e recolhiam o que restava do condenado para o sepultarem junto à Igreja da Misericórdia, muitas vezes os corpos "no seu entorno" padeciam do ataque de cães e outros animais que despedaçavam as partes inferiores dos condenados.

          Devido à larga exposição dos "enforcados" por "morte perpéctua", as Forcas eram, geralmente, situadas em elevações contrárias ao vento dominante, para que na Vila e nas casas da população, não se sentir o cheiro da carne em decomposição.

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...