terça-feira, 20 de julho de 2021

IGREJINHA DE SÃO PEDRO

Junto à Estrada Real




 


               



 A Ermida ou Igrejinha de São Pedro, como é conhecida pela população, fica situada a cerca de 1 km de Garvão, na antiga Estrada Real do Algarve, ex-Estrada Romana, no caminho para Panóias, Messejana e por aí fora até Lisboa.

                Actualmente, encontra-se em ruínas e sem telhado, fruto do abandono a que tem sido votada ao longo dos anos. O desinteresse por esta Igreja, já vem de longa data, havendo, contudo, ainda lembrança na população de Garvão do telhado e dos Santos no altar, e ao que parece só por volta de 1942 devido a umas cheias que chegaram á Igreja, é que levaram os Santos para local seguro, ao que se conta, a imagem de São Pedro já andava a boiar na água, o que foi salvo pelo “Meia Dola”, trabalhador no Monte da Morgada, que o entregou ao Sr Júlio de Matos, pai do Sr Zeca. A imagem de São Pedro encontra-se presentemente na Igreja Matriz.

              Nos anos 50 e 60 de 1900, os dançarinos da “Dança de Garvão” costumavam utilizar esta Igreja para ensaiarem os passos da dança.

             A tradição oral, diz-nos que pela guerra civil liberal, nas décadas de 1800, pela Estrada Real passou as forças militares liberais comandadas pelo duque de Terceira, vindas do Algarve para atacar Lisboa no ano de 1833.

             Também pelas lutas liberais, esta Igreja foi refúgio das guerrilhas do Algarve, adeptos da causa absolutista, comandados pelo célebre Remexido, ainda segundo a tradição oral, foi nesta igreja que procuravam guarida depois dos ataques perpetuados pelas terras vizinhas, possivelmente beneficiando do apoio de alguns populares partidários do pretendente absolutista, D. Miguel.

             Trata-se de uma ermida de peregrinação, com arquitectura religiosa, barroca, vernacular.do século XVIII, que enfileira numa tipologia de feição popular muito divulgada no Baixo Alentejo

Planta longitudinal regular, composta por nave e capela-mor escalonadas e por sacristia adossada a S.. Volumes articulados, massas dispostas na horizontal. Fachada principal a E., de pano único delimitado por cunhais de cantaria; remate em empena recortada de três lanços; portal de cantaria de verga recta. Fachadas laterais cegas, de pano único em remate recto. Corpo da sacristia rasgado a E. por porta recta e restantes alçados cegos. Fachada O. de pano único, cego, delimitado por cunhais de cantaria e remate em empena. INTERIOR: nave rectangular de alçados cegos. Arco triunfal de volta perfeita antecedido por degrau. Capela-mor com nicho central em arco de volta perfeita e pequeno nicho do lado da Epístola; do lado do Evangelho rasga-se a porta de acesso à sacristia em arco de volta perfeita.[1]

[1] SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

segunda-feira, 19 de julho de 2021

AIVADOS

Aldeia Comunitária

             Os Aivados é uma aldeia que fica a cerca de 15 km de Garvão e relativamente perto da Estação de Ourique, embora já no concelho de Castro Verde.

             Caracteriza-se por ser uma aldeia comunitária, talvez única em Portugal por não se considerar herdeira das tradições comunitárias agro-pastoris, como se encontram no Norte de Portugal e Sul da Galiza.

            A aldeia dos Aivados, cuja génese da vida comunitária se encontra no século XVI devido a uma doação de terrenos, tem tradição diferente das aldeias comunitárias do Norte, como Rio de Onor ou Vilarinho da Furna, antes de ficar submersa pelas águas da barragem, encontram as suas raízes nas antigas práticas comunitárias pré-romanas, outrora muito difundida em toda a Europa e mais recentemente, herdeira do antigo conventus publicus vicinorum (assembleia pública dos vizinhos) do reino visigótico.

              Ao contrário do Norte do país, onde se encontram propriedades de pequena dimensão e predomina o minifúndio, no Alentejo predomina o grande latifúndio, herdeira das concessões dadas pelos reis conquistadores à nobreza, às ordens religiosas e ao clero, como recompensação pela ajuda na conquista dos territórios à moirama.

               Assim aos habitantes da aldeia dos Aivados, foi doado, no século XVI, uma propriedade com cerca 400 hectares,[1] esta doação obrigou à criação de uma “comissão” para organizarem o desfruto da propriedade doada, com o seu próprio regulamento interno, um rebanho comunitário, várias “folhas” agrícolas para a cultura cerealífera e exploração silvícola, assim como equipamentos e alfaias agrícolas.

              Este regulamento contempla igualmente, doar um terreno para construir casa a quem residir na aldeia por mais de um ano, tendo, contudo, o cuidado de pagar esse terreno à comunidade se vender a casa. Como residente nos Aivados tem igualmente direito a uma parcela de terreno para semear horta e criar animais, recebe ainda pelo Natal, uma verba em dinheiro e uma percentagem dos lucros obtidos pela comunidade na exploração dos terrenos agrícolas.

Além desta forma de propriedade individual, cada individuo tem ainda a possibilidade de semear ou plantar urna pequena parcela dos terrenos colectivos, para a qual todos os anos se "inscreve" recebendo o direito de cultivar uma parcela diferente. Esta rotatividade coloca todos os indivíduos em pé de igualdade, urna vez que existem terrenos melhores que outros que são atribuídos a pessoas diferentes.

Na actualidade, muito poucos indivíduos fazem este cultivo e todos (sem excepção) recebem a esmola de Natal a par de outros "subsídios" (por nascimento de um filho, óbito de algum familiar, frequência da escala, etc.). Os moradores de Aivados beneficiam ainda de um conjunto de facilidades que lhes são concedidas apenas e quando o· desejarem: possibilidade de o seu gado ovino andar junto do rebanho em algumas épocas do ano; distribuição gratuita de lenha e cal; bem como prestação de serviços do tractor em terrenos de propriedade individual; distribuição de água nos quintais (durante o Verão) para evitar a sobrecarga da rede pública de distribuição e utilização dos serviços de transporte da carrinha.

Assim, o usufruto comum da propriedade por parte de todos os moradores da aldeia, de facto, é pasto em prática através de um sistema de redistribuição dos lucros obtidos visando a integração de todos os indivíduos no grupo. O mesmo acontece com as formas de participação e ajuda dos indivíduos, no âmbito do quotidiano da aldeia e dos assuntos relacionados com a herdade. Frequentemente, as contribuições feítas pelas pessoas surgem (ao nível dos discursos expressos) como tendo sido feitas pelo colectivo - o Povo.[2]

[1] Não se sabe ao certo em que ano e quem doou aos moradores os 400 hectares que cercam a aldeia de Aivados. Terrenos que, ao longo da história, têm sido cobiçados por muitas entidades públicas e privadas e sido alvo de várias tentativas de usurpação. No entanto, através de processos judiciais, um dos quais demorou 93 anos a ser resolvido, os moradores sempre conseguiram preservar o seu património. In: Rodrigo Santana. A Aldeia Comunitária de Aivados, 2011.

[2] Inês Fonseca. (2001). Pertencer ao Povo dos Aivados: Posse de terra, Conflitos Sociais e Identidade numa Comunidade do Sul de Portugal (Século XX). IV Congreso Chileno de Antropología. Colegio de Antropólogos de Chile A. G, Santiago de Chile.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

O SINAL DO TABELIÃO / ESCRIVÃO

DO CONCELHO DE GARVÃO










Sinal de Francisco Rodrigues, Tabelião e Escrivão da Câmara do Concelho de Garvão. Foral Novo 1512.

Sinal de Luís Afonso, Investido em.: 04-03-1444. in: João Maia Romão, Tabelinado e Tabeliões nos Livros de Chancelaria de D. Afonso V. Lisboa, 2014. Aneos I, p. 108.











Sinal de Nuno Eanes , Investido em.: 23-04-1444. in: Idem, p. 122.

              É desde o reinado de D. Alfonso II, (1211-1223), que se encontram em Portugal oficiais públicos com o título de Tabeliães, com intervenção na redação e autenticação de documentos de direito publico e privado, hoje substituídos pelo moderno Notário.[1]

              Em Garvão tanto os Tabeliões como os Escrivães da Câmara, aparecem representados na mesma pessoa, pelo menos nos documentos consultados, o que se assume que o respectivo cartório se situaria no próprio edifício do concelho.

               Para além deste espaço físico, o Tabelião/Escrivão apresentava o seu livro de notas  de capa flexível do carneira, atado com fitas da mesma substancia; o seu tinteiro de corno que metia no bolso a toda a altura deste, quando o notário se ausentava do cartório para fazer testamentos e escrituras e os sinais e cetras com que o referido funcionário autentica o que escreve.

               Segundo as Ordenações Afonsinas .I, 49, 5 e 6, ao Tabelião era obrigatório o uso de trazer continuadamente “roupa farpada” e devisadas de colores desvairadas com diferenças partidas bem devisadas; sem trazer nunca, em nenhum tempo, coroa aberta, grande ou pequena. O Tabelião que faltasse ao exacto cumprimento de qualquer dessas condições, perderia ipso facto o ofício.

               O regimento do chanceler-mor (Ordenações Afonsinas, I, II), regula também que o Tabelião não pode receber a carta do ofício sem mostrar que é casado. Enviuvando o Tabelião, dava-se-lhe o espaço de um ano para tornar a casar; e não o fazendo, tiravam-lhe o ofício. Mas enquanto viúvo podia trazer as roupas que quisesse. (Ordenações Afonsinas, I, 2, 12 / Ordenações Manuelinas., I, 74, 4)

             Para o fim do séc. XV a obrigação de trajarem roupas farpadas, era considerada, um encargo deprimente e escusado. D. João II aboliu esta obrigação depois dos Tabeliães de Évora, o terem solicitado nas Cortes dessa cidade em 1490.[2]

            Os Tabeliães eram examinados pelo chanceler-mor, para averiguar se escrepvem bem e som pertencentes pêra os ofícios,  (Ordenações Afonsinas, Livro I, 2, 10):

Os Tabeliães,. e Efcrivaães todos haõ de feer examinados pelo Chanceller, fazendo-os efcrepver perante fi, e fe vir que efcrepvem bem, e fom pertencentes pêra os Officios, devem-lhes dar fuas Cartas, e d’outra guifa nom.

        A religião, na idade-média, dominava a existência inteira do homem, a cruz, que simboliza o cristianismo, tornou-se num dos elementos mais frequentes dos sinais; cruz simples; cruz ornamentada e de fantasia; cruz inscrita em quadros; cruz cantonada dos astros ou de arruelas, marcando bem a individualidade de quem os escreveu,

            As três marcas ou sinais dos Tabeliões de Garvão que aqui se mostram, são um bom exemplo disso, embora não seja um estudo exaustivo sobre os Tabeliões e os respectivos sinais, que desempenharam essa função no concelho de Garvão ao longo de vários séculos, dá-nos uma ideia dos sinais por estes apresentados.

[1] BARROS, Henrique da Gama, (1914): História da Administração pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, T. III. P. 762.

[2] Idem, ibidem.



quarta-feira, 14 de julho de 2021

ÁLVARO PEDRO





Homenagem a um Poeta Popular

            Ia-se à feira em Maio e entre os vendedores ambulantes, aguadeiros e cauteleiros, sombreireiros e adivinhos, sobressaiam os quadreiros populares.

           Poetas do instantâneo, do improviso e do repentismo. Cantavam na feira e vendiam folhetos imprimidos.

             Não tinham casa fixa, viviam ao relento ou nas arramadas e palheiros d´alguém. No inverno encostavam-se às comedias de algum trabalho sazonal e em chegando a Primavera era vê-los a calcorrear as feiras e festas da região.

           A oralidade e a tradição transmitida eram os seus dons, cavados no reportório temporal da região, na herança familiar.

         Álvaro Pedro morreu.

         Já poucos se lembram dele.

          A sua cova daqui a uns anos passará despercebida.

          Só restará a memória da sua poesia, enquanto o papel não debotar e se perderem para sempre.

          Daquele que foi o último dos últimos duma larga geração de poetas populares que calcorreavam as feiras da região e provocavam o imaginário colectivo.

         Álvaro Pedro morreu.

          E com ele morreu toda uma tradição, não só dos vendedores de folhetos e cantadores de feira.

          Da própria feira tradicional de Garvão já só restam resquícios.

          Os tangedores da viola d´arame globalizaram-se.

              E os mendicantes itinerantes, Ti´manél da Vaca-Gorda, o Figueiredo e o Finfas entre outros, poderão ter desaparecido.

             Mas que fique, pelo menos aqui, registado estes versos de Álvaro Pedro, testemunho de vivências dum tempo que nos precederam, duma cultura nossa e desinfestado de influências alheias.

Vou mostrar aos bailarinos

Sobre a Vila de Garvão

A dança de Carnaval

Deu-nos muita animação


O Povo gostou de ver

Tanto o velho com o novo

A linda dança do povo

Para ao povo compreender

Tenho que enaltecer


Que na dança hoje são finos

São mais puros os destinos

Que o povo aplaudiu

Com o povo todo viu

Vou mostrar aos bailarinos


 Foram mostrar à Funcheira

A certos ferroviários

Aos filhos dos operários

Dando valor à bandeira

Encantando a Vila inteira


Dentro do meu coração

Deu alegria e paixão

Aprenda quem vai estudar

Eu tenho que os saudar

Sobre a Vila de Garvão


Um deles com tambor

A acetar-lhe pancadas

A dança das namoradas

Onde mora o amor

Junto igual o tocador


Alegrando o pessoal

Deste lindo Portugal

Do Algarve até ao Norte

Ganharam no passaporte

A Dança de Carnaval


Mostrando peças antigas

Ao povo português

Só vem no ano uma vez

Para as pessoas antigas

Aufere-lhes estas cantigas


E uma boa recordação

Com brio e opinião

Como foram a sua Sardoa

Visto por tanta pessoa

Deu-nos muita animação


 


 


 

O AÇOUGUE












Edifício do Açougue na Ladeira do Padre











Sino do Açougue

               Os açougues eram espaços de comércio fechados, construídos pelos concelhos, mas normalmente concessionados a comerciantes particulares, certamente em condições vantajosas, mas com a contrapartida de grande controlo quer dos abastecimentos quer dos preços, pelos competentes oficiais concelhios.[1]

          O Açougue de Garvão fica situado na Ladeira do Padre, esquina com a Rua da Misericórdia, mantendo a sua traça original até há relativamente poucos anos, quando lhe foi retirado o sino que o caracterizava e levado para as instalações da Junta de Freguesia onde ainda se encontra.

            As-suq, denomina no léxico árabe o local onde se realizava o mercado, de facto os Suq ainda hoje são uma das características das urbes islâmicas, passou para o português, durante a reconquista, com a palavra “Açougue”, datando o seu primeiro registo em português em 1254, na forma azougue, e num registo de 1269 aparece a palavra aaçougue, evoluindo posteriormente para o atual “açougue”.

               Na Idade Média abrigavam a venda de comestíveis, pelo que “o açougue era, em princípio, um mercado permanente onde se vendiam a carne, o peixe, os legumes, Com o tempo, os açougues passam a abrigar apenas a venda de carne e de peixe, para se especializarem posteriormente apenas na venda da carne a retalho, por uma evolução semântica muito interessante, a palavra talho acabará por ganhar o significado do velho açougue da carne – palavra que sobrevive, tanto quanto se sabe, no Português do Brasil.[2]

              Caução e símbolo maior da abastança dos Povos, os açougues foram sempre motivo de grande preocupação tanto do poder central como do local, sempre preocupado com os abastecimentos. Assim, os Açougues, para lá da venda a retalho eram também posto de recolha e de controlo obrigatório pelo menos de certos produtos.[3]

              Eram construções muito modestas e arquitetónica e decorativamente muito despretensiosas, aproximando-se – como arquitetura emergente dos Povos ao serviço dos quais foi construída – de modelos arquitetónicos vernáculos, como o belíssimo e quase escultural Açougue de Garvão. Com efeito, tendo por abertura ao exterior apenas uma porta muito simples, o açougue de Garvão é de uma pureza quase abstrata, modelada sensualmente por gerações e gerações de caiadelas sobrepostas.[4]

             Os açougues tratando-se de edifícios tipicamente concelhios, alguns mantiveram até hoje um típico atributo da arquitetura dos velhos concelhos portugueses, a sineta da Câmara, instalada num pequeno campanário. Este está localizado no topo da empena, no extremo esquerdo da fachada principal do açougue de Garvão. Este tão rústico mas tão bonito campanário de alvenaria (felizmente ainda intacto) mantém, sob densíssimas camadas de cal, dois singelos e muito discretos frisos paralelos no seu topo, que acompanham e coroam o desenho global do mesmo e sublinham o arco que define a ventana do sino.[5]

             Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, tal como no cume de açougues como os de Garvão.[6]

               No Foral Velho de Garvão, de 1267, surgem várias disposições sobre a obrigatoriedade da venda dos produtos no Açougue e os respetivos impostos. Já no Foral Novo de Garvão, de 1510, apenas consta uma menção relacionada com o controle pela saída e entrada dos produtos.

         No Foral Velho encontramos no fólio sete verso as seguintes posturas:

E todas versas, e todas fruytas, que

vendam en açougue ou cabo daçougue,

non fazem ende foro nem uum alrey, nem li da

rem nemigalla poren.

E todas as hortaliças, e todas as frutas, que vendam no açougue ou perto do açougue, não paguem foro nenhum ao rei, nem lhe deem migalha nenhuma.

E paadeyras, e pesca

dores venderem peru quiserem, e non darem

porem nada a nenguu, e se se meten en en coberto

do açougue com sãs vendas paguem o açougue.

E padeiras, e pescadores podem vender onde quiserem, e não darem, porém nada a ninguém, e se se meterem a coberto do açougue com as suas vendas paguem o açougue.

E todo homem, que de fora

parte vem, que non seia vizinho, leve ao açougue toda venda, que

aduser, e o vizino venda u quiser.

E todo homem, que de fora parte vem, que não seja vizinho, leve ao açougue toda a venda que quiser, e o vizinho venda onde quiser.

[1] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII) [Em linha]. Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem

[5] Idem

[6] Idem

O CÉLEBRE "REMEXIDO" e as GUERRILHAS DO ALGARVE











José Joaquim de Sousa Reis mais conhecido por “Remexido”. Célebre guerrilheiro da causa absolutista no Algarve e no extremo sul Alentejano.

Um homem do povo que sustenta uma causa,

empunha uma bandeira e morre de pé, fiel

às suas convicções e ao seu idealismo político.[1]

            A tradição oral, diz-nos que pelas lutas liberais, a Igrejinha de São Pedro, junto à Estrada Real foi refúgio das guerrilhas do Algarve, adeptos da causa absolutista, comandados pelo célebre Remexido. Ainda, segundo a tradição oral, foi nesta igreja que procuravam guarida depois dos ataques perpetuados pelas terras vizinhas, possivelmente beneficiando do apoio de alguns populares, partidários do pretendente absolutista, D. Miguel.

               De facto, segundo Maria de Fátima Sá e Mello Ferreira, no livro “Rebeldes e Insubmissos, Resistências Populares ao Liberalismo” Garvão foi atacado pela guerrilha do “Remexido” várias vezes em 1837 e 1838, nomeadamente em 28 de Abril de 1837 por um bando de guerrilheiros comandados por um dos irmãos Baiôa, João ou Francisco, naturais de Ervidel, que comandavam com uma certa autonomia, em relação ao comando do Remexido, a guerrilha no Alentejo.

                Em Agosto do mesmo ano, Garvão foi novamente atacado, assim como outras vilas em redor, onde os guerrilheiros roubaram os dinheiros públicos e os rendimentos do tabaco. Ainda segundo “Rebeldes e Insubmissos”, os guerrilheiros tinham alguns apoios e simpatizantes em Garvão, pois segundo os relatórios das autoridades da época, estas dão conhecimento das dificuldades em organizar milícias cívicas, na luta contra os guerrilheiros, por falta de apoio e confiança da população.

            Segundo o relato de “Operações contra a Guerrilha Miguelista (1834 – 1844)”, do Arquivo Histórico Militar[2].

1838, Agosto, 14 - Dezembro, 2 - Beja

Correspondência de F. J. Araújo Lacerda para J. A. de Freitas sobre as investidas de uma guerrilha na vila de Garvão, perseguições a guerrilhas, ataques das guerrilhas do Remexido, Rachado, Cabrita e Baiôa, marcha de três colunas do Regimento de Cavalaria 4 para Beringel e Alfundão, partidas dos Regimentos de Cavalaria 1 e 3 em perseguição de guerrilhas e sobre remessa de documentação respeitante a oficiais.

“A GUERRA CIVIL”

             A guerra civil, desencadeada pelos partidários de D. Miguel que defendiam a monarquia absoluta do antigo regime e, os adeptos de D. Pedro IV, pela causa liberal, prolongou-se até praticamente à segunda parte do século XIX.

Apesar de a convenção de Évora Monte em 1834, ter praticamente assegurado a vitória dos Liberais, portanto dos partidários de D. Pedro IV, o país não ficou pacificado. As feridas da guerra civil levaram tempo a sarar, as incompatibilidades entre indivíduos por vezes da mesma família conduziram a perseguições e vinganças de difícil solução.

Nos meios rurais, a miséria e insegurança converteu muitos homens, meros soldados, em desertores, que lutando pela sobrevivência se tornaram em bandoleiros de delito comum, já sem qualquer ideal político.

“O REMEXIDO”

             Esta situação, era particularmente real no extremo sul do Baixo Alentejo e Serra Algarvia, onde se mantinha a guerrilha do Algarve comandada pelo célebre “Remexido”, de nome completo José Joaquim de Sousa Reis, natural de Estômbar, até ao seu aprisionamento na Portela da Corte das Velhas (Santana da Serra), donde foi levado para São Bartolomeu de Messines, onde residia, foi julgado em Faro a 1 de Agosto de 1838 e fuzilado no dia seguinte, também em Faro.

             José Joaquim de Sousa Reis era um antigo oficial das Ordenanças Miguelistas, no Algarve. Depois da Convenção de Évora Monte, que contemplava uma Amnistia aos soldados absolutistas (Miguelistas), que depusessem as armas e se entregassem, optou por se refugiar na Serra Algarvia, depois de verificar o tratamento impiedoso dado pelas forças vitoriosas aos vencidos, onde esteve escondido cerca de 2 anos, antes de ter reiniciado a sua luta de guerrilha contra o estado liberal.

                De facto, o comportamento das forças conectadas com os Liberais em nada obedecia ao espírito de Évora-Monte; os revoltosos foram vítimas das mais diversas crueldades e vinganças, incluindo o filho do próprio “Remexido” que este tinha incitado a render-se, e que só a fuga da prisão, depois deter sido maltratado, evitou o fuzilamento.

             A morte do “Remexido” não significou o fim da guerrilha. Esta continuou por mais uns anos, comandado primeiramente por seu filho, Manuel da Graça Reis e subsequentemente, depois da morte deste no hospital da Misericórdia de Faro em Dezembro de 1839, gravemente ferido e doente, por outros comandantes do Exército do Sul, como os guerrilheiros se autointitulavam.

Manuel da Graça Reis que havia sido ferido no ataque ao Azinhal, foi visto em Vaqueiros, nos montes de Martim Longo e de Almodôvar, a ser transportado pelos seus homens encima de uns sacos de palha, arrastando-se ferido de morte. Essa via sacra terminaria a 10-11-1839, nas imediações da fatídica freguesia do Azinhal, onde, quase moribundo, seria detido e transferido para o Hospital de Faro, acabando por falecer um mês depois.(47) O Padre Marçal José Espada, que se arvorava de ter sido o secretário particular do Remechido e um dos seus mais violentos sicários, foi abatido a tiro, em Dezembro de 1839, na serra do Malhão. E em 1840, junto a Mértola, foram "caçados" os últimos cabecilhas das guerrilhas miguelistas: Alferes Ventura, Silvestre Joaquim Cabrita e Joaquim Nogueira Camacho. Pode-se dizer que a partir desse ano deixou de existir uma oposição armada ao novo regime, sendo considerados literalmente exterminados os bandos de rebeldes que infestavam a serra algarvia.[3]

43 - Francisco Baioa foi abatido a 2-10-1838 no Monte da Fonte das Cânteras, na freguesia de Santa Vitória. E o seu irmão João Baioa foi morto a 27-11-1838, no Monte do Almargem, no distrito de Évora. Arquivo Distrital de Faro, Governo Civil, Registos da Correspondência Expedida em 1838, cota 132, registos n9 1448 e 1449, fls. 375.

44 - Segundo as informações do Administrador de Alcoutim, aquele concelho «havia sido invadido pelo Remexido? filho? e 33 companheiros, todos a cavallo, as povoações de Giões e martim-longo em os dias 27 e 28 deste mez, fazendo destruir as fortificações». Arquivo Distrital de Faro, Governo Civil, Registos da Correspondência Expedida em 1838, cota 132, registos nB 1140, fls. 293vs.

45 - O bando de Manuel da Graça Reis oscilava entre vinte e trinta homens, número esse que é referido pelo Administrador do Concelho de V. R. St® António, quando se reporta ao assalto perpetrado pelas guerrilhas na freguesia do Azinhal em 20-12-1838. Nesse ataque o filho do Remechido foi ferido numa perna e num braço. Provavelmente terá sido em consequência desses ferimentos que viria a sucumbir cerca de um ano depois. Arquivo Distrital de Faro, Governo Civil, Livro da Correspondência com os Ministros, 1838-1839, cota 355-A, registo na 714, fl. 240 v°.

46 - Com grupos de 20 a 40 homens as guerrilhas do Padre Marçal José Espada e de Francisco Nogueira Camacho arrastaram-se pelo Alentejo e o Algarve, fugindo às tropas do governo e realizando os ataques possíveis, como foi exemplo aquele que perpetraram nos Montes do Alvor e no sitio de Boina. Arquivo Distrital de Faro, Governo Civil, Livro da Correspondência com os Ministros, 1838-1839, cota 355-A, registo ns 535, de 3-8-1839.

47 - Arquivo Distrital de Faro, Registos Paroquiais, Livro de Óbitos da freguesia da Sé de Faro, 1839, cota 4-5 2547.[4]

FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Mello. Rebeldes e Insubmissos. Resistências populares ao liberalismo (1834-1844). Porto, 2002

MESQUITA José Carlos Vilhena. O Remechido, glória e morte de um mito. Câmara municipal de Lagoa. 2005

[1] José Carlos Vilhena Mesquita. O Remechido, glória e morte de um mito. Câmara municipal de Lagoa. 2005. P. 12.

[2] Direcção de História e Cultura Militar, Arquivo Histórico Militar. Operações contra a Guerrilha Miguelista (1834 – 1844), Inventário de documentos, 1ª Divisão, 21ª Secção. Lisboa, 2007. P. 9.

[3] Idem. P. 22.

[4] Idem. P. 27/28.

LUTAS LIBERAIS Garvão na rota do Duque de Terceira

Pela guerra civil Portuguesa que opôs Liberais e absolutistas.

Mapa do trajecto das forças Liberais comandadas pelo Duque de Terceira, Garvão em 15 e 16 de Julho de 1833.

(In História de Portugal, volume III, de A.H. de Oliveira Marques).

          Com a promulgação a Carta Constitucional em 1826, não tardou em o conde de Vila Flor, (mais tarde Duque de Terceira), nomeado governador das armas da província do Alentejo, a ver-se obrigado a reprimir algumas insurreições militares que se levantaram no Alentejo a favor do absolutismo, o mesmo se passava no Algarve onde as guarnições militares se agitavam no mesmo sentido.

           Com o regresso de D. Miguel a Portugal em Fevereiro de 1828, D. Miguel jura novamente a Carta Constitucional. Porém, depressa, trai o compromisso assumido com os liberais, dissolve as Câmaras e convoca as cortes à maneira antiga onde é proclamado, pelos três estados do reino, rei absoluto.

           A reação liberal e anti-miguelista depressa é abafada, com a fuga de milhares de liberais para o estrangeiro e os que ficam são alvo do terror miguelista; muitas são sumariamente executadas outras são presas ou degredadas.

            Estando o governo e o país na posse dos Miguelistas, restava aos liberais os Açores, que Vila Flor, tinha vindo paulatinamente a conquistar e a cidade do Porto, cercado e sobre forte pressão das forças absolutistas.

            A 8 de Novembro de 1832, D, Pedro promoveu o Conde de Vila Flor a Duque da Terceira.

            As forças liberais sentiam-se impotentes para romper o cerco à cidade do Porto. Para desbloquear este impasse propôs-se uma expedição ao Algarve, sendo escolhido para seu comandante o agora Duque da Terceira. A expedição saiu do Porto a 21 de junho de 1833 e a 24 desembarcava numa praia entre Cacela e Monte Gordo.

          Enquanto as forças Miguelistas, comandadas pelo General Molelos, corriam para defender a cidade de Beja, julgando este ser este o objectivo do Duque de Terceira antes de se dirigir para a conquista de Lisboa, marchava o Duque da Terceira, a 13 de julho, animado pela recente vitória naval do Cabo de S. Vicente, de S. Bartolomeu de Messines para S. Marcos da Serra, a 14 saía dos limites do Algarve e entrava no Alentejo, chegava dia 15 de Julho de 1833, a Garvão, onde descansou e no dia 17 estava em Messejana.

           O Caminho seguido pelo exército liberal terá seguido pela antiga Estrada Real do Algarve, um dos caminhos mais rápidos para chegar a Lisboa, sobre a estadia em Garvão, ainda nos anos sessenta do século passado se falava na presença de militares na Quinta da Estação de Garvão.

          Segundo os relatos oficias das movimentações militares:

No campo de Gravão [Garvão] me foi confirmada a noticia dos acontecimentos de Béja, sabendo que o Visconde de Mollelos instruido em Messejana da revolta daquella Cidade contra o governo intruso, e da pequena força que alli se achava, marchára sobre Beja, que a referida pequena força evacuou á primeira noticia da sua marcha , e occupava aquella Cidade, onde as suas tropas tinhão cometido os maiores horrores, e onde se lhe devião unir alguns reforços avultados. [1]

No mesmo dia 3 de Julho vim no conhecimento de que o General Mollelos se tinha retirado por S. Martinho das Amoreiras até Gravão, onde convergem as estradas, que vem do Algarve por Almodovar e Ourique, e por Santa Clara, a ultima das quaes o  inimigo  tinha  devastado  na  sua  passagem  com  huma  barbaridade verdadeiramente atroz. [2]

No dia 7 de Julho, estando efectivamente prompta a maior parte dos meus meios, e dispondo-me eu definitivamente a penetrar no Além-Téjo pela estrada de Almodovar por me constar que o inimigo tinha as suas forças em Messejana, Gravão e Castro Verde, recebi a noticia da completa derrota, e captura da Esquadra rebelde pela Esquadra de Sua Magestade.[3]

No dia 13 marchei de S. Bartholomeu sobre S. Marcos, em 14 estabeleci o Campo junto a Santa Clara, o em 15 junto a Gravão, onde fez alto a Divisão por todo o dia 16 para reunir a artilheria de Campanha e os foguetes que vinhão huma marcha na retaguarda.[4]

Marchámos sobre Garvão, sem encontrar o inimigo, porque nos não esperava em posição alguma. Alli cahiram doentes muitos soldados e officiaes, entre estes meu cunhado D. Manuel da Camara, com umas sezões terríveis que davam grande cuidado ao facultativo. O General mandou-o conduzir para Odemira por uma guerrilha, com grande risco de ser aprisionado.

Continuámos a marcha sobre Messejana e chegámos alli de tarde, encontrando uma força inimiga que estava em observação do nosso movimento.[5]

[1] In: Resumo Official das Operações da Expedição as Ordens do Excellentissimo Duque da Terceira, desde o seu desembarque no Algarve, até á sua definitiva entrada em Lisboa

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem.

[5] In: Memórias: Expedição do Algarve, Junho e Julho de 1833 (capitão Marquês de Fronteira)

 Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...