terça-feira, 19 de janeiro de 2021

NEGOCIANTE DE MINDE











Faleceu em Garvão em 15 de Setembro de 1922.

          Estela funerária encontrada no Cemitério Velho e carregada para o Cemitério Novo, inaugurado em 1937, (data do primeiro enterramento), de um negociante de Minde, (Concelho de Alcanena, distrito de Santarém), falecido nesta terra em 15 de Setembro de 1922.


FALESEU – AQUI

MANOEL – ESTE

VÃES – MENGAS

DE MINDE

NEGOSIANTE

DE 66 ANOS

DE IDADE

NASCIDU EM

13 DE – 4 D.1856

E FALESIDO EM

15 DO 9 1922


          Mais do que um mercador que corre as feiras e os mercados de uma certa região a vender os seus produtos, e certamente diferente dos comerciantes estabelecidos por conta própria, geralmente com loja ou venda nas vilas e aldeias. A figura do negociante mostra-se não só diferente destes, mas igualmente da tradicional configuração social da Idade Média, guerreiros, lavradores e religiosos.

          A atividade do comércio expansivo exigia um tipo social diverso desta tríade, característica do sistema feudal, presa aos vínculos familiares, de estirpe e linhagem da nobreza.

          Se ao mercador o objetivo seria vender os produtos que transportava para os comercializar nos vários lugares por onde assentava arraial, já o negociante procurava comprar ou vender, geralmente em grandes quantidades, os produtos produzidos numa certa região para vender noutra.

          Sobre este negociante de Minde e o tipo de produtos que procuraria negociar, chega-nos registos de que trabalhavam nesta povoação nos princípios do século XX, várias empresas de fiação e lanifícios, entendendo-se que estaria igualmente ligado a esta atividade e procuraria na região de Garvão, ou os produtos, essencialmente gado lanígero, necessários a serem trabalhados pelas empresas da sua região, ou já os produtos fabricados como mantas, panos, buréis e estamenhas de lã.

          A flora na região de Minde propicia o pastoreio de animais de pequeno porte e pouco exigente como a ovelha. Para além do cuidado com os animais e venda das crias, também as mantas e outros produtos provenientes dos animais que tosquiavam, lavavam, cardavam, fiavam e teciam, começaram a ser vendidas noutras parte, principalmente no Sul do país.

           Dos produtos fabricados em Minde há a realçar a:

          – “manta preta” – usa a lã nas suas cores naturais (castanha e branca). O pastor protegia-se com ela do frio e da chuva;

          – “manta parda” – surge com cores vivas, em barras, nas pontas. Apesar da escassez e das limitações na utilização da água, nos anos 30 do séc. XX surgiu em Minde a 1ª tinturaria e com ela, estas novas possibilidades;

          – “manta sombreada” – é toda com riscas de 6 tonalidades diferentes e progressivas de verde, castanho e laranja;

          – “manta janota” – uns anos depois, aparece a janota, de cores fortes nas suas composições muito trabalhadas.

          O apogeu no número de teares e na produção atingiu-se nos anos 50 do século XX, mas, nos anos setenta, os teares foram desaparecendo: uns foram abandonados, outros estragaram-se, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha, poucos se salvaram. Destes, aproveitaram-se algumas peças e outros apetrechos complementares para a montagem do actual centro de tecelagem. Aqui alia-se a tradição e a memória com a contemporaneidade*. Na manufatura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção.


*Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

APOIO ÀS ACTIVIDADES EDITORIAIS












Cartaz da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita. Cartaxo

Um exemplo a seguir

            Várias Câmaras Municipais, de Norte a Sul do país, reconhecem a importância de que se reveste a atividade editorial, entendida como veículo de divulgação e promoção de autores emergentes e de edições de autor, que contribuam para a vivificação cultural no concelho e para a diversificação da sua oferta literária.

            Incentivam assim um regime de apoio à atividade editorial através do qual procuram encorajar a criação literária e artística e/ou educativa e viabilizar o aparecimento e afirmação de novos autores, transversalmente a várias faixas etárias, experiências de vida e áreas diversificadas, como seja a área educativa, cultural, desportiva, social, ambiente e multidisciplinar inclusivamente a área patrimonial, em particular na área do património imaterial local e regional.

            Pretendem ainda apoiar a área de empreendedorismo cultural de capacidade criativa, a área da deficiência, do multiculturalismo e integração, bem como a área adstrita ao género e igualdade de oportunidades ou questões sociais emergentes da contemporaneidade.

            Nos termos e condições desses apoios, têm prioridade a edição de obras que contribuam para o conhecimento do respectivo concelho, na área da história, antropologia, cultura local, obras literárias em verso ou em prosa, de autores emergentes, de reconhecido valor científico, literário ou cultural, designadamente:

            - A edição de livros ou publicações de autores nascidos ou residentes no concelho;

            - A edição de livros ou publicações por entidades particulares e instituições legalmente constituídas com sede no concelho;

            - A edição de livros ou publicações de autores e entidades ou instituições exteriores ao concelho, mas que tenham manifesto interesse, direto e excecional para o concelho.

            - Poderão ser apoiadas obras mistas que prevejam a integração fotográfica, fonográfica e/ou videográfica, em CD/DVD.

            - Os apoios previstos são também aplicáveis a teses de mestrado ou doutoramento.

            -  Os apoios a projetos de edição consistirão na garantia, com base numa deliberação de câmara, de aquisição, ao preço de capa, de um número de exemplares, ou de um apoio monetário direto, num máximo anual a definir no orçamento municipal, considerando a totalidade das edições a apoiar.

            Observamos assim uma série de regulamentos municipais, de vários municípios de Norte a Sul do país, onde se procura incrementar, não só as produções literárias dos seus habitantes, mas inclusivamente contribuir para a divulgação cultural e promoção do próprio concelho.

sábado, 21 de novembro de 2020

O ARMÁRIO DA DISCÓRDIA




                   


                   





Pela reordenação dos concelhos no século XIX que levou à extinção de uma boa parte dos concelhos portugueses, incluindo o de Garvão, várias foram as formas encontradas pelas populações locais, prejudicadas com tal reordenamento, de mostrarem o seu descontentamento, desde as formas mais violentas de revolta armada, (nomeadamente a “Janeirinha”, revolta popular ocorrida em Janeiro de 1868, na cidade do Porto, contra o novo imposto sobre o consumo e a extinção de mais de cem municípios), às manifestações mais pacíficas, como a que se observou em Garvão.

                   Aquilo a que se assistiu em Garvão, poderá ser, de uma certa maneira idêntico ao que aconteceu na maioria dos concelhos extintos, uma resistência em colaborar com a nova sede do município, raiando a sabotagem e o boicote, como forma de mostrar o seu descontentamento e frustrar as intenções dos novos poderes.

             Assim foram subtraídas aos novos poderes os instrumentos que caracterizavam o município, nomeadamente os objetos amovíveis. Se ficaram para a história os Paços do Concelho com o Sino e a Cadeia e o edifício do Açougue, outros objetos de fácil remoção, foram subtraídos aos novos poderes e transportados para lugar seguro.

                   Destes objetos chegou praticamente aos nossos dias a Arca Concelhio e um Armário.

               Com as obras de restauro na Igreja Matriz, Nossa Senhora da Assumpção, em 1995, vários foram os bens despejados, cuja presença estorvava e reduzia o espaço reservado ao culto, entre eles, um pequeno altar em madeira onde se encontrava várias pautas de música antigas e um armário com portas de correr em vidro que se recolheram para outro lugar.

                   O altar e as pautas musicais perderam-se, infelizmente, com as cheias que assolaram a vila em 1996.

                   O armário teve melhor sorte, resguardado noutro local para restauro, salvou-se de um fim menos trágico, contudo nada fazia prever a antiguidade desta peça de mobília, ou a história a ele associado e muito menos que tal façanha ainda persistisse na memória popular.

                   Segundo um dos últimos Regedores da Freguesia, este armário terá sido uma das Alfayas negadas pela vereação da Câmara de Garvão em extinção e intimadas a entregar, juntamente com os livros de contas ao Concelho de Ourique, onde Garvão e Santa Luzia passariam a integrar como duas freguesias distintas.

                   Para este antigo Regedor, Francisco Zacarias, este teria sido o armário da discórdia, segundo as suas próprias palavras, teria sido levado para a Igreja pelos vereadores da extinta Câmara para o salvarem e por lá se manteve até à realização das mencionadas obras.

                   A Arca Concelhia e o seu conteúdo, são outra história, depois de salva da fogueira, já ateada para queimar tão valioso espólio em 1985, acabou irremediavelmente por ser mandada para o lixo, juntamente com todo o seu conteúdo, pelo executivo da freguesia durante o mandato de 2005 a 2009. Voltaremos a este assunto noutro post, devido à gravidade de que se reveste a ignorância, a incúria, o desmazelo, senão mesmo o roubo e a falta de sensibilidade para o património desta freguesia e salvaguarda destes documentos tao importantes para a história da vila de Garvão.

sábado, 24 de outubro de 2020

DANÇA DOS GUIZOS E DAS ESPADAS I

     Quando o Jornal de Garvão, em Agosto de 1996, noticiou o conhecimento que algumas pessoas da terra com idades aproximadas aos oitenta e cinco anos por essa altura, tinham de um tipo de dança, empregando guizos, cascavéis e espadas, que se realizava tanto em Garvão como nas aldeias e vilas do interior alentejano, não se imaginava que de facto esse tipo de dança estivesse tão enraizado e popularizado na tradição popular portuguesa com estava.

     Chegando até nós unicamente o conhecimento da “Dança das voltas”, “Dança dos Arquinhos” e a “Dança das Fitas” ou “do Mastro”, realizada nesta parte do Alentejo e em várias populações até aos anos sessenta do século passado, tendo a Associação de Defesa do Património de Garvão as recuperado trinta anos depois.

     O guizo, comummente designado por cascavel, na documentação dos séculos XVI e XVII, de utilidade pastorícia e pecuária em geral, aparece-nos, nestas manifestações lúdicas, associado à folia e ao divertimento, estando nessa época intrinsecamente associados à festa e à dança.

     A bibliografia e a iconografia estudada, maioritariamente dos mencionados séculos, revelam frequentemente conjuntos de guizos rodeando as pernas e os pulsos de bailarinos, mas também a mostra apensos ao vestuário e aos chapéus de foliões, como atributo de bobos e chocarreiros de Corte, ou ainda na decoração de flâmulas que esvoaçam ao vento. A subtileza das expressões faciais e delicados gestos de mãos, aliados a rápidos movimentos de pernas e pés, ao som de guizos presos aos tornozelos, são alguns dos aspectos que caracterizam esta dança.

     Esta pequena esfera metálica, de aparência modesta e rústica, aparece em inúmeras situações festivas de todos os géneros e níveis sociais, podendo em certos casos ascender à dignidade de ser fabricada em ouro ou prata. Os guizos são eles próprios instrumento musical ou parte dele, referidos nos tratados por conceituados autores.

     A referência mais interessante que se encontra, prende-se com a menção, tanto à dança das espadas como aos chocalhos e “bozinas”, por Luís de Camões em pleno século XVI:


 “Mas em breves palavras direi a Vossas Mercês a suma da obra: ela é toda de rir, do cabo até a ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzelas que vão fugidas de casa de seus pais, e vão com cabazes apanhar azeitona; e trás elas vêm logo oito mundanos, metidos em um covão, cantando: Quem os amores tem em Sintra; i despois de cantarem farão ua dança de espadas, cousa muito pera ver. Entra mais El-Rei D. Sancho, bailando os machatins, e entra logo Caterina Real com uns poucos de parvos nua joeira; e semeá-los-à pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o auto, com música de chocalho e bozinas, que Cupido vem dar a ua alfèoleira a quem quer bem; e ir-se-ão Vossas Mercês cada um pera suas pousadas, ou consoarão cá connosco disso que aí houver.”


     Sobre a “dança de espadas”, Camões dá-nos pormenores interessantes, nomeadamente, indica-nos o número de dançarinos; oito homens.

     Nada nos indica, contudo, sobre se era acompanhada por algum instrumento musical ou se era cantada pelos próprios dançarinos.

     Deduz-se igualmente que embora tanto a “Dança das Espadas” como a “Dança dos Guizos” esteja associado às danças guerreiras em várias culturas da Europa, (já Tácito a menciona em “De Germania” no primeiro século desta era), não deixava contudo de ser exibida noutros cenários menos cerimoniosos, religiosos e ritualistas até, e mais como função de divertimento.

     Já António Maria Mourinho no seu “Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas”, menciona a ancestralidade destas danças no contexto peninsular, acrescentando que, “As danças de Espadas e de paus (paulitos), são geralmente executadas por homens, tendo a própria igreja permitindo-as nas suas solenidades”.

FOTO ANTIGA da DANÇA








Caros conterrâneos, visitantes, amigos e interessados.

Quem é que tem uma foto da dança, com melhor qualidade da ilustrada?

Ou, já agora, outras fotos da dança ou sobre a vila e outros acontecimentos.

Agradeço que enviem para: jpmg6767@gmail.com

Desde já, os devidos agradecimentos





 

sábado, 3 de outubro de 2020

FORAL NOVO de GARVÃO


FORAL NOVO de  GARVÃO - 1512

Pela emissão do Foral-Novo de Garvão, em 1 de Julho de 1512, o rei D. Manuel I reformou o Foral-Velho desta vila, outorgado em Fevereiro de 1267.

Com a reforma dos forais-velhos, o rei D. Manuel procurava acabar com os particularismos locais e uniformizar estes documentos fundacionais da maioria dos concelhos portugueses, tanto em termos de lei geral para com o reino, como na atualização dos impostos e contribuições a suportar pelos concelhos.

Os Forais-Velhos foram outorgados numa altura de reconquista territorial aos Muçulmanos e, de consolidação do reino. Eram cartas de garantia e deveres outorgadas entre as comunidades e o rei, ou por entidades autorizadas para tal.

A reforma manuelina dos Forais ou Forais de leitura nova, se por um lado não deixa de ser um longo processo de reivindicação municipal iniciado durante o reinado dos seus antecessores, por outro, com a redação dos forais novos, D. Manuel reforçou o poder régio, ao submeter à coroa e à lei geral do reino, a maior parte das matérias administrativas concelhias, que anteriormente estavam previstas nos Forais-Velhos.

Igualmente, para um efetivo cumprimento das obrigações foraleiras e modernização das instituições do país, D. Manuel promulga legislação no sentido de uma unificação dos dinheiros, pesos e medidas até aí desigual e variável entre os vários lugares do reino.

 

Ficha Técnica

Autor José Pereira Malveiro
Título FORAL NOVO de GARVÃO
Data da Publicação Outubro de 2020
ISBN 978-989-20-2929-0
Depósito Legal 340830/12
Idioma Português
Formato  21 cm X 24 cm
Tipo de encadernação      Capa mole - colado
N.º de páginas 184 - Cores

 



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