segunda-feira, 23 de março de 2020

INDIVIDUALISMO EM COLECTIVISMO

A participação dos indivíduos
         
          Numa comunidade como a vila de Garvão, quando se trata de defender o bem colectivo, nota-se que os interesses particulares prevalecem, embora se tente criar a noção de defender o bem comum.
          Cria-se ou transmite-se a sensação de colocar o interesse colectivo à frente dos interesses individuais, contudo nessa participação colectiva, o voluntariado de cada um torna-se, de facto, numa manifestação de interesse individual, com objectivos próprios e a beneficiar individualmente desse empenhamento colectivo.
          Numa vila como Garvão em que se nota a necessidade de união entre a população, continua-se a assistir a manifestações dramáticas de individualismo e exarcebadas reacções contra as poucas manifestações de unidade colectiva que se assiste na freguesia.
          De facto, contra as poucas obras comuns para benefício de todos, assiste-se a actos negativos, aparentemente de indivíduos inofensivos, mas provocando diversos tipos de desequilíbrio, altamente constrangedores e insanos, não se preocupam com princípios, resistem a mudanças e recusam-se a pensar com elevação, agem de acordo com a sua própria ilusão, em pensamentos inferiores, na preponderância do orgulho e do egoísmo.
          Na realidade uma participação no bem comum em termos de igualdade participativa contradiz o desejo de ascensão social, de individualismo e até mesmo de riqueza. A igualdade implica valores de cooperação, enquanto a ascensão social repousa na inveja e na ambição.
          Esta característica está em manifesta contradição com a necessidade comum da população que insiste no espírito coletivista dos seus habitantes, quando a característica prevalecente aponta para o individualismo.
          A competição agudiza as diferenças e o crescente bem-estar individual despoleta sentimentos de competição e inveja.
          Não é dos que desalmadamente batem com a mão no peito que rezará a história.
          Também não será daqueles que vêm na vida alheia a cura das suas frustações, como um alvo a abater para se sentirem elevados, já Ghandi o disse “os fracos precisam de humilhar os outros para se sentirem fortes”.
             Mas será certamente daqueles que nos precederam, daqueles que tiveram a nobreza de um dia alcançarem um dado momento da história da vila de Garvão, história essa porque houve alguém antes de nós que esteve na devida altura no seu lugar, com maior ou menor bravura, maior ou menor sofrimento e simplesmente tiveram a nobreza e o dom, que mais não fosse, da sua própria existência.

quinta-feira, 12 de março de 2020

UMA MATANÇA DO PORCO

RECORDANDO

A Oeste nada de novo.

A não ser a trovoada.
O frio e a geada.
Soam trompetas, arautos e fanfarras.
Era a festa.
Sem velhos arqueados do reumatismo,
Era difícil prever o estado do tempo.
Havia o canito, sempre chamado fiel.
O Gaio na gaiola, sempre chamado chico.
E o gato aos pontapés, sempre chamado Lambuças.
Rugia o cão.
Assanhava-se o gato.
Assobiava o gaio.
E morria o porco.
Copinhos de aguardente.
Moleja ainda a borbulhar.
A faca ainda a sangrar.
Na mão do matador.
… Ah, chamaste Zéi!
Na família havia muitos Zéis.
Mas morreram todos,
Enquanto a faca a pingar de sangue,
Aponta ameaçadora na sua direcção.
Estoicamente, imaginava o pedaço de telha,
Com que raspava o porco, um escudo.
Era a galhofada.
Uma mão na cabeça, a desguedelhar.
Um pedaço de pão com glândulas.
E um cocharro de água.
Era a festa.

COMO CHEGAR A GARVÃO


Transportes para Garvão

Garvão fica siuado no Baixo Alentejo no Concelho de Ourique e tanto se pode chegar de carro, como de comboio ou de autocarro.

DE CARRO
Para quem vem do Norte ou do Sul, pode apanhar a A2 e sair na saída que indica Castro Verde/Ourique, seguindo depois pela N123, passando por Ourique, até Garvão.

DE COMBOIO
A partir de Lisboa, do Algarve ou das povoações servidas pelo comboio, para chegar a Garvão pode apanhar comboio até à estação da Funcheira, a qual dista cerca de 2 km, servido por transportes publicos até esta vila.

DE AUTOCARRO
De Lisboa ou do Algarve, até Ourique e depois novo autocarro até Garvão.

DE BEJA OU ÉVORA. Pode apanhar a IP2 até Ourique e depois a N123 até Garvão.

DE MÉRTOLA, a N123 leva directamente a Garvão.





domingo, 1 de março de 2020

A PONTE da ESTAÇÃO de GARVÃO










Siglas de Canteiro

          A ponte da Estação de Garvão, sobre a ribeira que vem da Aldeia das Amoreiras e de São Martinho, terá sido uma das mais importantes pontes da região, relevância que está directamente relacionada com a sua posição interior no território, no trajecto da antiga Estrada Real do Algarve e numa zona de transição da planície para a serra.
           Apesar da sua origem ser desconhecida, teremos de a contextualizar numa zona onde abundam os vestígios arqueológicos de várias épocas e onde, como se referiu, no caminho Norte/Sul. Terá sido objecto de beneficiação senão em épocas mais remotas, pelo menos em cronologias mais próximas.
           Sobre a antiguidade desta ponte, já foi mencionado, em artigo anterior,1 a sua possível identificação com a ponte referenciada na primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental, por Fernando Álvaro Seco, publicado em Roma em 1561.
          Segundo Maria Fernanda Alegria,2 O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação).
            A povoação de Garvão, no referido mapa, surge entre dois cursos de água e apresenta na ribeira a poente uma ponte, a localização desta ponte a poente da vila, aponta para a ribeira da Estação de Garvão, precisamente no antigo trajecto da Estrada Real e onde se situa a ponte em questão.
           Numa fotografia que se encontra afixada no salão nobre da Casa do Povo de Garvão, apesar de não ter data, presume-se que seja de finais da década de 1930 ou princípios da década de 1940, à semelhança das restantes fotos expostas e posterior à fundação das Casas do Povo nacionais pelo Decreto-Lei n.º 23 051 de 23 de Setembro de 1933, consta a legenda, A ponte sobre a Ribeira de Garvão-Amoreiras ao ser concluída, obra em cimento armado feita pela Casa do Povo local. Mostra um trabalhador, de costas, na parte superior da ponte em finais de construção, nomeadamente os passeios pedonais e respectivos balaústres laterais dos parapeitos, de facto construidos em cimento e presume-se armado, contudo as bases da ponte não são construidos no mesmo material, mas em pedra talhada.
         Segundo a tradição oral, nomeadamente a informação dada por Francisco Zacarias, (último Regedor de Garvão), a mencionada fotografia mostra obras de alargamento do tabuleiro para incluir passeios para a circulação pedonal, sobre uma ponte existente e cujo tabuleiro, estava degradado e a precisar de reparos.
          Numa observação à parte inferior da ponte, constata-se de facto a sobreposição, sobre uma ponte existente, dos suportes em “cimento armado” sobre os quais assentam os passeios pedonais. Pelo contrário, nas suas bases e pilares, nota-se que na construção dessas bases se empregou pedra lavrada em formato quadrangular no revestimento dos arcos, com as respectivas siglas de canteiro que se observam nos silhares, desde a sua base até aos que encerram os vários arcos.
            A existência destas siglas de canteiro, (das quais se reproduzem alguns exemplos), utilizadas principalmente durante a Idade Média, (entre os séculos V e XV) e a Renascença, (aproximadamente entre meados do século XIV e o fim do século XVI), sendo facilmente identificáveis em castelos, igrejas, palácios e pontes entre outras obras, serviam para identificar o autor da pedra talhada e este receber o devido pagamento, já que o trabalho era pago à peça e não ao dia, leva-nos a descartar uma fundação romana, nem se nota, nas suas bases qualquer reaproveitamento ou vestígios de fundações anteriores e sobre as quais, posteriormente teriam sido edificados os presentes pilares. (o ligeiro desalinhamento que se observa na base do pilar a Norte, não justifica uma interpretação diferente).
           Por outro lado, está ausente, igualmente, outros aspectos construtivos e opções arquitectónicas que caracterizam a construção de pontes romanas, nomeadamente os grandes silhares de aparelho almofadado e as habituais marcas de forceps, assim como esta ponte apresenta aspectos construtivos, pouco consentâneos com a tecnologia e arquitectura das pontes romanas, como, por exemplo, o tabuleiro pouco espesso, (não incluindo os mencionados passeios pedonais) e em cavalete, o grande vão dos arcos e a pequena dimensão dos silhares.
           As mencionadas siglas de canteiro, (a relação entre as marcas dos canteiros, ou dos pedreiros e a Maçonaria é outro assunto que se tentará tratar noutro artigo), em comparação com outras e a existência, até à actualidade, de um arruamento, diante da Igreja de São Sebastião e que atravessava a ribeira, possivelmente antes da construção da ponte, leva-nos a considerar a sua origem medieval ou pós-medieval, até que surja alguma informação mais precisa sobre a data da sua construção.
          Estruturalmente, compõe-se de três arcos de volta perfeita, com o arco central de maior amplitude composto por grandes e regulares silhares bem aparelhados e por aduelas de talhe perfeito, apresenta igualmente talhamares triangulares. Apesar da sua antiguidade e da coerência material das suas partes constituintes, não foi ainda objecto de um estudo integral, ou de um levantamento gráfico da estrutura que permita avaliar de forma concisa a sua antiguidade.


       2)  Maria Fernanda Alegria, O povoamento a Sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

BRASÃO em PANO EMOLDURADO



VILA DE GARVÃO

          Cópia do Brasão, bordado em tecido, que existia nas instalações da junta de Freguesia de Garvão até 2009, quando foi retirado do quadro que o protegia e deixou de estar exposto, pelo presidente da Junta de Freguesia em final de mandato.
          A antiguidade desde brasão é aparente pela ligeira degradação que apresenta, contudo, sem o devido estudo, é difícil precisar a data da confecção deste bordado, todavia o vocábulo Vila, aparece somente com uma consoante “L”, o que aponta para uma escrita posterior à reforma ortográfica de 1911, pois uma das alterações dessa reforma foi precisamente a redução das consoantes dobradas a singelas, (com exceção de rr e ss e alguns casos pontuais),
          A data da confecção deste brasão, aponta assim para um período posterior à introdução desta reforma em 1911, cujos princípios já estavam propostos nas Bases da Ortografia Portuguesa, de 1885. Pouco mais se poderá acrescentar sobre este brasão bordado em tela de pano. Sem a peça em si para se proceder a uma mais minuciosa análise é impossível chegar a outras conclusões, a não ser, mais uma vez, lamentar a falta de sentido de responsabilidade cultural de quem lhe deu sumiço, sem, julga-se, qualquer contrapartida ou razão para tal acto.
          Tratava-se de um bordado, em razoável bom estado de conservação, com as dimensões, (de memória), aproximadas de 60 a 80 cm de altura por 40 a 50 cm de largura, onde sobressaía a cor vermelha e dourada, bordados sobre o fundo de pano branco. O escudo apresentava-se em prateado, sobre o qual sobressaiam duas cruzes de Santiago laterais superiores e o sobreiro, ao centro, com o tronco preto e a copa dourada. A ladear este bordado apresentava-se um cordão dourado com duas borlas que o atravessava numa posição pendente desde os cantos superiores direito e esquerdo. Apresentava igualmente na parte superior e inferior do bordado uma lista cadilhada ou esfiada, dourada a toda a largura do bordado.
          Este Brasão, bordado e emoldurado, assim como cerca de vinte livros antigos dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX, encontravam-se nas instalações da Junta de Freguesia, cujo executivo em finais de mandato, como já se afirmou, deu sumiço em 2009.
          Os novos executivos da Junta e da Assembleia, apesar de devidamente alertados sobre o desaparecimento destes livros e do brasão, nada fizeram para a recuperação desse espólio, ou pelo menos em saber o que lhes tinha acontecido.
             Torna-se difícil fazer uma avaliação dos vários responsáveis da Junta e da Assembleia de Freguesia, sem cairmos no banal e no ridículo. Se para uns, despreocupados com estas coisas do património, têm tido uma actuação aceitável, para outros, mais sensibilizados com a história e o património desta terra, não podem deixar de se sentir incomodados com a constante falta de sentido e responsabilidade pelo património desta terra que se reflete precisamente, na incúria e desleixo no tratamento destes espólios, não só bibliográficos mas igualmente materializados nos vários vestígios arqueológicos da freguesia.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

SRª DA COLA



A Pedra Escorregadia e o Pego do Sino
Culto Pré-Cristão Cristianizado


           Segundo o historiador José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006, sobre Ourique e no qual menciona a Senhora da Cola, menciona que este culto e devoção, seriam as reminiscências de um culto pré-histórico, praticado pela população local, que deveria ser numerosa na altura, tendo em conta os povoados, necrópoles, antas e outros testemunhos desse passado, que têm sido encontrados na região.


Havia aqui uma tradição muito antiga, um culto, um culto que vinha não se sabe de quando, mas que na fase cristã era um culto da mãe, da mãe. Um culto de Nossa Senhora aqui do Castro da Cola, é claro, era a Senhora da Cola, e as mulheres que queriam ser mães, vinham aqui numa peregrinação, continuam a vir, é em Setembro, e são romarias de milhares e milhares de mulheres que vêm fazer uma festa. A imagem está ali, veem-na lá em cima e ela segura numa das mãos um menino, na outra das mãos um fruto. Eu sei que aqui se discute se o fruto é uma pêra, se o fruto é um figo, eu julgo que é apenas um fruto, aquilo é uma ideia da Ave Maria, Ave Maria que diz que “bem dito é fruto do vosso ventre”, portanto é um culto da maternidade, da mulher mãe, é o fruto que ela mostra, e do outro lado o seu menino. Bom, este culto continua até hoje. Uma coisa curiosa, o que sai na procissão não é a imagem verdadeira que está além, dizem que aquela é a senhora, o que sai é esta que está cá em baixo, que dizem que é a criada, quem sai a fazer o trabalho é a criada, quem fica no seu trono é a senhora. Reparem como isto é ainda um vestígio medieval. 1


           De facto, à semelhança de outros lugares, o culto da Senhora da Cola, remonta ao período pré-histórico e seria um culto, não só dedicado à fertilidade feminina como o historiador José Hermano Saraiva menciona, mas igualmente devotado à fertilidade dos campos e animais, como ainda nos anos sessenta do século XX se observava nas preces e nas ofertas em géneros agrícolas que se depositava na portinhola lateral da Igreja, cuja função era precisamente receber tais ofertas.

         Contudo, segundo José Leite de Vasconcelos,2 a relação da fecundidade das mulheres e a esperança de um bom parto, encontra-se igualmente presente neste lugar. Tanto mulheres como homens procediam a um ritual de escorregarem numa formação rochosa natural, denominada por Pedra Escorregadia.


Numa ladeira que vai ter ao barranco da Horta do Marchitão ve-se uma lage natural a que se chama Pedra escorregadia, porque ai vão deixar-se escorregar homens e mulheres no dia da festa. O atrito fez que já se produzisse grande sulco ou rogo na pedra. Qual a razão d'este brinquedo? O povo não m'a disse quando estive na Cola, mas tempo depois ouvi contar que havia ali uma lage por onde as mulheres gravidas iam escorregar-se para serem felizes no parto. Se a lage é a mesma, como suponho, temos a explicação quanto ás mulheres. Falta quanto aos homens. Noutras terras de Portugal existem costumes analogos I, bem como lá fóra, por exemplo, em França2.
(NOTAS de RODAPÉ: 1 Vid. as minhas Trad. pop. de Portugal, § 203. 2 Vid. P. Sébillot, Le Folk-lore de France, I, 335 sgs.)


             Segundo Mircea Eliade, 3 Em algumas religiões acredita-se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos partenogênese das deusas mediterrânicas. Assim as mulheres estéreis procuravam engravidar, ao escorregarem na lage, depois das mulheres fecundadas nesse dia.


        Com a chegada do Cristianismo, era costume a nova religião, conquistadora, assimilar e moldar a seu proveito os cultos indígenas locais, como aconteceu não só neste caso, mas igualmente noutros lugares sagrados pré-cristãos. Essas religiões, pré-históricas, tinham um grande contacto com a natureza. A sacralização dos lugares campestres, por vezes manifesta-se nos mais diversos lugares, sejam em árvores,4 cursos de água,5 ou outros acidentes ou formações naturais, como certos relevos rochosos.6

          A religiosidade, dos povos autóctones, consagrava-se, assim, na adoração de locais naturais, fontes e rios, adorando e respeitando o espaço tribal. Os cursos e os pegos de água, eram assim, em certos lugares, considerados sagrados, pelas suas capacidades de cura e processos de regeneração de traumas físicos.

          Era assim no Pego do Sino, na ribeira do Marchicão, junto ao santuário, até aos anos sessenta do século passado,7 a que se atribuíam propriedades traumatúrgicas, onde os crentes se banhavam num processo mítico-religioso de esperança de cura das maleitas ou ferimentos que os afligiam. Esta tradição do banho sagrado no referido pego e a fecundação das mulheres, como se observou no caso da Pedra Escorregadia, poderá estar na origem da religiosidade deste local.

             A partícula Sin, encontra-se igualmente em Sintra e Sinai, relacionados com o culto da Lua. O Pego do Sino seria o pego da Lua, e em termos teóricos o termo poderia-se igualmente estender à elevação que o cinge , (como em Sintra e Sinai), e onde assenta o Castro da Cola e o actual Santuário, antes da presente designação de Marachique ou Marchicão.


(1) - José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006.

(2) - O Archeologo Português, Volume XXIX 1930-31_ edição de 1934, José Leite de Vasconcelos, Excursão ao Baixo-Alentejo, 1897. P. 239.

(3) - Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, São Paulo, 1992. P. 153.

(4) - Como se observa na tradição Celta e ainda hoje se encontra nos santuários Xintoístas.

(5) - Como ainda hoje se assiste com o Ganges, rio sagrado para os Hindus.

(6) - Como é o caso do monte Ululu (Ayers rock), para os aborígenes australianos. Ou de tantos Montes-Santos que se encontram em Portugal. De notar igualmente, a formação geológica de dois sulcos naturais paralelos no terreno, da era do gelo, associados a um alinhamento astronómico, cujo sentido aponta na direcção do Solstício de Verão e cuja associação religiosa/astronómica levou, no final destes sulcos, à criação do santuário de Stonehenge.

(7) - Ainda na década de setenta do século passado, havia uma Srª em Ourique que só bebia água da fonte do Moinho do pego do Sino, não se sabendo se a podemos enquadrar numa vertente de tradição local ou familiar, passada às sucessivas gerações, ou se se trata de um episódio recente, mais do âmbito da moderna religião.


 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

ORIGEM das FESTAS POPULARES de GARVÃO

Festas e Bodos da Irmandade do

Sagrado Espírito Santo

              A origem das Festas populares que se observam em vários pontos do país, tanto nos meios urbanos como nos meios rurais, apesar de na maior parte dos casos se ter perdido a sua origem e hoje bastante desvirtuados e adulterados, conseguem-se identificar, na maioria, com as festas medievais consagradas ao culto do Espírito Santo, realizadas sete semanas depois da Páscoa, no Domingo de Pentecostes. (1) 

          As Festas do Espírito Santo, promovidas pela respectiva confraria, caracterizam-se pela cerimónia dos Impérios do Divino Espírito Santo que culminava na confeção de um enorme "Bodo", refeição comunitária de assistência aos mais carenciados.
          A carne para este "Bodo" provinha da morte de um touro, previamente toureado pelas ruas da povoação, para diversão da população e não só era distribuída pelos mais carenciados, como, inclusivamente, servia para confecionar um enorme banquete em que toda a população participava.
           Estas festas, reflectiam o compromisso entre a população e o divino, a falta destas festas/cerimónias, levava-os a recordar anos, em que estas se não fizeram, para catástrofes naturais, como tempestades, trovoadas, ciclones, secas, ou pragas de lagartas ou de gafanhotos que dizimavam as colheitas e infestavam os celeiros, conforme o fólio vinte e dois do livro do Sagrado Espírito Santo e da Misericórdia, nos elucida sobre as pragas de gafanhotos.


(…) nem poderião alegar os ditos
foreiros anno de esterilidade,
nem de gafanhotos (…)


         O medo do castigo divino comprometia toda a comunidade e estes festejos, com a oferta de comida á divindade e a respectiva distribuição pelos pobres, procurava a protecção das colheitas agrícolas, das catástrofes naturais e a salvaguarda dos celeiros, das pragas de formigas ou ratos.
           As festas eram como um agradecimento de uma promessa cumprida, pelas colheitas dos anos anteriores e uma prece de protecção, para os anos vindouros.
           As tradicionais Festas populares que se observam de Norte a Sul do país, terão, na sua maior parte, origem nestas festas do Espírito Santo. Surgem nos documentos medievais, praticamente em todos os concelhos, referências a estas festas, nomeadamente em; Tomar nas Festas do tabuleiro; em Barrancos; nos Açores e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva; em Portel e em muitas outras povoações de Norte a Sul do país, assim como em vários outros países, levado pelas várias comunidades de imigrantes, nomeadamente no Brasil e Estados Unidos da América.
            Em Tomar realiza-se a tradicional Festa dos Tabuleiros de quatro em quatro anos, no princípio de Julho, a qual atrai á cidade muitos turistas nacionais e estrangeiros. Esta Festa tem como origem o culto do Espírito Santo instituído no séc. XIV.
          Os tabuleiros com o pão que as participantes carregam à cabeça, são adornados com os elementos típicos das antigas festas das colheitas e da celebração da fertilidade da terra, flores e espigas de trigo, e encimados pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. Depois do cortejo faz-se a distribuição da carne, do pão e do vinho, benzidos no dia anterior, pelos mais necessitados da cidade.
          A antiga tradição do sacrifício dos bois, cuja carne seria depois distribuída por todos, (como acontece ainda no Penedo/Sintra, após a tourada à corda), manteve-se na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, até 1895, a partir de 1966, os bois do Espírito Santo voltaram ao cortejo, mas agora só com funções simbólicas.
          As festas tradicionais de Barrancos, com a largada de touros no largo principal desta vila alentejana e a exigência da morte do touro, durante a garraiada, é justificada pela tradição da distribuição de carne pela população num enorme banquete, e é com base precisamente nestas tradições que muitas vilas alentejanas se arreigam do privilégio de também matar o touro durante a tourada, tendo como justificação as mesmas tradições da distribuição de carne aos mais necessitados.
          Em Garvão, assim como noutros lugares, apesar da data da realização das festas, possivelmente já não coincidir com a data primitiva, e apesar de já não se fazer o bodo ou de tal haver lembrança, as festas de Garvão apresentam características próprias destas festas ao culto do Espírito Santo. A ideia principal mantém-se que é reunir o povo para a festa anual e a largada nas ruas da vila.


           Há notícias destes festejos de Norte a Sul do país, nomeadamente em Portel no Alentejo.


(…) dá mais jantar esplêndido à pobreza em dia do Espírito Sancto, e ração de pão e carne a todos os moradores pobres da villa a quem conciderão necessitados.(2)


           Na povoação de São João da Lampas, no concelho de Sintra, existe também notícias destes festejos.


A sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: “A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte” (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festa no interior dos “seus” paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.(3)


          Igualmente em Alvalade, distrito de Beja, surge a notícia de “O Bodo de 1943”(4)


O Bodo foi também tradição secular em Alvalade, que se cumpria a partir da Capela do Espírito Santo (instituída na segunda metade do séc. XVI), situada na Praça D. Manuel I no local onde hoje está a residência dos herdeiros do lavrador Ilídio, assim conhecido na terra.
A festa anual do Divino Espírito Santo decorria sempre de forma solene e muito participada, sendo a distribuição do Bodo um dos seus momentos altos e que consistia na distribuição de alimentos aos pobres ou remediados, a que por vezes se juntava algum dinheiro. Para o Bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.


 1) - No antigo calendário Israelita a Festa das Colheitas - no hebraico hag haqasir - recebeu o nome de Pentecostes a partir do domínio Grego. Estas festas das colheitas teriam a sua origem noutros povos do Mediterrâneo Oriental, nomeadamente os Cananeus, povo que cultivava os férteis vales de Canaã quando da chegada dos pastores semi-nomadas Hebreus.

2) - Francisco Macedo da Pena Patalin, na sua Relação Histórica da Vila de Portel, edição de 1730.

3) - Catarino Coelho, José Lourenço Gonçalves, A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001, in: Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 6, número 2, 2003, p.521-544

4) -  Luís Pedro Ramos. In: https://www.alvalade.info/o-bodo/

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...