quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A DIVINDADE CULTUADA NO SANTUÁRIO DE GARVÃO

 





 


 






CONSIDERAÇÕES SOBRE A DIVINDADE CULTUADA 

Uma das questões em aberto sobre o Deposito Votivo de Garvão é a identidade da Divindade a que se prestou culto. As placas oculadas recolhidas no depósito, retangulares, trapezoidais ou bicirculares, mostram olhos, quer circulares quer amigdaloides, com os cílios indicados, ou transformados num padrão radial que ocupa toda a placa. São, alegadamente, uma representação dessa divindade. Uma das figuras antropomórficas (infelizmente perdida) era constituída por uma cabeça sobre uma palmeta que desenhava simultaneamente os seios, os membros eram sumariamente indicados. A outra figura mostra uma cabeça toucada (ou apenas com um penteado alto) e um objeto (semilunar?) suspenso sobre o peito (Beirão et al. 1986, nºs 78-79).

Para estas figurações foi apontada, sobre a base de paralelos iconográficos, a assimilação de uma divindade indígena com uma entidade sincrética Tanit / Ashtart / Demeter, o que não seria um fenómeno inédito na Península (Beirão et al. 1986, 217).

Não existe, no entanto, qualquer razão para apontar uma associação a Ataecina (Gomes e Tavares da Silva 1995, 38) senão a geográfica, que é insuficiente. Mas o panteão cultuado foi, muito provavelmente, muito mais complexo do que a investigação de um depósito secundário poderá algum dia indiciar.

In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714


ESTRUTURAS CULTUAIS

A existência de estruturas cultuais em núcleos urbanos pré-romanos está bem documentada no Sudoeste Peninsular, entre outros pontos em Capote (Badajoz, Espanha), onde se localizou um depósito votivo primário: um conjunto de peças selado enquanto decorria a sua utilização ritual (Berrocal 1992, 1994). A estrutura a que o depósito se associava era uma pequena câmara, integrada na estrutura urbana do povoado, largamente aberta para a rua.

Um banco onde se empilhavam contentores cerâmicos de uma tipologia particular rodeava as paredes, no centro um altar construído em alvenaria a seco serviu como mesa para uma refeição ritual. Nesta, terá participado, no sentido estrito, um número de pessoas próxima das duas dezenas, logo sendo os animais sacrificados distribuídos pela restante população do povoado.

Neste caso parece não ter existido uma noção clara de culto a uma divindade específica, mas sim um ritual público, gentilício ou supra-gentilício, parecendo difícil que uma estrutura como a de Capote pudesse gerar a acumulação de ex-votos capaz de vir a produzir um depósito secundário com a dimensão do de Garvão (Berrocal 1994, 263-275).

Por outro lado, o povoado a que os romanos conheceriam sob o nome de Mirobriga Celticorum inclui, na sua área mais elevada, um templo cujo estatuto sacro foi suficientemente marcante para que sobrevivesse, com remodelações, até à construção romana do fórum e com ele coexistisse por um período indeterminado (Correia 1995, 244-246).

A prestação de culto a uma divindade num templo como este, poderia, ao fim de um certo período de tempo e dependendo do volume e tipo de oferendas que o costume e a esfera geográfica de difusão do culto acarretassem, levar à necessidade de criação de depósitos secundários.

Depósitos secundários de peças votivas, terão existido com mais frequência em antigos santuários, em qualquer época, do que a arqueologia tem oportunidade de conhecer e estudar.

No seio das sociedades complexas da Idade do Ferro Peninsular, as divindades terão desempenhado um papel muito importante na consolidação das estruturas supra-gentilícias que agregavam a sociedade. O fenómeno de concentração económica, apenas vagamente indiciado pela concentração de objectos cerâmicos,

In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714





terça-feira, 19 de janeiro de 2021

NEGOCIANTE DE MINDE











Faleceu em Garvão em 15 de Setembro de 1922.

          Estela funerária encontrada no Cemitério Velho e carregada para o Cemitério Novo, inaugurado em 1937, (data do primeiro enterramento), de um negociante de Minde, (Concelho de Alcanena, distrito de Santarém), falecido nesta terra em 15 de Setembro de 1922.


FALESEU – AQUI

MANOEL – ESTE

VÃES – MENGAS

DE MINDE

NEGOSIANTE

DE 66 ANOS

DE IDADE

NASCIDU EM

13 DE – 4 D.1856

E FALESIDO EM

15 DO 9 1922


          Mais do que um mercador que corre as feiras e os mercados de uma certa região a vender os seus produtos, e certamente diferente dos comerciantes estabelecidos por conta própria, geralmente com loja ou venda nas vilas e aldeias. A figura do negociante mostra-se não só diferente destes, mas igualmente da tradicional configuração social da Idade Média, guerreiros, lavradores e religiosos.

          A atividade do comércio expansivo exigia um tipo social diverso desta tríade, característica do sistema feudal, presa aos vínculos familiares, de estirpe e linhagem da nobreza.

          Se ao mercador o objetivo seria vender os produtos que transportava para os comercializar nos vários lugares por onde assentava arraial, já o negociante procurava comprar ou vender, geralmente em grandes quantidades, os produtos produzidos numa certa região para vender noutra.

          Sobre este negociante de Minde e o tipo de produtos que procuraria negociar, chega-nos registos de que trabalhavam nesta povoação nos princípios do século XX, várias empresas de fiação e lanifícios, entendendo-se que estaria igualmente ligado a esta atividade e procuraria na região de Garvão, ou os produtos, essencialmente gado lanígero, necessários a serem trabalhados pelas empresas da sua região, ou já os produtos fabricados como mantas, panos, buréis e estamenhas de lã.

          A flora na região de Minde propicia o pastoreio de animais de pequeno porte e pouco exigente como a ovelha. Para além do cuidado com os animais e venda das crias, também as mantas e outros produtos provenientes dos animais que tosquiavam, lavavam, cardavam, fiavam e teciam, começaram a ser vendidas noutras parte, principalmente no Sul do país.

           Dos produtos fabricados em Minde há a realçar a:

          – “manta preta” – usa a lã nas suas cores naturais (castanha e branca). O pastor protegia-se com ela do frio e da chuva;

          – “manta parda” – surge com cores vivas, em barras, nas pontas. Apesar da escassez e das limitações na utilização da água, nos anos 30 do séc. XX surgiu em Minde a 1ª tinturaria e com ela, estas novas possibilidades;

          – “manta sombreada” – é toda com riscas de 6 tonalidades diferentes e progressivas de verde, castanho e laranja;

          – “manta janota” – uns anos depois, aparece a janota, de cores fortes nas suas composições muito trabalhadas.

          O apogeu no número de teares e na produção atingiu-se nos anos 50 do século XX, mas, nos anos setenta, os teares foram desaparecendo: uns foram abandonados, outros estragaram-se, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha, poucos se salvaram. Destes, aproveitaram-se algumas peças e outros apetrechos complementares para a montagem do actual centro de tecelagem. Aqui alia-se a tradição e a memória com a contemporaneidade*. Na manufatura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção.


*Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

APOIO ÀS ACTIVIDADES EDITORIAIS












Cartaz da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita. Cartaxo

Um exemplo a seguir

            Várias Câmaras Municipais, de Norte a Sul do país, reconhecem a importância de que se reveste a atividade editorial, entendida como veículo de divulgação e promoção de autores emergentes e de edições de autor, que contribuam para a vivificação cultural no concelho e para a diversificação da sua oferta literária.

            Incentivam assim um regime de apoio à atividade editorial através do qual procuram encorajar a criação literária e artística e/ou educativa e viabilizar o aparecimento e afirmação de novos autores, transversalmente a várias faixas etárias, experiências de vida e áreas diversificadas, como seja a área educativa, cultural, desportiva, social, ambiente e multidisciplinar inclusivamente a área patrimonial, em particular na área do património imaterial local e regional.

            Pretendem ainda apoiar a área de empreendedorismo cultural de capacidade criativa, a área da deficiência, do multiculturalismo e integração, bem como a área adstrita ao género e igualdade de oportunidades ou questões sociais emergentes da contemporaneidade.

            Nos termos e condições desses apoios, têm prioridade a edição de obras que contribuam para o conhecimento do respectivo concelho, na área da história, antropologia, cultura local, obras literárias em verso ou em prosa, de autores emergentes, de reconhecido valor científico, literário ou cultural, designadamente:

            - A edição de livros ou publicações de autores nascidos ou residentes no concelho;

            - A edição de livros ou publicações por entidades particulares e instituições legalmente constituídas com sede no concelho;

            - A edição de livros ou publicações de autores e entidades ou instituições exteriores ao concelho, mas que tenham manifesto interesse, direto e excecional para o concelho.

            - Poderão ser apoiadas obras mistas que prevejam a integração fotográfica, fonográfica e/ou videográfica, em CD/DVD.

            - Os apoios previstos são também aplicáveis a teses de mestrado ou doutoramento.

            -  Os apoios a projetos de edição consistirão na garantia, com base numa deliberação de câmara, de aquisição, ao preço de capa, de um número de exemplares, ou de um apoio monetário direto, num máximo anual a definir no orçamento municipal, considerando a totalidade das edições a apoiar.

            Observamos assim uma série de regulamentos municipais, de vários municípios de Norte a Sul do país, onde se procura incrementar, não só as produções literárias dos seus habitantes, mas inclusivamente contribuir para a divulgação cultural e promoção do próprio concelho.

sábado, 21 de novembro de 2020

O ARMÁRIO DA DISCÓRDIA




                   


                   





Pela reordenação dos concelhos no século XIX que levou à extinção de uma boa parte dos concelhos portugueses, incluindo o de Garvão, várias foram as formas encontradas pelas populações locais, prejudicadas com tal reordenamento, de mostrarem o seu descontentamento, desde as formas mais violentas de revolta armada, (nomeadamente a “Janeirinha”, revolta popular ocorrida em Janeiro de 1868, na cidade do Porto, contra o novo imposto sobre o consumo e a extinção de mais de cem municípios), às manifestações mais pacíficas, como a que se observou em Garvão.

                   Aquilo a que se assistiu em Garvão, poderá ser, de uma certa maneira idêntico ao que aconteceu na maioria dos concelhos extintos, uma resistência em colaborar com a nova sede do município, raiando a sabotagem e o boicote, como forma de mostrar o seu descontentamento e frustrar as intenções dos novos poderes.

             Assim foram subtraídas aos novos poderes os instrumentos que caracterizavam o município, nomeadamente os objetos amovíveis. Se ficaram para a história os Paços do Concelho com o Sino e a Cadeia e o edifício do Açougue, outros objetos de fácil remoção, foram subtraídos aos novos poderes e transportados para lugar seguro.

                   Destes objetos chegou praticamente aos nossos dias a Arca Concelhio e um Armário.

               Com as obras de restauro na Igreja Matriz, Nossa Senhora da Assumpção, em 1995, vários foram os bens despejados, cuja presença estorvava e reduzia o espaço reservado ao culto, entre eles, um pequeno altar em madeira onde se encontrava várias pautas de música antigas e um armário com portas de correr em vidro que se recolheram para outro lugar.

                   O altar e as pautas musicais perderam-se, infelizmente, com as cheias que assolaram a vila em 1996.

                   O armário teve melhor sorte, resguardado noutro local para restauro, salvou-se de um fim menos trágico, contudo nada fazia prever a antiguidade desta peça de mobília, ou a história a ele associado e muito menos que tal façanha ainda persistisse na memória popular.

                   Segundo um dos últimos Regedores da Freguesia, este armário terá sido uma das Alfayas negadas pela vereação da Câmara de Garvão em extinção e intimadas a entregar, juntamente com os livros de contas ao Concelho de Ourique, onde Garvão e Santa Luzia passariam a integrar como duas freguesias distintas.

                   Para este antigo Regedor, Francisco Zacarias, este teria sido o armário da discórdia, segundo as suas próprias palavras, teria sido levado para a Igreja pelos vereadores da extinta Câmara para o salvarem e por lá se manteve até à realização das mencionadas obras.

                   A Arca Concelhia e o seu conteúdo, são outra história, depois de salva da fogueira, já ateada para queimar tão valioso espólio em 1985, acabou irremediavelmente por ser mandada para o lixo, juntamente com todo o seu conteúdo, pelo executivo da freguesia durante o mandato de 2005 a 2009. Voltaremos a este assunto noutro post, devido à gravidade de que se reveste a ignorância, a incúria, o desmazelo, senão mesmo o roubo e a falta de sensibilidade para o património desta freguesia e salvaguarda destes documentos tao importantes para a história da vila de Garvão.

sábado, 24 de outubro de 2020

DANÇA DOS GUIZOS E DAS ESPADAS I

     Quando o Jornal de Garvão, em Agosto de 1996, noticiou o conhecimento que algumas pessoas da terra com idades aproximadas aos oitenta e cinco anos por essa altura, tinham de um tipo de dança, empregando guizos, cascavéis e espadas, que se realizava tanto em Garvão como nas aldeias e vilas do interior alentejano, não se imaginava que de facto esse tipo de dança estivesse tão enraizado e popularizado na tradição popular portuguesa com estava.

     Chegando até nós unicamente o conhecimento da “Dança das voltas”, “Dança dos Arquinhos” e a “Dança das Fitas” ou “do Mastro”, realizada nesta parte do Alentejo e em várias populações até aos anos sessenta do século passado, tendo a Associação de Defesa do Património de Garvão as recuperado trinta anos depois.

     O guizo, comummente designado por cascavel, na documentação dos séculos XVI e XVII, de utilidade pastorícia e pecuária em geral, aparece-nos, nestas manifestações lúdicas, associado à folia e ao divertimento, estando nessa época intrinsecamente associados à festa e à dança.

     A bibliografia e a iconografia estudada, maioritariamente dos mencionados séculos, revelam frequentemente conjuntos de guizos rodeando as pernas e os pulsos de bailarinos, mas também a mostra apensos ao vestuário e aos chapéus de foliões, como atributo de bobos e chocarreiros de Corte, ou ainda na decoração de flâmulas que esvoaçam ao vento. A subtileza das expressões faciais e delicados gestos de mãos, aliados a rápidos movimentos de pernas e pés, ao som de guizos presos aos tornozelos, são alguns dos aspectos que caracterizam esta dança.

     Esta pequena esfera metálica, de aparência modesta e rústica, aparece em inúmeras situações festivas de todos os géneros e níveis sociais, podendo em certos casos ascender à dignidade de ser fabricada em ouro ou prata. Os guizos são eles próprios instrumento musical ou parte dele, referidos nos tratados por conceituados autores.

     A referência mais interessante que se encontra, prende-se com a menção, tanto à dança das espadas como aos chocalhos e “bozinas”, por Luís de Camões em pleno século XVI:


 “Mas em breves palavras direi a Vossas Mercês a suma da obra: ela é toda de rir, do cabo até a ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzelas que vão fugidas de casa de seus pais, e vão com cabazes apanhar azeitona; e trás elas vêm logo oito mundanos, metidos em um covão, cantando: Quem os amores tem em Sintra; i despois de cantarem farão ua dança de espadas, cousa muito pera ver. Entra mais El-Rei D. Sancho, bailando os machatins, e entra logo Caterina Real com uns poucos de parvos nua joeira; e semeá-los-à pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o auto, com música de chocalho e bozinas, que Cupido vem dar a ua alfèoleira a quem quer bem; e ir-se-ão Vossas Mercês cada um pera suas pousadas, ou consoarão cá connosco disso que aí houver.”


     Sobre a “dança de espadas”, Camões dá-nos pormenores interessantes, nomeadamente, indica-nos o número de dançarinos; oito homens.

     Nada nos indica, contudo, sobre se era acompanhada por algum instrumento musical ou se era cantada pelos próprios dançarinos.

     Deduz-se igualmente que embora tanto a “Dança das Espadas” como a “Dança dos Guizos” esteja associado às danças guerreiras em várias culturas da Europa, (já Tácito a menciona em “De Germania” no primeiro século desta era), não deixava contudo de ser exibida noutros cenários menos cerimoniosos, religiosos e ritualistas até, e mais como função de divertimento.

     Já António Maria Mourinho no seu “Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas”, menciona a ancestralidade destas danças no contexto peninsular, acrescentando que, “As danças de Espadas e de paus (paulitos), são geralmente executadas por homens, tendo a própria igreja permitindo-as nas suas solenidades”.

FOTO ANTIGA da DANÇA








Caros conterrâneos, visitantes, amigos e interessados.

Quem é que tem uma foto da dança, com melhor qualidade da ilustrada?

Ou, já agora, outras fotos da dança ou sobre a vila e outros acontecimentos.

Agradeço que enviem para: jpmg6767@gmail.com

Desde já, os devidos agradecimentos





 

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...