quarta-feira, 14 de julho de 2021

ÁLVARO PEDRO





Homenagem a um Poeta Popular

            Ia-se à feira em Maio e entre os vendedores ambulantes, aguadeiros e cauteleiros, sombreireiros e adivinhos, sobressaiam os quadreiros populares.

           Poetas do instantâneo, do improviso e do repentismo. Cantavam na feira e vendiam folhetos imprimidos.

             Não tinham casa fixa, viviam ao relento ou nas arramadas e palheiros d´alguém. No inverno encostavam-se às comedias de algum trabalho sazonal e em chegando a Primavera era vê-los a calcorrear as feiras e festas da região.

           A oralidade e a tradição transmitida eram os seus dons, cavados no reportório temporal da região, na herança familiar.

         Álvaro Pedro morreu.

         Já poucos se lembram dele.

          A sua cova daqui a uns anos passará despercebida.

          Só restará a memória da sua poesia, enquanto o papel não debotar e se perderem para sempre.

          Daquele que foi o último dos últimos duma larga geração de poetas populares que calcorreavam as feiras da região e provocavam o imaginário colectivo.

         Álvaro Pedro morreu.

          E com ele morreu toda uma tradição, não só dos vendedores de folhetos e cantadores de feira.

          Da própria feira tradicional de Garvão já só restam resquícios.

          Os tangedores da viola d´arame globalizaram-se.

              E os mendicantes itinerantes, Ti´manél da Vaca-Gorda, o Figueiredo e o Finfas entre outros, poderão ter desaparecido.

             Mas que fique, pelo menos aqui, registado estes versos de Álvaro Pedro, testemunho de vivências dum tempo que nos precederam, duma cultura nossa e desinfestado de influências alheias.

Vou mostrar aos bailarinos

Sobre a Vila de Garvão

A dança de Carnaval

Deu-nos muita animação


O Povo gostou de ver

Tanto o velho com o novo

A linda dança do povo

Para ao povo compreender

Tenho que enaltecer


Que na dança hoje são finos

São mais puros os destinos

Que o povo aplaudiu

Com o povo todo viu

Vou mostrar aos bailarinos


 Foram mostrar à Funcheira

A certos ferroviários

Aos filhos dos operários

Dando valor à bandeira

Encantando a Vila inteira


Dentro do meu coração

Deu alegria e paixão

Aprenda quem vai estudar

Eu tenho que os saudar

Sobre a Vila de Garvão


Um deles com tambor

A acetar-lhe pancadas

A dança das namoradas

Onde mora o amor

Junto igual o tocador


Alegrando o pessoal

Deste lindo Portugal

Do Algarve até ao Norte

Ganharam no passaporte

A Dança de Carnaval


Mostrando peças antigas

Ao povo português

Só vem no ano uma vez

Para as pessoas antigas

Aufere-lhes estas cantigas


E uma boa recordação

Com brio e opinião

Como foram a sua Sardoa

Visto por tanta pessoa

Deu-nos muita animação


 


 


 

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