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Garvão, antigo concelho medieval, extinto em 1836, é uma vila situada no interior baixo alentejano, relativamente perto da raia algarvia, era uma terra de jurisdição da Ordem de Santiago, tendo-lhe sido outorgado Carta de Foral, do mesmo tipo de Ávila/Évora, no reinado de D. Afonso III, em Fevereiro de 1267. A 1 de Julho de 1512, El-Rei D. Manuel I, reforma o Foral-Velho, concedendo-lhe o Foral Novo, onde cerceia grande parte da autonomia concelhia e reforça o centralismo político e o poder régio.
A feira de Garvão, realizava-se, tradicionalmente, a 9 e 10 de Maio de cada ano (atualmente, no fim de semana mais próximo desta data). Feira tipicamente rural, nela afluíam mercadores, artesãos, almocreves e feirantes em geral, das mais diversas proveniências, incluindo Lisboa e Algarve, que chegavam à feira nas mais variadas formas: caminhando ou em transportes, incluindo a carroça, dorso de animais e, mais recentemente, de carro ou de comboio, estabelecendo um intercâmbio que ultrapassava em muito o comercial.
Sobre a antiguidade da Feira de garvão e a falta de menção no rol das Cartas de Feira atribuídas pelos primeiros reis de Portugal e das quais a historiadora Virgínia Rau na sua obra Feiras Medievais Portuguesas descreve, não implica que esta não existisse desde os tempos mais remotos e leva-nos, inclusivamente, a ponderar sobre o inicio desta feira num período anterior à fundação da nacionalidade.
De facto, não seria um ato genesíaco ou um documento jurídico que iria criar um facto consolidado, segundo Maria Helena da Cruz Coelho, não seria a Carta de Feira, franca ou não, que iria instituir a feira nas povoações onde esta já existia.
Na realidade tais cartas, no geral, apenas instituíam “de lure”, situações que já existiam de facto. E em certos casos a realidade vivida nunca teria sentido necessidade desse complemento de legalidade. [1]
Em 1282, no reinado de D. Dinis, surge a menção um documento que nos elucida sobre a existência da feira de Garvão desde tempos mais recuados.
Segundo Alberto Iria. O Algarve nas Cortes Medievais Portuguesas do Século XIV (Subsídios para a sua História). Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1982:
Acontecera que, quando el-Rei D. Dinis esteve pela primeira vez no Algarve, em Silves, em 1282,[2] o Monarca firmou ali, a pedido e no interesse dos moradores do Algarve, um diploma da maior importância e que, infelizmente, parece não ter chegado até nós, relativo à cobrança do tributo da portagem pelos alcaides, meirinhos e porteiros dos lugares da Ordem de Santiago «e de todo o campo d´ourique...».[3]
Ainda segundo Alberto Iria:
Tal abuso verificava-se também em Garvão - outro importante lugar do Baixo-Alentejo, frequentado pelos mercadores algarvios da época onde aliás o referido pagamento «nunca foy costume de se levar...», (...)
Determinou então o Monarca, no diploma em análise, dirigido a Estevão Domingues Falporrinho, a observância pura e simples do disposto na invocada carta del-Rei D. Dinis, dada em Silves, em 1282, como agora parece poder afirmar-se[4].
Nas Cortes Régias de 1398, na cidade do Porto, os procuradores do concelho de Silves, com base na carta dada em 1282, pelo rei D. Dinis em Silves, devido ao abuso do tributo da portagem pelos alcaides, meirinhos e porteiros dos lugares da Ordem de Santiago «e de todo o campo dourique...», solicitaram a D. João I, que pusesse cobro ao recente abuso verificado, onde os moradores do Algarve eram obrigados a pagar indevidamente duas portagens, a «da yda» e a «da tornada...».[5]
Dom Joham pella graça de deus Rey de Portugal e do Algarve A uos Stevem dominguez falporrinho do campo dourique (...) fazia saber a todollos alcaides, meirinhos, e porteiros ara terra da de Santiago e de todo o campo dourique que os moradores do dicto regno do algarve lhe diserom que eles lhe tomavam portagens Nos logares honde nom era custume de as tomarem (...) e em garuam hu nunca foy custume de se levar agora de pouco tenpo aaca (...) E que outrosy nom pagassem portagem em o dicto logo de garuam pois nunca fora custume de a pagarem. (...) Gonçalo annes a fez Era de mjl e iiij e trinta e seis anos – Rodericus Johanis. [6]
(Garvão e garuam a negrito sublinhado pelo autor)
[1] COELHO, Maria Helena da Cruz. As feiras em tempos medievais. In: “vectores de desenvolvimento económico. As feiras da Idade Média à Época Contemporânea. Actas do 3º Encontro de História”, 2005, Vila do Conde, Câmara Municipal, p. 13.
[2] (Nota 81) iria, Alberto. Da importância Geo-Politica do Algarve, na defesa marítima de Portugal, nos séculos XV a XVIII. Lisboa, 1976, p. 10.
[3] Iria, Alberto. O Algarve nas Cortes Medievais Portuguesas do Século XIV (Subsídios para a sua História). Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1982. Pág. 75.
[4] Idem, pág. 76/77. (Nota 82) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Cortes, Suplemento, Maço 4, pergaminho n° 25.
[5] Idem, pág. 76.
[6] Idem, pág. 112/113/114.
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Título |
LIVRO da FEIRA MEDIEVAL de GARVÃO |
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Autor |
José Pereira Malveiro |
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ISBN |
9789403855462 |
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Depósito Legal |
558105/25 |
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Data da Publicação Idioma Formato |
2025 Português 20 cm X 20 cm |
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Tipo de encadernação |
Capa mole - Colado |
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Nº de páginas |
201 - Cores |
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PREÇO |
20€
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Dando continuidade a trinta e dois anos a divulgar a Vila de Garvão, a sua História, a sua Cultura, o seu Património e as suas Gentes, saiu mais um Jornal de Garvão.
- Embora a edição em papel esteja limitada aos pedidos e não se promova a sua venda, a divulgação on-line é baixada cerca de 800 vezes por cada edição.
- O Jornal de Garvão nº 30, sobre os 50 anos do 25 de Abril e sobre os presos políticos de Garvão durante a ditadura, foi baixada 3.756 vezes até esta data.
- O Blog “Jornal de Garvão” teve no último ano (01/12/2024 a 01/12/2025), 5.093 visitas e 6.699 visualizações, o que corresponde a 14 visitas e 19 visualizações diárias.
ÍNDICE:
Jornal de Garvão nº 34 – Natal 2025.
Pág. 2- Editorial Envelhecimento e Desertificação
Pág. 2- Tesouros Ibéricos - Como Portugal e Espanha investem na preservação da memória Coletiva.
Pág. 3- Saúde em Ruptura e Comércio a Desaparecer – O Retrato de um Interior Ignorado- Por Mariana Alexandre.
Pág. 4 - FEIRA DE GARVÃO, Menção de 1282.
Pág. 5 – Eleições Autárquicas Outubro 2025
Pág. 5 – Bruno da Encarnação. Presidente da Junta de Freguesia de Garvão
Pág. 5 – Cláudia Gonçalves. Presidente e novos membros da Assembleia de Freguesia de Garvão.
Pág. 6 – Em Conversa com Ana Catarina. Secretária da Junta de Freguesia de Garvão.
Pág. 7 – Em conversa com Mário Loures. Tesoureiro da Junta de Freguesia de Garvão.
Pág. 7 - ANTIGOS COMBATENTES DO ULTRAMAR Almoço-Convívio em Garvão
Pág. 8 - Livro “SUL E SUESTE” Uma Nova Leitura.
Pág. 9 - Apresentação do livro “SUL E SUESTE”, na Associação Sénior Castrense.
Pág. 10/11 – Dr. Marcelo Guerreiro, reeleito Presidente da Câmara Municipal de Ourique.
Pág. 12 - CANTE A DESPIQUE - Património Único do Sudoeste Alentejano.
Pág. 13 - Lagar de Cera em Garvão.
Pág. 14 - Carreira “BELO” O Condutor Eduardo e o Revisor Eugénio.
Pág. 15 - AUGUSTO GUERREIRO MESTRE, natural de Ourique. Herói nas campanhas de África, na captura do Régulo Gungunhana.
Pág. 16 - DESASTRE DO RÁPIDO DO ALGARVE EM 13/9/1954, Joaquim de Jesus Severino, natural de Garvão.
Pág. 17 - RECORDANDO FLORBELA ESPANCA, Poetisa Alentejana.
Pág. 18 - FAMÍLIAS COM HISTÓRIA, Família Vargas (Em Garvão).
Pág. 18 - FOTO DOS ALUNOS da Escola Primária - Garvão – 1954.
Pág. 19 - FOTO DA PONTE DA ESTAÇÃO DE GARVÃO, Antes da construção dos passeios laterais em 1937.
Pág. 19 - CULINÁRIA por Filomena Franco.
Pág. 19 - A TRADIÇÃO DE PEDIR OS BOLINHOS.
Pág. 20 - MAGUSTO de São Martinho.
Pág. 20 – Obras da Extensão de Saúde de Garvão.
Pág. 20 – Cadernos Culturais de Ourique.
Representação da Dança das Espadas
Em 2003 escreveu-se no livro Garvão - Herança Histórica, no seguimento da ida da Dança de Garvão ao lar de Ourique em 1995 e segundo informação do nosso conterrâneo Francisco Charrua, só os idosos com mais de 85 anos em 1995 se lembravam da Dança das Espadas e da Dança dos Guizos ser dançada na vila de Garvão.
Agora em 2020, dezassete anos depois de passado à escrita essa informação, infelizmente os autores dos testemunhos recolhidos em 1995 já não se encontram entre nós, contudo surge-nos agora um novo testemunho deste tipo de danças que se faziam nesta zona, mais concretamente em Castro Verde.
Trata-se do Sr. Manuel Pancadas Gonçalves, com sessenta e nove anos, nasceu em 1951, relatou que por volta dos anos sessenta do século XX, o seu tio António foi um dos últimos organizadores destas danças, onde ele e os irmãos, Francisco Gonçalves, conhecido como o chinês e o Posidónio Gonçalves também faziam parte da dança.
Para além da Dança das Espadas, dançavam também a Dança dos Arquinhos e a do Mastro das Fitas, estas danças incluindo a das Espadas eram cantadas. Corriam as terras e aldeias em redor, Ourique, Almodôvar entre outras pelo carnaval e recebiam o que as pessoas lhes queriam oferecer, dinheiro, comedias e outros bens.
A Dança das Espadas era feita com uns paus a imitar espadas e a baterem uns nos outros, começavam em roda e depois faziam duas filas e cruzavam uns com os outros, rodopiavam e dançavam em volta, sempre batendo nos paus/espadas uns nos outros. Havia homens e outros homens trajados de mulher na Dança dos Arquinhos e do Pau das Fitas, contudo na Dança das Espadas e dos Guizos os elementos masculinos trajados de mulher não entravam, eram executadas só por dançarinos trajados de homens.
A Dança dos Guizos, como se relatou no mencionado livro, era executada com as coleiras dos animais cobertas de guizos, cascavéis, campainhas ou pequenos chocalhos, previamente recolhidos nas arramadas onde se guardava os animais, e enroladas em torno do corpo e das pernas, cujo som, sintonizado entre os dançarinos, dava o tom musical à respetiva dança.
A Dança dos Arquinhos era única cantada, as outras, das Voltas e do Pau das Fitas, eram executadas ao som da flauta nos finais dos anos de 1950 e princípios de 1960 e em anos mais recuados e incluindo a Dança das Espadas e dos Guizos, ao som da rebeca, tambor e outros instrumentos tradicionais, incluindo a viola tradicional alentejana de arame, hoje conhecida por viola campaniça.
Letra A corresponde ao traçado projectado da estrada.
Letra B corresponde ao traçado actual, alterado por força da intervenção arqueológica.
A vermelho **** local de maior concentração de vestígios.
Relatório dos Trabalhos arqueológicos na Villa dos Franciscos em Garvão.
Escavação (1981)
Síntese dos Trabalhos
Objetivo:
Sondar uma vasta área (cerca de 3 hectares), com a finalidade de justificar a alteração do traçado de uma via, para o mesmo local projectada.
Efectuar todos os trabalhos arqueológicos possíveis, no intuito de delimitar a área da estação e a respectiva potência arqueológica da villa. Os trabalhos foram motivados pela construção de uma estrada que ligará Garvão à Aldeia das Amoreiras
Resultado:
Efectuou-se uma prospecção intensiva da área em causa e sequente levantamento topográfico; sondagem superficial nas áreas mais periféricas, efectuada por uma retro-escavadora, trabalho que permitiu delimitar a zona arqueológica e avaliar potencialidades estratigráficas; sondagens onde se revelou a existência de duas salas contíguas, pavimentadas a opus signinum[1], bem como parte de um tanque com 4 degraus de acesso. No estremo Norte abriu-se uma sondagem que revelou a existência de muros em pedra, e material muito escasso.
Teve a intervenção dos arqueólogos:
Caetano Maria de Mello Beirão
José Olívio da Silva Caeiro
Mário Varela Gomes
Rosa Varela Gomes
Como resultado desta intervenção na herdade dos Franciscos, (parte da herdade do Arzil), forçou a alteração do traçado original da estrada projectada, devido à importância dos vestígios arqueológicos descobertos.
Posteriormente, em 1984, os arqueólogos Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes relatam o “Estudo da estela proveniente da villa”: Estela epigrafada de cariz funerário, a qual foi atribuída ao Século II d.C. ou mesmo aos inícios do século III d.C..
A estela enquadra-se no tipo de lápides encontradas no sudoeste alentejano, mantém, contudo, estreitas ligações com a epigrafia do Noroeste, sobretudo no plano onomástico, para o qual os autores encontraram sobretudo paralelos no Conventus Bracarensis.
Segundo os autores tratou-se de um achado avulso, não se podendo saber se teria sido reaproveitado ou pelo contrário faria parte da necrópole da dita villa. A leitura da epigrafe é a seguinte: LADRONV S / DOVAI BRA CA RVS CASTEL LO/ DVRBEDE H IC/ SITVS ES T A N NO/ RV M XXX / S T T L
O conhecimento da importância em termos arqueológicos desta zona, já era do conhecimento das entidades competentes, pois já em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos[2], menciona um busto em mármore, possivelmente de Agripina Menor, descoberto nos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.
[1] Opus signinum é um material de construção usado na Roma Antiga e nas diversas urbes do império. É uma forma de cimento romano que utiliza cerâmica quebrada, verificando-se que reduzido a pó e temperado com cal, torna-se mais sólido e durável. A sua principal vantagem sobre outras substâncias de natureza semelhante era a sua impermeabilidade, razão da sua utilização generalizada em residências particulares e também em edifícios públicos, nomeadamente na confeção de calçadas das casas e na construção de banhos romanos, aquedutos, cisternas e quaisquer edifícios que envolvam água.
O uso do termo signine faz referência a Signia (moderna Segni), a cidade do Lácio famosa pelos seus azulejos. Contudo a técnica, provavelmente terá sido inventada pelos fenícios, está documentada no início do século VII. AC em Tell el-Burak (Líbano) e depois nas colônias fenícias no Norte da África.
[2] José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo, nasceu a 7 de julho de 1858, conhecido simplesmente como Leite de Vasconcelos, foi um etnógrafo, arqueólogo e autor prolífico português que escreveu extensivamente sobre a filologia e a pré-história portuguesas. Foi o fundador e o primeiro diretor do Museu Nacional de Arqueologia Português.
Jornal de Garvão nº 35 - Páscoa 2026 JORNAL de GARVÃO Nº 35 - Páscoa 2026 2- Editorial 2- Encontro de Gerações 3- Municipando – Dr. Marcelo...